Blog

  • Por Acaso?

    Por Acaso?

    [videoembed url=”https://youtu.be/U8_oaicCTic”]Setembro de 2014. Meus sobrinhos decoravam uma das paredes de meu porão/escritório. O mais novo, Luizinho, desenhou a logomarca do flit. Ele tinha quase três anos. Seu pai, Guz, deu o tapa final. flit não é sigla nem tem nenhum significado especial… ainda. Mas pode ser traduzido como um voo rápido e rasante ou um movimento leve. De uma forma ou de outra, tem tudo a ver com o piu-piu elaborado pelo moleque. Viva o acaso.

  • O Pensamento Sistêmico

    O Pensamento Sistêmico

    Alinhar nosso jeito de pensar com a forma como o mundo realmente funciona. Essa é a motivação pra gente aprender a Pensar Sistemicamente. Mas quem disse que nossos pensamentos não batem com a realidade? Por que eles estariam desalinhados? E o que pode haver de tão diferente nesse tal Pensamento Sistêmico?

    Antigas Lentes Desfocadas

    Quebre o problema em partes menores, gerenciáveis e mais fáceis de resolver.
    Ache a causa desse (d)efeito. No caminho, aponte possíveis culpados.
    Deixe o processo bem azeitado, funcionando como um relógio suíço.

    Reducionismo, determinismo e mecanicismo – são os nomes dos três comandos acima, respectivamente. Representam uma forma de enxergar o mundo que vem de longe: da Renascença, de Descartes e Newton. São produto de uma época gloriosa, na qual o homem aumentou sua autonomia criando máquinas e mostrando a força do intelecto.

    Essa Era das Máquinas, que nos tirou da lavoura arcaica para nos jogar em plantações de arranha-céus, prescreveu – está vencida. Mas ainda predomina. Vide os currículos escolares e as disciplinas que não se comunicam. Veja os processos de planejamento que seguem lógicas lineares e ignoram o acaso. Lembre-se de quantas vezes viu uma máquina sendo usada como metáfora para algum sistema sociocultural (negócio, escola, time de futebol). Nossos problemas gritam por um enfoque diferente, por outro modo de pensar.

    Sempre que esse papo é colocado alguém acha que está sendo proposto o esquecimento de tudo o que aprendemos até agora. Triste engano. Fruto dessa forma de ver o mundo que privilegia o “ou” em detrimento do “e”. A adoção do Pensamento Sistêmico não requer o abandono da análise (da quebra do todo em partes). Pelo contrário. Seria tão ingênuo quanto sugerir a superioridade do lado direito do cérebro. Você precisa do cérebro inteiro!

    Quatro Famílias

    Existem quatro famílias de sistemas¹. Cada uma pede por um modelo pra chamar de seu:

    Família Partes Todo Exemplo
    Determinística Sem Propósito Sem Propósito Máquinas
    Viva Sem Propósito Com Propósito Você
    Social Com Propósito Com Propósito Negócio
    Ecológica Com Propósito Sem Propósito Mundo

    Sistemas determinísticos não têm vontade própria, missão ou propósito (ainda²). Eles têm funções. A batedeira, o carro e o sistema de gestão de relacionamentos são exemplos. Nenhuma de suas partes nem o todo têm propósito ou condições de fazer escolhas.

    O todo de um sistema vivo tem propósito – nem que seja simplesmente sobreviver. Há quem exclua as pobres jacas e demais plantas dessa família. Eu não faria isso³. Por fim, preste atenção: suas partes (esôfago, fígado) não têm propósito. Você sim.

    Quando você junta dois ou mais sistemas vivos obtém outro tipo de sistema, o social. É a única família em que tanto as partes quanto o todo têm propósito e fazem escolhas. Aqui a porca torce o rabo. Leia-se: a complexidade é inevitável. Os conflitos também.

    Por fim, mas não menos importante, temos a natureza e nossa sofrida Terra. Nós temos propósitos e fazemos escolhas. Ela não. Mas sabe dar o troco.

    Quando utilizamos o modelo de uma família (ex: determinística) para analisar e melhorar um sistema de outra (ex: social) começamos mal. Se e quando terminarmos, o resultado será sofrível – repleto de novos problemas a resolver. Quantas vezes vimos esse filme?

    Uma Linguagem

    Se tudo é sistema, deve existir uma linguagem universal, não? Mesmo que tenhamos modelos específicos para cada família, deve existir um denominador comum – um metamodelo (o modelo dos modelos). A busca por ele vem desde a Grécia antiga e ganha impulso decisivo nos anos 1950. É quando começam a brotar as ciências de Sistemas, Cibernética, Teoria Geral dos Sistemas, Dinâmica de Sistemas, Teoria da Complexidade etc.

    Esse universo de escolas e propostas é rico, diverso, promissor e… ainda confuso. Dá um desconto. As certezas da física e química são seculares. Tratamos aqui de uma ciência ainda em sua infância. E isso deveria nos estimular.

    A última proposta de metamodelo é muito nova. O DSRP (Distinções Sistemas Relacionamentos Perspectivas) foi apresentado no ano passado, no livro Systems Thinking Made Simple, de Derek e Laura Cabrera (Odyssean Press, 2015). É uma proposta inclusiva (“e” ao invés de “ou”) e com boas chances de pagar a promessa feita no título: tornar o Pensamento Sistêmico simples. O DSRP é a espinha dorsal da OPS! (Oficina de Pensamento Sistêmico). Mais sobre ele no próximo artigo. Inté!

    Notas

    1. Adaptado de Ackoff – Ackoff’s Best
      Russell L. Ackoff (Wiley, 1999).
    2. O temor de muita gente é que estejamos próximos de dotar alguns sistemas de propósito e da capacidade de fazer escolhas. A isso chamam Inteligência Artificial. Uma nova família de sistemas nasceria. Deveria vir com um botão de pânico. E não deveria ser tão bela e sedutora como a protagonista de Ex_Machina.
    3. O próprio Ackoff, no livro acima, não classifica a jaca e outros vegetais como um sistema vivo (animado). Discordo. Se não tivessem propósito (sobreviver), as plantas não teriam chegado até aqui; Se não fizessem escolhas, não teriam evoluído.
    4. Thinking é o título da foto.
      Postcards from Inside a compartilhou no flickr.
  • Sistemas Complexos

    Sistemas Complexos

    Qualquer sistema composto por várias partes interligadas que constantemente se adaptam e auto-organizam em resposta ao ambiente é um sistema complexo. Taí uma das definições de sistema complexo mais enxutas que você vai encontrar¹. Vale a pena gastar um tempinho em cada termo chave.

    Sistema

    Um sistema é um todo definido pela função que ele exerce em determinado ambiente². Sistema é uma ferramenta de compreensão³. É uma invenção nossa, bem humana. Delimitamos algo a fim de escarafunchar, analisar, redesenhar, melhorar. Temos sistemas de governo e educacionais, sistemas econômicos e feudais. Existem formigueiros e cidades, sistemas nervosos, digestivos e digitais. Tudo pode ser visto como um sistema. Por querer.

    Partes

    Todo sistema é formado por pelo menos duas partes essenciais – partes cuja ausência impediria a realização de sua função². Você já se viu sem cabeça?

    Adaptação

    Capacidade que um sistema tem de se ajustar, de responder às restrições e demandas do ambiente em que está inserido. A adaptação ocorre através da evolução e do aprendizado.

    Auto-organização

    Desde o Big Bang, há 13,7 bilhões de anos, o universo se auto-organiza. O comando e controle, o oposto da auto-organização, é uma invenção recente. Tudo o que não é restringido pelo ambiente (ou pelo gerente, patroa ou sogra) vai se auto-organizar. Ou seja, as partes encontrarão novos arranjos e padrões. Nem que seja só pra fugir da rotina…

    Ambiente

    É o sistema maior que contém o sistema em estudo. Um sistema-empresa está inserido em um sistema-mercado que por sua vez faz parte de um sistema-sociedade.  Seu sistema nervoso está inserido no sistema-você. Todos somos sistemas compartilhando o sistema mãe terra que faz parte do sistema solar…

    Isso não é um Apêndice (nem esôfago)

    Fidbeque! A grafia é estranha por querer4. Fidbeque não é só uma resposta (ou um like, please!) Retroalimentação é a tradução literal. Algo é feito com essa saída. Fidbeque é informação que circula e, ao fazer isso, dá vida e movimento ao sistema5. Sem laços de fidbeque não há operação, aprendizado ou adaptação. Sem eles não há sistema.

    O todo é maior que a soma das partes. A isso chamamos emergência. O sistema exibe determinadas propriedades que não podem ser atribuídas a nenhuma das partes individualmente. Essas propriedades emergem como resultado das interações entre as partes. Você não é o que é por causa de seu esôfago. Um time não ganha por causa de um técnico ou um craque. A azeitona da empada não causaria tamanho mal estar (ressaca). Aquele congresso lá em Brasília é obra de milhões de votos e de um sistema apodrecido (baita ressaca).

    Um sistema só pode ser apreciado, analisado, escarafunchado, debatido e melhorado quando percebido assim – como um todo. É por isso que precisamos Pensar Sistemicamente. Tema do próximo papo. Inté!

    Notas

    1. Systems Thinkers
      Magnus Ramage & Karen Shipp (Springer, 2009).
    2. Differences that make a Difference
      Russell L. Ackoff (Triarchy Press, 2010).
    3. Geoffrey Vickers, citado em Systems Thinkers (acima).
    4. Stafford Beer mereceu apenas uma tradução em pt-br. Brain of the Firm (Herder and Herder, 1972) virou Cibernética na Administração (Ibrasa, 1979). É um tesouro só encontrado em bons sebos. A tradução de José Reis é o tipo de trabalho que não vemos mais. É dele o fidbeque. Agora é nosso.
      Beer, assim como Margaret Mead e vários outros, já criticavam há tempo o abuso do termo “feedback”. Se o ouvissem hoje em dia…
    5. Matéria e energia também dão vida e movimento aos sistemas. Mas é tão legal tratar fidbeque como informação pura.
    6. Passion Drops
      Outra foto surrupiada da tanakawho.
  • Complexidade: Decifra-me, mas…

    Complexidade: Decifra-me, mas…

    Vivemos o Século da Complexidade. Não que ela, a tal complexidade, só tenha surgido agora. Está conosco desde o início dos tempos. Acontece que esse bicho de inúmeras cabeças ficou mais notável e relevante. Nosso desenvolvimento e até a nossa sobrevivência depende de seu entendimento. Mas, afinal, o que é complexidade? É possível mensurá-la? Por que cargas d’água ela tende a crescer? E o que isso tem a ver com a gente?

    Com.ple.xi.da.de (s.f.)

    Qualidade do que é complexo. (Michaelis)

    Com.ple.xo adj. 1. que se compõe de elementos diversos relacionados entre si  s.m. 2. conjunto, aglomerado 3. psic. conjunto de sentimentos de forte valor emocional que se refletem na personalidade de uma pessoa ~ complexidade s.f. (Houaiss)

    Neil Johnson mostra que dicionários em língua inglesa também confundem quando tentam explicar a complexidade¹. A definem como o  comportamento de um sistema complexo. Este, por sua vez, é descrito como sendo  um sistema cujo comportamento exibe complexidade. Santa recursividade escorregadia!Complexo vem do latim, plectere. Significa trança ou entrelaçar. Uma trama não muito regular, repleta de nós, é uma imagem recorrente quando ilustramos a complexidade. As explicações acima são suficientes? Não. É curioso, mas ainda não temos uma boa definição para a complexidade.  

    Complexidade é um adjetivo e uma unidade de medida. Subjetiva e desconcertante medida. O que medimos? O grau de ordem ou desordem demonstrado por determinado sistema. Ou sua previsibilidade. Ou o número de conexões. Ou a diversidade de elementos. Cada modelo proposto enfatiza uma característica. Todos acertam. Mas todos estão incompletos.

    O Cynefin² fixa duas dimensões: a existência ou força de um controle central e o grau de conectividade entre os componentes. Jurgen Appelo³ prefere falar de estrutura e comportamento, sendo que apenas este pode ser complexo.
    (Mais sobre eles em futuros artigos)

    Bola de Neve

    A complexidade aumenta na medida em que mais pessoas e coisas são conectadas. Nossas redes sociais ainda acomodarão outros bilhões de pessoas. A Internet das Coisas (IoT) vem aí para interligar tudo quanto é tipo de objeto. Cada pessoa manterá ligações com centenas de coisas. Tempo verbal mal colocado…

    Todo santo dia a rede ganha um sem número de novos nós. Nós pronome e nó substantivo. Entender a complexidade que só faz crescer não é luxo ou necessidade futura. É pra ontem!

    Ciência

    O estudo da complexidade é “a ciência das ciências”, uma disciplina guarda-chuva¹. Não é apenas interdisciplinar ou multidisciplinar. O salto pelos silos, caixas e vícios das ciências tradicionais exige uma postura meio indisciplinada mesmo.

    E não importa muito que não tenhamos (ainda) uma boa definição e uma teoria abrangente da complexidade. Não é difícil identificar um sistema complexo, como veremos no próximo artigo. E para uma requerida postura prática e pragmática, é isso o que interessa. Por enquanto. Inté!

    Notas

    1. Simply Complexity – A Clear Guide to Complexity Theory
      Neil Johnson (OneWorld, 2009)
    2. The New Dynamics of Strategy: Sense-Making in a Complex and Complicated World
      Cynthia F. Kurtz & David J. Snowden (IBM Journal of Research and Development – n. 3, 2003)
    3. Management 3.0
      Jurgen Appelo (Addison-Wesley, 2011)
    4. O título não vem da esfinge. Foi surrupiado de Clarice Lispector:
      Decifra-me, mas não me conclua, eu posso te surpreender.
    5. Dandelion with Waterdrops 2
      Foto da tanakawho, que andava meio sumida daqui.
  • Habilidade #1

    Habilidade #1

    Alguns amigos sugeriram que eu fosse mais específico em relação às habilidades e capacidades que o flit e seus derivados se propõem a lapidar. Se é sincero o papo de que o flit não é finito (hã!), como essa lista de habilidades pode ser compilada? Afinal, o que pode entregar um produto que se apresenta fora e bem longe das caixas?

    O Trabalho a Ser Feito

    Toda a parte prática do flit foi desenhada como conjuntos de Trampos a Realizar ou , no inglês, Jobs to be Done (JTBD). Cada trampo é apresentado num padrão bem conhecido: verbo + substantivo. A única classificação utilizada respeita as três camadas universais¹. A imagem acima mostra alguns exemplos de trampos a realizar. Essa lista pode ser dez ou cem vezes maior. Não fecharei o catálogo de temporadas futuras. O flit funcionará melhor se desenhado em conjunto e sob demanda. Claro, alguma visibilidade é necessária. E por isso publiquei todo o roteiro da primeira temporada.

    Sinceramente, não espero que você assine o flit por causa da quantidade de trabalhos que será capaz de realizar. Essa é a parte visível e palpável. Mas não é o espírito da coisa.

    A Habilidade Essencial

    Estudo publicado pelo Fórum Econômico Mundial projeta o futuro do trabalho até 2020. Vale a pena navegar por todo o infográfico. Vou destacar apenas um trecho, sobre habilidades requeridas:A dis/solução de problemas complexos aparece como habilidade número 1. Como colocado no artigo anterior, o Pensamento Sistêmico está para a Complexidade assim como a água está para a sede. E esse pensar diferente é a alma do flit.

    Ser craque em diversos Trampos a Realizar é consequência, efeito. O flit pode ser a causa. Topas?

    Notas

    1. Futuro artigo tentará explicar essas “três camadas universais”.
      Por enquanto, a origem: Beer, grande Stafford Beer.
    2. One é o nome da foto no topo do artigo.
      Ela foi compartilhada pelo smartfat no flickr.
  • Crise ou Transição?

    Crise ou Transição?

    Muitos ainda interpretam as más notícias do dia a dia como crises e apelam para pequenos conjuntos de variáveis domesticáveis (taxa de juros, leis, muros, polícias etc.) ao sugerir soluções. São prisioneiros da forma de pensar que nos trouxe até aqui. Um gênio tentou nos ensinar: se a intenção é resolver de vez essa bagunça, então uma nova mentalidade é necessária.

    Complexidade & Sistemas

    O conjunto de crises, em escala global, é gigantesco. E não existe mais um intervalo de tempo entre elas. Estão sobrepostas e misturadas: causas e efeitos se confundem em novelos intermináveis. Passou da hora de promover nossas crises – colocá-las em outro patamar. E começar a procurar, debater e desenvolver novos modelos e ferramentas.

    Russell Ackoff chamou esse momento de transição: da Era das Máquinas para a Era dos Sistemas¹. Stephen Hawking prefere o termo Século da Complexidade. Não há conflito: Hawking trouxe o fubá; Ackoff entregou o angu.

    Sistema é uma ferramenta de compreensão². O Pensamento Sistêmico propõe o alinhamento de nosso jeito de pensar com a forma como o mundo realmente funciona³. A proposta não é nova. Conta com décadas de estudos e diversos métodos, ferramentas e modelos. Se não é pop – e ainda não é – é porque não promete atalhos.

    Dois Atalhos

    O primeiro é o fundamentalismo e ele não se limita ao aspecto religioso. Qualquer crença que não admita ou pelo menos respeite outro ponto de vista é fundamentalista. Seja ela no mercado, numa ideia ou metodologia – você entendeu. É um atalho porque tenta simplificar o mundo à força.

    Dedicados seguidores de modas tomam o segundo atalho. Ao contrário dos fundamentalistas, são bastante flexíveis. Exageradamente volúveis. Maionesicamente sensíveis. Chegam a crer na panaceia da moda com certo fervor. Mas não pensam duas vezes na hora do “upgrade”.

    Sem Atalhos

    O caminho para o Pensamento Sistêmico não é trivial porque o velho sistema legado – reducionista, mecanicista, determinista – ainda roda e predomina: nas escolas, empresas, e, consequentemente, em nossas cabeças. Não importa. O finito vai ficar ainda mais sistêmico – por querer! Espero seguir contando contigo e seu fidbeque. Inté!

    Notas

    1. Ackoff’s Best: His Classic Writings on Management
      Russell L. Ackoff (Wiley, 1999).
    2. Geoffrey Vickers, citado em Systems Thinkers
      Magnus Ramage & Karen Shipp (Springer, 2009).
    3. Systems Thinking Made Simple
      Derek Cabrera & Laura Cabrera (Odyssean Press, 2015).
    4. That’s Interesting
      Imagem surrupiada de Kevin Dooley no flickr.
    5. Devo o “maionesicamente sensíveis” ao seu Carlos, pai do Wally, avô da Isabela. O original é ainda melhor: “estrogonoficamente sensíveis – azedam fácil”. Papos em botecos mineiros proporcionam tais achados.
  • Mal Educados

    Mal Educados

    Hoje comemoramos o Dia Mundial da Educação. Comemoramos? Como ninguém ganha dinheiro com isso – com a data – você não deve ver muita coisa por aí. Aqui, uma pequena anticomemoração. Provocações surrupiadas de três caras mal educados.

    Peter Drucker

    A primeira coisa a ser dita – e que vale a pena repetir – é que o sistema educacional não está em crise por ter piorado subitamente. O sistema educacional está em crise porque seu papel para o indivíduo e para a sociedade mudou radicalmente, porque ele passou a ser muito mais importante do que jamais foi.

    O “aprendizado” é um processo que ocorre ao longo de toda a vida e não no limbo especial para aqueles velhos demais para “brincar” e os novos demais para “trabalhar”.

    A “escola”, como a instituição na qual se “aprende” – enquanto em todos os outros lugares se “faz”, independentemente de se “brincar” ou “trabalhar” -, está se tornando indefensável.

    O aprendizado de amanhã, da pré-escola até a educação continuada mais avançada para adultos, utilizará e aplicará o ritmo do próprio indivíduo, sua própria velocidade de aprendizado, seu próprio padrão.

    Em seus métodos, a escola de amanhã não será “comportamental” nem “cognitiva”, não será “centrada na criança” nem “centrada na disciplina”. Ela será eclética. Para aprender tudo, precisamos da tríade comportamental de prática, reforço e feedback. De outra forma, tudo o que tentarmos aprender nunca será alojado na memória de longo prazo e nunca será aprendido.

    Russel Ackoff

    Muitas escolas colocam uma tampa na cabeça das crianças. Curiosidade e criatividade são suprimidas. Aprendizado é confundido com memorização, convertido em trabalho e distanciado da diversão. São poucos os que conseguem reunir trabalho, divertimento e aprendizado em fases futuras da vida.

    A escola de hoje é modelada como uma fábrica. O estudante que chega é tratado como matéria prima que deve entrar em uma linha de produção e ser convertido em um produto final. A matéria prima é muito variada mas o processo é uniforme. O sistema tenta minimizar a variedade para manter os custos de produção bem baixos. O processo educacional é considerado um sucesso se o produto final for vendido bem caro. O sistema até estampa marcas e números em seus produtos.

    Escolas são organizadas em torno de disciplinas. É uma maneira conveniente de rotular e “entregar” conhecimento. Mas o mundo não é organizado da mesma maneira que as escolas. Não existem problemas de física, química, biologia, psicologia, sociologia etc. Nomes de disciplinas depois da palavra “problema” não revelam absolutamente nada sobre o problema; revelam apenas o ponto de vista que quem o observa.

    A educação da Era dos Sistemas não deve ser organizada em torno de disciplinas rigidamente definidas e distribuídas em um calendário. Ela deve ser orientada a desenvolver o desejo de aprender e as habilidades necessárias para tal.

    A educação da Era dos Sistemas é um sistema que aprende e se adapta.

    Ricardo Semler

    Se eu fosse estudante hoje faria milhares de bótons com a hashtag #chegadetortura para ostentar na sala de aula. Hoje, terça-feira (28), é o Dia Mundial da Educação, e cá estamos nós tentando melhorar a gestão – reciclagem e firulas – de um sistema medieval.

    Paremos de culpar professores, acusando-os de corporativistas e letárgicos. Cessemos o giro da engrenagem da tortura que mói os alunos, vítimas da ditadura das aulas maçantes. O conceito da escola atual caducou. Fim.

    A escola que temos é resultado da ideia iluminista de que tudo precisa ficar guardado na cabeça. Na era do Google, é um crime insistir no método da decoreba. Argumenta-se que a meninada está aprendendo a aprender. Que balela: quem tem filho sabe que eles aprendem a andar e até a falar sem ajuda – já chegam de fábrica com a capacidade de aprender a aprender.

    O tal de mercado de trabalho, então, é um algoz de pijama. Ou alguém acredita que passar por uma escola rigorosa, usar uniforme e decorar a tabuada prepara alguém para trabalhar nos Instagrams da vida? Queremos preparar nossos filhos para trabalhar na General Motors de 1952?

    Notas

    1. As palavras de Drucker são de uma palestra de 1971. Estão disponíveis em Drucker em 33 Lições (Saraiva, 2011).
    2. O artigo original de Ackoff é de 1974 e pode ser encontrado em Ackoff’s Best (Wiley, 1999).
    3. A “colaboração” do Semler foi surrupiada de um artigo publicado na Folha de São Paulo de hoje, 28/abr/2015.
    4. Na Escola Rural” é o nome da foto, compartilhada no Flickr por Eduardo Amorim.
    5. Mais uma longa greve de professores. Luan Santana cantando “Another Brick in the Wall pt. 2”. O bilionário mais besuntado de Pindorama tentando comprar outra escola. Papais conferindo o cardápio “orgânico” (nada daquele ketchup!!) e o CV da professorinha de dança. São algumas paisagens com a hashtag #EducaçãonoBrasil.
  • Confie no Terreno

    Confie no Terreno

    A elaboração do Mapa do Inferno forçou e reforçou algumas sinapses. Quando ultrapassei a fronteira de 200 itens catalogados uma primeira ficha caiu: quanta coisa! Só ali, em um pequeno universo envolvendo negócios e TI, são dezenas de corpos de conhecimentos, métodos e disciplinas. Contei centenas de ferramentas.

    Durante o último século montamos sistemas de ensino e trabalho orientados por uma lógica cartesiana, reducionista. E empacotamos padrões, métodos e ferramentas de forma a criar e sustentar ligações diretas entre empresas e escolas. Como o ritmo de evolução dessas duas entidades é bastante distinto, um dia Drucker cravou¹: “Quando um tema se torna completa e irremediavelmente obsoleto, a universidade o transforma em uma disciplina obrigatória”.

    Não é por acaso que muita gente sente um choque quando estreia no mundo dos negócios. Parece uma viagem no tempo e pelo espaço. Não se trata de desmerecer as escolas pela distância. Nem de clamar que elas acompanhem o ritmo dos negócios. Elas não existem para isso. Deveriam ensinar a pensar, só isso (tudo). Ferramentas “do mercado” ou “da moda” deveriam ser temas extras, apêndices ou atrações de feiras. Não o núcleo dos currículos. Mas esse papo é espinhoso e não pretendo gastar nosso tempo nele.

    Voltando ao mapa: quando comecei a buscar relações entre os itens, caiu a segunda ficha. É enorme a quantidade de sobreposições. Ilustrando: Gerenciamento de Projetos, Análise de Negócios, Análise de Sistemas e Desenvolvimento de Produtos. E se eu lhe dissesse que pelo menos 50% dessas áreas compartilham necessidades, responsabilidades e, consequentemente, ferramentas? Dependendo dos agrupamentos (de disciplinas ou caixas), a área de interseção pode superar os 80%. Não curto Tom Peters, mas ele acertou em cheio quando disse “se não estiver confuso, não está prestando atenção”.

    Confusão não falta. Pegue, por exemplo, essa questão não respondida no Quora. É o tipo de dúvida que inferniza a vida do trabalhador do conhecimento dos novos tempos. O que devo estudar? Por onde começo? Qual caminho leva ao pote de ouro mais rechonchudo? Qual carreira combina comigo? E, talvez, a pergunta mais importante: quais métodos e ferramentas me ajudariam a realizar o meu trabalho?

    Uma ferramenta está na caixinha do gerenciamento de projetos. Outra parece ser da análise de negócios. Aquelas ali, bem legais e modernas, são coisa dos designers. E aquilo ali? Hã, arquitetura de soluções? E aquele método ali é só da turma de TI, é? Como uma criança em uma grande loja de brinquedos, o trabalhador do conhecimento nem sabe para onde olhar.

    Nossos mapas e legendas estão sendo mal interpretados? Eles são superestimados? Estariam errados? Qualquer hesitante SIM nos forçaria a esquecer um pouco os mapas (currículos, disciplinas, job descriptions e outras caixas) e a confiar no terreno.

    Notas

    1. Peter F. Drucker em Drucker em 33 lições, p. 63 (Saraiva, 2011).
    2. Globe, imagem trabalhada por Brenda Clarke, ilustra o artigo.
  • Mapas e Legendas

    Mapas e Legendas

    O estranho e enigmático desenho apresentado ontem é produto de uma longa história. É curioso como algumas ideias grudam na cuca sem razão aparente. A ideia daquele diagrama me esbofeteou por meses. “Tem alguma coisa aqui, ô seis vort!¹”, ela parecia dizer. Tinha. E era grande.Rabiscos e ensaios foram jogados aqui e ali, na esperança de conseguir algum feedback que orientasse a confecção de um diagrama. Cheguei a levar uma versão impressa para a sala de aula. Todos gostavam, menos eu. Também joguei o rabisco em um artigo, apêndice esquisito de uma série não encerrada (ainda). Pouco me ajudou a tratar, embalar a ideia de forma que ela deixasse de me incomodar. Virou obsessão.No final do ano passado mergulhei no excelente The Functional Art, de Alberto Cairo (New Riders, 2013). Até então acreditava que o destino da ideia era virar um infográfico. Por isso abusei da boa vontade do Cairo, que trabalhou aqui no Brasil – na revista Época. Ele disse, em email, “o que você tem pela frente é um grande desafio”. Era bem maior do que eu imaginava.

    O infográfico poderia virar um índice. E os métodos, disciplinas, ferramentas e padrões citados ganhariam entradas em uma abrangente biblioteca virtual. Nada mal. Mas não era (só) isso. A ideia pedia por mais.Chegou dezembro, tempo de fazer a tradicional atualização do catálogo de cursos. Pensei que a nova tarefa fosse jogar a ideia-obsessão para o escanteio do subconsciente. Inocente. A ideia, batizada Mapa do Inferno, passou a gritar. Uma versão chique, no fantástico Kumu, a acalmaria? Nem por um segundo.

    Você tentou navegar no mapa? Qual impressão ou sensação ele causou?

    Aproveite bem o feriadão. Na próxima semana eu conto o fim da história. E o início de outra. Inté!

    Notas

    1. “Seis vort” (seis volts) é uma maneira bem sulmineira e sutil (!) de dizer que alguém é lento, moroso, imbecil.
    2. Maybe these Maps and Legends have been misunderstood é o nome da imagem no topo. A foto é de Andrew Partain. A inspiração, dele e minha, vem de uma bela música do REM, Maps and Legends (Fables of Reconstruction, 1985).
  • Caixas

    Caixas

    JTNDaWZyYW1lJTBBJTIwJTIwc3JjJTNEJTIyaHR0cHMlM0ElMkYlMkZrdW11LmlvJTJGZW1iZWQlMkZkNGM2NTI2YTQwOTc5Yjg1ODI4MWZhM2QyMTJkZTY3NiUyMiUwQSUyMCUyMHdpZHRoJTNEJTIyOTYwJTIyJTIwaGVpZ2h0JTNEJTIyNjAwJTIyJTIwZnJhbWVib3JkZXIlM0QlMjIwJTIyJTNFJTNDJTJGaWZyYW1lJTNFAmanhã eu começo a explicar. Ah, seja bem vindo de volta!