Tag: Gerenciamento de Projetos

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    Apesar de tentar obedecer o padrão, minha noção de “Ano Novo” não ocorre entre dezembro e janeiro. Começo a visualizar o próximo ano ‘letivo’ em julho ou agosto. Até dois meses depois eu preciso ter um bom desenho sobre como eu quero estar quando o próximo ano acabar. Tão ou mais importante que as metas financeiras (que, no final das contas, nunca se realizam mesmo) são os objetivos de estudo e das conversas que ele pode gerar. Há uma década adquiri o hábito de desenvolver um tema por ano. Faço uma imersão e depois tento repassar o que aprendi em artigos e eventos. Como já fiz no ano passado, neste artigo vou escancarar (um pouquinho) meus planos para 2011.

    Planos que devem ser especiais porque em 2011 completo 25 anos de relacionamento com esta área chamada genericamente de Tecnologia da Informação. Pois é, Bodas de Prata! No namoro fui programador. Noivado na marra se deu quando me converteram em gerente de projetos. Há cinco anos, quando voltei para minha terra natal e me converti em consultor independente (sem patrão nem sogra), resolvi que era casório mesmo.

    Ano especial significa um pouco mais de ambição. Boa ambição. Ao analisar a evolução histórica das visitas ao finito foi fácil perceber uma inevitável estabilização. Não posso forçar a barra ou questionar convicções e estilo para tentar conquistar quem não gosta de meu trabalho. Não. Em relação ao finito a minha principal preocupação será não perder quem eu consegui atrair. Para isso eu sei que devo continuar entregando o que eles esperam, em torno dos temas já consolidados (Análise de Negócios, Gerenciamento de Projetos e Engenharia de Software, principalmente).

    Mas quem me conhece sabe que esse papo de estabilização e mesmice não tem nada a ver comigo. No início do ano passado tentei explorar algumas ideias diferentes, em artigos e eventos. Falo principalmente dos fracassados “Jogo dos 7 Erros” e do épico do “Seu Moreira”. Quebrei a cara. Como sou teimoso como um bom burro mineiro, tentarei lançar o jogo novamente. Motivado principalmente por participantes do FAN que falaram: “eu quero”. Mas meu cardápio, como eu antecipei em meados de 2010,  tem novas opções:

    • FDP – Formação de Donos de Produtos: único produto que já testei em 2010 (com resultado pra lá de positivo). Ele seguirá em testes beta por mais duas ou três edições. O que eu não havia contado até agora é que este evento foi um chute de longa distância para testar outro lançamento, o
    • FAN4Scrum: sim, a formação de analistas de negócios para trabalho específico com o framework Scrum. Ele se sobrepõe de certa maneira ao FDP, mas tem um perfil bem diferente. Enfatizo técnicas de desenvolvimento de requisitos e histórias. O ‘4’ no nome tem outro significado: celebra o 4º ano do programa FAN. A primeira versão (aberta) será uma oficina com 7 horas de duração.
    • FLiP – Formação de Líderes de Projetos: há tempos ensaio meu retorno ao tema Gerenciamento de Projetos. É meu tiro mais arriscado porque se trata de uma área em fase de estranha ebulição. O alto risco justificará uma estratégia de testes diferente daquela que utilizei no lançamento do FDP. Conto mais em breve.
    • Análise de Negócios – Linguagem Chave para Executivos: oficina que desenvolvo a quatro mãos com o Sérgio Storch, da ContentDigital. Em quase todas edições do FAN ouvi o seguinte: “Queria muito que meu gerente estivesse aqui”. Este evento foi desenhado para eles e outros executivos, de TI ou não. Melhor dizendo: está em fase de desenho. Mas sairá ainda no primeiro semestre.

    Outros temas ‘xodó’ passaram todo o ano de 2010 clamando por um pouco de atenção: Gestão do Conhecimento; o “i” de TI; Software como Negócio; Software como Ativo; e, jogando no ventilador, TI, Vida Digital, Carreira e Negócios de uma maneira geral. Confesso que não sei o que pode sair daqui. Talvez eu lance alguns artigos e palestras sobre alguns desses temas. Minha única certeza é que ressuscitei o GRAFFiTi para que ele possa servir como um repositório de assuntos aleatórios. Conto neste artigo um pouco das minhas intenções. Aquelas que já conheço, hehe. Ah, migrei para lá a sequência da conversa que comecei ao comentar o livro “Capital Intelectual“. Aquele papo sobre fábricas de software e coisa e tal. Está em “Cadeia, Rede ou Oficina de Valor?

    Muita coisa para uma cabecinha só? Depende: 2011 é o ano do Coelho, e Coelho é símbolo de agilidade e fertilidade. Saber aproveitar e utilizar melhor o tempo é uma qualidade cada vez mais necessária (particularmente depois de determinada idade). E, como já dizia o poeta, “Disciplina é Liberdade”. Aquele modelinho que utilizo há tempos – Lucro | Troco | Truco – ajuda bastante. O novo GRAFFiTi ainda é apenas um “truco”. Merecerá só 10% de meu tempo. O restante seguirá aqui, nos estudos, artigos e eventos do finito. Precisa dizer que seguirei contando com você? Feliz 2011. Inté!

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    Observações:

    1. É muito difícil escrever e pensar de verdade em um “Feliz 2011” vendo o terror dos últimos dias na região serrana do Rio, em São Paulo e aqui no Sul de Minas. Entristece mais a certeza de que daqui poucos dias a grande mídia mudará de assunto (Carnaval!) e só voltará a se preocupar quando desgraças começarem a marcar o próximo verão. Quem pensa que é o “4º Poder” e que como tal tem poder de fiscalização deveria entender que é tão responsável pela inexistência de políticas de prevenção quanto os governos. Repito: tão responsável quanto. Nossa “grande” mídia não é só babona, interesseira e pobre não. É irresponsável também.
    2. A imagem utilizada, No 11 – black on white, é da Kirsty Hall.
  • FDP – Sprint Review II

    Prometi esta segunda revisão para a semana passada. Mas a agenda e o medo de que meu entusiasmo contaminasse a avaliação me impediram. Entusiasmo? Sim – o evento foi bom pra caramba! Tanto que só consegui baixar a adrenalina lá pelas duas da matina, depois de incontáveis rodadas de chopps. Agora, com o espírito crítico devidamente calibrado, tentarei escrever uma honesta prestação de contas.

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    Tivemos cinquenta participantes. Me lembrei das primeiras edições do FAN. Já chegamos a atender setenta pessoas, um número pra lá de exagerado em eventos desta natureza. Mas a quantidade de pessoas não comprometeu em nada o curso, pelo contrário. Criou um clima de trabalho onde todos pareciam realmente motivados. E mesmo aqueles que tradicionalmente gostam de ficar quietos em seu canto colocaram a mão na massa. Grupos de 6~8 pessoas emulavam times Scrum. E em um time Scrum é difícil alguém fingir que está trabalhando.

    Comecei o evento confessando um ‘frio na barriga’ mais gelado que o normal. Era uma estreia. De um programa que fez algumas apostas arriscadas: i) ‘Esticar’ o framework Scrum de forma a contemplar as etapas de Visualização e Especulação (criação da Visão do Produto; planejamento de Releases; definição da primeira versão do Backlog do Produto); e ii) Reapresentar componentes básicos do Scrum, criticando alguns pontos dos checklists oficiais.

    Não eram pré-requisitos para participar do evento o conhecimento ou experiência com o Scrum. Pouco mais da metade da plateia já trabalhava com o Scrum. Foi de parte deles que ouvi alguns “ah’s!”. Tipo: “não foi bem assim que nos ensinaram, mas acho que é disso mesmo que a gente tá sentindo falta”. Como coloquei na revisão anterior, os trabalhos clássicos sobre o Scrum partem de uma Visão pré-estabelecida. Apesar dos alertas (que não são poucos), muitos acreditam que o trabalho começa ali, traçando histórias e empilhando-as em um backlog. É preciso reforçar que um backlog frouxo, fruto de uma visão embaçada, é um dos principais suspeitos em implementações Scrum que “não vingam”.

    Mas eu errei na segunda aposta. Não na reapresentação (dos componentes básicos do Scrum), mas no momento. Segundo avaliação da própria turma – ao vivo e tête-à-tête – eu deveria ter concentrado tal apresentação no início do curso, quando optei por um simples “Scrum em 15 minutos” Ao salpicar estas revisões no decorrer do curso e, principalmente, por acumular boa parte delas no finalzinho do dia, acabei quebrando o ritmo (e o clima). A turma vinha quente de três atividades consecutivas, com a mente centrada no projeto e, de repente, vê seu pique freado por uma sequência de “blá-blá-blás”. Insisto: bla-blá-blá necessário, porém mal posicionado. Mensagem que não esquecerei nunca mais: coloque toda a parte “chata” do evento no período da manhã – o pessoal prefere “chatice” concentrada do que diluída. Mas não abrem mão dela, da tal “teoria”.

    Assim como não abrem mão de exemplos. Alguns participantes sugeriram a apresentação de resultados pré-elaborados. Não curto isso, porque eles são naturalmente artificiais (hehe!). Mas entendo a necessidade. E tentarei saciá-la através da demonstração dos resultados pelos próprios grupos. Contribuo mais criticando os resultados do que apresentando um só meu. O problema é o cronograma…

    A outra dica / reclamação principal eu já esperava: um dia é muito pouco! Praticamente não tivemos atropelos – cancelamos apenas uma atividade prática – e todo o programa (“teórico”) foi cumprido. Eram 17h55 quando a turma foi “dispensada”. Mas ficou – se não em todos, na grande maioria – a sensação de “quero mais”. Eles queriam tempo para debater cada exercício, ver exemplos e trocar experiências entre os grupos. Apenas estes pequenos reviews exigiriam algo em torno de duas horas adicionais. Por um único motivo (custos!), meu parceiro e eu gostaríamos de manter o FDP com carga de 7 horas. Somos voto vencido. Precisarei de um tempinho para redesenhar a oficina – não gostaria de repetir a fórmula dos dois dias consecutivos já consagrada no FAN. Sei lá porque mas não gostaria.

    Um ponto chamou a atenção de quem já tinha mais experiência com Scrum: a preocupação com a definição e medição do *Valor*. Em uma pequena grande série de artigos, publicada no meio do ano, eu já havia adiantado parte de minhas ideias. Surrupiei sugestões do Jim Highsmith e as misturei com técnicas que já utilizava (particularmente com a Matriz hiper-mega-super Simples de Priorização). A montagem e priorização do backlog do produto não é uma atividade trivial. Tentei mostrar como a definição do Valor e o debate sobre a complexidade ou riscos técnicos podem (ou devem) acontecer no mesmo momento e com envolvimento de todos – DP, ScrumMaster e Time – inclusive de outros representantes das áreas usuárias. Aquela tal matriz nasce neste encontro. E facilita demais a montagem de um Backlog.

    Por incrível que possa parecer, a percepção do *Valor* (do que o negócio ganhará com aquele produto) parece ser difícil. A impressão que fica é que as pessoas não têm o costume de falar sobre isso. Muito menos de tratar tal definição como O fator crítico de sucesso para um projeto. Aliás, a própria definição de sucesso ou fracasso depende desta definição. Eu até tentava compreender quando notava essa dificuldade em Analistas de Negócios. Agora, falando com Donos de Produtos, a luz vermelha piscou e a sirene berrou.

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    A estreia do FDP ficou muito acima de minhas expectativas. Com certeza foi “sorte de estreiante”. E não tenho dúvidas de que a turma destoou: era muito boa e muito participativa. Já encontrei várias assim no FAN. E é pela experiência com ele que sei que encontrarei turmas mais arredias, selvagens, sonolentas ou simplesmente meio-desligadas. Só espero que elas não apareçam logo na segunda ou terceira edições. Prefiro encontrá-las quando a oficina estiver um pouquinho menos verde.

    Assim como aconteceu com o FAN, tentarei registrar aqui todo o processo de maturação. Transparência ingênua? Não! A certeza de que só o seu feedback pode fazer o FDP amadurecer de fato. Aos que já participaram e seguirão participando meu sincero agradecimento. Inté!

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    Observações:

    1. Cometi uma injustiça danada na lista de referências bibliográficas publicada na primeira revisão. Me esqueci de mencionar o livro “Scrum Product Ownership“, de Bob Galen (RGCG, 2009). Foram os seus escritos que motivaram e inspiraram boa parte das “licenças poéticas” do FDP. Forma, com”Agile Project Management“, de Jim Highsmith, e “Agile Product Management with Scrum“, de Roman Pichler, a base para a Formação de Donos de Produtos. Ou seja, a base (teórica) do FDP.
    2. Todas as fotos publicadas neste artigo foram tiradas pelo fiel escudeiro e parceiro Anderson Oliveira, da Tempo Real Eventos. O cara tá ficando bom nisso! Outras fotos podem ser vistas no Flickr.
  • FDP – Sprint Review I

    No artigo que escrevi sobre “O Dono do Produto” prometi mostrar um pouco mais sobre a oficina “Formação de Donos de Produtos“. Vou fazê-lo em duas partes. Na próxima semana, logo após a estreia, publicarei uma prestação de contas com avaliações dos participantes. Hoje, neste primeiro Sprint Review, tentarei explicar a mecânica e filosofia do evento.

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    Um treinamento sobre Scrum ou fortemente baseado nele, como é o caso do FDP, deveria ser planejado, construído e apresentado como produto de um esforço guiado pelo próprio Scrum. Sem artimanhas ou enfeites baratos – ou até com alguns deles, como mostrarei na sequência – mas preocupando-se e ocupando-se com a experiência e a contínua melhoria do produto. Daí a necessidade de aparição aqui e das possíveis conversas que virão. Daí o fato da última atividade prevista, de um total de sete, ser uma revisão informal do próprio evento. As fichas de avaliação, por exigência do parceiro, seguirão existindo. Mas todos os participantes serão convidados para um Sprint Review no final do dia. Papo informal que deve escorregar para um etílico happy-hour. Mas é papo sério!

    Ainda são poucos os trabalhos, livros e eventos dirigidos especificamente para os Donos de Produtos (DP’s). Meu trabalho de exploração, além das experiências práticas, se baseou principalmente em dez títulos (apresentados no final deste artigo). Como adiantei no programa e em outros lugares, esta oficina está repleta de “licenças poéticas”. Explico: apesar de respeitar integralmente as diretrizes do Scrum e práticas mais aceitas (ou comuns), precisei adaptar e incluir várias coisinhas que são ignoradas pela gramática oficial do framework.

    Dediquei especial atenção ao momento inicial de um projeto. E incorporei elementos do framework APM (Agile Project Management) apresentado por Jim Highsmith no livro homônimo. As etapas de Visualização (Envision) e Especulação (Speculate) são cruciais para o DP. Mas elas são ignoradas em trabalhos clássicos sobre métodos ágeis ou mesmo sobre Scrum. A grande maioria deles parte de uma Visão já existente e não se preocupa em mostrar como ela é construída. Por isso dediquei dois “capítulos” do programa só para isso, “O Produto” e “Roadmaps, Releases, Sprints…”. Os participantes vão elaborar a Visão de um produto e derivar dela o Backlog do Produto. Das seis atividades práticas, quatro têm esta finalidade.

    Outro relativo “buraco negro” da gramática oficial do Scrum é a definição do Valor: a relevância de determinada funcionalidade, requisito, história ou tarefa para o negócio ou para a realização do produto. Incorporei parte do método que sugiro no FAN, mas o temperei com o algoritmo de definição de Pontos de Valor também sugerido por Jim Highsmith. Gostei tanto da brincadeira que adaptei o Planning Poker para o debate sobre o Valor de cada item do Backlog. Os participantes ganharão um jogo de cartas personalizado. Para a definição de pontos de valor utilizamos um conjunto menor da escala de Fibonacci. Mas, como já estava com a mão na massa mesmo, fiz um baralho que pode ser utilizado no Planning Poker tradicional.

    Aliás, o baralho é um dos “enfeites baratos” que citei acima. Aquilo que chamei de “Kit do DP Moderno” também é composto por fichas para anotação de Histórias de Usuários, um modelinho para especificação de Casos de Uso (mesmo utilizado no FAN), um Risque & Rabisque com um Quadro Scrum e, claro, post-it’s.

    Os enfeites, que pra falar a verdade não são assim tão baratos, evitam improvisos e perda de tempo. E são ferramentas que o DP utilizará em seu dia a dia. Mas ai de quem aparecer na oficina só para ganhar brinquedinhos.

    Não é fácil consolidar em um evento com sete horas de duração uma boa simulação da vida de um DP em um projeto. Só a primeira execução me dará uma boa noção da distribuição do tempo, mas eu estimo que teremos algo entre 2h30 e 3 horas de atividades práticas. É pouco, eu reconheço. E está aqui o principal ponto de extensão (para uma possível versão com carga horária maior).

    Já sei que estamos com sala praticamente lotada (40+ inscritos). Levarei também alguns convidados – gente que não pisa em cascas de ovos quando vai me criticar. É um feedback mais que necessário para um evento totalmente novo. Resta torcer para que eu não tenha cometido muitos erros. Na próxima semana eu conto o resultado. Inté!

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    Os Principais Livros Utilizados:

    • Agile Project Management – Second Edition
      Jim Highsmith | Addison-Wesley (2010)
    • Agile Product Management with Scrum
      Roman Pichler | Addison-Wesley (2010)
    • Kanban e Scrum – Obtendo o Melhor de Ambos
      Henrik Knibert e Mattias Skarin | InfoQ (2009)
    • Succeeding with Agile
      Mike Cohn | Addison-Wesley (2010)
    • Agile Estimating and Planning
      Mike Cohn | Prentice-Hall (2006)
    • Coaching Agile Teams
      Lyssa Adkins | Addison-Wesley (2010)
    • Subject to Change
      Peter Merholz et al | O’Reilly (2008)
    • REWORK
      Jason Fried e David H. Hansson | Crown Business (2010)
    • Sistema Toyota de Desenvolvimento de Produtos
      James M. Morgan e Jeffrey K. Liker | Bookman (2006)

    A imagem utilizada neste artigo, “Walking in Circles“, é de HikingArtist.com.

  • Museu de Grandes Novidades

    Finalmente encerro a série de artigos onde tentei transcrever a palestra “O Futuro Não é Mais como Era Antigamente“. Este trabalho foi desenvolvido para o Seminário Engenharia de Software promovido pela Tempo Real Eventos. Para minha surpresa ele foi encomendado por algumas empresas, o que resultará em sua promoção para o status de Produto. Não do finito, mas de seu co-irmão que está brotando das cinzas com renovados propósitos. Assunto para outra hora.

    Hoje quero falar sobre o terceiro e último módulo daquela palestra, sobre o nosso “Museu de Grandes Novidades”. O primeiro módulo falava de pessoas e times e foi registrado aqui nos artigos “O Clube da Esquina Globalizada” e “O Cubículo Global“. O segundo tratou de tecnologias e arquitetura corporativa, tema que mereceu duas entradas: “(Pensando Alto sobre) Arquitetura Corporativa” e “Arquitetura do Negócio“. O prato quente é servido no final e o tal “Museu” foi a figura selecionada para puxar assunto sobre processos (metodologias) e projetos. Sim, eu esperava reações ruins entre as boas e indiferentes: “No size fits all!” Aliás, quem abre o tema com o slide abaixo não pode esperar coisa muito diferente, né?

    O “outras relíquias” do título indica a existência de um slide anterior. Verdadeira jóia: a certidão de nascimento do modelo ‘Cascata’. Mas, peraí: queria eu requentar debate tão chato e batido? Não era a intenção. E tento aplacar ânimos dizendo se tratar de um ‘Museu’, não de uma lixeira. Guardamos em um museu coisas que merecem ser vistas, lembradas e estudadas. Mostramos em um museu peças que têm valor. Preciso reforçar a questão que repeti várias vezes na palestra e que rotulei como ‘retórica’ (só pra tentar provar o contrário): nossas teorias (sobre engenharia de software) resistem ao confronto com as pessoas e tecnologias de hoje? Quantas ou quais sobreviveriam de fato? Minha cara e meu caro, se eu tivesse a resposta não estaria aqui, gastando o seu e o meu tempo.

    Também não se trata da elucubração isolada de um mineiro de Varginha que desfila lorotas nas horas vagas. O SEMAT (Software Engineering Method and Theory), que tem entre seus signatários algumas das pessoas que mais contribuíram com a área em todos os tempos, afirma com todas as letras em sua “chamada para a ação” que aquilo que conhecemos (conhecemos?) sobre engenharia de software encontra-se num perigoso e escuro mato sem cachorro porque:

    • Está repleta de modas e tendências, coisa que não combina com *engenharia*;
    • Está carente de uma base teórica forte e amplamente aceita;
    • Está abarrotada de métodos e variações com diferenças pouco compreendidas e artificialmente aumentadas;
    • Está pobre-pobre-pobre-de-marré-marré-marré em termos de avaliações e validações. Cada um fala que seu “método” funciona e pronto; e
    • Há uma divisão entre práticas da indústria e pesquisas da academia.

    Não consigo pensar em nenhuma outra área do conhecimento humano que tenha passado por algo semelhante. Repare bem: um grupo de pessoas que escreveu os livros e nos ensinou engenharia de software nos últimos 40 anos concordou com um diagnóstico nada favorável do nosso estágio atual. Repare também que entre os signatários existem representantes de todas as “escolas” relevantes, da extrema-direita até a extrema-esquerda. Hã.. ok. Alguns caras da extrema-esquerda que inicialmente concordaram com o diagnóstico tiraram o time de campo quando viram que o papo centro-direitista não os agradaria nem um pouco. Não importa. E também não creio que o SEMAT, pelo andar da carruagem, gere algum resultado. Mas o estrago está ou deveria estar feito. Ou alguém não concorda com o diagnóstico apresentado?

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    Definitivamente, minha intenção não é promover o bilionésimo papo besta sobre “cascateiros X agilistas”. Acontece que, tanto no evento aberto quanto em um fechado, teve gente que se sentiu pessoalmente atacada pelo conteúdo e, desconfio, pelo tom utilizado.

    Uma pessoa que participou da edição fechada desta palestra no último dia 9/11 manifestou enorme descontentamento com o evento. Detalhe: ela registrou sua insatisfação na forma de um comentário no último artigo publicado. Outros detalhes: utilizando nome falso, insinuando uma insatisfação geral e, indevidamente, registrando um link para o site da empresa contratante. Empresa que solicitou a remoção do comentário ou, no mínimo, do link que a identificava. Nunca cogitei a censura ao comentário (blog que é blog não modera nem censura). Mas, claro, retirei a referência para a empresa. Pela atenção, pelo time e pela rapidez na resposta, a empresa não merecia ver seu nome associado a comportamento tão feio e desonesto.

    Já fui atacado de quase tudo quanto é jeito pelas ideias que defendo e pelo que critico. Na grande maioria das vezes o ataque ou resposta, mesmo os mais agressivos, não é covarde. Não é anônimo. É o mínimo que se espera, certo?

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    Já escrevi por aqui que esta palestra é uma coletânea de temas que, por vários motivos, repousavam em minha gaveta. Pra ser sincero, não acreditava na viabilidade dos temas (em termos econômicos e políticos, hehe). Estouro champanhe quando erro assim. Além da apresentação para quase 100 profissionais de uma mesma empresa, ontem tive a chance de levar o mesmo papo para um território que parecia ser, no mínimo, inusitado. Ganhei um belíssimo presente da Profa. Renate Landshoff: a oportunidade de apresentar “O Futuro não é mais…”  para duas turmas do curso de graduação em Biblioteconomia da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo). Além da bela e antenada turma, contei com a enriquecedora presença de Sérgio Storch. Não vou tentar explicar agora o exótico mashup que se desenha. Mas algumas pistas você encontrará neste artigo da Profa. Renate (e respectivos comentários).

    Beans“, a foto utilizada neste artigo, é de autoria de Naomi Ibuki e foi obtida no Flickr.

  • O Dono do Produto

    Tão ou mais complicado do que criar o produto – em meu caso, um treinamento – será o trabalho de ‘criar’ uma freguesia para ele. Sei que o FDP¹(Formação de Donos de Produtos) atrairá gente letrada e com experiência em projetos de software. Ok. Entendo que a maioria delas não vai desempenhar o papel e sim apoiar e orientar os profissionais que o farão. O treinamento deve contemplar esta modalidade de uso e o faz². Mas eu também sei que o evento não será legal se não contar com “não-letrados”, gente que não seja de TI e sim do negócio. Este treinamento foi desenhado principalmente para eles, nossos (frequentemente) mal compreendidos e (invariavelmente) mal tratados usuários. Ok, sei que não vou atrai-los com demagogia barata. Antes de mais nada, é preciso explicar melhor quem é esse tal de Dono do Produto (ou Product Owner), o que ele faz, como, porque etc. É o que tento com este artigo.

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    O dono do produto é O Cara. O cara que deve gerenciar o escopo de um projeto e garantir que o produto criado realmente gerará valor para o negócio. Do glossário oficial não consta o termo “escopo do projeto” e sim “Product Backlog”. Aqui, para desagradar a gregos e troianos, vamos chamar esse trem de Pauta. Antes que você tenhas ideias criativas e/ou nocivas, retomemos o fio da meada. O dono do produto, como o próprio nome confessa, tem a palavra final sobre funcionalidades, características e formato da obra gerada pelo projeto. E, acima de tudo, ele deve garantir que o produto atenda os objetivos pré-estabelecidos, ou seja, que ele gere valor. Peço sua atenção para o termo “pré-estabelecidos”. Obrigado. Já já conversaremos sobre isso.

    O dono do produto (DP daqui pra frente) deve ser do negócio. Aqui temos duas possibilidades. Se o produto destina-se para uso interno, então o DP será um representante de todos os usuários. Dele será exigido domínio do problema que o produto ajudará a resolver. Ele será escolhido não só pelo (amplo e profundo) conhecimento que detém, mas também pelo bom relacionamento com todas as outras partes interessadas. Deve ser reconhecido e merecedor da autonomia que receberá.

    Quando o produto é dirigido para o público externo, então o DP pode ser o próprio gerente do produto, quando existir, ou então um representante da área de marketing da empresa. É interessante notar que neste contexto o DP, na maioria das vezes, não cuidará de apenas um projeto mas de todo o ciclo de vida de um produto. Desconfio que seja uma possibilidade pouco aproveitada em solo tupiniquim.

    Do DP espera-se autoridade e autonomia em todas as decisões sobre o escopo do produto e as prioridades do projeto. Dele será cobrada disponibilidade para atender os demais membros da equipe do projeto. Recomenda-se que ele dedique, no mínimo, uma hora por dia ao projeto.

    Um DP por Projeto – Um Projeto por DP

    Por óbvio que pareça, é preciso dizer que cada projeto, cada produto tem um e apenas um dono. Invertendo a equação pisamos em terreno não tão óbvio: um DP deveria cuidar de apenas um projeto. Dois, no máximo. E desde que sejam pequenos. As empresas de Pindorama têm a péssima mania de jogar em seus profissionais uma carga de trabalho exagerada. Os profissionais de Pindorama têm o péssimo costume de tentar equilibrar em seus ombros uma carga de trabalho muito além de sua capacidade de entrega. Daí a relevância deste parágrafo.

    Um ponto não tão claro que só agora ganha a devida relevância é a solidão do DP. Segundo algumas interpretações, esta seria função de uma só pessoa. Uma visão mais prática e pragmática nos abre outras possibilidades. O DP pode ser uma pessoa sem disponibilidade para entrevistar n usuários, detalhar n cenários, responder n dúvidas do time etc. Pode ser muito n para uma pessoa só. Por isso autores como Jim Highsmith e Roman Pichler sugerem a existência ou necessidade de um Time do Produto³. Este time, como já foi apresentado aqui no finito, pode ser composto por analistas de negócios, consultores, especialistas no domínio e outros usuários ou partes interessadas. Cabe ao DP manifestar a necessidade de apoio. E ele não pode ser constrangido por dogmas bobos. Ele é o *dono* e, como tal, deve saber do que precisa para fazer seu trabalho bem feito.

    Colocado e Falante

    De boa que é, merece repeteco uma afirmação que fiz em artigo recente: “é o olho do dono que engorda o boi”. Colocando de outra forma: não há DP distante ou remoto. No mundo ideal ele ocupa a mesma sala dos outros integrantes do time. No mundo real ele deve visitar esta sala pelo menos uma vez por dia. E permanecer lá, à disposição e sem interrupções (celular desligado, please!), por pelo menos uma hora.

    Quando apostamos na figura de um DP estamos fazendo uma aposta bem maior: no valor do conhecimento tácito, na eficácia das conversas. Ou, como colocou um freguês, “estamos trocando 10 páginas de documentação por 10 minutos de prosa”. Se o DP não tiver disponibilidade e não for onde o time está não há conversas. Se elas não ocorrem então perdemos a aposta. Simples assim.

    O Passo Esquecido

    Este é o título de um dos capítulos do FAN. Descreve aquele fundamental e mal tratado momento que ocorre entre o entendimento de um problema e o desenvolvimento de sua solução. Aqui ele ganha escopo mais amplo. Trabalhos clássicos que ajudaram a criar e definir o papel do DP – como “Agile Project Management with Scrum“, de Ken Schwaber (Microsoft Press, 2004) – partem de uma visão do produto já definida. Sim, agora estou falando sobre aqueles “objetivos pré-estabelecidos” para os quais chamei sua atenção lá no início do artigo. É razoável supor que o DP participará da criação da visão do produto do qual é *dono*, não? Não me pergunte porque aqueles trabalhos ignoram este momento. Eu não saberia responder. Não sem uma considerável dose de veneno.

    Os conhecimentos do DP são mais exigidos nos momentos iniciais do projeto. Será um sinal de sanidade do projeto a decrescente dependência dos outros membros do time em relação ao DP. Significará que o conhecimento realmente se espalhou pela equipe. Todos passarão a demonstrar de razoável a impecável domínio do problema que tentam resolver. O que não pode significar, de forma alguma, o afastamento ou distanciamento do DP. Ele sempre terá responsabilidade pela manutenção e priorização da Pauta do projeto, do primeiro ao último dia do projeto. E, claro, é ele quem aceita ou não o resultado de cada iteração (ou sprint).

    Os Passos Executados

    Como já vimos, o DP tem duas grandes responsabilidades em um projeto: i) Definir a Visão do Produto e respectiva Pauta – funcionalidades e características de um produto. Fica subentendido aqui que a Pauta é formada por itens devidamente priorizados e que a priorização também é responsabilidade exclusiva do DP; e ii) Garantir que o produto em gestação está definitivamente a caminho de realizar os objetivos do negócio. Cada responsabilidade compreende um conjunto de atividades que fica a cargo do DP.

    A Pauta (lembre-se, o Product Backlog segundo gramáticas oficiais) deriva da Visão do Produto. A criação de ambas é responsabilidade do DP. Espera-se que a Visão, normalmente de alto nível (2km X 2cm…), seja estável durante todo o projeto. Ela explica funcionalidades e características gerais do produto, além de oficializar restrições (escopo, prazos e custos). A visão deve mostrar, principalmente, como o produto gerará valor para o negócio.

    Já a Pauta será desenvolvida de maneira iterativa e incremental. O DP e o time se preocuparão em detalhar apenas os itens necessários no horizonte pré-fixado (da iteração ou sprint). Uma iteração geralmente dura duas ou quatro semanas. Projetos estressados (complexos em sua porção negócio ou tecnologia ou ambas) devem utilizar a primeira opção. Projetos tranquilos se contentam com a calmaria dos ciclos de trinta dias. Espera-se que o DP (e seu opcional Time de Produto) esteja trabalhando no entendimento e detalhamento dos itens que comporão a pauta da iteração imediatamente posterior. Particularidades do projeto, da organização ou a velocidade do time podem pedir que o DP trabalhe com duas ou até três iterações de antecedência. É importante notar que isso não pode significar, em hipótese nenhuma, o não atendimento do time na iteração atual – dirimindo dúvidas e verificando a realização do produto, principalmente.

    Praticamente todos os proponentes de métodos que utilizam a figura do DP sugerem que os itens que compõem a Pauta sejam redigidos na forma de Histórias de Usuários (ou User Stories). Este padrão “força” a realização de conversas. É importante que o DP saiba que existem alternativas (casos de uso, por exemplo) e que ele deve optar pelo formato que lhe deixe mais confortável. Algumas organizações precisam de um pouco mais de formalidade (aka Documentação), por razões mil (sendo que 989 são bullshitagem/burocracia pura). Dependendo de suas exigências, parte do time pode ser destacado para atendê-las. Colocando de outra maneira: da porta (da sala do time de projetos) pra fora é oferecida uma documentação mais formal; Da porta para dentro o time pode optar por um padrão de conversas mais informal e leve. Um bom DP saberá lidar com as duas modalidades de comunicação.

    Em inglês fala-se que o DP é responsável por “grooming the product backlog”. Em tradução literal o verbo groom significa preparar, arrumar (ou adestrar cavalos). Acho que, em português, devemos nos contentar com o termo “manutenção da Pauta”. É crucial que o DP saiba que a Pauta é um (documento? artefato? ferramenta? – são tantos termos detestados, tantas emoções desperdiçadas…) Começando de novo: É crucial que o DP saiba que a Pauta é um trem vivo – um negócio que exigirá sua atenção diária. Itens da Pauta (requisitos, histórias ou casos ou…) ganharão ou perderão prioridade; mudanças surgirão (e não serão tratadas como más notícias); erros serão cometidos (e não significarão pena de morte aos seus causadores). Se o DP não administrar (!) diariamente todas as ocorrências as quais estão sujeitas a sua Pauta, me diga: que p%&R@ o cara está fazendo lá?

    Aos Donos com Carinho

    Por tudo isso e mais um tanto é que se diz que a função do DP é a mais crítica e complexa em um projeto guiado pelo framework Scrum. A vida de um DP não é nada fácil. Mas pode ser muito gratificante e edificante (Houaiss: que conduz à virtude). Quem já entregou projetos e viu os olhos dos usuários brilharem (e seus respectivos negócios lucrarem) sabe do que estou falando. A entrega de um produto pelo DP guarda uma satisfação ainda maior, exatamente porque foi ele quem desenhou e de certa maneira conduziu aquela realização. O bom DP sabe que o sucesso deve ser compartilhado por todos que participaram do projeto. Mas lá no fundo ele guarda algo que não confessará: a impressão digital mais notável deixada no produto é sua. Para o bem ou para o mal.

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    Observações:

    1. Foi em um belo boteco de Copacabana, bem servido de chopps, que consegui convencer meu parceiro de que a sigla FDP é filhadaputamente excepcional para uma oficina que se propõe a Formar Donos de Produtos. Além do apelo pop, serve também para peneirar e manter chatos ultrasensíveis bem distantes. Quem não güenta o leve tranco d’uma brincadeira boba demonstra não possuir um requisito mínimo que todo DP deve apresentar: bom humor!
    2. Faço questão de frisar na divulgação do FDP que todo o material didático utilizado está liberado para uso. As restrições são mínimas: i) Agradeça publicamente o autor; ii) Compartilhe o material utilizando a mesma licença; e iii) Se você pretende ganhar algum $ com o material, combine antes a comissão que irá me pagar. Preciso salientar isso porque sei que muitos vão querer replicar o treinamento em suas empresas. Em breve vou mostrar aqui no finito alguns dos itens que vão compor aquilo que estou chamando de “Kit do PO moderno” e que você poderá reutilizar.
    3. De longe já são os dois livros mais citados aqui no finito: “Agile Project Management – Second Edition“, de Jim Highsmith (Addison-Wesley, 2010) e “Agile Product Management with Scrum“, de Roman Pichler (Addison-Wesley, 2010). Se eu seguir referenciando-os assim periga eu te dispensar de estudá-los. Hehe.. brincadeira.
    4. Aproveitei o artigo para experimentar mais um pouquinho o método do Pensamento Visual. A sequência utilizada para apresentação do DP – quem, quanto, onde, quando, como e porque – obedece as regrinhas dos 6 W’s propostas por Dan Roam em “The Back of the Napkin” (Portfolio, 2008).
    5. A foto utilizada no topo, “Home Market: 1941 in Worthington, Ohio“, é do Don O’Brien.

    Faltou dizer:

    Caramba, ainda estás por aqui? Este artigo está com o dobro do tamanho padrão (2200 palavras!). Mas faltou dizer… Que o DP não é uma exclusividade dos projetos que são guiados pelo framework Scrum. Aliás, não precisa ser uma exclusividade. Ele é uma adaptação, por exemplo, do Engenheiro-Chefe utilizado pela Toyota há décadas. Pode ser visto também como uma exótica e criativa remixagem das funções do gerente de produtos e do gerente de projetos.

    É claro que, apesar das “licenças poéticas”, baseio boa parte de minhas sugestões no DP conforme definido na gramática oficial do Scrum. Mas preciso dizer que a idéia do DP, de boa que é, não deve ficar limitada ao uso do Scrum. Pronto, disse. Inté!

  • Scrum kanbanbanban balangandã

    Conclusão do papo iniciado em “Scrum praticundum burungundum“¹. Naquela primeira parte tentei ilustrar a crescente adoção do Scrum em Pindorama. O texto de hoje se ocupará dos principais problemas enfrentados, possíveis causas e soluções. É necessário lembrar que minhas conclusões não estão baseadas em uma pesquisa estruturada. Elas são fruto de conversas e consultas informais.

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    O Scrum, pequeno e simples que é, não deveria ter significados diferentes para as pessoas. Quando alguém me diz que está adotando o Scrum, minha primeira pergunta é: “Scrum e?…” Muitos interlocutores não entendem a questão. Ignoram o fato de o Scrum orientar apenas o processo de gestão de um projeto. Uma parte deles está de fato adotando derivações ou até mesmo o XisPê (eXtreme Programming). Outra parte descobre depois de um tempinho que “tá faltando um monte de definição”. Alguns deixam que a equipe técnica selecione suas práticas favoritas ou que trabalhem como os Allman Brothers, em puros e longuíssimos improvisos. Nada disso se configura um problema se combinado previamente. No entanto, no mínimo para não falar besteiras, é bom saber o que vem do Scrum e o que foi importado de outros lugares.

    Um dos exemplos de “práticas importadas” são as User Stories (ou histórias de usuários). O Scrum não diz como deve ser explicitado o backlog do produto nem como devem ser redigidas as necessidades dos usuários. Autores como Jim Highsmith, Mike Cohn e Roman Pichler² manifestam sua preferência pelo padrão User Story. Sua natureza evolutiva “combina” melhor com o Scrum e com métodos ágeis em geral. Acontece que muitos acreditam que esta seria a única maneira de registrar os requisitos do negócio ou dos usuários, o que não é verdadeiro.

    Mas o que realmente importa é a necessidade de *completar* o Scrum com práticas de engenharia. E aqui deveríamos ver variações mil. Por quê? Oras, organizações, equipes e projetos têm necessidades e restrições bastante específicas. O chapéu Scrum, largo e leve que é, pode caber em qualquer cabeça. Mas seu complemento demanda cuidado. Um zelo que tem faltado em algumas implementações.

    E por falar em implementação. Qual a melhor estratégia? Implantar o Scrum em toda a organização em uma tacada só ou, como um bom e legítimo mineiro, promover uma adoção gradual (comendo quieto e pelas beiradas)? Sou mineiro. E quanto mais conservador ou desestruturado for o ambiente, mais lento é o ritmo que recomendo. Aposto nos hábitos e gostos que são desenvolvidos de maneira natural e orgânica, sem imposições. Deveríamos acreditar mais no potencial das boas ideias que são incorporadas – aprendidas de verdade – através de bons exemplos. Mesmo em organizações que precisam ou merecem radicais safanões, é complicada a implantação do tipo big-bang. Só o exorcismo do espírito Waterfall (cascata), que assombra por anos ou décadas, já é um trabalho e tanto. Representa uma mudança que raríssimas vezes pode ser classificada como simples ou sem traumas. Resumindo: é mais fácil adotar o Scrum de maneira gradual. Poucos casos, como o da Salesforce.com documentado por Mike Cohn em “Succeeding with Agile” (Addison-Wesley, 2010), justificam outra estratégia.

    E por falar em cascata. Não é que tem gente que fala que tá usando o Scrum mas manda um analista lá no cliente para “levantar *todos* os requisitos”? Gente que depois compila isso tudo numa proposta com escopo, preço e prazo fechados? Isso sim pode ser julgado como pecado mortal – um crime premeditado. Mas, guarda o fósforo menino! Não é questão de jogar hereges na fogueira. Uma das perguntas mais frequentes que ouço é exatamente sobre isso: como um prestador de serviços vende um projeto baseado no Scrum? O assunto é tão espinhoso e controverso que merecerá um artigo (ou série) só para ele.

    Outro ponto que facilmente se converte em discussão é o autogerenciamento pelo time do projeto. Existem duas interpretações principais: i) o time cuida de tudo e decide tudo; ii) “autogerenciamento não significa falta de liderança mas um estilo diferente de liderança”, escreveu Jim Highsmith na segunda edição de Agile Project Management (Addison-Wesley, 2010). Sou ignorante pra burro (hehe) e conheço pouquíssimos casos da história da humanidade que comprovem a viabilidade da primeira opção. Pra citar assim, de cabeça, só o caso da Democracia Corinthiana, que durou cerca de dois anos (1982-83). Ainda assim, garanto que a leitura da última frase lhe trouxe lembranças do Dr. Sócrates, Casagrande e Vladimir.

    Henrik Kniberg e Mattias Skarin colocam em “Scrum e Kanban – Obtendo o Melhor de Ambos” (InfoQ, 2009) que “o Scrum é suficientemente minimalista tal como é, se você remover coisas e continuar chamando isso de Scrum a palavra ficará sem sentido e confusa”. Porém, nada nos impede de “colocar coisas” no Scrum. Parece ser o que fez Jim Highsmith no livro  já citado. Ele coloca a figura de um líder de projetos. Estranhamente, sem usar o termo Scrum. Sei lá se por respeito ou qualquer outro motivo. Também precisamos considerar um aspecto cultural: o brasileiro parece gostar de líderes e de ser liderado. Não é o caso de discutir se isso se dá por preguiça, submissão ou letargia (que é a preguiça chique). Ou é (o caso de discutir isso)? Sei lá.

    Outra pergunta de meu informal check-list: “Você confia em seu PO? Ele tem a palavra final sobre o escopo do projeto?” Espanta o número de vezes que ouço um “não” como resposta. Um “não” que algumas vezes nem tem noção do tamanho de engano que representa. Se há um termo muito feliz³ criado no Scrum é Product Owner (PO) – *Dono do Produto*. “Dono” dispensa explicações. Quando um dono não tem palavra final então ele não é dono de nada. Não existe meio dono.

    Existe um dito popular que ensina que é “o olho do dono que engorda o boi”. Adaptado para nosso caso, podemos dizer que é “o olho do PO que garante a entrega do produto”. E o que dizer dos PO’s indisponíveis, daqueles que não têm tempo para olhar o boi?

    E que dizer dos PO’s que não são do negócio? O que dizer dos PO’s?

    Outro dia eu digo. Inté!

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    Observações:

    1. Sigo firme na tradição dos títulos ridículos. Mas desta vez escondi ali uma provocação. Se surtiu efeito eu não vi. Chamei o artigo anterior de “Scrum praticundum burugundum”. A rima (!) só é possível se a pronúncia estiver errada. É  que eu ouço “ScrUm” com mais frequência que  “ScrÃm” (ou “Scrammm”). Fecho a provocação (mas não a tradição dos títulos ridículos) com o “Scrum kanbanbanban balangandã” de hoje.
      E não, (ainda) não tenho a intenção ou condição de falar sobre o Kanban. Dele só aproveitei a rima mesmo. Se o tema lhe interessa, aquele livro aberto e gratuito citado é uma boa dica.
    2. No próprio texto já referenciei os trabalhos de Highsmith e Cohn. Faltou citar o livro do Roman Pichler, “Agile Product Management with Scrum” (Addison-Wesley, 2010). Um dos poucos dirigidos especificamente para PO’s.
    3. Não sei se você sabe, mas os termos criados para o Scrum são intencionalmente “infelizes” ou “ruins”. Ruins no sentido de serem bastante diferentes daqueles utilizados tradicionalmente: Product Backlog, ScrumMaster, Product Owner, Sprint Backlog… A sacada do vocabulário original e radical é boa porque evita confusões. Bom, deveria evitá-las…
    4. “Battle against Time”, a bela foto que ilustra o artigo, é do Joakim Jardenberg.
  • Scrum praticundum burungundum

    A crescente adoção do Scrum por empresas tupiniquins chega a ser surpreendente. Seu uso por pequenas e médias empresas da indústria digital é facilmente justificável. Mas quando vemos grandes negócios – de áreas não relacionadas diretamente com TI – adotando aquele framework ágil para gerenciamento de projetos, devemos entender que algo importante está acontecendo.

    Este artigo é o primeiro de uma pequena série que tem a intenção de ilustrar um pouco o estágio atual de uso do Scrum no Brasil. Nesta primeira parte, um breve panorama – uma fotografia com 2km de extensão por 2cm de profundidade. Na sequência escreverei sobre os probleminhas que tem sido reportados com mais frequência em relação ao uso do Scrum. Questões relativamente pequenas, mas com potencial para batizar o mais novo integrante da família das boas ideias que fracassaram.

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    O Scrum, na forma como o conhecemos hoje, está quase completando 20 anos de existência. Partiu de ideias e experiências da dupla Takeuchi e Nonaka¹. Mas adquiriu corpo e alma nos trabalhos e escritos pioneiros de Ken Schwaber e Jeff Sutherland². Ganhou trilha e impulso para o mainstream com a publicação do Manifesto Ágil. Dentre as diversas propostas de métodos e processos ágeis, o Scrum se destaca por ser o único que se preocupa exclusivamente com os aspectos gerenciais de um projeto. Por não incorporar nenhuma prática de engenharia, o Scrum possibilita sua combinação com diversas outras propostas, do RUP (Rational Unified Process) ao XisPê (eXtreme Programming), passando pela galáxia que existe entre eles.

    O que vou colocar no próximo parágrafo não tem a força de uma pesquisa estruturada. Por outro lado, a população amostral é suficientemente grande (2000+) para garantir que eu não esteja viajando ou forçando a barra.

    Nas primeiras turmas do FAN, no já longínquo 2007, apenas 5% dos participantes, em média, levantavam a mão quando eu perguntava: “Quem *conhece* o Scrum?” Na última edição do evento em São Paulo, no final de setembro, mais de metade da sala respondeu positivamente. E esta é a média de todas as turmas que encontrei neste ano, em São Paulo, Belo Horizonte e outras praças. Claro que não posso concluir que a adoção do Scrum no Brasil aumentou 1000% em três anos. Mas, pensando bem, desconfio que foi algo com tal magnitude que aconteceu. Aliás, está acontecendo.

    Testemunhei algo parecido, em menor escala, entre os idos de 1998 e 2000 e pedrinha. A moda e elixir para todos os males dos projetos de software de então era o RUP. Foi adotado por grandes empresas, como Petrobras e BankBoston, e estava nas bocas e agendas de todo mundo minimamente antenado com a área. Algum tempo depois, em empresas diferentes e distantes, vi reações parecidas: “Não fala de RUP que me dá urticárias!” Não vale o espaço e muito menos o seu tempo o diagnóstico sobre o que aconteceu com aquele incomensurável corpo de boas ideias (pobres estratégias e falsos evangelistas).
    {Mas merece nosso tempo a preocupação de que algo semelhante aconteça com o Scrum. Neste artigo, publicado em setembro/2009, eu falo um pouco sobre isso.}

    Antes, porém, vale a pena ilustrar um pouco mais a crescente adoção do leve processo de gestão que sugere a divisão das partes interessadas entre “porcos” e “galinhas”. Como já coloquei, não é difícil justificar o uso do Scrum por pequenas e médias empresas prestadoras de serviços de TI. Elas não puderam saborear adequadamente o RUP porque ele era um produto (leia-se: seu uso significava, na maioria das vezes, um pesado investimento em ferramentas que ‘viabilizariam’ o uso do método). Agora, elas ganharam um método que não cobra royalties nem força o uso de (dispendiosas) ferramentas. E, talvez um ponto mais importante: elas ganharam um método cuja implantação é relativamente fácil, rápida e barata. Ou seja, um sonho.

    Surpreendente é o fato de algumas grandes empresas também apostarem no Scrum. Inclusive empresas de ramos que têm a péssima fama de serem conservadoras e burocráticas – pelo menos no que se refere a TI – como bancos e seguradoras. Entre tudo o que é sinalizado em movimentações deste tipo, parece nítida uma grande insatisfação com processos, padrões e metodologias utilizados até então.

    No primeiro semestre apresentei duas palestras para um dos maiores bancos do Brasil. Fui convidado para “provocar” e apresentar “tendências”. A segunda palestra foi motivada pelo “burburinho” gerado na primeira. E foi dirigida para gerentes e afins. Ao justificar o encontro, um dos principais executivos da área disse: “Precisamos de novas ideias”. Em outro momento, nas entrelinhas de uma nova intervenção do mesmo executivo, havia uma mensagem bem direta: “Não dá pra continuar trabalhando da forma como fazemos hoje”.

    Há tempos, esta e diversas outras empresas acreditam que os problemas de comunicação entre áreas de negócios e TI podem ser combatidos com mais documentos, assinaturas, change requests e coisas do tipo. Ao final do evento aquele mesmo executivo brincou concluindo que “cada dez minutos de boa conversa pode eliminar a necessidade de dez páginas de papel”. Para todas as empresas que chegaram neste ponto, e não são poucas³, o Scrum apresenta possibilidades maravilhosas. É difícil ignorar o canto da sereia que cobra tão pouco pelo muito que promete.

    O movimento no mundo dos negócios tem reflexos no universo da educação. Agora, além dos tradicionais cursos relacionados com Scrum e similares, passaremos a ver apostas mais ambiciosas e, de certa forma, mais abrangentes. Um curso de extensão da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que neste ano fez uma experiência com um método “genérico” baseado no modelo iterativo e incremental, adotará o Scrum para a turma de 2011. Os Donos dos Produtos (Product Owners, ou simplesmente PO’s) já foram nomeados – são funcionários da Universidade – e os projetos já foram definidos. Assim como a grade com a distribuição das disciplinas. É o tipo de experiência com potencial para espalhar ainda mais a “novidade” Scrum. Realizada por uma entidade com o nome e peso da UFSCar, pode significar um impacto ainda maior.

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    Observações:

    1. Desconfio que Takeuchi e Nonaka nem prestem muita atenção em sua distante “criatura”. Na realidade eles apenas inspiraram a criação do Scrum. O que eles devem realmente lamentar é o fato de outras grandes descobertas e experiências suas não ganharem o impulso “pop” que o Scrum experimenta hoje. A dupla – que digo parecer dupla sertaneja ‘de raiz’ de Piracicaba – publicou alguns dos trabalhos mais relevantes da mal interpretada disciplina conhecida como Gestão do Conhecimento. Vou citar três: “Gestão do Conhecimento“, compilação de artigos organizada pelos dois (Bookman, 2008); “Theory of Organizational Knowledge Creation” e “Reflection on Knowledge Management from Japan“, artigos publicados na obrigatória coletânea “Knowledge Management – Classic and Contemporary Works” (MIT Press, 2000).
    2. De Ken Schwaber: “Agile Project Management with Scrum” (MS Press, 2004) e “Enterprise and Scrum” (MS Press, 2007).
      De Jeff Sutherland: Scrum Log (desde 2002).
    3. Essa coisa que diz que escrever mais é a solução gera situações cômicas. Em uma turma fechada do FAN no Rio de Janeiro, eu explicava os cinco níveis de detalhamento que uma especificação de casos de uso pode ter. Mostrava aqueles cinco ícones sugeridos por Alistair Cockburn em “Escrevendo Casos de Uso Eficazes” (Bookman, 2006). Quando terminei a explicação um aluno falou: “Pra gente, que trabalha com fábricas de software, isso aí não vai funcionar não. Faz o seguinte: depois da ‘ostra’ (o nível mais baixo) vamos colocar mais um ícone. Sete mil metros abaixo do nível do mar. Coloca o símbolo da Petrobras e vamos chamar isso aí de ‘Nível Pré-Sal’. Só assim as fábricas fazem o que a gente precisa”.
      Triste conclusão de outro participante: “Nem assim funciona…”
    4. A foto utilizada, “Vertical Scrum“, foi tirada pelo Jurvetson.
  • Identificando Partes Interessadas, Interesseiras, Indiferentes e Encrenqueiras

    Ao seguir o método do Pensamento Visual, a segunda¹ questão que o analista de negócios deve responder é “Quem / O quê?”. A pergunta é repetida n vezes se o analista trabalha de forma iterativa e incremental. Mas desde as primeiras ocorrências ele deve se preocupar em identificar todas as partes interessadas – as pessoas que terão algum tipo de relacionamento com o projeto ou seu produto. Este artigo é sobre o processo de identificação e ferramentas que podem ajudar analistas e equipe a gerenciar o relacionamento com clientes e usuários.

    Um dos problemas mais frequentes e irritantes com requisitos é a sua não estruturação. Eles são listados de maneira ad hoc em documentos de texto, cartões ou planilhas eletrônicas e carecem de mínimos atributos que os qualifiquem. Uma das informações essenciais para a contextualização de um requisito é sua origem, sua fonte. Quem pediu? É claro que não basta registrar o nome da pessoa e sua posição na empresa. Por isso a correta identificação de todas as partes interessadas de um projeto é tão cara para a Análise de Negócios.

    Cara e complexa, porque a identificação não será produto da aplicação de um simples questionário ou check-list. A equipe, particularmente o analista de negócios, dependerá de seu poder de observação para identificar, avaliar e classificar cada pessoa envolvida com o projeto. Algumas informações serão fornecidas naturalmente, logo no primeiro momento. Outras aparecerão com o tempo, através da convivência (atenta e atenciosa). O mínimo que se espera de um Mapa de Partes Interessadas² é uma tabela com os seguintes atributos:

    • Papel / Função na organização;
    • Papel no projeto. Podemos completar esta informação com a Matriz RACI sugerida no BABoK:
      • esponsável – executa o trabalho;
      • ccountable – tem a última palavra (só deveria existir uma pessoa com tal poder);
      • onsultado – deve ser ouvido pela equipe;
      • nformado – deve ser comunicado sobre o projeto e algumas decisões.
    • Impacto que o projeto terá no dia a dia da pessoa. Pode ou deve ser simples como Alto, Médio, Pequeno e Nenhum;
    • Influência que a parte interessada exercerá no projeto. Pode usar mesma classificação sugerida acima;
    • Receptividade ao projeto: Contrário, Indiferente, Favorável ou Entusiasmado;
    • Razões para a resistência ou apoio.

    As três primeiras informações podem ser obtidas logo no primeiro momento. Elas devem compor aquele grande mapa que chamo de ‘fotografia com 2km de extensão e 2cm de profundidade’. As outras três informações – Influência, Receptividade e Razões – só surgirão com razoável confiabilidade no decorrer do projeto.

    É interessante notar que o Mapa das Partes Interessadas, quando completado com os últimos três atributos, é um dos únicos artefatos do tipo ‘caixa preta’ de uma equipe de projetos. Ou seja, ele deve ser confidencial. Não interessa a mais ninguém as percepções e cuidados que a equipe tem com cada pessoa envolvida.

    Sim, o mapa servirá para que a equipe saiba com quem está falando e evite riscos de mal entendidos ou até mesmo de conflitos. Sejamos mais visuais. A matriz ao lado sintetiza três informações fundamentais para que uma equipe gerencie seu relacionamento com as partes interessadas. O eixo X indica o Impacto que o projeto terá na vida das pessoas envolvidas. No eixo Y demonstramos a Influência que cada pessoa terá sobre o projeto. E quatro ícones ilustram a Receptividade de cada um ao projeto.

    O gráfico indica, por exemplo, que Joaquim e Carlão são contrários ao projeto. Pode ser por resistência às mudanças ou gosto de ser encrenqueiro. Joaquim pode exercer forte influência no projeto, o que o torna fonte de potenciais problemas. Apesar do pequeno impacto que o projeto terá em seu cotidiano. A equipe deve ‘pisar em cascas de ovos’ quando se relacionar com ele. Carlão, por outro lado, não tem tanta influência assim. Mas terá sua rotina muito impactada pelo projeto. Merece especial zelo quando entregas forem realizadas.

    Três pessoas, José, Dedé e Terezinha, são favoráveis ao projeto. José será muito impactado e terá forte influência no projeto. Dedé será muito impactado, mas não apitará nada. E o apoio da Terezinha pode ter efeito moral, mas nenhum benefício prático: ela tem muito pouco a ver com o babado. Quase como o Euclides, que se mostra indiferente. O que não fará muita diferença. Já a indiferença do Tonho deve ser percebida pela equipe com preocupação. Afinal, ele pode exercer forte influência e será muito impactado. Qual a razão de sua indiferença? O que pode motivá-lo? São questões que deveriam preocupar a equipe, particularmente o gerente do projeto e os analistas de negócios.

    Assim como Magda e João, entusiasmados com o projeto. Magda tem pouca influência, mas o João é relativamente influente. A equipe deve tratá-los como aliados e fazer de tudo para não desagradá-los. Afinal, seu entusiasmo pode contagiar outras partes interessadas. O que nos leva para outra questão: quais são as relações entre os envolvidos? Quem influencia quem? Se o número de pessoas envolvidas no projeto for relativamente grande, talvez se justifique a elaboração de um Mapa de Relacionamentos, como mostra o diagrama ao lado. Nas linhas indicamos o poder de influência de cada pessoa sobre as demais. Ele pode ser: Forte, Médio, Pequeno ou inexistente (“-“).  Vemos, por exemplo, que Euclides e Terezinha não influenciam ninguém. E que a Maria, que não é influenciada por ninguém, tem poder sobre todo mundo. Então ela não pode permanecer tão indiferente (alienada) em relação ao projeto, certo?

    Carlão e Joaquim são contrários ao projeto. É importante que a equipe saiba ‘blindar’ de alguma maneira todas as pessoas que estão em seu círculo de influência. Deve preocupar, principalmente, que Magda e Dedé não se deixem levar pelo pessimismo ou possível jogo sujo do Carlão.

    É claro que estou brincando com a simplicidade. Relações humanas são de uma complexidade absurda e nunca serão resumidas em uma ou duas matrizes. Mas isso não pode significar que a equipe se isente de sua responsabilidade de gerenciar o relacionamento com todas as partes interessadas. É sabido que boa parte dos problemas que ocorrem em projetos derivam de deficiências na comunicação e conflitos de interesses. As ferramentas aqui sugeridas podem ajudar equipes a cuidar melhor de suas relações com clientes e usuários. Faz bem ter a resposta na ponta da língua toda vez que alguém perguntar: Você sabe com quem está falando?

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    QuiProQuó

    Aproveitando os exemplos acima, alguns desafios:

    1. Das dez pessoas apresentadas qual seria o melhor candidato para a função de Dono do Produto (Product Owner) caso o projeto seja guiado pelo framework Scrum? Por quê?
    2. Há um conflito de informações entre as duas matrizes apresentadas. Qual é o conflito e qual a possível razão da inconsistência?
    3. Qual diagrama pode ilustrar e complementar a Matriz de Relacionamentos?
    4. Quais quadrantes podem significar requisitos mais ricos? Por quê?
    5. Seria a Magda carente ou influenciável demais?
    6. O que é que o Euclides tá fazendo no projeto?!?

    Observações:

    1. No método original, “Quem / O quê” é a primeira e não a segunda pergunta. Na adaptação que fiz para a Análise de Negócios transportei “Por que” para o início do questionário. Quer saber por quê?
    2. Mapa de Partes Interessadas?!? Pois é, o nome é ridículo. Sugestões?
    3. Key-People” é o cartoon do HikingArtist.com utilizado hoje.
  • Priorizar

    Priorizar v. {mod. 1} t.d. tratar de (algo) em primeiro lugar e com mais empenho (Houaiss).

    Nos três primeiros capítulos da série determinamos o valor que cada iniciativa tem para o negócio, para a realização de seu grande objetivo (aumentar em 30% a rentabilidade das vendas). O último artigo mostrou como o valor, o peso de cada iniciativa, pode ajudar a determinar o rateio do orçamento¹. Finalmente chegou a hora de definir prioridades.

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    Valor e custo são as duas variáveis predominantes quando o assunto é classificação e priorização de projetos. Mas não são as únicas. A complexidade técnica das soluções e as oportunidades de aprendizado também podem interferir na sequência de desenvolvimento de projetos.

    Facilitamos a vida da turma do “como” (equipe técnica) ao isentá-la de boa parte do trabalho de estimativas. Seguindo uma ‘filosofia’ mais moderna, trocamos estimativas por restrições. Como vimos nos capítulos anteriores, prazos e limites de custos foram pré-fixados. A equipe técnica foi desafiada a encontrar três alternativas de solução para cada grande requisito apresentado.

    A seleção das melhores alternativas deve seguir a mesma lógica que define as prioridades. Aliás, seleção e priorização podem ocorrer no mesmo momento. Veja a matriz ao lado. Nela a equipe técnica posicionou as alternativas de solução para cada necessidade do negócio. O eixo Y, como nos diagramas anteriores, apresenta o valor para o negócio. Os custos são representados no eixo X. Podemos utilizar ícones ou símbolos para indicar as outras variáveis, a complexidade técnica e possibilidades de aprendizado. Neste exemplo usamos apenas o tamanho do círculo para indicar a complexidade² de cada alternativa.

    Os quadrantes nos ajudam a tomar algumas decisões de forma rápida. Ninguém deseja pesadelos, por exemplo. Pesadelos são alternativas caras que apresentam baixa ou nenhuma possibilidade de retorno. Eles aparecem quando o “limite do bom senso”, apresentado no artigo anterior, não é respeitado. Qualquer alternativa que caia ali deve ser automaticamente descartada pela equipe.

    As bobeiras, por outro lado, são baratas. Mas também têm baixo valor para o negócio. Por isso merecem sempre ficar no fim da fila (de projetos e também do processo de seleção e priorização).

    Sonhos são raros. Deveriam ser melhor aproveitados. São aqueles projetos que, apesar do baixo investimento, apresentam grande capacidade de gerar valor para o negócio.

    E os desafios são aquelas alternativas ou projetos de alto custo e alto valor para o negócio. É aqui que começamos. Três alternativas, duas para a “Captura de Pedidos em Tempo Real” (h) e uma para a “Melhoria do Sistema de Agendamento” (f) aparecem neste quadrante. Neste ponto do processo a equipe técnica deve apresentar as vantagens e desvantagens de cada alternativa sugerida. Representantes das áreas de negócio envolvidas devem ter a palavra final sobre a melhor ou mais viável solução. Em nosso exemplo, a objetiva empresa fictícia escolhe o óbvio sonho (h1) como melhor opção para a captura de pedidos em tempo real. Decide também pela alternativa f3 – a mais sofisticada (e cara) para a evolução do sistema de agendamento dos vendedores. Aliás, para aplacar o chororô dos vendedores, eles também estudam a possibilidade de tocar a iniciativa cd2, que envolve a “aquisição de aparelhos GPS” e a integração destes com o sistema de agendamento. Antes, fecharam que i1 é a melhor alternativa de “sistema de logística”. Sabem que é uma solução meia-boca em termos de funcionalidades, mas representa um bom ponto de partida para uma empresa que nunca teve de lidar com algo parecido.

    Relembrando: no processo descrito no parágrafo anterior nossa exemplar empresa fictícia escolheu: h1, f3, i1, cd2. Esta é a sequência determinada pelo valor gerado para o negócio. É a sequência ideal de desenvolvimento? Não. Nossa tão aguardada “fila indiana” de projetos fica assim: f3, h1, i1, cd2³. Como dita o senso comum, devemos sempre começar um trabalho pela parte mais difícil. A matriz utilizada acima nos ajuda a determinar a sequência ideal de desenvolvimento: Desafios, Sonhos, Bobeiras (e nada de Pesadelos).

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    Epílogo: Outra Provocação de nossa Exemplar Empresa Fictícia

    Você deve se lembrar, nossa honorável empresa fictícia fixou um orçamento de R$ 300 mil para todas as iniciativas. Ao selecionar as alternativas de solução as equipes técnica e do negócio baixaram seu teto para R$ 245 mil:

    • h1 = R$ 60 mil
    • f3 = R$ 70 mil
    • i1 = R$ 50 mil
    • cd2 = R$ 65 mil

    O que será feito com os R$ 55 mil economizados? Durante os projetos eles ficam reservados, como um fundo de garantia. Se algo não sair como o previsto (nunca sai), é neste fundo que a empresa buscará recursos. A grana que sobrar após a conclusão dos projetos será dividida entre todos os participantes dos projetos. Em espécie ou na forma de uma belíssima festa (churrasco, balada etc).
    Para quando está agendada a sua?

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    Observações:

    1. Curioso o biorritmo desta série. A audiência, forçada ou não, foi praticamente a mesma para todas as quatro partes já publicadas. Não posso dizer o mesmo da divulgação voluntária. Alguns capítulos mereceram elogios e indicações via Twitter. O último passou em branco. Justo aquele que, segundo meu pretensioso julgamento, deveria merecer mais atenção e debate. Por quê? Porque ele propõe a inversão de duas coisas muito comuns em nossas organizações: a) Um orçamento é definido antes que a equipe de TI conheça o(s) problema(s). Os limites são pré-fixados de acordo com o retorno esperado para o negócio; b) Ao invés de falar de “Custos X Benefícios” o artigo fala de “Benefícios / Custos”. E nem chega perto da matemática financeira que costuma “poluir” este tipo de discussão.
      No mundo do gerenciamento de projetos vivemos bombardeados por siglas e termos como VPL (Valor Presente Líquido),  TIR (Taxa Interna de Retorno), Payback e afin$. Até Mike Cohn, em “Agile Estimating and Planning” (Prentice-Hall, 2006), lança mão de sua calculadora financeira na hora de falar de priorização de projetos (temas, no caso dele) com base em grana. Na realidade ele surrupia e resume os escritos de Steve Tockey em “Return on Software: Maximizing the Return on your Software Investment” (Addison-Wesley, 2004). No caso do Mike há um probleminha que precisa ser mais estudado. Um probleminha que vou chamar de TMNUF (“Too Many Numbers Up Front”.. hehe, algo como “Números Demais, Cedo Demais”.
      Resumo (a ser melhor trabalhado futuramente): Trabalhando em um processo iterativo e incremental eu não consigo prever (com precisão de 50 dólares, como faz Mike) o fluxo de caixa líquido de 8 trimestres!!!
    2. Muitos autores preferem falar de “riscos” ao invés de “complexidade”. Como me acostumei a falar de “riscos” para dizer “riscos do negócio”, utilizo “complexidade” para representar os riscos técnicos. Na realidade, “complexidade” pode abranger também a quarta variável citada no artigo, “oportunidades de aprendizado”.
    3. Este artigo “esconde” uma pegadinha e uma provocação. Quem matar as duas, em comentário aqui registrado, garante uma vaga em uma das próximas turmas do FAN. Vaga impessoal e transferível! Promoção válida até o dia 25/agosto/2010.
    4. Hoje encerro o tema principal: Priorização de Projetos. Depois devo publicar alguns artigos isolados para quitar alguns débitos deixados pela série, particularmente sobre BSc’s e seu uso no Planejamento Estratégico.
    5. “Creating Solutions” é o cartoon do HikingArtist que encerra a série.
  • Benefícios / Custos

    No capítulo anterior vimos como atribuir valor para projetos. Aprendemos que as possíveis iniciativas devem ser avaliadas como um conjunto e nunca de forma isolada. Nosso foco até agora esteve no peso, na contribuição de cada iniciativa para que a empresa alcance seu objetivo maior. Neste quarto artigo da série vamos olhar para o outro lado da moeda, aquele formado pelos custos.

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    Antes, porém, vale a pena revisar o caminho que trilhamos até aqui. No segundo artigo eu sugeri o uso de um diagrama que nos ajuda a classificar processos de negócio e, consequentemente, seus respectivos projetos. Sinto ter tratado esse trabalho de forma um tanto rápida, como se ele fosse natural em nossas organizações. Não é.

    O diagrama ao lado já exibe o resultado do trabalho de valorização que vimos no último artigo. Mas, antes de explicar o conteúdo, preciso elucidar o rabisco. É um mapa de processos desenhado em uma matriz de classificação. A matriz é um recurso mais didático do que prático. Pretende apenas criar o costume de diferenciar tipos de processos e tipos de processos primários logo no início de um projeto. Como vimos anteriormente, a coluna à direita exibe os processos mais relevantes para a proposta de valor da empresa. São os processos primários do tipo operacional que aparecem no exemplo que estamos desenvolvendo. Porque a proposição de valor de nossa empresa fictícia é a excelência operacional (“vender baratinho”).

    Estou utilizando a UML e sua extensão para negócios EPBE. No mapa destaquei apenas os recursos de TI diretamente afetados pelas iniciativas que a empresa pretende disparar (Aqueles rabiscos ao lado das letras são os ‘pacotes’ da UML e representam sistemas ou módulos de um sistema) . Os recursos são organizados por processos. Temos então uma derivação dos diagramas de processos que na EPBE é chamada de “diagrama de linhas de montagem”. Claro, estou mostrando uma versão absurdamente simples deste artefato.

    Três processos serão alterados de alguma maneira para que a empresa possa realizar seu objetivo de aumentar em 30% a rentabilidade das vendas. São eles: “Vendas”, “Entrega” e “PGV – Planejamento e Gerenciamento das Vendas”. Foram vinculados a eles três condições (requisitos) apresentados pelas áreas de negócio envolvidas:

    f) Melhorar o Sistema de Agendamento;
    h) Capturar Pedidos em tempo real; e
    i) Adquirir / Desenvolver sistema de logística.

    Os itens c (Comprar sistema GPS) e d (Integrar GPS com sistema de Agendamento), classificados no capítulo anterior como os menos relevantes, foram descartados neste momento do trabalho.

    Antes de prosseguir, preciso de sua atenção para o seguinte: a “Captura de Pedidos em tempo real” (h) é a iniciativa que deve merecer 43% de nosso tempo e recursos. Opa… 43%?!? De onde veio esse número? No artigo anterior, utilizando a sequência de Fibonacci, valorizamos as iniciativas em 2, 2, 8, 13 e 5 pontos, respectivamente. Total = 30 pontos de valor. A iniciativa h vale 13 pontos, 43% de 30. Já já mostro a utilidade destes números.

    Só quando temos uma visão clara e compartilhada sobre o que precisa ser feito é que devemos envolver a turma do ‘como’ – a equipe responsável por determinar a melhor maneira de atender cada um dos requisitos apresentados¹. A partir de agora a equipe técnica precisa estudar e avaliar alternativas de solução para cada solicitação. Apresentar uma só alternativa é arrogância; Cinco ou mais sugestões é exagero que não se paga. Três é o número mágico. Mas a elaboração das 3 alternativas não carece de magia nenhuma. Basta mostrar: a mais simples; a mais sofisticada; e a intermediária.

    Não há nada que justifique que a equipe técnica não conheça a ordem de importância das iniciativas. Aliás, seu trabalho será muito melhor se desenvolvido a partir pleno entendimento das decisões estratégicas que deram origem aos requisitos apresentados. Só isso permitirá que a equipe técnica desenvolva uma linha de raciocínio representada pelo gráfico ao lado.

    É o valor, a relevância de cada solicitação (requisito) para realização do objetivo maior, que deve determinar o rateio do orçamento.  Ele está representado pelo eixo Y do diagrama. No eixo X podemos distribuir o orçamento (os custos). Vamos supor que a nossa empresa fictícia tenha destinado R$ 300 mil para todo o programa (conjunto de projetos). Isso significa que a iniciativa h (Capturar pedidos em tempo real) poderá consumir até R$ 130 mil, ou 43% do orçamento total. Indica também que a equipe terá apenas R$ 50 mil para “Adquirir ou desenvolver um sistema de logística” (i). E justifica o descarte dos projetos c e d: com apenas R$ 40 mil ela não conseguiria adquirir aparelhos GPS e integrá-los ao sistema de agendamento. Ou conseguiria? Não importa. Não neste momento.

    A linha pontilhada representa o “limite do bom senso”. Traduzindo: é muito difícil justificar qualquer projeto que a ultrapasse. Lembre-se: o eixo X representa os custos. Se, por exemplo, a contribuição dos aparelhos GPS para o aumento da rentabilidade das vendas é marginal ou questinável (2 pontos de valor, 7%), como justificar um investimento de R$ 50 mil (16% do orçamento) para a sua aquisição?

    Municiada com esses limites lógicos a equipe técnica não perderá tempo “viajando na mayonaise”. De cara ela descartará, por exemplo, a consulta àquele maravilhoso fornecedor de soluções de logística que apresenta custos de licenciamento começando em R$ 200 mil. Pra que perder tempo? O limite de R$ 50 mil está colocado e não é negociável.

    Eu sei, esse papo todo é óbvio demais. Mas quantas vezes você teve a oportunidade de discutir um orçamento amparado por tamanha obviedade? Lá na primeira parte da série eu prometi “apresentar sugestões que ajudem a definir o que é prioritário, o que pode aguardar na fila e o que não passa de bullshitagem sem valor”. Estou quase chegando lá. O problema é que eu também havia prometido ser mais prático e… direto! Mas ainda precisarei de um quinto capítulo. Só torço para que as sugestões apresentadas estejam servindo para alguma coisa. No mínimo como provocações. Inté!

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    Observações:

    1. Iniciei aquele parágrafo com um medo danado de ser mal interpretado. Uma “visão clara e compartilhada do que precisa ser feito” não significa  BDUF (Big Design Up Front), uma tonelada de documentos nem nada do tipo. Os artefatos mostrados até o momento são mais do que suficientes para mostrar: Porque os projetos são necessários; Quem está envolvido; Quanto valor pode ser gerado por cada iniciativa; Onde mudanças são necessárias; Quando elas ocorrerão; e Como elas serão implementadas². Forcei a barra? Então aguarde o próximo capítulo.
    2. Você já viu essa sequência de perguntas antes, não?
    3. Não sei porque o tipo de análise apresentado neste artigo é universalmente conhecido como “Análise Custo X Benefício“. Prefiro “Benefício / Custo”. Pode parecer preciosismo de minha parte, mas prefiro ver os Benefícios antes de debater e definir Custos. Gastei 3 das 4 partes desta série preocupado exclusivamente com os Benefícios, com o Valor que devemos gerar para o negócio. Só agora comecei a falar de custos.
    4. Almost There” é o nome do cartoon utilizado. Como sempre, do HikingArtist.com.