sea – finito https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br o que precisa ser feito? Tue, 22 May 2018 16:57:21 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/wp-content/uploads/2021/01/head_512x512-150x150.png sea – finito https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br 32 32 Se Apaixone pelo Problema https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2018/05/22/se-apaixone-pelo-problema/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2018/05/22/se-apaixone-pelo-problema/#respond Tue, 22 May 2018 16:57:21 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=7518 Nos dois artigos anteriores (1 | 2) tentei mostrar a necessidade de uma maior preocupação com o Domínio do Problema. Eles se concentraram no porquê. O texto de hoje ilustra como podemos nos apaixonar por problemas. A correta definição de um problema é parte do problema¹. Não é uma definição simples. Porque as diversas partes interessadas não enxergam o mesmo problema. Ou não o veem da mesma maneira. Talvez algumas nem reconheçam o problema. Isso pode ser consequência de uma organização meio biruta – sem noção do que quer. Porque o ambiente é cada vez mais incerto e dinâmico. O mais provável é que seja uma mistura disso tudo.

É certo que o jeito Ágil de pensar – com iterações curtas e feedback rápido – nos ajuda a compreender e delimitar melhor o problema enquanto desenvolvemos e entregamos a solução. Mas qual é o marco zero? Qual deve ser o nosso ponto de partida? Se a gente soubesse o quanto esse primeiro passo influencia o desenho da solução seríamos um tanto mais cuidadosos.

Qual é o problema? Por que é um problema? Quem é afetado por ele? O que está envolvido? O que pode acontecer se a gente não resolver o problema?

Desenvolver o sistema X ou o app Y; Aumentar o market share; Reduzir os custos do processo Z; Melhorar a nossa imagem; Aumentar o faturamento em tantos milhões. Nada disso é problema.

Todas as frases acima sinalizam possíveis soluções. Mas dizem muito pouco ou nada sobre o problema. Foi por isso que o pessoal da Toyota inventou o 5 Porquês. Porque geralmente precisamos de cinco enxadadas para alcançar a raiz do problema.

Tratar a ferramenta 5 Porquês como guia para uma entrevista 1:1 é um desperdício e tanto. Porque ela só prova todo o seu potencial quando é combinada com outras ferramentas em uma Investigação Sistêmica². Este processo de descoberta deve envolver o maior número possível de interessados, interesseiros e encrenqueiros. Todos juntos no mesmo lugar. As respostas para cada porquê se desdobram em potenciais componentes do verdadeiro problema.

É um engano relativamente comum entender o Pensamento Sistêmico como uma forma de “ver o todo”. Ver o todo é só uma PARTE desse jeito de pensar. Se vemos só essa parte, perdemos o TODO do Pensamento Sistêmico.
(A recursividade é intencional. Na dúvida, releia o parágrafo).

Uma Rica Fotografia

Orientados pela ferramenta 5 Porquês podemos desenvolver uma Rica Fotografia (Rich Picture, no original em inglês). Esse modelo vem de uma das diversas propostas do Pensamento Sistêmico, a Soft Systems Methodology (SSM), de Peter Checkland. A fotografia é rica porque apresenta o contexto em toda a sua riqueza de diversidade, estrutura, relacionamentos e pontos de vista. DSRP: Distinções | Sistemas | Relacionamentos | Perspectivas. São as quatro regras que, em conjunto, nos ajudam a enxergar e compreender o mundo como ele realmente funciona. Ou seja, nos ajudam a pensar sistemicamente.

Devemos evitar a definição prévia do tipo de fotografia que queremos. Processos ou cadeias de valor não são indicados porque restringem, logo de partida, a forma como vemos o problema. Além disso, passa da hora da gente entender que esse jeito linear de criação de valor não é onipresente, muito pelo contrário. Enfim, a Fotografia Rica deve nascer sem moldura, grades ou guias. As fronteiras e a lógica do modelo devem emergir. Partimos do problema como apresentado na primeira vez – mesmo que seja um simples “precisamos de um app” – e perguntamos: Por que precisamos de um app?

As discussões em torno das respostas nos permitem identificar as partes envolvidas e as relações entre elas. A classificação dos relacionamentos – forte, fraco, direto, indireto, entrada, saída, colaborativo, conflituoso, rápido, devagar etc – enriquece a fotografia. Parte da fotografia pode ser capturada na forma de um Mapa Causal (CLD – Causal Loop Diagram). Assim o modelo fica com um jeito de filme – ganha dinâmica.

Como essa fotografia é produto de um processo colaborativo, é de se esperar que ela capture diversos pontos de vista. Condenamos o processo e o ambiente se alguma perspectiva for favorecida ou ignorada. Se uma pessoa chave não puder participar, adie o encontro. Aliás, a falta de agenda pode ser um sinal de que o problema não é assim tão relevante. Pelo menos, não para aquela pessoa.

Um subproduto desejável da elaboração da Rica Fotografia é uma igualmente rica análise dos stakeholders (ou partes interessadas). Em uma única reunião somos apresentados não apenas às pessoas envolvidas (holders) mas também ao seu grau de envolvimento, aos seus pontos de vista e interesses (stakes). Isso é de suma importância em qualquer iniciativa porque, como ensinou Gerald Weinberg em The Secrets of Consulting (McGraw-Hill, 1985), “a despeito do que o cliente possa lhe dizer, sempre existe um problema. Não importa o que pareça a princípio, o problema é sempre com as pessoas”.

A bola chega redonda para DeMarco e Lister, que em Peopleware (Makron Books, 1990) emendam: “os principais problemas de nosso trabalho não são de natureza tecnológica mas sim sociológica”.

Conclusão

Vale a pena repetir sempre: não é o modelo; não se trata do entregável (sic). É o processo de elaboração que nos interessa. São as conversas que importam. É a criação de uma visão compartilhada do problema o que buscamos. Isso, por si só, fará você se apaixonar pelo problema? Talvez não. A sugestão aqui apresentada deve te deixar mais íntimo do problema. E problemas, assim como as pessoas, podem nos decepcionar quando desnudados. O que fazer com essa desilusão é outra conversa.

Que não será a próxima. Se hoje apresentei uma sugestão para tratar de um problema interno e específico, no próximo artigo eu pretendo falar sobre problemas externos e gerais – problemas que nos motivam a criar produtos ou serviços. Desconfio que eles sejam um tanto mais atraentes. Veremos.

Notas

  1. Gerald Weinberg? Russell Ackoff? Tantos já falaram sobre isso que fica difícil decidir a quem creditar aquela frase.
  2. Como eu queria que a gente tivesse adotado em português um termo bastante comum entre os pensadores sistêmicos: Inquiry – investigação, pesquisa. É bem melhor que análise, descoberta e exploração. Porque explica melhor o trabalho que realizamos.
  3. Heart-it foi compartilhada por The ReflexMan no flickr.
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O Buraco Comum https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2018/05/16/o-buraco-comum/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2018/05/16/o-buraco-comum/#respond Wed, 16 May 2018 12:34:48 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=7486 Não importa se é um bug ou característica programada. O fato é que os métodos e frameworks mais populares – particularmente Scrum e Kanban – tropeçam no mesmo buraco. Apesar de suas imensas diferenças, essas propostas são omissas ou relapsas no mesmo ponto. No distante 1986 Fred Brooks nos alertou¹:

“A correta definição do que precisa ser feito é a etapa mais difícil do desenvolvimento de sistemas. Nenhuma outra compromete tanto um projeto quando mal executada. E nenhuma é mais difícil de ser corrigida.”

O que fizemos de lá para cá?

  • Distorcemos todos os currículos relacionados com a formação de engenheiros e analistas de sistemas. Enfatizamos o domínio da solução – programação e mais programação – em detrimento do domínio do problema.
  • Mas a Academia, apressada, estava apenas seguindo o mercado. Um mercado que inventou, em meados dos anos 1990, um tal de analista-programador. Isso tem reflexos negativos até hoje. Basta ver a reincidência de um álibi fajuto: “o cliente/usuário nunca sabe o que quer”. Quem aprendeu a perguntar? Quanta ajuda o cliente/usuário tem merecido?
  • De repente, ganhamos Agilidade. Com muitas propostas que parecem ser “do desenvolvedor, pelo desenvolvedor, para o desenvolvedor”. A coisa só piorou.
  • E tocou o fundo do poço quando alguém acreditou que um Business Model Canvas –  uma cortina feita de papel sulfite – seria capaz de esconder aquele imenso buraco.
  • Oras, e se o buraco for apenas uma hipótese? Vamos todos fingir que o buraco não existe; Ou é parte da decoração; Ou é a opinião de alguém.
  • Por fim, se o tal Upstream Kanban pretende, ainda que parcialmente, tratar do domínio do problema, então ele não pode começar se apresentando como um “processo de triagem”. Que vai da síntese para a análise? Fixando CONWIPs?!?²

A Acusação Comum

Um efeito esquisito do movimento Ágil, que contradiz sua intenção de ser Sistêmico, é a percepção generalizada de que tudo o que não é construção é desperdício. James Coplien e Gertrud Bjørnvig reclamam disso em Lean Architecture (Wiley, 2010). Peter Morville, falando de Arquitetura de Informações, relata o mesmo problema (Intertwingled, 2014). E o que dizer da Análise de Negócios? Que ela deu um tiro no pé quando publicou uma Extensão Ágil. Confessou uma culpa que não deveria ter. Pau que nasce torto…

A acusação ficou chique e mereceu até sigla: BDUF (Big Design Up Front). É importante destacar que a acusação não é vazia. É preciso lembrar o contexto que motivou o Manifesto Ágil. Era comum, naquele tempo, um mal conhecido como Analysis Paralysis. A burocracia emperrava pacas. Projetos entregavam bulhufas.

A diferença entre o remédio e o veneno é o tamanho da dose. Erramos a mão e criamos outro mal, a Agile Death Spiral. Sprints sem fim ou fins. Pivots mil. Um desastrado foco na eficiência que ignora o primordial: ao fazer a coisa errada do jeito certo, só estamos acelerando rumo ao desastre.

Entre a cascata congelada no tempo e o pós-moderno ciclone da morte deve haver um caminho.

Equilíbrio

A sugestão do Yin-Yang é de Peter Morville, no livro já citado. A imagem combina bem com a matriz apresentada no artigo anterior. Que esteja subentendida a necessidade de iterações. O ícone também informa que há construção nos momentos iniciais. E que não é proibido rever o problema e repensar os planos nos momentos seguintes.Esse equilíbrio bem zen seria perfeito se o alerta do Brooks não continuasse verdadeiro: aquela primeira metade (escura) é a mais crítica para o sucesso de um projeto ou produto. Mas ela não existe no Scrum, por exemplo³. O que nos levou a entender que bastaria puxar para o domínio do problema o mesmo esquema utilizado no domínio da solução. Vêm daí os sprints 0, -1 etc. Essas iterações podem ser úteis para a realização de spikes (experimentos), configuração do ambiente e coisas do tipo. Mas não têm nada a ver com o domínio do problema. O que é conhecido como grooming também não.

Sprints com duração fixa de uma, duas ou quatro semanas fazem muito sentido nos trabalhos de DESENVOLVIMENTO e ENTREGA. Mas viram camisas de força nos trabalhos de DESCOBERTA e EXPLORAÇÃO. Nesses momentos, é comum a necessidade de cinco ou dez iterações em uma única semana. Marty Cagan, em Inspired (Wiley, 2017) fala em até vinte iterações. Jake Knapp, em Sprint (Intrínseca, 2016), nos mostra um ciclo completo acontecendo em uma semana. Enfim, a variedade aqui é grande. E necessária.

O Design Thinking nos oferece ampla variedade de métodos e ferramentas para o Domínio do Problema. Não foi por outro motivo que Jonny Schneider, da Thoughtworks, propôs a seguinte combinação:

  • Design Thinking: para explorar o problema
  • Lean: para construir a coisa certa
  • Agile: para construir do jeito certo

Legal. Mas o Manifesto Ágil não fala em eficácia logo no seu primeiro princípio? As propostas Lean não parecem preocupadas com eficiência? O Design Thinking não tem o que contribuir para o domínio da solução? A ideia do Schneider é promissora. A mensagem “Lean E Agile” ao invés do OU é correta. Mas a divisão de responsabilidades proposta acima não faz o menor sentido. 

Acho que nós precisamos de outro enfoque, mais amplo e inclusivo. Precisamos de um modelo que incorpore, sem puxadinhos, uma legítima preocupação com o domínio do problema. Que faça a gente “se apaixonar pelo problema, não pela solução“.  Bom tema para o próximo artigo.

Notas

  1. No artigo No Silver Bullet, transformado em capítulo da edição comemorativa de The Mythical Man-Month (Addison-Wesley, 1995). Este trabalho, lançado originalmente em 1975 (!), acaba de ganhar nova edição em pt-br: O Mítico Homem-Mês (Alta Books, 2018). Parafraseando Brooks: a longevidade desse livro atesta que a gente continua caindo nos mesmos buracos…”
  2. São algumas sugestões apresentadas por Patrick Steyart em Essential Upstream Kanban.
  3. Que fique claro: não se trata de um bug do Scrum. A omissão é intencional. E só vira um problema se a gente a ignorar. Ou, pior ainda, se a gente esticar o Scrum para cobrir o buraco.
  4. Se apaixone pelo problema, não pela solução” é uma das dicas de Marty Cagan em Inspired (Wiley, 2017).
  5. hole in the wall é o título da óbvia imagem de hoje.
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Checkup Ágil – Parte II https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2018/05/11/checkup-agil-parte-ii/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2018/05/11/checkup-agil-parte-ii/#respond Fri, 11 May 2018 13:18:28 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=7474 Como nós criamos e entregamos valor? Na primeira parte deste checkup nós conversamos sobre eficácia. Agora o tema é eficiência: criar e entregar valor do jeito certo. Como trabalhamos? Nosso método realmente ajuda? Calma, não é mais uma comparação entre Scrum e Kanban. Até porque ambos tropeçam no mesmo lugar.A essência de nossos trabalhos é criar valor eliminando problemas. Nossos projetos, produtos e serviços são desenvolvidos para isso. A visão curta – imediatista, mecanicista e reducionista – nos leva a resolver problemas. Quase sempre isso redunda em paliativos e efeitos não previstos nem desejados. Ou seja, em mais problemas. Isso pode até ser um meio de vida: receitas recorrentes, como não? Pode ser um sonho para quem vende horas. E um caro e merecido pesadelo para quem as compra. Mas isso não pode ser a intenção de quem se propõe verdadeiramente Ágil.

Entre todos os grandes pensadores sistêmicos, Ackoff foi o mais incisivo¹: devemos dissolver problemas. Devemos redesenhar o sistema de forma a evitar reincidências e efeitos negativos. O Pensamento Sistêmico nos dá essa visão privilegiada: de longo alcance, inclusiva e obrigatoriamente atenta à dinâmica das relações entre todos e tudo o que está envolvido em dada situação.

O mundo Ágil, através de livros e propostas, gosta de apontar o Pensamento Sistêmico como uma de suas bases. É uma pena que, quase sempre, tal referência se limite a um capítulo ou nem isso². Pior ainda é quando o Pensamento Sistêmico é interpretado através de uma visão curta. Vira mera etiqueta que tenta dar ares de coesão e coerência para ideias frouxas. Nesses casos é sempre bom relembrar a Lei de Durden.

Retomando: como criamos e entregamos valor? Como trabalhamos? Estamos de fato dissolvendo problemas? Ou simplesmente criando outros?

Método

O Design Thinking, também derivado do Pensamento Sistêmico, foi feliz ao escolher um losango como representação de um jeito de pensar e eliminar problemas. E muito desastrado quando resolveu trocá-lo por um squiggle. Sigamos com o losango. Na primeira metade temos a compreensão. Na outra, criação. Na primeira metade criamos opções. Na outra, tomamos decisões. Convenhamos, isso é tão antigo quanto andar para a frente. O que o mundo do design nos deu foi uma imagem e termos sofisticados: movimento divergente, movimento convergente. No fundo isso é, sempre foi e sempre será uma sequência de ANÁLISE e SÍNTESE. Necessariamente nessa ordem³.O losango perde sua utilidade quando nos deparamos com dois problemas. Primeiro: esse pensamento é linear. Os problemas que justificam os nossos salários e lucros não são eliminados assim. Eles pedem por iterações porque, como humanos, a chance de acertarmos na primeira tentativa é quase nula. Uma imagem bem melhor é a do semi círculo ornamentado por uma seta que aponta para o início e diz: vamos experimentar, aprender e tentar de novo. E de novo…

O segundo problema é a necessidade de uma segunda dimensão. Um eixo que nos permita separar o que é CONCRETO do que é ABSTRATO. Dados, fatos, pessoas e soluções são coisas concretas. Ideias, hipóteses, opções, oportunidades e experimentos são abstrações. Acabamos de ganhar mais uma matriz 2×2.Quase todos os frameworks e métodos propostos nas últimas décadas apresentam, em seus próprios termos, a visão acima. O que não se encaixa ali é o jeitão antigo – linear, mecanicista e reducionista – de fazer as coisas. Até o ciclo PDCA (Plan-Do-Check-Act), por exemplo, não combina. Apesar de suas origens sistêmicas e, como tal, ser iterativo. OODA (Observe-Orient-Decide-Act), por sua vez, se encaixa perfeitamente. Se uso outros nomes é para aproximar o modelo de nosso contexto. OODA foi sugerido por um piloto de caças.

Talvez alguém queira apontar a coincidência dos quadrantes acima com aqueles do Cynefin: Descoberta é Caótica, Exploração é Complexa, Desenvolvimento é Complicado e a Entrega é Simples. A coincidência é feliz. Aliás, esse caminho seria feliz… se não fosse equivocado. Se o problema que pretendemos resolver é complexo, ele não deixa de sê-lo só porque se encontra em outro momento (quadrante) daquele ciclo.

No próximo artigo nós vamos esticar esse papo. E ver como Scrum, Kanban e derivados compartilham problemas semelhantes. Agora é hora de uma segunda rodada de nosso autoexame.

Autoexame

Como a sua organização CRIA e ENTREGA valor?

  • O trabalho executado no lado esquerdo do diagrama acima obedece ao mesmo ritmo e às mesmas restrições daquele que é executado no lado direito? As Sprints têm a mesma duração nesses dois hemisférios?
    Obs.: aos adeptos do Kanban deixo minha desconfiança de que o que chamo de lados esquerdo e direito são, respectivamente, o que vocês tratam como upstream e downstream Kanban. Mas vem coisa nova por aí, um tal Discovery Kanban. O nome não é mera coincidência. A necessidade, tardia, parece óbvia.
  • Você usa sprints 0, -1 e afins para tentar entender o problema?
  • Como são iniciados os seus projetos? Com Histórias de Usuários? Com hipóteses? Com planos?
  • Todas as hipóteses se tornam experimentos?

Qualquer SIM não é bom sinal.

Notas

  1. Dois trabalhos sintetizam bem as propostas de Russell Ackoff: Ackoff’s Best (Wiley, 1999) e, para os apressados, Differences that Make a Difference (Triarchy Press, 2010).
  2. Craig Larman e Bas Vodde vão um pouco além de um capítulo em Scaling Lean & Agile Development (Addison-Wesley, 2009) e Large-Scale Scrum – More with LeSS (Addison-Wesley, 2017). O mesmo pode ser dito sobre Managing the Design Factory (Free Press, 1997) e The Principles of Product Development Flow (Celeritas, 2009) ambos de Donald Reinertsen. No entanto, para perceber a aplicação do Pensamento Sistêmico como um todo e no todo (e como é estranho escrever isso) vale a pena ler The Journey to Enterprise Agility: Systems Thinking and Organizational Legacy (Springer, 2017) de Daryl Kulak e Hong Li.
  3. Aquela frase não seria necessária caso eu não tivesse me deparado com Essential Upstream Kanban, de Patrick Steyart. O cara tá falando que a síntese antecede a análise?!?
  4. 4 Windows, compartilhada por gmahender no flickr, ilustra este artigo.
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Histórias de Valor e Outros Contos https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2018/05/09/historias-de-valor-e-outros-contos/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2018/05/09/historias-de-valor-e-outros-contos/#respond Wed, 09 May 2018 11:47:39 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=7460 Bons produtos e projetos não começam com hipóteses. Sua pedra fundamental é o correto entendimento dos objetivos – do valor que devem gerar. Histórias de Valor ajudam a descobrir e descrever essas informações. Elas dão sentido ao roteiro de trabalho (roadmap e backlogs) e facilitam a contagem das realizações e de outras histórias.As Histórias de Valor, como vimos no artigo anterior, usam o formato clássico das Histórias de Usuários:

Como <organização> precisamos <criar algo> para <realizar tais objetivos>

Como finito eu preciso retomar as conversas com a comunidade Ágil para viabilizar algumas turmas da oficina FDP³.

Histórias de Valor tapam um buraco meio desconcertante dos métodos ágeis. Nessas propostas utilizamos dois catalisadores de informações nas interações com clientes e usuários: Histórias de Usuários e Épicos. Recentemente começamos a falar sobre Job Stories. Suas diferenças estão fora do escopo deste artigo¹. O que essas ferramentas não explicam é a motivação para aquele projeto ou produto. Afinal, mirando o todo, qual e quanto valor pretendemos gerar?

Você pode dizer que estamos reinventando rodas. Afinal, já temos ferramentas com esse fim: Business Cases, Project Charters, Documentos de Visão e por aí vai. O grande problema é que esses documentos são de outra era. Repare, são documentos. Por simpáticos que sejam, trazem consigo a pesada bagagem do mundo cascata. É o mesmo problema do termo requisito, por exemplo. Agregar o sobrenome “Ágil” não anula seu histórico. Quando o Scrum chegou com novos nomes – Product Owner, ScrumMaster, Sprints – foi exatamente para evitar qualquer mínimo vínculo com os métodos e modelos que pretendíamos abandonar.

História de Valor não é um documento. É um catalisador. Repito o termo. É importante explicá-lo. Catalisador, segundo nosso dicionário, é “o que estimula ou dinamiza”. Histórias, em métodos ágeis, têm essa finalidade. São o exato oposto dos documentos. Estes servem para encerrar discussões. Histórias estimulam discussões. São dinâmicas. Se prometemos receber mudanças de braços abertos, é importante que nossas ferramentas incentivem e facilitem isso.

Mapa e Bússola

Joi Ito e Jeff Howe, no excelente Whiplash², colocam que nesses novos tempos a bússola é mais importante que os mapas. O mapa é um plano. A bússola, direção. O Manifesto Ágil, em outras palavras, afirma o mesmo desde 2001: “Responder a mudanças mais do que seguir um plano”. Mas as nossas respostas não podem variar como uma biruta. Qual é a nossa bússola? As motivações expressas em cada História de Valor.

Não dispensamos os mapas. Eles seguem importantes. Mas não fazem muito sentido sem a bússola. Jeff Patton presta um serviço ímpar em User Story Mapping (O’Reilly, 2014). Ele repete, sempre que necessário, que um bom mapa de histórias é orientado por resultados. O único defeito do livro é não definir uma forma para a representação desses resultados. Histórias de Valor servem para isso. Com a vantagem de respeitar o padrão utilizado em todo o mapa.

Na Prática

A primeira coisa é não confundir Histórias de Valor com Épicos. Estes são histórias aguardando detalhamento e a inevitável quebra em mais histórias. Épicos podem representar módulos de um sistema ou funções extensas. Histórias de Valor, por outro lado, representam o negócio. Ou, melhor dizendo, um resultado esperado pelo negócio. Se esse resultado depende de uma ou mais funcionalidades – de uma ou mais histórias de usuários ou épicos – não interessa. Aliás, uma história de usuário pode colaborar em diversas Histórias de Valor. Mas ela só pode pertencer a um épico.

Histórias de Valor são o ponto de partida de qualquer produto ou projeto. Pegamos a bússola, descobrimos a direção e só então desenhamos um mapa (ou roteiro – roadmaps, Mapas de Histórias e backlogs). Por óbvio que isso soe, quantas vezes você testemunhou um projeto sendo iniciado a partir de Histórias de Usuários? Essa carroça bem adiante dos bois, infelizmente, é um mal recorrente. E causa principal de nossos problemas.

Histórias de Valor não são atômicas. Elas podem ser quebradas de forma a representar uma hierarquia de objetivos e metas. É normal que um projeto tenha algo entre cinco e dez Histórias de Valor. Essa organização facilita a elaboração de um Mapa de Histórias. Mais que isso: facilita o monitoramento dos resultados obtidos. E também pode ser registrada na forma de OKRs ou LogFrames. Pense na possibilidade: o Mapa de Histórias é o detalhamento de um ou mais OKRs. Cada entrada no OKR é uma História de Valor.

Hipóteses, de novo…

No artigo anterior critiquei a definição de Valor para o Negócio apresentada por Mark Schwartz em The Art of Business Value (IT Revolution Press, 2016). Ele escreveu que o Valor para o Negócio é “uma hipótese formulada pela liderança sobre a melhor maneira de realizar os grandes objetivos da organização”. A História de Valor nos livra dessa armadilha. O que escrevemos na frente do para não é uma hipótese. É um objetivo claro e devidamente quantificado³. É o Valor para o Negócio. A hipótese existe, mas está em outro lugar: na descrição do que nós precisamos.

Essas confusões entre o QUE e o COMO e a perigosa mania de tratar tudo como hipótese vão merecer mais conversas. No próximo artigo, a segunda parte de nosso Checkup Ágil, volto a puxar o assunto.

Notas

  1. Neste artigo do Fabrício Teixeira há uma bela comparação entre User Stories e Job Stories.
  2. Em pt-br esse livro mereceu o terrível título “Disrupção e Inovação” (Alta Books, 2017). Por isso temo pela qualidade da tradução. Falo um pouco mais sobre ele neste artigo.
  3. O exemplo com a FDP³ não representa um bom uso da História de Valor porque não se compromete com números. “Algumas turmas” é ambíguo demais para ser aceito em qualquer contexto ou projeto. O exemplo é interesseiro – vendi meu peixe sem meias palavras.
  4. A foto utilizada neste artigo foi compartilhada por Martin P. Szymczak no flickr.
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Checkup Ágil https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2018/05/07/checkup-agil/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2018/05/07/checkup-agil/#respond Mon, 07 May 2018 12:21:24 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=7435 Como um médico sádico vou perguntar onde dói e dar repetidas cutucadas ali. Não me leve a mal. Se você está no início de uma Transformação Ágil ou brigando com seus fins e meios, é bom saber o quão saudáveis estão você, seu time e sua organização. Como estão os seus sinais vitais? Aliás, você sabe quais são eles?

Valor

O Manifesto Ágil diz que a “nossa principal prioridade é satisfazer o cliente através da entrega adiantada e contínua de software de valor”. Fica por nossa conta descobrir o que significa software de valor. E entender que existem mais valores em jogo: há o VALOR PARA O CLIENTE, claro, mas não podemos ignorar o VALOR PARA O NEGÓCIO e o possível VALOR PARA O TIME. Mais que isso, é crucial entender as relações entre esses valores.

Apesar das diversas e desastradas manifestações ao contrário¹, VALOR é o nosso mais importante sinal vital. Mas, como vimos, não há um valor único. Muito menos um entendimento compartilhado sobre o que ele significa. Vamos por partes.

Valor é a medida da importância de algo. Até que ponto aquilo que vale para o seu negócio (departamento ou time) é valorizado pelo seu cliente (ou usuário)? Convenhamos, há poucas chances de acordo ou coincidência. Por isso não devemos confundir VALOR PARA O NEGÓCIO com o VALOR PARA O CLIENTE e/ou USUÁRIO. Cada um puxará a sardinha para o seu lado. Todos repletos de razão.

O que significa VALOR PARA O NEGÓCIO? Mark Schwartz, em The Art of Business Value (IT Revolution Press, 2016), escreve que o valor para o negócio é “uma hipótese formulada pela liderança sobre a melhor maneira de realizar os grandes objetivos da organização”. Hipótese? Está aqui um terrível legado da moda Lean Startup: parece que tudo virou hipótese. O que tem valor para você é apenas uma hipótese? Duvido. Mas, como comprova o livro do Schwartz, quanto mais pessoas envolvemos, mais esse papo sobre valor fica variado, estranho e difícil.

Donald Reinertsen (em Managing the Design Factory – Free Press, 1997) tem uma navalha para cortar toda essa variedade: “somos apenas filósofos enquanto não começamos a usar números”. Então, vamos aos números!

Números

Como você mede e apresenta o VALOR PARA O NEGÓCIO? Quais números fazem mais sentido? ROI (Retorno sobre o Investimento) e NPV (Valor Presente Líquido), por exemplo, são proxies que se sustentam em previsões. Nós humanos não somos muito bons nisso, em fazer previsões. Segundo Schwartz, “ROI e NPV são o waterfall do mundo financeiro”. Ainda mais importante: o cálculo de ambos, ROI e NPV, exige um numerador que é a representação do valor. Oras, então por que não nos contentamos com ele?

O uso do Custo do Atraso (CoD – Cost of Delay) é defendido por Reinertsen e Schwartz. Mas ele também depende de uma definição prévia do Valor. Se não sabemos quanto vale, como podemos afirmar ou ao menos prever o custo de seu atraso? Estamos andando em círculos?

ROI, NPV, CoD e afins representam hipóteses. Carregam incertezas e podem, dependendo do nível de sofisticação, dificultar a comunicação entre os envolvidos em determinada iniciativa. Não pretendemos filosofar. Mas que valor tem uma sequência de cálculos que poucos entendem? É sempre bom relembrar o décimo princípio do Manifesto Ágil: “Simplicidade: a arte de maximizar a quantidade de trabalho que não precisou ser feito.” Conseguimos exprimir o VALOR PARA O NEGÓCIO de forma simples e direta?

Histórias de Valor

Como a Natureba S/A
nós precisamos de um app que permita que as nossas consultoras registrem e transmitam pedidos em tempo real
para encurtar o ciclo de vendas em 50% e cortar algo entre R$15M e R$25M dos custos anuais de processamento de pedidos.Como a Webchuteira LTDA
nós precisamos de um programa de fidelidade vinculado aos sistemas sócio-torcedor dos grandes clubes nacionais
para aumentar o nosso market share em 40% e o faturamento em, pelo menos, R$100M no próximo ano.Não é curioso que essa proposta simples, derivada do formato clássico das User Stories, seja tão pouco conhecida? Aliás, por favor, não se apegue ao formato. O importante aqui é o que essas histórias nos contam. Conversaremos mais sobre isso no próximo artigo. Porque agora é um bom momento para um autoexame.

Autoexame

Você e seu time sabem quanto VALOR estão criando e entregando?

Se sim:

  • Esse entendimento é compartilhado por todas as pessoas envolvidas?
  • A sequência do roteiro (roadmap e backlogs) reflete nitidamente essa preocupação com a entrega antecipada e contínua de valor?

Se não:

  • O que diabos está orientando as milhares de decisões que vocês tomam todo santo dia?

Notas & Esculachos

  1. D’ A Startup Enxuta, de Eric Ries (Leya, 2012), ganhamos essa perigosa e triste mania de achar que tudo é hipótese.
  2. De Jeff Sutherland, cocriador do Scrum, herdamos o peso da promessa do título de seu último livro: A Arte de Fazer o Dobro do Trabalho na Metade do Tempo. O sonho dos tayloristas deveria ser o pesadelo dos agilistas. Afinal, estes se comprometeram com outra arte, a de “maximizar a quantidade de trabalho que não precisou ser feito”.
  3. No Kanban, de David Anderson (Blue Hole, 2010), aprendemos uma “Receita de Sucesso” que só permite conversar sobre VALOR no penúltimo passo de um total de seis. Orientado por uma mentalidade que não tem muito a ver com o trabalho criativo, o último passo da tal receita ainda pede que “ataquemos as fontes de variabilidade”. Não surpreende que o mesmo autor ressuscite agora uma conversa sobre Modelos de Maturidade. O Kurt Cobain vem junto? No carro preto do Ford? Nevermind
  4. Stickynotes, de Martijn Veening, ilustra este artigo.
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