Russell Ackoff – finito https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br o que precisa ser feito? Fri, 28 Aug 2020 14:26:33 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/wp-content/uploads/2021/01/head_512x512-150x150.png Russell Ackoff – finito https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br 32 32 O Quão Ferrados Estamos? https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2020/08/28/o-quao-ferrados-estamos/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2020/08/28/o-quao-ferrados-estamos/#respond Fri, 28 Aug 2020 14:26:33 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=9179 Tempo de espera. Tempo de ciclo. O dobro do trabalho na metade do tempo. Nenhuma dessas preocupações é nova. Elas estavam com Ford e Taylor lá no início do século passado. Também acompanharam Taiichi Ohno, um dos pais do Sistema Toyota de Produção, por toda a sua vida. Já velhinho, perguntado sobre o que estava fazendo, ele respondeu¹: “pensando em maneiras de reduzir o tempo gasto entre o pedido colocado pelo cliente e o tilintar do dinheiro entrando no caixa”. Essa pressa não disfarçada é vício antigo. A Ideia Ágil não tem nada a ver com isso.

Robert ‘Uncle Bob’ Martin gasta um tempinho em seu Clean Agile (Pearson, 2020) para nos lembrar:

“Algumas pessoas acham que Agile é sobre ir mais rápido. Não é. Nunca foi. Agile é sobre saber, o quanto antes, o quão ferrados estamos.” 

Saber, o quanto antes, o quão ferrados estamos. Esse é o espírito da coisa Ágil. Pragmático e poético como ele só. Na Toyota há um mecanismo que ilustra bem essa atenção com as más notícias. É a Corda Andon, que pode – deve! – ser puxada por qualquer pessoa que veja qualquer problema na linha de produção. O acionamento da corda simplesmente para tudo. Ela funciona bem em um fluxo linear, previsível pra chuchu e de baixa variabilidade. Ou seja, funciona em fábricas. Uma versão adaptada da corda funcionaria em um contexto não linear, cheio de incertezas e dependente de variedade? É pouco provável.

Ainda que a gente faça de conta que as nossas burocracias não detestam más notícias. Ainda que todos trabalhemos em ambientes psicologicamente seguros onde as cagadas são recebidas sem choro nem vela, sem chiliques nem berros. Ainda assim, qual é a chance de nossas organizações ou times desenvolverem um reflexo que simplesmente pare tudo quando se deparar com um problema? 

Um reflexo é automático, inconsciente e inconsequente. Apesar de mirar isto, funcionar como se fosse um reflexo, o acionamento da corda Andon é uma reação. É um hábito que precisou ser treinado. Ainda mais lentas que as reações são as respostas. Porque elas sempre significam um esforço consciente, uma tomada de decisão. Respostas requerem o uso do nosso lento e preguiçoso Sistema 2².

Uma típica instância Ágil dedica pelo menos três cerimônias para a celebração das más notícias: a Diária, a Revisão e a Retrospectiva. Nenhuma delas aparenta a ambição de ser um reflexo ou pelo menos um reação. São respostas e isso não é necessariamente ruim. Desde que a gente saiba que:

  • Diária: é totalmente desnecessária quando o time coopera de verdade. Por favor entenda que POs, ANs e/ou outros representantes do negócio são parte indissociável de um time. De uma maneira ou de outra, tratar as Dailys como se fossem um tipo de prestação de contas para um cliente ou gerente é desvirtuar sua intenção original: saber o quão ferrados estamos ou podemos ficar. Quando um time de fato co-opera, os problemas e riscos pipocam na cara de todos, dispensando um evento ou comunicação formal. O distanciamento de membros ou pares pode justificar a realização das Diárias. Ainda assim, é bom entender que má notícia que se preze não pode e não vai esperar pela manhã seguinte.
  • Revisão: Encontro periódico que deveria envolver o maior número possível de interesses. Na Revisão nós validamos a eficácia do time, ou seja, se ele está fazendo a coisa certa. Tem potencial para se transformar em um festival de saias justas se este for o único momento da iteração ou sprint em que a turma do negócio vê a evolução de sua cria. Tanto pior se a experiência se resume à uma demo pilotada por devs. O time, neste encontro, deveria ser a parte passiva. O comando da festa deve ficar com quem está pagando. Enfim, a Review deveria ser uma celebração totalmente livre de surpresas. Isso só vai acontecer se a patota de negócios interagir diariamente com o time e o produto. Testando – ou seja, gerando más notícias. Todo santo dia.
  • Retrospectiva: Tem má notícia que a gente só entende plenamente em retrospecto, depois de um certo tempo. Com calma é possível avaliar causas e efeitos. É por isso que todos os times, particularmente os piores, merecem um refresco recorrente chamado Retro. É um momento de reflexão, quando o time avalia a sua eficiência, ou seja, se ele está trabalhando do jeito certo. A gente sabe, ele nunca está! Sempre, sempre haverá algo para melhorar. Uma boa retrospectiva não fica ensanduichada entre uma review e uma planning. Refresco, gente. Entre sprints, todo time merece um refresco. Senão não aprende, não melhora, e as más notícias seguirão evoluindo como bolas de neve.

PS, post-mortem

Alguém pode concluir que a reincidência desse assunto, nesta altura do campeonato, é uma prova de que estamos bem ferrados em relação ao entendimento da Ideia Ágil. Pode até ser. Mas a teimosia também pode confirmar que o assunto vale a pena, a atenção e o nosso tempo. Afinal, acho que ninguém em sã consciência quer voltar para a época em que as más notícias só circulavam formalmente, com muitos choros e velas, numa reunião chamada post-mortem

Notas

  1. Anedota contada por John Seddon no ótimo Freedom from Command and Control: Rethinking Management for Lean Service (Productivity Press, 2005). Ótimo ao ilustrar o Lean funcionando bem longe do chão de fábrica.
  2. O papo sobre reflexos, reações e respostas eu aprendi com Russell Ackoff em Differences that make a Difference (Triarchy, 2010). O preguiçoso Sistema 2 é apresentado por Daniel Kahneman em Rápido e Devagar (Objetiva, 2012).
  3. Foto de Jan Kop?iva no Unsplash.
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A Melhor Era para estar Vivo https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2020/04/21/a-melhor-era-para-estar-vivo/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2020/04/21/a-melhor-era-para-estar-vivo/#respond Tue, 21 Apr 2020 15:58:43 +0000 http://almanaque.digital/?p=410

Esta é a melhor era para estar vivo, quando quase tudo o que você pensa que sabe está errado.

– Tom Stoppard, Arcadia (1993)

Talvez seja só uma questão de vaidade. Todo mundo que já pisou aqui na Terra pode ter classificado a sua era como única, especial. No entanto, cá estamos, meio assustados e muito ansiosos, assistindo a uma combinação de crises que se desenvolve numa velocidade a cada dia mais estonteante. Isso nos permite afirmar que, sim, estamos testemunhando um momento especial da história da Terra. Para alguns, o apocalipse. Para outros tantos, uma grande mudança. Daquelas que ficarão na primeira prateleira dos livros de História. Sabe-se lá para onde estamos mudando. Segundo o dramaturgo Tom Stoppard¹, para “a melhor era para estar vivo.” Como assim? Por quê?

Porque quase tudo o que a gente pensa que sabe está errado

Não é porque um clã de filósofos pós-modernos niilistas² – contra um mundo melhor – concluiu que está tudo errado e, claro, vai dar merda. Também não é porque o tio do pavê, via whatsapp, vive insistindo que no seu tempo tudo era melhor. O buraco é mais embaixo:

“A mentalidade que nos trouxe até aqui não será suficiente para nos livrar dessa bagunça³.”

– Albert Einstein

A mentalidade – o tipo de raciocínio – que nos trouxe até aqui ganhou corpo e força no século XVIII, com o Iluminismo. Movimento que mereceu de Immanuel Kant um manifesto e um slogan: “Ouse entender!” Foi um pulinho depois do famoso e desastrado “penso, logo existo” de René Descartes. Kant:

“O Iluminismo é a humanidade deixando para trás a imaturidade autoinfligida. Imaturidade é a incapacidade de se valer do próprio entendimento sem a orientação de um outro. Esta incapacidade é autoinfligida quando sua causa não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de resolução e coragem de usá-lo sem a orientação de outra pessoa. Ouse entender! Tenha a coragem de usar o seu próprio entendimento! é, portanto, o lema do Iluminismo.”4

O Iluminismo foi um grito de liberdade sustentado nas ideias das ciências, da razão e do humanismo. O mundo nunca mais seria o mesmo. Mas…

… ao que tudo indica, parece que chegou a hora de um novo salto. Porque as ideias que nos trouxeram até aqui não são mais suficientes. Que fique claro: não se trata de jogar fora o pouco que sabemos. O desafio é preencher as imensas lacunas. E ousar questionar alguns dogmas e ideologias. Por que não? Por quê?

Porque esta é a Melhor Era para estar Vivo

Porque temos a chance de testemunhar e até de participar da criação de um novo mundo. Convenhamos, não é pouca coisa. Não esperamos por novos Adam Smith, Kant, Marx, Darwin, Diderot etc. Aliás, não esperamos por gênios solitários. Vamos entender que não dá para continuar recortando e embalando problemas de forma arbitrária e artificial: isso é economia, aquilo é saúde etc. O mundo não funciona assim. Uma visão mais inteira vai requerer múltiplos talentos e especialidades. Os novos problemas não pedem por gênios e sim por times. Por belos times indisciplinados e geniais. 

Antes, porém, é preciso entender as deficiências da mentalidade, do tipo de raciocínio que nos trouxe até aqui e que não é mais suficiente.


Notas

  1. É interessante contar a história daquela frase. Arcadia é uma peça de teatro e a provocação é dita por um professor. Stoppard foi influenciado pelo livro Chaos, de James Gleick. Este fecha o laço de feedback em edição especial do livro, dizendo que Arcadia é “a mais poderosa encarnação das ideias apresentadas .”
  2. Título de um livro de um dos principais representantes tupiniquins desse clã, Luiz Felipe Pondé (Contexto, 2018).
  3. É uma versão diferente porém respeitosa com o sentido original. O termo bagunça mess em inglês – é muito caro neste almanaque. Russell Ackoff define bagunça como um sistema de problemas. (Ackoff’s Best – Wiley, 1999).
  4. Na edição de 30/09/1784 do jornal Berlinische Monatsschrift. Tradução encontrada em O Artífice, de Richard Sennett (Record, 2009).
  5. Foto de Patrick Tomasso no Unsplash

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RenDanHeYi https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2019/03/25/rendanheyi/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2019/03/25/rendanheyi/#respond Mon, 25 Mar 2019 15:45:59 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=8707 Um pouco antes de morrer, Taiichi Ohno — o pai do Sistema Toyota de Produção — foi perguntado: o que você está fazendo? Ele respondeu: pensando em formas de reduzir o tempo gasto entre o pedido do cliente e a entrada do dinheiro¹.

Do Sistema Toyota derivamos o Lean e muito do que vemos no mundo Agile. A grande constante — obsessão? — é o tempo. Por isso falamos tanto sobre fazer o dobro do trabalho na metade do tempo, otimizar fluxos, entregar continuamente etc. Talvez tenha chegado a hora da China nos sugerir um modelo — um sistema. A obsessão é outra: espaço. E isso pode mudar bastante as nossas conversas.

Rén d?n hé y? (????), segundo o Google Translate, significa um único. Se Ohno brigava para reduzir o tempo entre o pedido e a grana embolsada, a proposta chinesa visa eliminar a distância entre o cliente e o negócio. Gary Hamel e Michele Zanini explicam assim²: “transmite a ideia de uma relação estreita entre o valor criado para o cliente e o valor recebido pelos funcionários.” É provável que aqui no ocidente a gente comece a falar em Distância Zero. A conversa já começou³.

E vem de uma maneira muito diferente da forma como iniciamos o movimento Ágil. Porque tudo na China parece superdimensionado. O RenDanHeYi nasceu grande. Hamel e Zanini estudaram a Haier, a maior fabricante mundial de eletrodomésticos. Ela tem 75 mil funcionários. Todos organizados em microempresas que têm entre 10 e 15 pessoas. Ou seja, aquele imenso dragão é um emaranhado com mais de 4 mil microempresas (MEs).

Existem apenas três tipos de MEs: usuária (200), incubação (50) e junção (3800). As primeiras estão na linha de frente, voltadas para o mercado. Em incubação ficam as novas ideias e apostas (startups, como queira). As junções (nodes) são contratadas — e demitidas — pelas outras duas. Elas representam todo o resto da organização: vendas, design, manufatura, apoio (RH, contabilidade, TI etc). O artigo de Hamel e Zanini detalha os sete fatores que fazem o modelo funcionar. Não vou chover no molhado².

Coincidências Felizes

O modelo, por querer, lembra a Web. São diversas partes pequenas fracamente acopladas e organizadas em plataformas. Existem apenas dois níveis hierárquicos entre as MEs e o CEO. O que sugere bastante autonomia e alinhamento. A organização é fractal e a existência de um sistema 4 de verdade — as MEs de incubação — deixaria Stafford Beer feliz da vida. Não apenas por isso, mas principalmente porque parece que a Haier entende e aplica a Lei de Ashby: “Só a Variedade absorve Variedade”.

Preciso repetir a primeira frase acima: o modelo da Haier copia a Web. É uma grande fábrica que não se vê em uma cadeia de valor e sim numa Rede de Valor. Tom Stewart, que inspirou este velho post, deve ter dado um sorriso sarcástico: uma fábrica funcionando como rede de valor! Dave Gray, de A Empresa Conectada (Novatec, 2013), rabiscou a diferença e riu junto.

Não há monopólios internos. As MEs usuárias nunca se tornam reféns de junções que não entregam. Elas têm total autonomia para contratar alternativas, estejam elas dentro ou fora da Haier, num desenho que deixaria Russell Ackoff muito satisfeito. Porque ele escreveu, há muito tempo, que essa seria uma característica fundamental de uma organização do século 21. Oras, se realmente acreditamos na economia de mercado, o que justifica a existência de monopólios dentro das nossas empresas?

Talvez os links dos três parágrafos anteriores apenas dedurem um viés de confirmação. Eu desconfio que eles apontam padrões que a Haier, em uma década, descobriu ou desenhou de forma empírica.

Seja como for, o fato é que a Haier não é apenas uma colcha de ideias e padrões relativamente raros. O que dá cola e sentido para todo o modelo é a sua diretriz principal, a Distância Zero. E isso é novo.

Ainda é muito cedo para dizer se este modelo será tão influente quanto o Sistema Toyota. Mas vale a pena prestar atenção³.

Notas

  1. Citação encontrada em Freedom from Command and Control, de John Seddon (Productivity Press, 2005). Se você quer ter uma visão mais prática do que significa Lean na área de serviços, este é o livro. Que apresenta outra possível coincidência: Seddon insiste bastante na proximidade com os clientes. Sua leitura do que é ser Lean, se devidamente espalhada no mundo ágil, nos teria poupado de alguns mal entendidos. Como algumas brigas contra a variedade, por exemplo.
  2. Em artigo de capa da edição de nov/18 da Harvard Business Review. A versão em inglês está disponível para leitura. Hamel e Zanini vão detalhar a proposta em Humanocracy: creating organizations as amazing as the people inside them(programado para jan/2020).
  3. Em 9/mar uma busca no Google por rendanheyi retornou 7.410 resultados. Hoje (23/mar) já são 43.300.
  4. O Six Sigma abre espaço para o Rendanheyi na GE. Artigo da Bloomberg, de 8/2/19. (Obrigado Cattai!)
  5. Ilustrei aqueles artigos de cinco anos atrás com imagens do QThomas Bower. Faz sentido manter o padrão com a bela Lemon Lime — Fractal Mosaic.
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Se Apaixone pelo Problema https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2018/05/22/se-apaixone-pelo-problema/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2018/05/22/se-apaixone-pelo-problema/#respond Tue, 22 May 2018 16:57:21 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=7518 Nos dois artigos anteriores (1 | 2) tentei mostrar a necessidade de uma maior preocupação com o Domínio do Problema. Eles se concentraram no porquê. O texto de hoje ilustra como podemos nos apaixonar por problemas. A correta definição de um problema é parte do problema¹. Não é uma definição simples. Porque as diversas partes interessadas não enxergam o mesmo problema. Ou não o veem da mesma maneira. Talvez algumas nem reconheçam o problema. Isso pode ser consequência de uma organização meio biruta – sem noção do que quer. Porque o ambiente é cada vez mais incerto e dinâmico. O mais provável é que seja uma mistura disso tudo.

É certo que o jeito Ágil de pensar – com iterações curtas e feedback rápido – nos ajuda a compreender e delimitar melhor o problema enquanto desenvolvemos e entregamos a solução. Mas qual é o marco zero? Qual deve ser o nosso ponto de partida? Se a gente soubesse o quanto esse primeiro passo influencia o desenho da solução seríamos um tanto mais cuidadosos.

Qual é o problema? Por que é um problema? Quem é afetado por ele? O que está envolvido? O que pode acontecer se a gente não resolver o problema?

Desenvolver o sistema X ou o app Y; Aumentar o market share; Reduzir os custos do processo Z; Melhorar a nossa imagem; Aumentar o faturamento em tantos milhões. Nada disso é problema.

Todas as frases acima sinalizam possíveis soluções. Mas dizem muito pouco ou nada sobre o problema. Foi por isso que o pessoal da Toyota inventou o 5 Porquês. Porque geralmente precisamos de cinco enxadadas para alcançar a raiz do problema.

Tratar a ferramenta 5 Porquês como guia para uma entrevista 1:1 é um desperdício e tanto. Porque ela só prova todo o seu potencial quando é combinada com outras ferramentas em uma Investigação Sistêmica². Este processo de descoberta deve envolver o maior número possível de interessados, interesseiros e encrenqueiros. Todos juntos no mesmo lugar. As respostas para cada porquê se desdobram em potenciais componentes do verdadeiro problema.

É um engano relativamente comum entender o Pensamento Sistêmico como uma forma de “ver o todo”. Ver o todo é só uma PARTE desse jeito de pensar. Se vemos só essa parte, perdemos o TODO do Pensamento Sistêmico.
(A recursividade é intencional. Na dúvida, releia o parágrafo).

Uma Rica Fotografia

Orientados pela ferramenta 5 Porquês podemos desenvolver uma Rica Fotografia (Rich Picture, no original em inglês). Esse modelo vem de uma das diversas propostas do Pensamento Sistêmico, a Soft Systems Methodology (SSM), de Peter Checkland. A fotografia é rica porque apresenta o contexto em toda a sua riqueza de diversidade, estrutura, relacionamentos e pontos de vista. DSRP: Distinções | Sistemas | Relacionamentos | Perspectivas. São as quatro regras que, em conjunto, nos ajudam a enxergar e compreender o mundo como ele realmente funciona. Ou seja, nos ajudam a pensar sistemicamente.

Devemos evitar a definição prévia do tipo de fotografia que queremos. Processos ou cadeias de valor não são indicados porque restringem, logo de partida, a forma como vemos o problema. Além disso, passa da hora da gente entender que esse jeito linear de criação de valor não é onipresente, muito pelo contrário. Enfim, a Fotografia Rica deve nascer sem moldura, grades ou guias. As fronteiras e a lógica do modelo devem emergir. Partimos do problema como apresentado na primeira vez – mesmo que seja um simples “precisamos de um app” – e perguntamos: Por que precisamos de um app?

As discussões em torno das respostas nos permitem identificar as partes envolvidas e as relações entre elas. A classificação dos relacionamentos – forte, fraco, direto, indireto, entrada, saída, colaborativo, conflituoso, rápido, devagar etc – enriquece a fotografia. Parte da fotografia pode ser capturada na forma de um Mapa Causal (CLD – Causal Loop Diagram). Assim o modelo fica com um jeito de filme – ganha dinâmica.

Como essa fotografia é produto de um processo colaborativo, é de se esperar que ela capture diversos pontos de vista. Condenamos o processo e o ambiente se alguma perspectiva for favorecida ou ignorada. Se uma pessoa chave não puder participar, adie o encontro. Aliás, a falta de agenda pode ser um sinal de que o problema não é assim tão relevante. Pelo menos, não para aquela pessoa.

Um subproduto desejável da elaboração da Rica Fotografia é uma igualmente rica análise dos stakeholders (ou partes interessadas). Em uma única reunião somos apresentados não apenas às pessoas envolvidas (holders) mas também ao seu grau de envolvimento, aos seus pontos de vista e interesses (stakes). Isso é de suma importância em qualquer iniciativa porque, como ensinou Gerald Weinberg em The Secrets of Consulting (McGraw-Hill, 1985), “a despeito do que o cliente possa lhe dizer, sempre existe um problema. Não importa o que pareça a princípio, o problema é sempre com as pessoas”.

A bola chega redonda para DeMarco e Lister, que em Peopleware (Makron Books, 1990) emendam: “os principais problemas de nosso trabalho não são de natureza tecnológica mas sim sociológica”.

Conclusão

Vale a pena repetir sempre: não é o modelo; não se trata do entregável (sic). É o processo de elaboração que nos interessa. São as conversas que importam. É a criação de uma visão compartilhada do problema o que buscamos. Isso, por si só, fará você se apaixonar pelo problema? Talvez não. A sugestão aqui apresentada deve te deixar mais íntimo do problema. E problemas, assim como as pessoas, podem nos decepcionar quando desnudados. O que fazer com essa desilusão é outra conversa.

Que não será a próxima. Se hoje apresentei uma sugestão para tratar de um problema interno e específico, no próximo artigo eu pretendo falar sobre problemas externos e gerais – problemas que nos motivam a criar produtos ou serviços. Desconfio que eles sejam um tanto mais atraentes. Veremos.

Notas

  1. Gerald Weinberg? Russell Ackoff? Tantos já falaram sobre isso que fica difícil decidir a quem creditar aquela frase.
  2. Como eu queria que a gente tivesse adotado em português um termo bastante comum entre os pensadores sistêmicos: Inquiry – investigação, pesquisa. É bem melhor que análise, descoberta e exploração. Porque explica melhor o trabalho que realizamos.
  3. Heart-it foi compartilhada por The ReflexMan no flickr.
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Checkup Ágil – Parte II https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2018/05/11/checkup-agil-parte-ii/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2018/05/11/checkup-agil-parte-ii/#respond Fri, 11 May 2018 13:18:28 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=7474 Como nós criamos e entregamos valor? Na primeira parte deste checkup nós conversamos sobre eficácia. Agora o tema é eficiência: criar e entregar valor do jeito certo. Como trabalhamos? Nosso método realmente ajuda? Calma, não é mais uma comparação entre Scrum e Kanban. Até porque ambos tropeçam no mesmo lugar.A essência de nossos trabalhos é criar valor eliminando problemas. Nossos projetos, produtos e serviços são desenvolvidos para isso. A visão curta – imediatista, mecanicista e reducionista – nos leva a resolver problemas. Quase sempre isso redunda em paliativos e efeitos não previstos nem desejados. Ou seja, em mais problemas. Isso pode até ser um meio de vida: receitas recorrentes, como não? Pode ser um sonho para quem vende horas. E um caro e merecido pesadelo para quem as compra. Mas isso não pode ser a intenção de quem se propõe verdadeiramente Ágil.

Entre todos os grandes pensadores sistêmicos, Ackoff foi o mais incisivo¹: devemos dissolver problemas. Devemos redesenhar o sistema de forma a evitar reincidências e efeitos negativos. O Pensamento Sistêmico nos dá essa visão privilegiada: de longo alcance, inclusiva e obrigatoriamente atenta à dinâmica das relações entre todos e tudo o que está envolvido em dada situação.

O mundo Ágil, através de livros e propostas, gosta de apontar o Pensamento Sistêmico como uma de suas bases. É uma pena que, quase sempre, tal referência se limite a um capítulo ou nem isso². Pior ainda é quando o Pensamento Sistêmico é interpretado através de uma visão curta. Vira mera etiqueta que tenta dar ares de coesão e coerência para ideias frouxas. Nesses casos é sempre bom relembrar a Lei de Durden.

Retomando: como criamos e entregamos valor? Como trabalhamos? Estamos de fato dissolvendo problemas? Ou simplesmente criando outros?

Método

O Design Thinking, também derivado do Pensamento Sistêmico, foi feliz ao escolher um losango como representação de um jeito de pensar e eliminar problemas. E muito desastrado quando resolveu trocá-lo por um squiggle. Sigamos com o losango. Na primeira metade temos a compreensão. Na outra, criação. Na primeira metade criamos opções. Na outra, tomamos decisões. Convenhamos, isso é tão antigo quanto andar para a frente. O que o mundo do design nos deu foi uma imagem e termos sofisticados: movimento divergente, movimento convergente. No fundo isso é, sempre foi e sempre será uma sequência de ANÁLISE e SÍNTESE. Necessariamente nessa ordem³.O losango perde sua utilidade quando nos deparamos com dois problemas. Primeiro: esse pensamento é linear. Os problemas que justificam os nossos salários e lucros não são eliminados assim. Eles pedem por iterações porque, como humanos, a chance de acertarmos na primeira tentativa é quase nula. Uma imagem bem melhor é a do semi círculo ornamentado por uma seta que aponta para o início e diz: vamos experimentar, aprender e tentar de novo. E de novo…

O segundo problema é a necessidade de uma segunda dimensão. Um eixo que nos permita separar o que é CONCRETO do que é ABSTRATO. Dados, fatos, pessoas e soluções são coisas concretas. Ideias, hipóteses, opções, oportunidades e experimentos são abstrações. Acabamos de ganhar mais uma matriz 2×2.Quase todos os frameworks e métodos propostos nas últimas décadas apresentam, em seus próprios termos, a visão acima. O que não se encaixa ali é o jeitão antigo – linear, mecanicista e reducionista – de fazer as coisas. Até o ciclo PDCA (Plan-Do-Check-Act), por exemplo, não combina. Apesar de suas origens sistêmicas e, como tal, ser iterativo. OODA (Observe-Orient-Decide-Act), por sua vez, se encaixa perfeitamente. Se uso outros nomes é para aproximar o modelo de nosso contexto. OODA foi sugerido por um piloto de caças.

Talvez alguém queira apontar a coincidência dos quadrantes acima com aqueles do Cynefin: Descoberta é Caótica, Exploração é Complexa, Desenvolvimento é Complicado e a Entrega é Simples. A coincidência é feliz. Aliás, esse caminho seria feliz… se não fosse equivocado. Se o problema que pretendemos resolver é complexo, ele não deixa de sê-lo só porque se encontra em outro momento (quadrante) daquele ciclo.

No próximo artigo nós vamos esticar esse papo. E ver como Scrum, Kanban e derivados compartilham problemas semelhantes. Agora é hora de uma segunda rodada de nosso autoexame.

Autoexame

Como a sua organização CRIA e ENTREGA valor?

  • O trabalho executado no lado esquerdo do diagrama acima obedece ao mesmo ritmo e às mesmas restrições daquele que é executado no lado direito? As Sprints têm a mesma duração nesses dois hemisférios?
    Obs.: aos adeptos do Kanban deixo minha desconfiança de que o que chamo de lados esquerdo e direito são, respectivamente, o que vocês tratam como upstream e downstream Kanban. Mas vem coisa nova por aí, um tal Discovery Kanban. O nome não é mera coincidência. A necessidade, tardia, parece óbvia.
  • Você usa sprints 0, -1 e afins para tentar entender o problema?
  • Como são iniciados os seus projetos? Com Histórias de Usuários? Com hipóteses? Com planos?
  • Todas as hipóteses se tornam experimentos?

Qualquer SIM não é bom sinal.

Notas

  1. Dois trabalhos sintetizam bem as propostas de Russell Ackoff: Ackoff’s Best (Wiley, 1999) e, para os apressados, Differences that Make a Difference (Triarchy Press, 2010).
  2. Craig Larman e Bas Vodde vão um pouco além de um capítulo em Scaling Lean & Agile Development (Addison-Wesley, 2009) e Large-Scale Scrum – More with LeSS (Addison-Wesley, 2017). O mesmo pode ser dito sobre Managing the Design Factory (Free Press, 1997) e The Principles of Product Development Flow (Celeritas, 2009) ambos de Donald Reinertsen. No entanto, para perceber a aplicação do Pensamento Sistêmico como um todo e no todo (e como é estranho escrever isso) vale a pena ler The Journey to Enterprise Agility: Systems Thinking and Organizational Legacy (Springer, 2017) de Daryl Kulak e Hong Li.
  3. Aquela frase não seria necessária caso eu não tivesse me deparado com Essential Upstream Kanban, de Patrick Steyart. O cara tá falando que a síntese antecede a análise?!?
  4. 4 Windows, compartilhada por gmahender no flickr, ilustra este artigo.
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Para Compreender https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2017/03/21/para-compreender-2/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2017/03/21/para-compreender-2/#respond Tue, 21 Mar 2017 21:58:52 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=6281 Dado, fato, informação, infobesidade, verdade, pós-verdade, conhecimento, habilidade, compreensão, inteligência, sabedoria. Não há sinônimos na lista. Mas as confusões são comuns. Este artigo sugere um glossário com breves definições. Um mini-guia para tempos muito estranhos.Tão estranhos que até o “pai dos burros” atrapalha de vez em quando. O Houaiss, por exemplo, chama DADO de INFORMAÇÃO em dois momentos. Dados são símbolos que representam propriedades de objetos ou eventos. “308” é um dado. “R. João U. Figueiredo” também.

Quando colocamos os dados “em forma” obtemos informação. Ou seja, informação consiste de dados que foram processados para se tornarem úteis. Um dia minha área de origem se chamou Processamento de Dados. Estava implícito: nossa responsabilidade era gerar informação. Algum tempo depois, alguém achou que TI (Tecnologia da Informação) era um nome mais bonitinho. Os dados do parágrafo anterior, quando concatenados e registrados em uma ficha cadastral, formam um endereço. Viram informação. E respondem perguntas do tipo: Quem, O Quê, Quando, Onde e Quanto.Informação é a diferença que faz diferença¹. Assim é traduzida a fórmula ao lado. Não fosse por esse “achado”, talvez você não estivesse lendo isso aqui. Com certeza não teria Netflix, Facebook, Youtube nem nada de Internet. Mas isso é um pequeno desvio que só serve pra te mostrar um bit do que é a Teoria da Informação. E para lançar uma provocação: quantas iniciativas de Big Data serão só isso, grandes repositórios de dados? Há muito tempo, criticando outra moda, Tom Stewart disse que as empresas possuíam “muita memória e pouquíssima inteligência”². Segue a sina?Inteligência é a capacidade de aprender e compreender. Ela estaria comprometida nessa era de Google, Inteligências Artificiais e da enxurrada de informações que recebemos?

Infobesidade é um criativo sinônimo para sobrecarga de informação. Uma moléstia dos novos tempos. Saca só: nós processamos 34 gigabytes por dia. Fora do trabalho! A oferta de fontes e canais de informação cresce exponencialmente. Assim como uma tal pós-verdade.

Um fato é algo que pode ser constatado, verificado. No mundo pós-moderno, muitos fatos são contestados – às vezes, mesmo quando as evidências são muitas e nítidas. Inventamos a tal pós-verdade, a palavra do ano que passou. Um problema que tem dado o que falar. E só será sanado – se for – quando sua raiz for tratada. Nome da raiz: confiança. Nosso “quarto poder” seria a cura. Mas parece ser uma das causas… Nos resta pensar!

Pensamento Crítico, Sistêmico, Criativo… nosso cardápio está repleto. E eu já escrevi sobre isso. Melhor, agora, falar sobre os componentes do pensamento.

Conhecimento é a capacidade de agir³. Saber que aquela rua citada anteriormente fica em Varginha-MG é uma coisa – é informação. Saber como chegar lá é outra coisa – é conhecimento. Conhecimento, portanto, é know-how – saber como. E daqui derivamos as habilidades. E temos a deixa para falar sobre ferramentas, técnicas, métodos e metodologias. Temas para o próximo artigo. Porque neste estamos construindo uma pirâmide básica, de baixo para cima: Dados ? Informação ? Conhecimento. O que vem depois?

Compreensão, o domínio intelectual de um assunto. Se com conhecimento respondemos como, é compreendendo que respondemos por quê (know-why). Os criadores do Understanding by Design® (Compreensão por Querer!) vão além. E descrevem seis “facetas” da compreensão. Se de fato compreendemos algo, então nós:

  • Podemos Explicar;
  • Conseguimos Interpretar (analisar e criticar);
  • Conseguimos Aplicar;
  • Estudamos os diversos Pontos de Vista;
  • Somos Empáticos; e
  • Temos Autoconhecimento
    (demonstramos consciência metacognitiva, reconhecemos nossos estilo, preconceitos, anseios e hábitos).

Desconfio que os três últimos itens façam parte do quinto andar de nossa pirâmide: a Sabedoria. Para chegar a ela, bastaria adicionar um derradeiro ingrediente: Somos Consequentes – temos noção dos impactos de nossas ações; estamos dispostos a sacrificar algo agora em troca de ganhos no longo prazo.

Dado, informação e conhecimento têm a ver com eficiência – fazer do jeito certo.
Compreensão e sabedoria são requisitos para a eficácia – fazer a coisa certa.

Educadores, mestres, instrutores, mentores e gurus são responsáveis por levar sua patota até o penúltimo andar, o da compreensão. A última escalada é coisa da vida.No Understanding by Design, modelo que utilizo na OPA!, são colocados dois pilares para a Compreensão: Conhecimento e Habilidades. Senti necessidade de acrescentar um terceiro: Atitudes. Ficou assim:

  • Eu não SEI / não CONHEÇO ? Conhecimentos
  • Eu não sei FAZER ? Habilidades
  • Eu não QUERO FAZER ? Atitudes

O terceiro item não está relacionado, necessariamente, com má vontade ou preguiça. Medo (de dirigir, por exemplo) e falta de visão do todo (compreensão) também são bastante comuns.

Sim, eu sei que conhecimento a gente muda (adquire) rapidamente e que o mesmo não pode ser dito sobre atitudes. É muito difícil, para não dizer impossível, mudá-las em aulas ou cursos de pequena duração. O que fazer? Ignorá-las? Eu prefiro o desafio. Ciente de que uma mudança de atitude é consequência, é produto da compreensão. Existe melhor teste para uma aula?

Notas

  1. Gregory Bateson, muito obrigado!
  2. Thomas Stewart criticava, enquanto vendia, a tal “Gestão do Conhecimento”. Em Capital Intelectual (Campus, 1998).
  3. Karl-Erick Sveiby, kiitos paljon (muito obrigado em finlandês).
  4. A tal pirâmide com cinco níveis (Do Dado até a Sabedoria) é coisa de Russell Ackoff. Outras pérolas podem ser encontradas no pequeno e necessário Differences That Make a Difference (Triarchy Press, 2010).
  5. A bela imagem de hoje, SWEAT Research, foi compartilhada por Tor Lindstrand no flickr.
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Quando colocamos os dados “em forma” obtemos informação. Ou seja, informação consiste de dados que foram processados para se tornarem úteis. Um dia minha área de origem se chamou Processamento de Dados. Estava implícito: nossa responsabilidade era gerar informação. Algum tempo depois, alguém achou que TI (Tecnologia da Informação) era um nome mais bonitinho. Os dados do parágrafo anterior, quando concatenados e registrados em uma ficha cadastral, formam um endereço. Viram informação. E respondem perguntas do tipo: Quem, O Quê, Quando, Onde e Quanto.Informação é a diferença que faz diferença¹. Assim é traduzida a fórmula ao lado. Não fosse por esse “achado”, talvez você não estivesse lendo isso aqui. Com certeza não teria Netflix, Facebook, Youtube nem nada de Internet. Mas isso é um pequeno desvio que só serve pra te mostrar um bit do que é a Teoria da Informação. E para lançar uma provocação: quantas iniciativas de Big Data serão só isso, grandes repositórios de dados? Há muito tempo, criticando outra moda, Tom Stewart disse que as empresas possuíam “muita memória e pouquíssima inteligência”². Segue a sina?Inteligência é a capacidade de aprender e compreender. Ela estaria comprometida nessa era de Google, Inteligências Artificiais e da enxurrada de informações que recebemos?

Infobesidade é um criativo sinônimo para sobrecarga de informação. Uma moléstia dos novos tempos. Saca só: nós processamos 34 gigabytes por dia. Fora do trabalho! A oferta de fontes e canais de informação cresce exponencialmente. Assim como uma tal pós-verdade.

Um fato é algo que pode ser constatado, verificado. No mundo pós-moderno, muitos fatos são contestados – às vezes, mesmo quando as evidências são muitas e nítidas. Inventamos a tal pós-verdade, a palavra do ano que passou. Um problema que tem dado o que falar. E só será sanado – se for – quando sua raiz for tratada. Nome da raiz: confiança. Nosso “quarto poder” seria a cura. Mas parece ser uma das causas… Nos resta pensar!

Pensamento Crítico, Sistêmico, Criativo… nosso cardápio está repleto. E eu já escrevi sobre isso. Melhor, agora, falar sobre os componentes do pensamento.

Conhecimento é a capacidade de agir³. Saber que aquela rua citada anteriormente fica em Varginha-MG é uma coisa – é informação. Saber como chegar lá é outra coisa – é conhecimento. Conhecimento, portanto, é know-how – saber como. E daqui derivamos as habilidades. E temos a deixa para falar sobre ferramentas, técnicas, métodos e metodologias. Temas para o próximo artigo. Porque neste estamos construindo uma pirâmide básica, de baixo para cima: Dados ? Informação ? Conhecimento. O que vem depois?

Compreensão, o domínio intelectual de um assunto. Se com conhecimento respondemos como, é compreendendo que respondemos por quê (know-why). Os criadores do Understanding by Design® (Compreensão por Querer!) vão além. E descrevem seis “facetas” da compreensão. Se de fato compreendemos algo, então nós:

  • Podemos Explicar;
  • Conseguimos Interpretar (analisar e criticar);
  • Conseguimos Aplicar;
  • Estudamos os diversos Pontos de Vista;
  • Somos Empáticos; e
  • Temos Autoconhecimento
    (demonstramos consciência metacognitiva, reconhecemos nossos estilo, preconceitos, anseios e hábitos).

Desconfio que os três últimos itens façam parte do quinto andar de nossa pirâmide: a Sabedoria. Para chegar a ela, bastaria adicionar um derradeiro ingrediente: Somos Consequentes – temos noção dos impactos de nossas ações; estamos dispostos a sacrificar algo agora em troca de ganhos no longo prazo.

Dado, informação e conhecimento têm a ver com eficiência – fazer do jeito certo.
Compreensão e sabedoria são requisitos para a eficácia – fazer a coisa certa.

Educadores, mestres, instrutores, mentores e gurus são responsáveis por levar sua patota até o penúltimo andar, o da compreensão. A última escalada é coisa da vida.No Understanding by Design, modelo que utilizo na OPA!, são colocados dois pilares para a Compreensão: Conhecimento e Habilidades. Senti necessidade de acrescentar um terceiro: Atitudes. Ficou assim:

  • Eu não SEI / não CONHEÇO ? Conhecimentos
  • Eu não sei FAZER ? Habilidades
  • Eu não QUERO FAZER ? Atitudes

O terceiro item não está relacionado, necessariamente, com má vontade ou preguiça. Medo (de dirigir, por exemplo) e falta de visão do todo (compreensão) também são bastante comuns.

Sim, eu sei que conhecimento a gente muda (adquire) rapidamente e que o mesmo não pode ser dito sobre atitudes. É muito difícil, para não dizer impossível, mudá-las em aulas ou cursos de pequena duração. O que fazer? Ignorá-las? Eu prefiro o desafio. Ciente de que uma mudança de atitude é consequência, é produto da compreensão. Existe melhor teste para uma aula?

Notas

  1. Gregory Bateson, muito obrigado!
  2. Thomas Stewart criticava, enquanto vendia, a tal “Gestão do Conhecimento”. Em Capital Intelectual (Campus, 1998).
  3. Karl-Erick Sveiby, kiitos paljon (muito obrigado em finlandês).
  4. A tal pirâmide com cinco níveis (Do Dado até a Sabedoria) é coisa de Russell Ackoff. Outras pérolas podem ser encontradas no pequeno e necessário Differences That Make a Difference (Triarchy Press, 2010).
  5. A bela imagem de hoje, SWEAT Research, foi compartilhada por Tor Lindstrand no flickr.
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Pelo Prazer de Aprender https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2016/12/16/pelo-prazer-de-aprender-2/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2016/12/16/pelo-prazer-de-aprender-2/#respond Fri, 16 Dec 2016 17:44:21 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=6087 Lembre-se de uma aula muito boa. O que a tornou inesquecível? Um professor atencioso e conhecedor, com certeza. A turma, interessada e entrosada, ajudou. Assim como a sala, arejada em todos os sentidos. Falta um último ingrediente. Qual?Oras, a aula propriamente dita. É possível que você nem tivesse interesse pelo tema. Mas a forma como ele foi exposto te pegou. É fácil dar todo o crédito da experiência ao talento do mestre, sua didática e paciência. Não vamos desmerecer isso. Mas tente se lembrar da organização do conteúdo. Nosso cérebro tem uma quedinha por estrutura, por hierarquia. Memorizamos melhor as ideias bem elaboradas¹. Posso apostar: a aula que te agradou era bem estruturada e fluiu de maneira lógica e natural. Você cresceu com ela. Mal viu o tempo passar. E ficou com um gostinho de “quero mais”. Como criar experiências assim?

“Domine a música. Domine o instrumento.
Agora, esqueça essa baboseira toda e apenas toque.”

Charlie “Bird” Parker

Bird ajudou a reinventar o jazz e ensinou muita gente. Não há registro de que tenha estudado aikidô ou qualquer outra arte marcial japonesa. Mas sua dica fundamental, citada acima, parece uma versão bebop do ShuHaRi. O ShuHaRi é um conceito, um modelo que descreve estágios de aprendizagem². Voltando à questão acima: para criar uma boa experiência, começamos pela adoção de um modelo de aprendizagem. O nosso é um jazz de kimono:Shu: abrace, cuide do aprendiz. Apresente os fundamentos – a teoria e os movimentos básicos. E cobre disciplina e respeito pelas fronteiras estabelecidas. Que o aluno “domine a música”.

Ha: solte e incentive a prática. Entenda que o aprendiz vai errar e quebrar a cara inúmeras vezes. É parte indissociável da aprendizagem eficaz. Mas entenda e aponte os erros – o fidbeque é fundamental. O aluno precisa “dominar o instrumento” (ferramentas e métodos). A indisciplina, a quebra de regras, atesta a evolução. Ri: sorria, você acaba de perder um aluno. Deixe-o voar. Ele não é mais um aprendiz, é seu colega. Como você, “esqueceu essa baboseira toda e agora apenas toca”. Aliás, ele imagina, cria e inova. Veja só que curioso: os três últimos verbos do parágrafo anterior sugerem o caminho inverso da diagonal ShuHaRi. Em fluxo desenhado por Ken Robinson em Libertando o Poder Criativo (HSM, 2012). Se parece também com o Funil do Conhecimento, conceito apresentado por Roger Martin em Design de Negócios (Campus, 2010). Neste caso, os termos são: Palpites, Heurística e Algoritmo. O que isso significa?Pode até ser que alguém atinja um ponto notável de aprendizagem e não queira retribuir. Vai ficar imaginando solos a la Coltrane e tocando escondidinho, para o próprio deleite, num sótão qualquer. Desconfio que a grande maioria das pessoas queira outro destino para suas ideias. São elas que vão imaginar cenários, criar soluções e botar pra rodar ou quebrar. O prazer em jogo é dobrado: primeiro, ao aprender; depois, ao ver sua criação espalhada por aí.

E assim, falando de prazer, reencontramos o ponto do artigo anterior: o FLUXO. A diagonal em mão dupla o representa. Chega a hora de um precioso alerta: a diagonal não é uma linha reta. Esse raciocínio linear, faseado, trava e detona os modelos de ensino tradicionais. A melhor imagem para o FLUXO é uma espiral. Cada giro representa valiosos ciclos de fidbeque. Hora de falar sobre o Scrum.

Scrum

Antes de ser um “framework para o gerenciamento de projetos ágeis”, o Scrum é um modelo de aprendizagem. Foi por azar, muito azar, que ele foi parar em nossas mãos, profissionais de projetos e de TI. Ficou bitolado. Quem conhece o trabalho de seus pais biológicos, Takeuchi e Nonaka, vai entender o que estou falando. Eles são especialistas em Gestão do Conhecimento. Quando registraram o Scrum³, no distante 1986, pretendiam mostrar como empresas japonesas aprendiam melhor que as ocidentais. Não aprendiam mais e nem mais rápido: aprendiam melhor! É uma questão de eficácia, muito mais do que de eficiência. É mais qualitativa do que quantitativa. Parafraseando Ackoff de novo: “é melhor fazer a coisa certa do jeito errado do que fazer a coisa errada do jeito certo”. Melhor ainda é fazer a coisa certa de maneira eficiente. O Scrum tem um laço de fidbeque para cada questão.

São dois  compromissos. O primeiro é a Revisão – mira a coisa certa, a eficácia. Os envolvidos avaliam o resultado de determinado esforço. Em nosso caso, uma aula, por exemplo. O aluno compreendeu de fato o que foi ensinado? Aprendeu a fazer?

O segundo compromisso é a Retrospectiva – uma avaliação do processo, da eficiência. Por exemplo: em que o professor pode melhorar? Quais atitudes da turma devemos incentivar e quais devem ser evitadas? E por aí vai.

Os dois compromissos ocorrem de forma consecutiva, ao término de um ciclo (Sprint na terminologia original). No nosso caso, o ciclo pode significar um tópico, uma aula ou módulo. Quanto menor, melhor.

Quem conhece o Scrum pode estar se perguntando: peraí, como os papéis são distribuídos numa sala de aula? Quem é o PO (Product Owner – Dono do Produto)? O instrutor é o mestre – ScrumMaster. O Time é formado pelos alunos. Quem é o Dono? Você arrisca uma resposta?Na próxima semana concluo a trilogia “Hey! o que você tá esperando para se inscrever na OPA!?” Além de responder a questão acima, vou apresentar o terceiro pilar do modelo de aprendizagem, a Unidade. Ela se baseia, principalmente, no Understanding by Design®. Um modelo bem legal que, em conceito, é semelhante ao TDD (Test-Driven Development).

Notas

  1. Brain Rules, John Medina (Pear Press, 2014).
    A Mente Organizada, Daniel J. Levitin (Objetiva, 2015).
  2. O modelo de aprendizagem (maturidade?) com três estágios vive ressurgindo com outros nomes e quase sempre sem crédito. Douglas Thomas e John Seely Brown, em A New Culture of Learning (Publicação independente, 2011), sugerem três etapas: Hanging Out, Messing Around e Geeking Out. Partiram de um estudo etnográfico sobre a interação de jovens com mídias sociais.
    Harold Stolovitch e Erika Keeps, em Telling Ain’t Training (ASTD, 2011), falam em Teach (Ensine), Prompt (Incentive) e Release (Libere). Como eu disse, variações da mesma sugestão apresentada neste artigo.
  3. The New New Product Development Game é o nome do artigo, publicado na Harvard Business Review em jan-fev/1986, que apresentou o Scrum. Não desconsidero nem desmereço o fato de Jeff Sutherland e Ken Schwaber terem dado uma cara e roupa nova para ele. Mas não me conformo com o desrespeito ao sentido original do Scrum. Por isso tem gente por aí que diz, por exemplo, que Retrospectivas são perda de tempo.
  4. Art Out of the Box 2009: Indiana Quilts é o nome da imagem no topo. Foi compartilhada no flickr pela Biblioteca Pública de Allen County (IN). O rabisco da molecada lembra muito o diagrama do FLUXO. Sincronicidade?
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“Domine a música. Domine o instrumento.
Agora, esqueça essa baboseira toda e apenas toque.”

Charlie “Bird” Parker

Bird ajudou a reinventar o jazz e ensinou muita gente. Não há registro de que tenha estudado aikidô ou qualquer outra arte marcial japonesa. Mas sua dica fundamental, citada acima, parece uma versão bebop do ShuHaRi. O ShuHaRi é um conceito, um modelo que descreve estágios de aprendizagem². Voltando à questão acima: para criar uma boa experiência, começamos pela adoção de um modelo de aprendizagem. O nosso é um jazz de kimono:Shu: abrace, cuide do aprendiz. Apresente os fundamentos – a teoria e os movimentos básicos. E cobre disciplina e respeito pelas fronteiras estabelecidas. Que o aluno “domine a música”.

Ha: solte e incentive a prática. Entenda que o aprendiz vai errar e quebrar a cara inúmeras vezes. É parte indissociável da aprendizagem eficaz. Mas entenda e aponte os erros – o fidbeque é fundamental. O aluno precisa “dominar o instrumento” (ferramentas e métodos). A indisciplina, a quebra de regras, atesta a evolução. Ri: sorria, você acaba de perder um aluno. Deixe-o voar. Ele não é mais um aprendiz, é seu colega. Como você, “esqueceu essa baboseira toda e agora apenas toca”. Aliás, ele imagina, cria e inova. Veja só que curioso: os três últimos verbos do parágrafo anterior sugerem o caminho inverso da diagonal ShuHaRi. Em fluxo desenhado por Ken Robinson em Libertando o Poder Criativo (HSM, 2012). Se parece também com o Funil do Conhecimento, conceito apresentado por Roger Martin em Design de Negócios (Campus, 2010). Neste caso, os termos são: Palpites, Heurística e Algoritmo. O que isso significa?Pode até ser que alguém atinja um ponto notável de aprendizagem e não queira retribuir. Vai ficar imaginando solos a la Coltrane e tocando escondidinho, para o próprio deleite, num sótão qualquer. Desconfio que a grande maioria das pessoas queira outro destino para suas ideias. São elas que vão imaginar cenários, criar soluções e botar pra rodar ou quebrar. O prazer em jogo é dobrado: primeiro, ao aprender; depois, ao ver sua criação espalhada por aí.

E assim, falando de prazer, reencontramos o ponto do artigo anterior: o FLUXO. A diagonal em mão dupla o representa. Chega a hora de um precioso alerta: a diagonal não é uma linha reta. Esse raciocínio linear, faseado, trava e detona os modelos de ensino tradicionais. A melhor imagem para o FLUXO é uma espiral. Cada giro representa valiosos ciclos de fidbeque. Hora de falar sobre o Scrum.

Scrum

Antes de ser um “framework para o gerenciamento de projetos ágeis”, o Scrum é um modelo de aprendizagem. Foi por azar, muito azar, que ele foi parar em nossas mãos, profissionais de projetos e de TI. Ficou bitolado. Quem conhece o trabalho de seus pais biológicos, Takeuchi e Nonaka, vai entender o que estou falando. Eles são especialistas em Gestão do Conhecimento. Quando registraram o Scrum³, no distante 1986, pretendiam mostrar como empresas japonesas aprendiam melhor que as ocidentais. Não aprendiam mais e nem mais rápido: aprendiam melhor! É uma questão de eficácia, muito mais do que de eficiência. É mais qualitativa do que quantitativa. Parafraseando Ackoff de novo: “é melhor fazer a coisa certa do jeito errado do que fazer a coisa errada do jeito certo”. Melhor ainda é fazer a coisa certa de maneira eficiente. O Scrum tem um laço de fidbeque para cada questão.

São dois  compromissos. O primeiro é a Revisão – mira a coisa certa, a eficácia. Os envolvidos avaliam o resultado de determinado esforço. Em nosso caso, uma aula, por exemplo. O aluno compreendeu de fato o que foi ensinado? Aprendeu a fazer?

O segundo compromisso é a Retrospectiva – uma avaliação do processo, da eficiência. Por exemplo: em que o professor pode melhorar? Quais atitudes da turma devemos incentivar e quais devem ser evitadas? E por aí vai.

Os dois compromissos ocorrem de forma consecutiva, ao término de um ciclo (Sprint na terminologia original). No nosso caso, o ciclo pode significar um tópico, uma aula ou módulo. Quanto menor, melhor.

Quem conhece o Scrum pode estar se perguntando: peraí, como os papéis são distribuídos numa sala de aula? Quem é o PO (Product Owner – Dono do Produto)? O instrutor é o mestre – ScrumMaster. O Time é formado pelos alunos. Quem é o Dono? Você arrisca uma resposta?Na próxima semana concluo a trilogia “Hey! o que você tá esperando para se inscrever na OPA!?” Além de responder a questão acima, vou apresentar o terceiro pilar do modelo de aprendizagem, a Unidade. Ela se baseia, principalmente, no Understanding by Design®. Um modelo bem legal que, em conceito, é semelhante ao TDD (Test-Driven Development).

Notas

  1. Brain Rules, John Medina (Pear Press, 2014).
    A Mente Organizada, Daniel J. Levitin (Objetiva, 2015).
  2. O modelo de aprendizagem (maturidade?) com três estágios vive ressurgindo com outros nomes e quase sempre sem crédito. Douglas Thomas e John Seely Brown, em A New Culture of Learning (Publicação independente, 2011), sugerem três etapas: Hanging Out, Messing Around e Geeking Out. Partiram de um estudo etnográfico sobre a interação de jovens com mídias sociais.
    Harold Stolovitch e Erika Keeps, em Telling Ain’t Training (ASTD, 2011), falam em Teach (Ensine), Prompt (Incentive) e Release (Libere). Como eu disse, variações da mesma sugestão apresentada neste artigo.
  3. The New New Product Development Game é o nome do artigo, publicado na Harvard Business Review em jan-fev/1986, que apresentou o Scrum. Não desconsidero nem desmereço o fato de Jeff Sutherland e Ken Schwaber terem dado uma cara e roupa nova para ele. Mas não me conformo com o desrespeito ao sentido original do Scrum. Por isso tem gente por aí que diz, por exemplo, que Retrospectivas são perda de tempo.
  4. Art Out of the Box 2009: Indiana Quilts é o nome da imagem no topo. Foi compartilhada no flickr pela Biblioteca Pública de Allen County (IN). O rabisco da molecada lembra muito o diagrama do FLUXO. Sincronicidade?
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Pelo Prazer de Trabalhar https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2016/12/13/pelo-prazer-de-trabalhar/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2016/12/13/pelo-prazer-de-trabalhar/#comments Tue, 13 Dec 2016 15:41:28 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=6079 Quando foi a última vez que você fez ou aprendeu algo e nem viu o tempo passar? Esses momentos de total concentração e êxtase lhe são comuns? Você consegue repeti-los de forma sistemática no trabalho? A grande maioria responde não para as duas últimas questões. Triste, considera estranha ou até indevida essa mistura de prazer e gozo com aprendizagem e vida profissional. “Onde já se viu?”Vemos essa combinação com grande frequência. Mas ela aparece em campos que muitos nem consideram profissões. Lembre-se da explosão de um jogador de futebol; da concentração de um ator; do voo de um guitarrista durante um solo. Oras, o que nos impede de trocar esses personagens por um engenheiro, um médico e um advogado? Parafraseando Ackoff, malditos sejam aqueles que ergueram muros entre aprendizagem, diversão e trabalho¹. Não era para ser assim. E, se quisermos uma carreira viável, não pode mais ser assim.

Gary Hamel, em O Que Importa Agora? (Campus, 2012), sugere uma hierarquia das capacidades humanas. De baixo para cima: Obediência, Zelo, Expertise, Iniciativa, Criatividade e Paixão. Se tudo o que você tem a oferecer concentra-se nos três primeiros itens, preocupe-se. Atividades que pedem “só” por isso já foram padronizadas, terceirizadas e automatizadas. Agora, são externalizadas². Sem exagero: não há futuro aqui. Cruze isso com a proposta de reforma da previdência e descabele-se.

Não há atalhos para esse novo mundo do trabalho. Mas existe um caminho. Aliás, um FLUXO.Aqueles com pequena bagagem em termos de conhecimentos e habilidades estão: 1) apáticos – se pouco desafiados; 2) preocupados; ou 3) ansiosos – se o tamanho dos desafios é inversamente proporcional às suas capacidades.

Kevin Kelly, em The Inevitable (Viking, 2016), diz que nesse novo mundo somos todos iniciantes. Mas a população nesses três cenários já é imensa. E insatisfeita pra chuchu, como provam várias pesquisas. Quem está bem municiado mas é pouco desafiado vive no tédio ou, pior ainda, trata seus afazeres com arrogância e desdém. Perigosa “zona de conforto”, familiar aos que se sentem no controle. Pense naquele sujeito que diz ter dez ou vinte anos de experiência.  Meça até que ponto não seriam dez ou vinte anos da mesma experiência. Essa sensação de controle é ilusória. Uma troca de tecnologia e pimba – olha um estagiário novo aí gente!

O controle, assim como a excitação, pode ser salutar. Desde que a pessoa saiba para onde precisa e quer ir. Essa enxurrada de coaches, mentores e livros que prometem ajudar na definição do sentido da vida nos permite desconfiar que o número de profissionais sem mapa nem bússola é grande e só faz crescer. Sem julgamento de valor, por favor. Como colocou Tom Peters, “quem não está confuso não está prestando atenção”.

No mundo ideal somos todos FLUENTES. Nossos conhecimentos e habilidades mantém um equilíbrio dinâmico com os desafios apresentados. Insisto: dinâmico. Não há linha de chegada. Mas há conforto e prazer nessa zona. Ou, como lista o autor desta teoria – Mihaly Csikszentmihalyi³, quando no fluxo nós temos:

  • Concentração total;
  • Sensação de êxtase;
  • Muita clareza de propósito;
  • Confiança em nossa capacidade;
  • Serenidade; e
  • Motivação intrínseca: o que criamos é a nossa principal recompensa.

Por isso, nem vemos o tempo passar. É sensação equivalente aos prazeres mundanos e carnais. Porque, quando em fluxo, ativamos os mesmos mecanismos cerebrais. Porque, como coloca Daniel J. Levitin em A Mente Organizada (Objetiva, 2014), recebemos “agradáveis doses de dopamina”. Mais que isso: também desativamos a parte do córtex pré-frontal responsável pela autocrítica e a amígdala, a parte do cérebro que nos deixa com medo. Enfim, sem a intenção de cometer qualquer heresia: o Fluxo é quase um nirvana, quase um orgasmo.

Podemos levar isso para o trabalho? Podemos fazer disso uma rotina? Honestamente, eu acho que deveríamos. Se não pelas razões acima, então pelo simples fato de que quase todos os outros trabalhos serão delegados para quem não cria, não procria e nem se apaixona.

Merchandising

Já tem um tempinho que tento transferir o FLUXO para meus treinamentos. No próximo artigo vou mostrar como ele se transformou na espinha dorsal da OPA! Oficina de Projetos de Aprendizagem. E mais: como ele combina muito bem com o Scrum.

Notas

  1. Ackoff’s Best – Russell L. Ackoff (Wiley, 1999).
  2. Falo um pouco mais sobre isso em O Futuro das Profissões.
  3. Taí um nome – Mihaly Csikszentmihalyi – que nunca arriscaria dizer em sala ou em qualquer outro lugar. Mihaly é húngaro e apresentou sua teoria em Flow: The Psychology of Optimal Experience (Harper & Row, 1990). Há um belo resumo na forma de uma palestra para o TED (Fluidez – o segredo da felicidade).
  4. Entre a ideia para este artigo e a revisão final gastei pouco menos de duas horas. Não vi o tempo passar. E quase dei um soco no ar ao reler o penúltimo parágrafo. Antes de taxar isso como uma besteira, pense no que te deixa feliz. Tem criação ali, não tem?
  5. Flow – 02, a primeira imagem lá em cima, foi rabiscada por Eva-Lotta Lamm enquanto ouvia ou lia Mihaly. Ela compilou livros com resumos e rabiscos semelhantes. Criativa sacada!
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