Pensando Negócios – Autocrítica

Lá se foram uns quinze dias desde o encerramento da série “Pensando Negócios”. Como de costume, cá ficou este que vos escreve na vã esperança de merecer críticas e sugestões. Não quero parecer ingrato com minha meia dúzia de leitores ativos – Igor, Jean, Leandro, Gabriel, Flavio, Adriano – mas este é o tipo de trabalho que rapidamente desbota e some se não for confrontado, testado e criticado. Ansioso, neste artigo encarno um Norman Bates e desço a faca em minhas próprias sugestões. Só para estimulá-la(o). Porque o autoflagelo, em casos assim, não é nada eficaz.

Weinberg nos ensinou que, se não conseguirmos encontrar três coisas que podem estar erradas com nosso entendimento de um problema, é porque não entendemos o problema. Acho que o teste é válido para qualquer tipo de ideia. Seguem os bugs que encontrei, particularmente no tabuleiro sugerido.

O Tabuleiro não Mostra o Comportamento do Sistema

Grave omissão, ainda mais se nos lembrarmos de dois guias apresentados:

  • Guia #14: A real complexidade de um sistema é produto de seu comportamento;
  • Guia #17: Um sistema só é de fato compreendido quando enxergamos os relacionamentos entre estrutura e comportamento.

O tabuleiro atende parcialmente o guia #17. Mas é pouquíssimo útil no outro caso (de uso). O problema não está no tabuleiro mas na forma como o apresentei. Eu deveria ter sugerido que sua elaboração faz muito mais sentido quando acompanhada de um diagrama causal ou de um diagrama de estoque e fluxo. Na realidade, nas poucas experiências que fiz, tabuleiro e diagrama que captura comportamento brotam simultaneamente, com um auxiliando a elaboração do outro. Como os diagramas que capturam a dinâmica nascem em uma folha em branco, o tabuleiro acaba funcionando como um conjunto de lembretes. Ao lado dos guias sugeridos, pode funcionar como um “acelerador” do entendimento de um sistema-negócio.

Vale destacar uma relação direta entre o tabuleiro e diagramas de estoque e fluxo. Os estoques referenciados devem aparecer em alguma das três estruturas do tabuleiro ou no espaço reservado para a visão (estruturado como um Balanced Scorecard). Sejam os estoques físicos ou de informação, não importa. E os fluxos seriam derivações ou referências diretas de um dos três tipos de processos de negócio inventariados no tabuleiro (primários, de apoio ou de gestão).

A Série ignora a História do Sistema-Negócio

E o segundo passo para entendimento de um sistema sugerido por Donella Meadows é justamente “aprender a história do sistema”. Este bug deve (ou deveria) ter falado mais alto para o colega Leandro Mendonça. Ele já havia criticado a ausência das técnicas para “ouvir, contar e criar” histórias no programa {FAN}. Esta série como um todo e o tabuleiro em particular parecem não dar espaço para o registro da história do negócio ou de seus fragmentos mais relevantes.

Sinceramente, não sei como o tabuleiro – que é uma fotografia do negócio como ele é (as-is) ou como deve ser (to-be) – poderia acomodar a história de um sistema-negócio. Duvido que versões em pontos de uma linha de tempo sejam a resposta. Enfim, torno público o bug na esperança de que existam sugestões. Antes, cabe um alerta: o processo de contar a história não tem preço; sua explicitação, seja em que formato for, vale uns dois reais. Mas o bug não deixa de ser relevante por causa disso.

O Tabuleiro é pouco atencioso com as Relações com Clientes

Realmente, a caixinha “canais” é de uma frieza congelante (sic – haha). Ainda bem que o tabuleiro ainda está na versão rabisco-alpha e o engano pode ser facilmente corrigido. Não sei se é o caso de diferenciar canais de vendas dos canais de relacionamentos, a exemplo do que faz o canvas original. O fato é que processos e respectivos canais dedicados ao relacionamento com clientes merecem um pouco mais de espaço e atenção.

E já que o tabuleiro deve ganhar uma versão mais caprichada, onde mais ele pode ser melhorado? Já pensei em fazer com que os processos de gestão (governança) “cubram” os outros dois tipos de processos. Não é um efeito simplesmente cosmético. O redesenho da área da visão já está na fila. Quais alterações você faria?

Cadê o Gabarito?

Tenho o péssimo costume de esconder pequenos testes nas notas de rodapé dos artigos. Pior ainda é a mania de nunca publicar as respostas. O teste escondido na parte VI merece repeteco e gabarito.

Direcionei a pergunta para analistas de negócios mas creio que ela interesse a qualquer um que aturou o papo até aqui. De todas as coloridas caixinhas do tabuleiro, uma concentrará todos os requisitos principais de todos os projetos de determinado negócio. Qual?

Já? A última das quatro perspectivas de um Balanced Scorecard apresenta tudo o que um negócio precisa Aprender & Desenvolver de forma a realizar as mudanças necessárias. Ficam ali os grandes requisitos de todos os (bons) projetos que uma organização pretende disparar. Bons projetos? Pois é, porque ainda existem projetos que brotam do nada e pelo negócio fazem exatamente o mesmo nada. Tristes projetos…

Grandes requisitos? Pretendo voltar ao tema em breve. Inté!

 

Comments

10 respostas a “Pensando Negócios – Autocrítica”

  1. Avatar de Flavio

    Entendimento
    Bugs Culturais

    Fala PV, tudo tranquilo? Espero que sim!

    Penso que o entendimento do problema, ou seja a sua visão Macro (na qual há a contextualização geral dos seus impactos e consequências); ou em sua visão Micro (na qual há divisão dentro da tríade Atividades > Tarefas > Passos; tudo como manda OSM) passa obrigatóriamente pelo aspecto cognitivo das pessoas envolvidas.

    Pode parecer romântica essa abordagem, mas explico abaixo.

    Hoje parece que todo mundo sempre tem uma resposta simples para tudo, e com a velocidade da informação essa questão das “respostas gatilho”[1] virou uma peste, na qual problemas que merecem meses de estudos para serem solucionados (de forma permanente) quando apresentados tem respostas nas quais as pessoas pensaram no máximo 5 minutos.

    Isso dentro do contexto do seu artigo, eu classificaria como um ‘bug estrutural’.

    Quando falamos de sistema negócio, o Canvas é o que existe de mais pasteurizado em termos de concepção de sistemas-negócios. É tudo tão direto, higiênico, esterilizado, e… Limitado.

    Pensando em negócios, dentro do contexto BRASILEIRO temos que lidar com uma complexidade exponencial, na qual o Canvas (do qual eu sou um crítico) é extremamente limitado em captação principalmente de fatores externos (complexidade da legislação fiscal/tributária, heterogeneidaden do cenário econômico nacional, infraestrutura básica, estrutura de mercado, e até mesmo fatores ligados à… Corrupção).

    Enfim, como você já elencou o tabuleiro além de não lidar com fatores comportamentais e fatores ligados ao relacionamento com o cliente; ele também não lida com questões relativas ao ambiente que está inserido (ao menos não de forma sugestiva), e isso é uma limitação altissíma quando falamos de sistemas-negócio aqui em “Terra Brasilis”.

    Abraço!

    Flavio

    1. Avatar de pv
      pv

      Oi Flavio, tudo bem. E contigo?

      Meu tabuleiro, ao contrário do canvas, abre espaço para todo o ambiente transacional (contexto). Mas, com certeza parecerá limitado – mesmo quando utilizado em formato gigante – se tivermos a intenção de representar dados ou informações muito detalhados sobre qualquer aspecto. Como coloquei em outra parte desta série, o tabuleiro pretende ser uma alternativa para uma fotografia 2km x 2cm de um negócio. 2cm… A coisa é superficial mesmo. E é uma característica da proposta, não um bug.

      Agradeço sua colaboração e a conversa.

      Forte abraço!

      Paulo Vasconcellos

  2. Avatar de Jean
    Jean

    Ola Paulo

    Sobre a questão de acomodar a história do negócio, os alicerces que fundamentaram a criação e manutenção do mesmo….acho um pouco exagerado pensar que um canvas possa acomodar uma informação tão pouco objetiva e muito sujeita a interpretação.

    Vejo o Canvas como um resultado transitório de um trabalho de análise, para criar a visão 2km x 2cm. Ele não será definitivo. Eu entendo ele como uma forma organizada de informações. Algo que eu poderia fazer com post -its colados na parede.

    Portanto, vejo que ele sempre estará apoiado sobre o contexto do negócio de quem desenvolve. E isto pode estar representado com uma simples folha na parede, um documento com a história do negócio ou até mesmo na cabeça de quem está trabalhando com o Canvas.

    Eu vejo ele como um check-list de tudo que precisamos olhar ao analisar um negócio e uma forma de organizar o aprendizado. Você ve ele como o resultado final de um trabalho de análise completo?

    Pode ser q eu esteja interpretando mal sua proposta…

    um abraço

    1. Avatar de pv
      pv

      Oi Jean, tudo bem?

      Tanto o canvas quanto o tabuleiro que sugiro devem ser vistos como ferramentas que apoiam uma boa conversa, que ajudam na construção de uma história. Nada além disso. Perceber qualquer um deles como “um trabalho de análise completo” será um grave equívoco.

      Aliás, o que sintetizaria um “trabalho de análise completo”? O que você entende por “análise completa”? Será que isso existe?

      Forte abraço!

      Paulo Vasconcellos

  3. Avatar de Jean
    Jean

    E ai Paulo..tudo em ordem. Espero que o mesmo ai pela terra do ET =)

    Cara..então..era mais pra alinhar pensamentos mesmo. Fiquei com medo de estar interpretando errado.

    Partindo desta premissa, o canvas é bastante útil no contexto que comentei. E portanto, uma forma visual de representar a “história do negócio” seria válido, para que isto seja lembrado na análise…Penso nisto como um alicerce para todo o resto que já está no canvas…só não sei como represntar isto visualmente…

    quanto a “análise completa” fui infeliz nas palavras. Me referia ao produto final da análise e seus entregáveis.

    Abraços

    1. Avatar de pv
      pv

      Oi Jean. Tá tudo bem por aqui também.

      Meu caro, não estou entendendo sua dúvida. O que você espera representar que não está nem no canvas e nem no tabuleiro sugerido?

      E, por favor, pelo bem da humanidade e felicidade geral da comunidade: abandone o termo “entregáveis”. Deixa isso para os quadradões… Nós conversamos e facilitamos conversas. As poucas palavras escritas que de fato importam não merecem esse título.

      Me perdoe a chatice. Abraços!

      Paulo Vasconcellos

  4. Avatar de Jean
    Jean

    Vamos tentar…

    Eu aprendo, registro no Canvas etc, coloco post-its na parede, pinto com lapis de cor, enfim…

    Estou num ambiente de trabalho onde preciso entregar um documento pro cliente dizendo qual a análise que foi feita do cenário atual e de como vai ficar.

    É disto que estou falando.

    abs

    1. Avatar de pv
      pv

      Oi Jean,

      Não fica chateado comigo não. Novamente peço desculpas se fui muito mala em meu comentário anterior. Vamos lá:

      O cliente quer uma proposta! Ele precisa saber:

      1. Se você entendeu BEM o problema dele. Desconheço melhor forma de demonstrar isso que não seja através de uma bela solução. O canvas ou qualquer coisa do tipo dá contribuição irrisória ou marginal neste momento.
      2. Se sua solução é viável. Aqui surgem as famosas preocupações com prazo e preço. Desconheço melhor maneira de demonstrar isso que não seja através de bem elaborada projeção do VALOR que a solução criará.

      Gosto de chamar este documento (único) de DOCUMENTO DE VISÃO. Ele é:

      1. Sintético – se você precisar de mais de 10 páginas para vender sua ideia alguma coisa tá errada.
      2. Guiado pelos objetivos – há um problema a ser resolvido. Como sua solução o atacará? Aqui, talvez o canvas tenha alguma utilidade. Talvez!
      3. Visual – porque imagens (certas) valem por kilos de palavras. Sua solução é visual ou blablablá?
      4. Vendedor – no melhor sentido possível desta palavra. Berkun coloca diferente: “inspirador”, “memorável” etc. É por aí.

      Não falei nada que você já não tivesse visto em algum lugar. Mas não saberia dizer nada diferente dado seu comentário. Só sei que esse papo não tem nada a ver com a série “Pensando Negócios”. Ou até tem, sei lá! Só espero ter ajudado.

      Abraços!

      Paulo Vasconcellos

  5. Avatar de Jean
    Jean

    Entendi o caso do doc de visão e é exatamente assim que vi no FAN e continuo utilizando. Mas não era exatamente a minha dúvida e não consegui demonstrar isto no meu comentário anterior

    Entendi que preciso ver o Canvas que você sugeriu em um nível de abstração além de projetos, soluções e propostas. Pode ser últil em alguns casos, mas não é o resultado final que se representa no doc de visão que estamos acostumados a ver…

    quem sabe este papo se desenrola melhor num chopp com pastel de carne seca.

    abs

    1. Avatar de pv
      pv

      Ô Jean,

      agora encontramos dois pontos de concordância: chopps e pastel de carne seca. Com certeza ajudam a sincronizar nossos entendimentos. Então marca aí: 29~30/nov estarei em Sampa. Pelo visto, com um calor que pedirá um chopps pra lá de gelado. É só marcar.

      Agora, voltando ao papo: meu tabuleiro é de uso geral. Se ele ajuda a entender como um negócio está e/ou deve ficar, bom. Se ele ajuda a desenhar novos negócios, melhor ainda. O importante é que ele ajude.

      Abraços!

      Paulo Vasconcellos

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