Estamos obsoletos. Suprassumo da evolução – carregamos na cabeça o mais sofisticado e complexo sistema conhecido -, ficamos para trás. Tanto que já não damos conta de compreender e muito menos controlar as nossas próprias invenções. Ficamos sem chão no caminho que nós mesmos desenhamos.
Na maior parte da nossa história, nós – homo sapiens – fomos nômades-coletores-caçadores. Estamos bem configurados para andar sem rumo, catar coquinhos e matar bichinhos. Mas não estamos preparados para viver e prosperar no século da complexidade.
O último upgrade relevante que merecemos já tem alguns séculos de vida. Com o Iluminismo nós aprendemos que ciência, razão e humanismo melhorariam muito as nossas vidas. Melhoraram e devemos ser eternamente gratos por isso. No entanto, uma boa parte dessa atualização virou uma herança cara e de difícil manutenção. Soluções de outrora viraram belos problemas nesses tempos em que não se usa mais outrora. À elas.
Dualismo
Talvez por medo de uma fogueira, René Descartes sugeriu a separação entre o corpo e a mente. Muita gente boa, antes e depois dele, fez o mesmo. Mas ele merece a fama. Tanto que batizou a coisa: Dualismo Cartesiano.
Para o filósofo norte-americano John Searle¹: “O dualismo é a maior catástrofe de Descartes que, por sua vez, é um dos maiores desastres da filosofia ocidental”. Cabe até uma brincadeirinha de outro filósofo²:
What’s mind? Doesn’t matter.
– Bertrand Russell
What’s matter? Never mind.
Henry Ford reclamou que o dualismo não funciona muito bem na prática³: “Por que é que toda vez que peço por um par de mãos ele vem acompanhado de um cérebro?” Teimosos, insistimos nessa divisão até hoje. Veja como estão estruturadas boa parte das nossas organizações. Pense nos diversos processos, procedimentos e scripts que são elaborados para dispensar seus executores de qualquer esforço intelectual.
“A civilização ocidental caracteriza-se por uma arraigada dificuldade de estabelecer ligações entre a cabeça e a mão, de reconhecer e estimular o impulso da perícia artesanal”, acusa Richard Sennett4. Que completa: “quando a cabeça e a mão estão separadas, é a cabeça que sofre.”
Reducionismo
Descartes era, de fato, um desastrado. Porque também foi ele quem nos deu o reducionismo: “quebre o problema em partes menores; resolva cada um deles…” Em suas próprias palavras5:
“Se alguém conhecesse bem todas as partes de um animal em particular – o homem, por exemplo – poderia deduzir-se apenas por razões inteiramente matemáticas e certas toda a figura e conformação de cada um de seus membros.”
“A redução não nos diz nada sobre a construção”, ensina John Miller6. “O todo é maior do que a soma das partes”, já sabia Aristóteles.
Se a gente tivesse entendido os perigos do reducionismo há, sei lá, uns 150 anos, muita coisa seria diferente. Talvez a gente não tivesse criado oitenta mil disciplinas. Sabia disso? Temos cerca de 80 mil áreas de estudo! Não raro elas são herméticas – não olham para os lados nem trocam figurinhas. Se esquecem que são meros meios. Se tornam fins. Viram especializações. Morrem como longas e hilárias assinaturas de emails.
A revolução industrial empregou com gosto os ensinamentos de Descartes7. E isso, não podemos negar, nos ajudou a progredir. Uma pessoa sozinha demoraria meses para fabricar um único carro. Um time formado por vários especialistas – a maioria não-humanos – demanda apenas algumas horas. A diferença na produtividade é tão gritante e tentadora que nós passamos os últimos séculos copiando e colando a fórmula reducionista em tudo quanto é canto. A levamos para escolas, hospitais e governos. Todos, sem exceção, adoraram esse papo de ter vários pedacinhos gerenciáveis e, melhor ainda, negociáveis.
Cá estamos, com organizações públicas e privadas repletas de departamentos, seções, áreas e funções que mal se falam e quase nunca se entendem8. Cá estamos, brigando com atendentes de telemarketing que nunca têm nem o conhecimento e muito menos o poder para resolver os nossos problemas.
Determinismo
Quem acredita que o estudo das partes explica o todo tende a acreditar em relações simples de causa e efeito. “A linearidade é o sonho dos reducionistas. A não-linearidade é o pesadelo dos reducionistas”, escreveu Melanie Mitchell9. Se eu der um chute em sua canela você sentirá dor. Causa e efeito. Se tudo fosse assim tão simples não estaríamos aqui. É sério. Nem aqui, neste ponto do texto. Nem aqui, nesta pedra que não é plana e está bem bagunçada que chamamos de Terra. A vida não é resultado de simples relações de causa e efeito. A crença nessa simplicidade é chamada Determinismo.
Em ciências, quando o comportamento humano é colocado na equação, as coisas se tornam não lineares. É por isso que física é fácil e sociologia é difícil.
– Neil deGrasse Tyson10
Escrevo esta parte num dia de finados. Disseram ontem, em um telejornal, que “na região sudeste sempre chove em finados”. Não choveu no ano passado. Não chove hoje. Não há nenhuma relação causal entre um feriado religioso e o clima. Mas tem gente que segue com esse tipo de certeza. Provavelmente, o mesmo tipo que não ousa misturar manga com leite.
Mecanicismo
Se é reducionista e determinista então é mecanicista. Adora a certeza das máquinas e nutre a ilusão do comando e controle absolutos. Não apenas em suas organizações e times, mas em todos os relacionamentos. Não espanta que se decepcione tanto. E não surpreende que lide tão mal com isso. Porque a certeza das máquinas não tem nada a ver com ser humano. Samuel Johnson foi o primeiro a cravar que nós humanos só temos duas certezas na vida: a morte e, antes disso, os impostos. Eu acrescentaria uma terceira: as cagadas. Poucas coisas são mais humanas do que uma bela e homérica cagada. Mas isso não pega nada bem em um mundo mecânico, desumano.
Desumanismo
Este item é diferente dos anteriores. Aqueles de fato já foram apresentados como soluções – como um jeito certo de pensar. O desumanismo é, em boa medida, uma consequência do sucesso do mecanicismo e seus componentes.
Ficamos menos humanos porque priorizamos trabalho, eficiência, produtividade, crescimento e dinheiro, não necessariamente nessa ordem. Fomos tão longe em nossas maquinações que tornamos nossas áreas de humanas desumanas. Veja, por exemplo, como o filósofo suíço Alain de Botton apresenta o problema11:
Se você entrar numa escola de humanidades e pedir ajuda para entender a ansiedade que te aflige ou como ser mais seguro em um relacionamento, é bem provável que chamem a polícia ou o hospício.
Ou seja, praticamente não temos a quem recorrer para nos educar emocionalmente. Não surpreende que sejamos, de uma maneira geral, tão imaturos, inseguros e ansiosos.
Não encontrei o termo desumanismo em nenhum trabalho de Alain de Botton. Sinceramente, não sei se ele batizou com uma palavra só o problema que se tornou sua missão12. Neste almanaque eu precisei de uma que formasse um conjunto com os demais. Des é um prefixo de negação. Desumano é a negação do que é humano. Acho que vai funcionar. Porque eu acho que você entendeu.
Tanto que já não deve te incomodar tanto assumir que “quase tudo o que a gente pensa que sabe está errado”. Nosso mundo nunca foi uma máquina. Mas, de certa forma, nós ludibriamos o sistema por um bom tempo. A conta chegou.
O que mudou? O que está mudando? Há alguma mínima explicação para essa combinação de crises?
Notas
- <https://pt.wikipedia.org/wiki/Dualismo#Cr%C3%ADticos> Em 1/11/2018.
- The Basic Writings of Bertrand Russell (Routledge Classics, 1961/2009). Não traduzi porque não teria graça nenhuma em português.
- Citado por Ricardo Semler em The Seven-Day Weekend: Changing the Way Work Works (Portfolio, 2004).
- O Artífice (Record, 2009).
- Description du Corpse Humain (1648).
- No didático e muito útil A Crude Look at the Whole (Basic Books, 2016).
- Mas a receita, o como fazer, foi descrito por Adam Smith em A Riqueza das Nações (1776). Nesse clássico que é, de certa forma, a certidão de nascimento do capitalismo, Smith defende a especialização como fator crucial para a alta produtividade e narra em detalhes como seria uma fábrica de alfinetes. Como seria o capitalismo sem o reducionismo?
- O livro The Silo Effect: The Peril of Expertise and the Promise of Breaking Down Barriers, de Gillian Tett (Simon & Schuster, 2015) tem várias histórias sobre os problemas causados pelos silos – produto direto do pensamento reducionista.
- Complexity: A Guided Tour (Oxford University Press, 2009).
- Citado em Sensemaking: O Poder da Análise Humana na Era dos Algoritmos, de Christian Madsbjerg (Nobel, 2018).
- A citação aparece mais ou menos assim em diversas palestras de Alain disponíveis no Youtube. Como nesta, por exemplo: <https://www.youtube.com/watch?v=W9X7u-MeJz0>
- Missão que está bem sintetizada em The School of Life: An Emotional Education (2019).
- Foto de chuttersnap no Unsplash



Este é o título do livro recém lançado por 
Se nossa perspectiva partir dos processos de negócios – e deveria¹ – então temos quatro grandes modelos operacionais, como ilustrado no diagrama ao lado. A sugestão da dupla de videntes só faria sentido em empresas cujo modelo seja de Diversificação, ou seja, naquelas dispensadas de requisitos de padronização e de integração entre processos. Assim fica fácil entender porque a Semco do Ricardo Semler não tem ou não precisa de uma organização de TI. A mesma receita não poderia ser recomendada para um banco, por exemplo. Porque ele tem grandes demandas de padronização e de integração de dados e processos. Seu modelo operacional é o exato oposto da Diversificação – é o da Unificação.
Veja o diagrama ao lado, uma leitura simplista (e quase envergonhada) daquilo que se convencionou chamar Arquitetura Corporativa. Ainda há quem pense que a passagem para a Nuvem seja simplesmente uma transferência parcial ou total da camada inferior, a Arquitetura Tecnológica. Faria tanto sentido quanto repartir um sanduíche com alguém lhe entregando apenas a fatia do pão que fica por baixo. Inocente e perigoso engano. A passagem para a nuvem, assim como a divisão de um lanche, significa um corte vertical onde todos os componentes são transferidos para outra entidade.
O subtítulo diz tudo: “Como entender a Babel dos gurus empresariais”. Funciona como um guia para a leitura de livros de negócios, particularmente daqueles já apresentados como ‘clássicos’. Aqui você entende porque deve desconfiar das dicas e conselhos de recordistas de vendas como Tom Peters (de “Vencendo a Crise” e “Re-imagine”, dentre vários outros) e Stephen Covey (aquele dos “7 Hábitos das Pessoas Muito Eficazes” e derivados). Os autores fazem parte do time de editores da revista The Economist, famosa por sua independência (de verdade, não a falsa imparcialidade de algumas famosas publicações tupiniquins).
Como justificar uma lista de livros de negócios que não tenha um título do Mestre? Complicado. E não estou falando dos trabalhos clássicos (aka antigos) do Drucker. Ele nos deixou em 2005. Antes, publicou ensinamentos importantes para os novos tempos, particularmente neste “Desafios…” Gerência, estratégia, mudanças, produtividade do trabalhador do conhecimento e “gerenciar a si mesmo” são alguns dos temas. O subcapítulo chamado “Do ‘T’ para o ‘I’ em ‘TI’” é de particular interesse para todos que por aqui passeiam.
Como assim, “Reengenharia”? Livro, autores e proposta não foram considerados o grande desastre do mundo da administração no final do século XX? Sim. Cometeram uma carnificina escondidos na teoria da reengenharia. Mas a culpa dos autores foi exagerada. Não importa. Acontece que esta é a primeira obra a colocar processos de negócios em seu devido lugar (no topo da agenda de preocupações). Hoje, quando vemos tantos BP* por aí, vale a pena ler ou reler os conceitos originais de Hammer e Champy. E aplicá-los? Com moderação sim, por que não?
Poderia citar três ou quatro trabalhos de Kaplan, do ABC (Custeio Baseado em Atividades) aos Mapas Estratégicos passando pelo BSc (Balanced Scorecard). Costumo dizer que ele ajudou a criar algumas das principais ferramentas administrativas dos últimos 20 ou 30 anos. Neste título temos a oportunidade de rever seus trabalhos. Não numa espécie de coletânea, mas mostrando como as operações podem ser guiadas por estratégias bem formuladas e muito bem comunicadas.
Título que já apareceu por aqui,
O título original é “The Support Economy”. A Campus não deveria ter cometido esta infeliz ‘tropicalização’. A Sra. Zuboff, professora na Harvard Business School, e seu marido, ex-CEO da Volvo, escreveram um verdadeiro manifesto para um novo Capitalismo. Todos que queiram entender o mundo que se desenha deveriam folhear estas páginas. Com calma – são quase 500. E três grandes temas: i) Desafio: Novas Pessoas, Novos Mercados; ii) Crise: Velhas Organizações se encontram com novas pessoas; e iii) Surgimento: A nova lógica empresarial. Texto surpreendente e contundente.
Parece que Hamel quer se tornar o Peter Drucker do século XXI. Está no caminho certo. Neste livro ele fala especificamente sobre os processos de gestão e conta porque eles são a última fronteira da administração. Antenado, fugiu bem da perigosa palavrinha “governança”. Sabe que o buraco é mais embaixo. E se preocupa, por exemplo, com a criação de “comunidades de objetivos” e “democracia de inovação”. Não, a exemplo do título anterior, não se trata de uma obra neo-hippie. É administração moderna mesmo. A última do Hamel, não disponível ainda na forma de livro texto, é dizer que “colaboradores são mais importantes que os clientes”. Vem chumbo grosso por aí.
E por falar em chumbo grosso… Pelo menos um autor tupiniquim merece um lugar na lista. E não poderia ser outro se não o Semler.
Os autores citam e agradecem Semler neste livro. Não é por menos: suas ideias ‘radicais’ são muito inspiradas nas experiências e proposições do Ricardo. O que me deixa curioso em saber se um dia eles já se encontraram. O livro, o único desta lista ainda não disponível em PT-br, fala da vida, do universo e tudo mais. Falando sério: marketing, estratégia, produtividade, concorrência, pessoas e cultura, dentre outros assuntos. É uma REvisão do mundo da administração sob um ponto de vista ímpar e inovador. Trocando em miúdos, um sutil e necessário tapa na cara.
Revendo a lista pensei – pô, falta um livro de marketing. Apesar do tema aparecer em alguns trabalhos relacionados, queria ter um título só de marketing. Vou fazer mais que isso e citar O Cara de marketing que mais admiro e cito, Seth Godin. Seu livro é sobre o futuro e “182 outros paradoxos do mundo dos negócios”. Não espere uma leitura natural e linear. O livro compila o resultado de seis anos de publicação em um blog. E Seth cometeu o disparate de colocar os “paradoxos” em ordem alfabética. Por isso ele alerta: “Não leia este livro de uma vez só”. Não faria muito sentido. Deve ser saboreado como uma boa cachaça mineira, com moderação e aos pequenos goles.
E nenhuma lista é completa sem um item que a (con)teste ou renegue de alguma maneira. Feijoada sem a laranja não é completa. Se você vai listar discos, por exemplo, precisa contrapor Led Zep ao Clash. Cidadão Kane também não é o mesmo sem a oposição de Cães de Aluguel (ou Titanic, blergh!). Por isso nosso querido Dilbert encerra esta lista, com seu primeiro e principal título. Administração e negócios podem ser engraçados. Aliás, eles são engraçados! Mas não é todo mundo que sabe contar piadas. Scott Adams sabe e por isso o seu trabalho é tão duradouro (e necessário).