Tag: Understanding by Design

  • Para Compreender

    Para Compreender

    Dado, fato, informação, infobesidade, verdade, pós-verdade, conhecimento, habilidade, compreensão, inteligência, sabedoria. Não há sinônimos na lista. Mas as confusões são comuns. Este artigo sugere um glossário com breves definições. Um mini-guia para tempos muito estranhos.Tão estranhos que até o “pai dos burros” atrapalha de vez em quando. O Houaiss, por exemplo, chama DADO de INFORMAÇÃO em dois momentos. Dados são símbolos que representam propriedades de objetos ou eventos. “308” é um dado. “R. João U. Figueiredo” também.

    Quando colocamos os dados “em forma” obtemos informação. Ou seja, informação consiste de dados que foram processados para se tornarem úteis. Um dia minha área de origem se chamou Processamento de Dados. Estava implícito: nossa responsabilidade era gerar informação. Algum tempo depois, alguém achou que TI (Tecnologia da Informação) era um nome mais bonitinho. Os dados do parágrafo anterior, quando concatenados e registrados em uma ficha cadastral, formam um endereço. Viram informação. E respondem perguntas do tipo: Quem, O Quê, Quando, Onde e Quanto.Informação é a diferença que faz diferença¹. Assim é traduzida a fórmula ao lado. Não fosse por esse “achado”, talvez você não estivesse lendo isso aqui. Com certeza não teria Netflix, Facebook, Youtube nem nada de Internet. Mas isso é um pequeno desvio que só serve pra te mostrar um bit do que é a Teoria da Informação. E para lançar uma provocação: quantas iniciativas de Big Data serão só isso, grandes repositórios de dados? Há muito tempo, criticando outra moda, Tom Stewart disse que as empresas possuíam “muita memória e pouquíssima inteligência”². Segue a sina?Inteligência é a capacidade de aprender e compreender. Ela estaria comprometida nessa era de Google, Inteligências Artificiais e da enxurrada de informações que recebemos?

    Infobesidade é um criativo sinônimo para sobrecarga de informação. Uma moléstia dos novos tempos. Saca só: nós processamos 34 gigabytes por dia. Fora do trabalho! A oferta de fontes e canais de informação cresce exponencialmente. Assim como uma tal pós-verdade.

    Um fato é algo que pode ser constatado, verificado. No mundo pós-moderno, muitos fatos são contestados – às vezes, mesmo quando as evidências são muitas e nítidas. Inventamos a tal pós-verdade, a palavra do ano que passou. Um problema que tem dado o que falar. E só será sanado – se for – quando sua raiz for tratada. Nome da raiz: confiança. Nosso “quarto poder” seria a cura. Mas parece ser uma das causas… Nos resta pensar!

    Pensamento Crítico, Sistêmico, Criativo… nosso cardápio está repleto. E eu já escrevi sobre isso. Melhor, agora, falar sobre os componentes do pensamento.

    Conhecimento é a capacidade de agir³. Saber que aquela rua citada anteriormente fica em Varginha-MG é uma coisa – é informação. Saber como chegar lá é outra coisa – é conhecimento. Conhecimento, portanto, é know-how – saber como. E daqui derivamos as habilidades. E temos a deixa para falar sobre ferramentas, técnicas, métodos e metodologias. Temas para o próximo artigo. Porque neste estamos construindo uma pirâmide básica, de baixo para cima: Dados ? Informação ? Conhecimento. O que vem depois?

    Compreensão, o domínio intelectual de um assunto. Se com conhecimento respondemos como, é compreendendo que respondemos por quê (know-why). Os criadores do Understanding by Design® (Compreensão por Querer!) vão além. E descrevem seis “facetas” da compreensão. Se de fato compreendemos algo, então nós:

    • Podemos Explicar;
    • Conseguimos Interpretar (analisar e criticar);
    • Conseguimos Aplicar;
    • Estudamos os diversos Pontos de Vista;
    • Somos Empáticos; e
    • Temos Autoconhecimento
      (demonstramos consciência metacognitiva, reconhecemos nossos estilo, preconceitos, anseios e hábitos).

    Desconfio que os três últimos itens façam parte do quinto andar de nossa pirâmide: a Sabedoria. Para chegar a ela, bastaria adicionar um derradeiro ingrediente: Somos Consequentes – temos noção dos impactos de nossas ações; estamos dispostos a sacrificar algo agora em troca de ganhos no longo prazo.

    Dado, informação e conhecimento têm a ver com eficiência – fazer do jeito certo.
    Compreensão e sabedoria são requisitos para a eficácia – fazer a coisa certa.

    Educadores, mestres, instrutores, mentores e gurus são responsáveis por levar sua patota até o penúltimo andar, o da compreensão. A última escalada é coisa da vida.No Understanding by Design, modelo que utilizo na OPA!, são colocados dois pilares para a Compreensão: Conhecimento e Habilidades. Senti necessidade de acrescentar um terceiro: Atitudes. Ficou assim:

    • Eu não SEI / não CONHEÇO ? Conhecimentos
    • Eu não sei FAZER ? Habilidades
    • Eu não QUERO FAZER ? Atitudes

    O terceiro item não está relacionado, necessariamente, com má vontade ou preguiça. Medo (de dirigir, por exemplo) e falta de visão do todo (compreensão) também são bastante comuns.

    Sim, eu sei que conhecimento a gente muda (adquire) rapidamente e que o mesmo não pode ser dito sobre atitudes. É muito difícil, para não dizer impossível, mudá-las em aulas ou cursos de pequena duração. O que fazer? Ignorá-las? Eu prefiro o desafio. Ciente de que uma mudança de atitude é consequência, é produto da compreensão. Existe melhor teste para uma aula?

    Notas

    1. Gregory Bateson, muito obrigado!
    2. Thomas Stewart criticava, enquanto vendia, a tal “Gestão do Conhecimento”. Em Capital Intelectual (Campus, 1998).
    3. Karl-Erick Sveiby, kiitos paljon (muito obrigado em finlandês).
    4. A tal pirâmide com cinco níveis (Do Dado até a Sabedoria) é coisa de Russell Ackoff. Outras pérolas podem ser encontradas no pequeno e necessário Differences That Make a Difference (Triarchy Press, 2010).
    5. A bela imagem de hoje, SWEAT Research, foi compartilhada por Tor Lindstrand no flickr.
  • Para Compreender

    Para Compreender

    Dado, fato, informação, infobesidade, verdade, pós-verdade, conhecimento, habilidade, compreensão, inteligência, sabedoria. Não há sinônimos na lista. Mas as confusões são comuns. Este artigo sugere um glossário com breves definições. Um mini-guia para tempos muito estranhos.Tão estranhos que até o “pai dos burros” atrapalha de vez em quando. O Houaiss, por exemplo, chama DADO de INFORMAÇÃO em dois momentos. Dados são símbolos que representam propriedades de objetos ou eventos. “308” é um dado. “R. João U. Figueiredo” também.

    Quando colocamos os dados “em forma” obtemos informação. Ou seja, informação consiste de dados que foram processados para se tornarem úteis. Um dia minha área de origem se chamou Processamento de Dados. Estava implícito: nossa responsabilidade era gerar informação. Algum tempo depois, alguém achou que TI (Tecnologia da Informação) era um nome mais bonitinho. Os dados do parágrafo anterior, quando concatenados e registrados em uma ficha cadastral, formam um endereço. Viram informação. E respondem perguntas do tipo: Quem, O Quê, Quando, Onde e Quanto.Informação é a diferença que faz diferença¹. Assim é traduzida a fórmula ao lado. Não fosse por esse “achado”, talvez você não estivesse lendo isso aqui. Com certeza não teria Netflix, Facebook, Youtube nem nada de Internet. Mas isso é um pequeno desvio que só serve pra te mostrar um bit do que é a Teoria da Informação. E para lançar uma provocação: quantas iniciativas de Big Data serão só isso, grandes repositórios de dados? Há muito tempo, criticando outra moda, Tom Stewart disse que as empresas possuíam “muita memória e pouquíssima inteligência”². Segue a sina?Inteligência é a capacidade de aprender e compreender. Ela estaria comprometida nessa era de Google, Inteligências Artificiais e da enxurrada de informações que recebemos?

    Infobesidade é um criativo sinônimo para sobrecarga de informação. Uma moléstia dos novos tempos. Saca só: nós processamos 34 gigabytes por dia. Fora do trabalho! A oferta de fontes e canais de informação cresce exponencialmente. Assim como uma tal pós-verdade.

    Um fato é algo que pode ser constatado, verificado. No mundo pós-moderno, muitos fatos são contestados – às vezes, mesmo quando as evidências são muitas e nítidas. Inventamos a tal pós-verdade, a palavra do ano que passou. Um problema que tem dado o que falar. E só será sanado – se for – quando sua raiz for tratada. Nome da raiz: confiança. Nosso “quarto poder” seria a cura. Mas parece ser uma das causas… Nos resta pensar!

    Pensamento Crítico, Sistêmico, Criativo… nosso cardápio está repleto. E eu já escrevi sobre isso. Melhor, agora, falar sobre os componentes do pensamento.

    Conhecimento é a capacidade de agir³. Saber que aquela rua citada anteriormente fica em Varginha-MG é uma coisa – é informação. Saber como chegar lá é outra coisa – é conhecimento. Conhecimento, portanto, é know-how – saber como. E daqui derivamos as habilidades. E temos a deixa para falar sobre ferramentas, técnicas, métodos e metodologias. Temas para o próximo artigo. Porque neste estamos construindo uma pirâmide básica, de baixo para cima: Dados ? Informação ? Conhecimento. O que vem depois?

    Compreensão, o domínio intelectual de um assunto. Se com conhecimento respondemos como, é compreendendo que respondemos por quê (know-why). Os criadores do Understanding by Design® (Compreensão por Querer!) vão além. E descrevem seis “facetas” da compreensão. Se de fato compreendemos algo, então nós:

    • Podemos Explicar;
    • Conseguimos Interpretar (analisar e criticar);
    • Conseguimos Aplicar;
    • Estudamos os diversos Pontos de Vista;
    • Somos Empáticos; e
    • Temos Autoconhecimento
      (demonstramos consciência metacognitiva, reconhecemos nossos estilo, preconceitos, anseios e hábitos).

    Desconfio que os três últimos itens façam parte do quinto andar de nossa pirâmide: a Sabedoria. Para chegar a ela, bastaria adicionar um derradeiro ingrediente: Somos Consequentes – temos noção dos impactos de nossas ações; estamos dispostos a sacrificar algo agora em troca de ganhos no longo prazo.

    Dado, informação e conhecimento têm a ver com eficiência – fazer do jeito certo.
    Compreensão e sabedoria são requisitos para a eficácia – fazer a coisa certa.

    Educadores, mestres, instrutores, mentores e gurus são responsáveis por levar sua patota até o penúltimo andar, o da compreensão. A última escalada é coisa da vida.No Understanding by Design, modelo que utilizo na OPA!, são colocados dois pilares para a Compreensão: Conhecimento e Habilidades. Senti necessidade de acrescentar um terceiro: Atitudes. Ficou assim:

    • Eu não SEI / não CONHEÇO ? Conhecimentos
    • Eu não sei FAZER ? Habilidades
    • Eu não QUERO FAZER ? Atitudes

    O terceiro item não está relacionado, necessariamente, com má vontade ou preguiça. Medo (de dirigir, por exemplo) e falta de visão do todo (compreensão) também são bastante comuns.

    Sim, eu sei que conhecimento a gente muda (adquire) rapidamente e que o mesmo não pode ser dito sobre atitudes. É muito difícil, para não dizer impossível, mudá-las em aulas ou cursos de pequena duração. O que fazer? Ignorá-las? Eu prefiro o desafio. Ciente de que uma mudança de atitude é consequência, é produto da compreensão. Existe melhor teste para uma aula?

    Notas

    1. Gregory Bateson, muito obrigado!
    2. Thomas Stewart criticava, enquanto vendia, a tal “Gestão do Conhecimento”. Em Capital Intelectual (Campus, 1998).
    3. Karl-Erick Sveiby, kiitos paljon (muito obrigado em finlandês).
    4. A tal pirâmide com cinco níveis (Do Dado até a Sabedoria) é coisa de Russell Ackoff. Outras pérolas podem ser encontradas no pequeno e necessário Differences That Make a Difference (Triarchy Press, 2010).
    5. A bela imagem de hoje, SWEAT Research, foi compartilhada por Tor Lindstrand no flickr.
  • Uma Aula

    Uma Aula

    Quanta informação cabe em sessenta minutos? De quantas peças é feito o mosaico de uma aula? Quantas pessoas garantem a diversidade necessária? E quantos ciclos de maturação demanda um bom produto? Este artigo compila um punhado de achados e perdidos de um experimento. [videoembed url=”https://youtu.be/bie_FQV-5BM”]Na última quarta-feira (15/mar) apresentei a aula aberta “Design Instrucional e Scrum para Projetos de Aprendizagem”. Foram 205 inscrições e uma audiência média de setenta e poucas pessoas. Sou novato e muito desastrado em transmissões via web. Defasado, sinto uma falta danada de olhar o público. Esse fidbeque que chega aos olhos é imbatível em termos de riqueza – de volume de informações. Se pelo menos eu pudesse prestar atenção no bate papo que ocorre em paralelo. Mas é impossível. Até para o mais mentiroso multitarefa da face da terra. Quando em público, elegemos pontos de referência. Às cegas, nos resta imaginá-los.

    A aula foi projetada para dar uma visão geral da OPA! Oficina de Projetos de Aprendizagem. Ou seja, todas as peças principais de minha proposta deveriam aparecer. A restrição de tempo – sessenta minutos – me obrigou a eliminar uma: as contribuições das neurociências. Menos mal, elas já haviam aparecido em um pequeno artigo. Restaram quatro. E pouco mais de dez minutos para cada uma.

    Fluxo

    A teoria do genial e impronunciável Mihaly Csikszentmihalyi dá cola e sentido para todos os componentes sugeridos. Devemos fazer com que cada aula, independente do formato ou extensão¹, seja uma Experiência Ótima – que ela “siga o Fluxo”.

    Trazendo isso para o contexto da aprendizagem, sugiro um metamodelo citando Charlie “Bird” Parker (“Domine a música; Domine o seu instrumento; Agora, esqueça essa baboseira toda e apenas toque!”) e uma ideia do outro lado do mundo, o ShuHaRi (Abrace, Solte, Deixe Voar).Creio não ter sido muito leviano ao sugerir uma relação destes três níveis com aqueles apontados por Alexandre Magno em “How Creative Workers Learn | Learning 3.0. Nem ao afirmar, gaguejando, que a aprendizagem 1.0 é puro push enquanto a 3.0 é puro pull.
    (Explorarei melhor essa deixa em futuros artigos).

    Patrícia Segatto: ?Os educandos de minha sala parecem estar no 3.0, pois indicam o que querem descobrir e saber mais… eu procuro seguir esses interesses e altero as aulas pensando na motivação deles. Têm 5 anos de idade.

    Raul Roigsim: @Patricia Segatto, nessa idade não existem bloqueios para atingir o fluxo.

    Saca só o nível da conversa que eu perdi…

    Trabalhos a Executar

    Ou JTBD (Jobs to be Done), teoria que chega aos 25 anos de idade muito bem, obrigado². Eu sei, ela foi concebida para guiar inovações. Mas cai como uma luva em projetos de aprendizagem. Um trabalho (ou tarefa) é bem delimitado: fazer pães de queijo; mapear stakeholders; chutar de trivela. Você entendeu. Cada trabalho pode ser capturado na forma de uma estória: Quem, o Quê, Por Quê. Eu não cito isso na aula, mas o Rodrigo Vasconcelos, do Rio, pegou na hora.

    Design Reverso

    Ou Understanding by Design®. Este modelo nasceu fora do mundo do Design Instrucional. Nos EUA, é mais conhecido por quem trabalha com ensino médio ou fundamental. Tem esse nome – Backwards Design, no original – porque propõe que as avaliações e testes sejam elaborados antes do plano de aula. Pois é, TDD (Test-Driven Development) em outro contexto. O modelo é rico e flexível. Ou seja, serve para projetos de qualquer porte ou natureza. Em minha sugestão, para cada trabalho (JTBD) deveríamos desenvolver três aulas (ShuHaRi). Claro, se a intenção for atender iniciantes, iniciados e experts.

    Scrum

    A entrada é um trabalho; A saída, uma aula. Em Design Instrucional, os processos mais populares são variações do ADDIE (Análise, Design, Desenvolvimento, Implementação e Avaliação). No artigo anterior apresentei minhas justificativas para a adoção do Scrum. Agora tento mostrar que o Scrum não serve apenas para o desenvolvimento, mas também para a condução de uma aula. E que seu cerimonial de encerramento de iterações, as reuniões de Revisão e Retrospectiva, casam bem com o mais conhecido modelo para avaliações de treinamentos, o modelo em quatro níveis de Donald Kirkpatrick. A retrospectiva atende o nível 1 (Reação). A revisão mira os níveis 2 e 3 (Aprendizagem e Aplicação, respectivamente). Sobra o nível 4 (Resultados – ROI). Quem mede isso?

    A pergunta é retórica. A resposta: quase ninguém! Quem vive de vender projetos de aprendizagem, como eu, adoraria conhecer esses números. Mas eles são nebulosos até em projetos de larga escala e alto risco. O que dizer dos projetos de aprendizagem, geralmente mal tratados porque mal aparecem nos balancetes? Nosso desafio: facilitar a medição.

    E por que gastaríamos tempo com isso? Por causa de uma certeza: se o treinamento é bom e aquele conhecimento é de fato aplicado, o retorno tende a ser altíssimo. E não estou falando apenas em cursos para empresas. Se contribuímos para que uma pessoa aumente sua renda, apareça melhor na fita ou “simplesmente” ache seu Fluxo – caramba, qual o valor disso? Aliás, é para isso que estamos aqui, não?

    Notas

    1. Há quem ache que o Design Instrucional só atende demandas de EaD. Confusão gerada por uma coincidência: o DI se tornou um pouco mais conhecido por causa da EaD. Na OPA! não há restrições de formatos ou temas, é DI puro. Atacando o essencial: o desenvolvimento e condução de experiências ótimas.
    2. O JTBD se tornou mais conhecido por causa do trabalho de Clayton Christensen. Seu último livro, Competing Against Luck (HarperBusiness, 2016), é só sobre isso. Anthony W. Ulwick é o pai da criança. E recicla suas sugestões em Jobs To Be Done: Theory to Practice (Idea Bite Press, 2016). Repito: em todos os trabalhos sobre o tema, o foco é inovação. A aplicação da ferramenta para o desenho de aulas, até provem o contrário, é mea culpa.
    3. spiralling é o nome da imagem de hoje. Por dugg simpson, no flickr.
  • Pelo Prazer de Aprender – Parte 2

    Pelo Prazer de Aprender – Parte 2

    Uma boa aula nos leva para cima, numa diagonal que combina ação e validação. Ela valoriza a exploração em detrimento da decoreba. Requer gente ativa e até indisciplinada ao invés de passivos ouvintes. O artigo anterior apresentou um modelo de aprendizagem e um processo. Agora vamos conversar sobre a estrutura de um projeto de aprendizagem.

    Antes, porém, preciso responder a pergunta colocada no artigo anterior: Se a ideia é utilizar o Scrum como peça fundamental do modelo de aprendizagem, quem é o Dono do Produto? Esse papel, como o nome sugere, é fundamental. Ele é o dono do que será criado pelo projeto. É o maior INTERESSADO em sua eficácia. Colocando assim, ficou mais fácil? Pois é, o Dono é o próprio ALUNO¹.

    Porque é ele quem tem um problema a resolver. Por exemplo: iniciar uma carreira de analista de negócios; desenvolver requisitos; gerenciar projetos; escrever um livro; programar em Python; tocar violão em festinhas; preparar pratos típicos da cozinha mineira; dançar cumbia e salsa; fabricar cervejas; cultivar frutas e ervas; desenhar negócios; pensar sistemicamente; elaborar projetos de aprendizagem… Exagero para mostrar a flexibilidade do modelo proposto.

    Todos os exemplos acima são Trabalhos a Executar² (JTBD?—?Jobs to be Done). Um bom projeto de aprendizagem mira um trabalho específico. Elaborado como na figura ao lado. O quê é colocado como um verbo + substantivo. A motivação deve ser clara.

    Delimitado o trabalho a executar, podemos iniciar o desenho da aula. No primeiro estágio detalhamos dos RESULTADOS DESEJADOS. Sem reinventar rodas, falamos em conhecimentos, habilidades e atitudes. Nos preparamos para: “eu não sei/não conheço”, “eu não sei fazer”, “eu não quero fazer”.

    Essa divisão é tão crucial quanto mal entendida³. Existem aulas puramente teóricas, chatas pra chuchu. E outras aparentemente divertidas, repletas de atividades. São rasas e frouxas ao desconsiderar os princípios, conceitos e histórias que dão sustentação para as ferramentas e métodos aplicados.

    Provas, Testes e Avaliações

    O segundo estágio é formado pelas EVIDÊNCIAS: Como os alunos poderão demonstrar o que aprenderam? Como eles farão uma auto-avaliação? Quais critérios e formatos de avaliação são mais adequados? Eles apontam, de forma inequívoca, para a realização dos Resultados Desejados?

    Pois é, estamos pensando nas “provas” antes mesmo de elaborar a aula propriamente dita. Trata-se de uma inversão do processo tradicional. Como antecipei no artigo anterior, essa sugestão é parecida com um método de desenvolvimento de sistemas chamado TDD (Test-Driven Development). O modelo?—?esse jeito de pensar?—?nos ajuda a elaborar aulas mais objetivas.

    O Plano de Aprendizagem

    Aqui detalhamos e sequenciamos todas as exposições e atividades necessárias para a realização dos objetivos colocados. Seguindo o Scrum, também é aqui que fixamos os fidbeques: Revisão e Retrospectiva.

    Os Planos de Aprendizagem não têm um padrão pré-determinado. Aliás, é importante que se diga que a proposta aqui apresentada não é prescritiva. Trata-se apenas de um modelo. As aulas serão muito diferentes, não apenas devido ao tema/Trabalho a Executar. Uma aula no nível Shu (Abrace), por exemplo, não tem nada a ver com as aulas nos níveis seguintes, Ha (Solte) e Ri (Deixe Voar).

    Pense comigo: o aluno tem um Trabalho a Executar. Ele vê, lá no primeiro estágio, tudo o que precisa conhecer e saber fazer. E entende, através das evidências, como está evoluindo. Sendo assim, ele saberá avaliar quando uma teoria ou prática não estiver agregando nenhum valor. E cobrará?—?para nosso deleite enquanto instrutores?—?por mais daquilo que o faz aprender e avançar.

    Sobre o Modelo

    A proposta deriva do Design Reverso ( Backwards Design ou Understanding by Design®). Ele é um modelo de planejamento curricular apresentado por Grant Wiggins e Jay McThyge em livro homônimo (ACSD?—?Association for Supervision and Curriculum Development, 2005). Sua combinação com o conceito de Trabalhos a Executar (JTBD) se justifica porque miro o público adulto e profissional. Isso não consta do modelo original, assim como a mistura com o Scrum.

    A peça fundamental do modelo é chamada UNIDADE. Prefiro o termo AULA. Pense nelas como peças de Lego®. Através delas podemos montar oficinas e cursos dos mais variados. Veja a oficina FAN, por exemplo. Ela contempla oito Trabalhos a Executar?—?ou seja, oito aulas. Cada uma tem seus objetivos, evidências e plano. O conjunto mira um alvo maior: a formação de analistas de negócios.

    Eu poderia falar mais sobre a flexibilidade e coesão lógica do modelo?—?seu desenho fractal. Desnecessário. Resta, então, a última questão. Sabe qual método utilizamos para desenvolver as aulas? O mesmo que aplicamos para conduzi-las: Scrum!

    Reclame

    Fluxo + ShuHaRi + Scrum + JTBD + Design Reverso

    Essas são as 5 peças principais que apresento na OPA! Oficina de Projetos de Aprendizagem. Resultado de mais de 10 anos rodando o Brasil, aprendendo a ensinar. Um resumo está disponível no Youtube.

    Notas

    1. Se você pretende lidar com crianças e pré-adolescentes talvez questione a posição deles como DONOS. Afinal, eles sabem o que precisam aprender? Desconfio que, do jeito deles, sabem mais do que muitos adultos.
    2. JTBD (Jobs to be Done) é um conceito/ferramenta proposto por Clayton Christensen e articulado em vários de seus trabalhos, particularmente no último: Competing Against Luck ( HarperBusiness, 2016). Eu abuso da ideia. Tem gente que não gosta da sugestão de ver tarefas como trabalhos. Perdem a chance de tirar o máximo da ferramenta.
    3. Algumas disciplinas parecem ser essencialmente teóricas. Filosofia, por exemplo. Quer ver como uma aula de filosofia pode ser prática e divertida? Não perca a excelente série catalã Merlí, disponível no Netflix. A segunda temporada acaba de ser liberada.
    4. Outro Indiana Quilt ilustra o artigo. Também compartilhado pela Biblioteca Pública de Allen County (IN).
  • Pelo Prazer de Aprender – Parte 2

    Pelo Prazer de Aprender – Parte 2

    Uma boa aula nos leva para cima, numa diagonal que combina ação e validação. Ela valoriza a exploração em detrimento da decoreba. Requer gente ativa e até indisciplinada ao invés de passivos ouvintes. O artigo anterior apresentou um modelo de aprendizagem e um processo. Agora vamos conversar sobre a estrutura de um projeto de aprendizagem.

    Antes, porém, preciso responder a pergunta colocada no artigo anterior: Se a ideia é utilizar o Scrum como peça fundamental do modelo de aprendizagem, quem é o Dono do Produto? Esse papel, como o nome sugere, é fundamental. Ele é o dono do que será criado pelo projeto. É o maior INTERESSADO em sua eficácia. Colocando assim, ficou mais fácil? Pois é, o Dono é o próprio ALUNO¹.

    Porque é ele quem tem um problema a resolver. Por exemplo: iniciar uma carreira de analista de negócios; desenvolver requisitos; gerenciar projetos; escrever um livro; programar em Python; tocar violão em festinhas; preparar pratos típicos da cozinha mineira; dançar cumbia e salsa; fabricar cervejas; cultivar frutas e ervas; desenhar negócios; pensar sistemicamente; elaborar projetos de aprendizagem… Exagero para mostrar a flexibilidade do modelo proposto.

    Todos os exemplos acima são Trabalhos a Executar² (JTBD?—?Jobs to be Done). Um bom projeto de aprendizagem mira um trabalho específico. Elaborado como na figura ao lado. O quê é colocado como um verbo + substantivo. A motivação deve ser clara.

    Delimitado o trabalho a executar, podemos iniciar o desenho da aula. No primeiro estágio detalhamos dos RESULTADOS DESEJADOS. Sem reinventar rodas, falamos em conhecimentos, habilidades e atitudes. Nos preparamos para: “eu não sei/não conheço”, “eu não sei fazer”, “eu não quero fazer”.

    Essa divisão é tão crucial quanto mal entendida³. Existem aulas puramente teóricas, chatas pra chuchu. E outras aparentemente divertidas, repletas de atividades. São rasas e frouxas ao desconsiderar os princípios, conceitos e histórias que dão sustentação para as ferramentas e métodos aplicados.

    Provas, Testes e Avaliações

    O segundo estágio é formado pelas EVIDÊNCIAS: Como os alunos poderão demonstrar o que aprenderam? Como eles farão uma auto-avaliação? Quais critérios e formatos de avaliação são mais adequados? Eles apontam, de forma inequívoca, para a realização dos Resultados Desejados?

    Pois é, estamos pensando nas “provas” antes mesmo de elaborar a aula propriamente dita. Trata-se de uma inversão do processo tradicional. Como antecipei no artigo anterior, essa sugestão é parecida com um método de desenvolvimento de sistemas chamado TDD (Test-Driven Development). O modelo?—?esse jeito de pensar?—?nos ajuda a elaborar aulas mais objetivas.

    O Plano de Aprendizagem

    Aqui detalhamos e sequenciamos todas as exposições e atividades necessárias para a realização dos objetivos colocados. Seguindo o Scrum, também é aqui que fixamos os fidbeques: Revisão e Retrospectiva.

    Os Planos de Aprendizagem não têm um padrão pré-determinado. Aliás, é importante que se diga que a proposta aqui apresentada não é prescritiva. Trata-se apenas de um modelo. As aulas serão muito diferentes, não apenas devido ao tema/Trabalho a Executar. Uma aula no nível Shu (Abrace), por exemplo, não tem nada a ver com as aulas nos níveis seguintes, Ha (Solte) e Ri (Deixe Voar).

    Pense comigo: o aluno tem um Trabalho a Executar. Ele vê, lá no primeiro estágio, tudo o que precisa conhecer e saber fazer. E entende, através das evidências, como está evoluindo. Sendo assim, ele saberá avaliar quando uma teoria ou prática não estiver agregando nenhum valor. E cobrará?—?para nosso deleite enquanto instrutores?—?por mais daquilo que o faz aprender e avançar.

    Sobre o Modelo

    A proposta deriva do Design Reverso ( Backwards Design ou Understanding by Design®). Ele é um modelo de planejamento curricular apresentado por Grant Wiggins e Jay McThyge em livro homônimo (ACSD?—?Association for Supervision and Curriculum Development, 2005). Sua combinação com o conceito de Trabalhos a Executar (JTBD) se justifica porque miro o público adulto e profissional. Isso não consta do modelo original, assim como a mistura com o Scrum.

    A peça fundamental do modelo é chamada UNIDADE. Prefiro o termo AULA. Pense nelas como peças de Lego®. Através delas podemos montar oficinas e cursos dos mais variados. Veja a oficina FAN, por exemplo. Ela contempla oito Trabalhos a Executar?—?ou seja, oito aulas. Cada uma tem seus objetivos, evidências e plano. O conjunto mira um alvo maior: a formação de analistas de negócios.

    Eu poderia falar mais sobre a flexibilidade e coesão lógica do modelo?—?seu desenho fractal. Desnecessário. Resta, então, a última questão. Sabe qual método utilizamos para desenvolver as aulas? O mesmo que aplicamos para conduzi-las: Scrum!

    Reclame

    Fluxo + ShuHaRi + Scrum + JTBD + Design Reverso

    Essas são as 5 peças principais que apresento na OPA! Oficina de Projetos de Aprendizagem. Resultado de mais de 10 anos rodando o Brasil, aprendendo a ensinar. Um resumo está disponível no Youtube.

    Notas

    1. Se você pretende lidar com crianças e pré-adolescentes talvez questione a posição deles como DONOS. Afinal, eles sabem o que precisam aprender? Desconfio que, do jeito deles, sabem mais do que muitos adultos.
    2. JTBD (Jobs to be Done) é um conceito/ferramenta proposto por Clayton Christensen e articulado em vários de seus trabalhos, particularmente no último: Competing Against Luck ( HarperBusiness, 2016). Eu abuso da ideia. Tem gente que não gosta da sugestão de ver tarefas como trabalhos. Perdem a chance de tirar o máximo da ferramenta.
    3. Algumas disciplinas parecem ser essencialmente teóricas. Filosofia, por exemplo. Quer ver como uma aula de filosofia pode ser prática e divertida? Não perca a excelente série catalã Merlí, disponível no Netflix. A segunda temporada acaba de ser liberada.
    4. Outro Indiana Quilt ilustra o artigo. Também compartilhado pela Biblioteca Pública de Allen County (IN).
  • Um Professor Acidental

    Um Professor Acidental

    “Se quiser que Deus dê umas boas gargalhadas, conte a Ele os seus planos.”
    Woody Allen

    1987, terceiro ano do curso técnico em Processamento de Dados. O professor de informática divide a sala em duas e me delega todas as aulas práticas. No ano seguinte, já formado, eu tinha uma sala só minha, em outra escola. Curso noturno, com muita gente boa tão cansada quanto eu. Eu acumulava exército (tiro de guerra: 6h ~ 8h30), um trampo como programador numa empresa japonesa (9h ~ 17h) e o curso noturno. Aos domingos, pra descansar, apresentava o Clube do Rock numa rádio local.

    1993, o Brasil, como na década anterior, atravessava uma crise feia. Assumi a área de informática da Cooperativa Regional do Sul de Minas. Gerente? Que nada. O Atílio era digitador. Eu fazia todo o resto, de instalação de redes até análise e programação. E dava manutenção num legado Cobol mal escrito pra chuchu. DevOps de um homem só. De noite ia para a escola cuidar de outra turma de Processamento de Dados.

    1998, o país estava quebrado de novo. E eu precisava ganhar mais. Embarquei para Sampa, onde o salário médio era de três a quatro vezes maior do que no Sul de Minas. Dei alguns cursos de VB (que vergonha) e de Lógica de Programação (que orgulho) até arrumar um trampo como Gerente de Projetos. Foi acidente, eu era programador. Mas aquilo mudou tudo.

    2004, com um punhado de bons e maus projetos nas costas, lanço este finito. Ele nasceu para ancorar minha primeira pesquisa digna do nome: Aprendizado InterProjetos. Trabalho que foi selecionado para um evento do PMI. No ano anterior já havia palestrado no mesmo evento, falando sobre Engenharia de Requerimentos (sic¹).

    2005, encerra-se o ciclo paulistano com três anos de atraso. Tem início a “carreira solo”. Utilizando o modelo Lucro-Troco-Truco, decidi que serviços de consultoria ocupariam 70% de meu tempo (lucro). Cursos e palestras seriam o troco (20%). Como disse um colega-consultor-argentino, “nosso negócio é inviável”. E é mesmo. Em consultorias, para cada pequena vitória há um sem número de dissabores.

    2007, o FAN é lançado. Deveria ser troco – um chamariz para serviços mais polpudos. Mas aí vieram demandas da Oi, Net, Embraer, JBS Friboi, BrasilPrev, SoftPlan, Mercado Eletrônico, Linx, Gauge, Unisys e Bradesco, dentre outras. Caramba, de um porão em Varginha eu estava atendendo uma bela parcela do PIB tupiniquim! E em algumas turmas abertas cheguei a receber mais de 70 pessoas. O troco tinha virado lucro.

    2009, o FAN é incorporado a um curso de extensão da Federal de São Carlos. Alguns alunos disseram que foi “a melhor aula que já tiveram”. Um deles era mineiro, de Guaxupé, e desconfiei de nosso tradicional bairrismo. Estimulei, algum tempo depois, a adoção do Scrum para guiar todo o curso. Assim foi feito. Eu já fazia experiências similares nos meus próprios cursos.

    Aliás, foi nessa época que passei a me perguntar: Como ensinar? Aliás, como facilitar a  aprendizagem? Posso tornar o FAN e outras ofertas mais eficazes? Por que algumas turmas fluem muito bem e outras tropeçam? Não basta dominar o assunto. Nem ter uma didática aceitável. Passei a incorporar ensinamentos de Mel Silberman, Harold Stolovitch e outros². O Design Instrucional virou uma necessidade.

    2013, a complexidade crescente e a bagunça nas ruas – prenúncio de uma nova crise –  me levaram ao desenho do flit. Processo sem pressa. Afinal, era o primeiro truco³ em quase dez anos. O flit pedia por uma estrutura diferente – por algo que chamo Unidade Básica de Aprendizagem. Foi assim que descobri o Learning Object e, principalmente, o Understanding by Design®  (Design Reverso). O flit também pedia por um processo. E eu ganhei uma boa desculpa para finalmente adotar as ideias do húngaro Mihaly Csikszentmihalyi, principalmente seu Fluxo. Ele combina bem com o Scrum e outras propostas legais.

    2016, o flit não vingou (ainda). Pindorama, que surpresa, vive outra crise homérica. E uma ficha desaba: por que não vender a alma? Não a minha, mas a alma do flit. Ela é um sistema de aprendizagem completo. Por que não torná-la um produto por si só?

    Assim nasce a OPA! Oficina de Projetos de Aprendizagem. Devo confessar, temi que o novo produto parecesse um estranho no ninho finito. Até relembrar essa história toda e finalmente aceitar que, acidentalmente, estou virando um professor.

    Notas

    1. Pois é, eu ainda insistia no termo “Requerimentos”. Pouco depois, através do saudoso grupo CMM-br, aprendi que “Requisitos” era bem melhor.
    2. A bibliografia é imensa. Vou citar dois estopins: Active Training, de Mel Silberman (Wiley, 2015. Está na 4ª edição, comemorando aniversário de 25 anos!); e Telling Ain’t Training, de Harold Stolovitch e Erica Keeps (ASTD, 2011).
    3. Lucro-Troco-Truco é a versão tropicalizada do modelo 70-20-10 que, diz a lenda, guia o trabalho dos colaboradores da Google.
    4. Teaching é o título do rabisco acima. Executado e compartilhado por Daniel Friedman via flickr.