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  • O Parlamento

    No artigo anterior vimos que o analista de negócios (AN) descobriu uma série de casos de uso e desenvolveu alguns. Ao aprender o negócio e as necessidades dos usuários, o AN pensa muito pouco sobre a solução. Não está em seu escopo de trabalho tal definição. Ele apoiará o desenho da solução, que é trabalho para um time. Uma equipe que deveria contar com, no mínimo, um representante de cada ponto de vista relevante.

    Quais são os pontos de vista relevantes? Depende do projeto. Trata-se de um empreendimento que exige interfaces complexas com usuários? A equipe deveria contar com um especialista em usabilidade. O projeto requer um sofisticado desenho de bases de dados? A presença de um especialista em bases transacionais, analíticas e em gerenciamento de conteúdo não estruturado é recomendada. O projeto requer um preciso dimensionamento de servidores e da rede? Convoque o especialista em infraestrutura. Claro, o AN é presença obrigatória. É sua responsabilidade *ensinar* o problema para a equipe e auxiliar no desenho da solução. Essa reunião de especialistas é o que chamo de “Parlamento“.

    Parlamento, s.m. (do inglês parliament)
    assembléia ou câmara legislativa;
    ato de falar.

    Cabe aqui um lembrete: tomando o RUP ou o OpenUP como referência, ainda nos encontramos na fase conhecida como Incepção. Não iniciamos ainda a etapa de elaboração que, segundo aquelas propostas, resulta no “Lifecycle Architecture Milestone” (veja figura abaixo ). O parlamento foi convocado para desenhar uma ou mais soluções para o problema colocado, e apoiar o AN na elaboração de uma proposta (ou documento de visão, ou project charter, ou…).

     

    Fases do RUP (ou OpenUP)

     

    Ao aprender e debater cada caso de uso, começando sempre por aqueles mais críticos para o negócio, os participantes do parlamento “rabiscam” as primeiras idéias de solução. São essas idéias que, em determinado momento, são agrupadas. Como vimos no artigo anterior, podemos ter até três alternativas de solução – três agrupamentos de idéias.

    Cada idéia deve ser avaliada por todos os participantes. Antes dos chutes (ou estimativas), espera-se uma classificação bem simples: a implementação daquela idéia é Simples, de Média Complexidade ou Complexa? Ainda estamos preocupados em descobrir qual é a melhor solução para aquele problema. Lembrando: “melhor” não significa a mais sofisticada ou a mais econômica. A melhor solução será aquela que estiver mais alinhada com os objetivos e restrições do negócio.

    Neste momento eu gosto muito de utilizar uma ferramenta que, aparentemente, é meio bobinha. Estou falando da Matriz SMBP (confesso, acabo de inventar um nome para o brinquedinho). Veja o rabisco abaixo:

    A Matriz SMBP

    Todo caso de uso e requisito aprendido e desenvolvido pelo AN mereceu uma classificação simples: Fundamental, Importante ou Opcional. Vamos assumir que esta classificação equivale a 3, 2 e 1 ponto, respectivamente. Somamos a pontuação de todos os requisitos registrados em um caso de uso e dividimos pelo número de requisitos. Ou seja, calculamos a pontuação média de cada caso de uso.

    Todas as idéias de solução propostas pelo parlamento também foram classificadas, como Simples, de Média Complexidade e Complexas. Assumiremos aqui os valores 1, 2 e 3 pontos, respectivamente. Como a complexidade foi avaliada por vários especialistas, também calculamos a pontuação média. Pronto, agora temos as coordenadas que permitirão o posicionamento de cada idéia na matriz SMBP.

    Todas as idéias que aparecerem no quadrante de “Sonho” devem ser consideradas. Todas são de fácil implementação e satisfazem requisitos que foram considerados fundamentais para o negócio. Podemos dizer que um projeto que só tem itens neste quadrante também é um projeto “dos Sonhos”. Pena que eles são raros. Existem também aquelas idéias cuja implementação é mais difícil. Como elas também representam alto valor para o negócio, as chamamos de “Mal Necessário”. Muito necessárias. Não podemos ignorá-las.

    Já os dois quadrantes da parte inferior da matriz representam itens que devem ser muito questionados. As “bobeirinhas” um pouco menos, já que sua implementação é relativamente simples. Mas das idéias “Pesadelo” devemos fugir. Além de representar pouco ou nenhum valor para o negócio, são todas de implementação difícil. Como justificá-las?

    Como eu disse, a ferramenta parece uma besteirinha. Mas é muito útil na tomada rápida de decisões. Permite que toda a equipe se concentre em itens que realmente fazem a diferença em um projeto. Didática, a própria matriz pode ser utilizada para justificar o escopo do projeto para um cliente. Permite também que se decida a meta de cada iteração ou o escopo de versões posteriores do produto em questão.

    O parlamento, uma reunião que deve durar algo entre 1 e 4 horas, fornece bases para que o AN desenvolva a melhor proposta ou estudo possível. Respeita as inevitáveis restrições de custos e tempo – “é pra ontem!” – ao mesmo tempo em que elimina riscos e armadilhas. Não todos, é claro, mas é óbvio que a proposta ou estudo gerado é mais forte, melhor fundamentado.

    É cara? Se comparada às propostas “bumba-meu-boi” e “balança-mágica” que algumas empresas elaboram, sim. Mas é um custo facilmente recuperado em um projeto que já começa em trilhos certos, sem desvios ou surpresas. E, claro, se estivermos falando de propostas comerciais, o método aqui sugerido aumenta consideravelmente as chances de vitória.

    .:.

    Notas:

    1. Sim, *Especialistas*. Não coringas-especialistas-generalistas que chutam com as duas. Isso não tem nada a ver com Taylor e afins. O papo é cansativo, mas insistirei: é papo de Drucker, que diz que “conhecimento, por definição, é especializado“. Todo trabalhador do conhecimento (knowledge worker) busca (ou deveria buscar) a especialização. Como sou especialista em chatice, explorarei mais o tema em futuros artigos. A citação de Drucker eu tirei de “O Advento da Nova Organização”, artigo publicado na Harvard Business Review em 1988 (edição jan-fev).
    2. Figura (indevidamente?) surrupiada do OpenUP (que não deveria ter Copyright).
    3. Adoro nossa criatividade quando o assunto é a geração de propostas. O método “bumba-meu-boi” parece ser o default: um cara de vendas (ou pré-vendas) vai lá no cliente, se esforça para entender suas “dores”, volta correndo pra casa e se desdobra para traduzir aquilo tudo em cifras. Sim, porque a primeira coisa que seu chefe quer saber é o valor do projeto. “Bumba meu boi bumbá – é melhor alocar e cobrar por mês!!”, hehe.
      A “balança mágica”, como o nome confessa, é bem mais sofisticada. Ouvi dizer que uma grande empresa a utiliza. Na verdade, uma versão adaptada d’uma balança que um dia foi usada para pesar outro tipo de coisa ilícita. É de altíssima precisão. Joga lá a RFP e vê quanto deu: 127,34 gramas? Então o preço é R$ 400k, arredondado, e o projeto demorará 6 meses!! hehehe… Imprime até etiquetinha!
  • Quem Acerta na Primeira?

    Dos diversos vícios que caracterizam nossa área, existe um particularmente perigoso: quando apresentados a um determinado problema, nos contentamos com a primeira solução que aparece. Excesso de confiança? Outra derivação da fatídica – e não inteiramente mentirosa – arrogância que carimba nosso perfil? Sim, mas não é só isso. Há também o fator prazo: “é para ontem!” O cliente, mal acostumado como nossa extrema agilidade, não entenderia caso pedíssemos um tempinho para pensar na melhor solução. Este problema é mais comum em empresas prestadoras de serviços, mas também é percebido em outras organizações de TI. Ou seja, nossas propostas, sejam elas para clientes externos ou internos, quase sempre estão vendendo a primeira solução que pintou em nossas cabeças. Mas quem acerta na primeira?

    A mais importante ferramenta do físico é sua cesta de lixo.
    Albert Einstein

    As duas mais importantes ferramentas de um arquiteto são a borracha na sala de desenhos e a marreta na construção.
    Frank Lloyd Wright

    Costumo dizer que, na iteração 0 (nos momentos iniciais do projeto, que antecedem o estudo de viabilidade e a elaboração de uma proposta), o principal trabalho do analista de negócios (AN) é ter uma visão do todo: “2 quilômetros de extensão e 2 centímetros de profundidade“. Para obter esse “instantâneo”, o AN lança mão de suas duas principais armas-disciplinas: A Análise e Modelagem do Negócio e a Engenharia de Requisitos .

    Ao interpretar as dores e os objetivos do cliente, o AN começa a dar um certo “relevo” àquele “instantâneo”. Ele destaca os requisitos de usuários mais críticos – fundamentais para o negócio. Como mostrei na pequena série “Estruturando Requisitos” (link p/ parte 2), cada requisito devidamente *aprendido* pelo AN é – obrigatoriamente – acompanhado do atributo “Grau de Importância”: aquele requisito é Fundamental, Importante ou Opcional?

    Com base nesta classificação o AN tem condições de selecionar os pontos que merecerão sua maior atenção. Sua atuação, agora, depende do tempo que ele tem para a elaboração da Proposta (ou Estudo de Viabilidade, ou Documento de Visão, ou Project Charter…). Seguindo a sugestão apresentada no artigo citado no parágrafo anterior, cada Requisito de Usuário selecionado é transformado em um Caso de Uso. O requisito “Emitir Nota Fiscal”, por exemplo, vira o caso de uso cujo título é “Emitir Nota Fiscal”.

    Ao desenvolver o caso de uso em questão, o AN está “fazendo um zoom” naquele “instantâneo”. Por ser crítico para a solução do problema de negócio, aquele requisito (de usuário) será desdobrado em n requisitos funcionais. Mais que isso: no mesmo momento o AN também pode estar descobrindo ou aprendendo regras de negócio, definições de dados e também alguns requisitos não-funcionais. Informações que podem ser facilmente registradas em um bom modelo para especificações de casos de uso. Para cada requisito *aprendido* segue valendo a mesma questão: ele é Fundamental, Importante ou Opcional?

    Vamos supor que estamos tratando de um projeto com 10 casos de uso. O AN teve tempo suficiente para detalhar um pouco mais 4 deles. Claro, para o detalhamento ele lançou mão de entrevistas, observações, sessões JAD (ou workshops) – as técnicas mais indicadas para aquele projeto e/ou cliente. Respeitando o prazo (que quase sempre é imposto), ele desenhou o melhor retrato possível do problema do cliente. Este retrato é composto por um grande diagrama conceitual (ou mapa de processos), diagramas de processos ou de linhas de montagem (caso os processos de negócio em questão sejam complexos o suficiente para justificar a elaboração destes), a classificação de 10 casos de uso e a especificação (um pouco mais detalhada) de 4 deles. Esta “radiografia” é tudo que a equipe possui para definir qual a melhor solução.

    Equipe? Sim, o desenho da solução deve ser um trabalho em equipe. Em um futuro artigo apresentarei o que chamo de “parlamento” – o formato desta equipe. Vale ressaltar que cada ponto de vista relevante deve estar representado neste momento. Desenvolvedores, especialistas em usabilidade, os “inimigos” da infra, os “chatos” dos DBA’s e, claro, o coordenador do projeto. O AN, óbvio, representa o cliente. Mas não como um “advogado do diabo”. Não agora, em que sua principal responsabilidade é *ensinar* para a equipe o problema que deve ser solucionado. O AN apresenta um conjunto de “Fatos”, o problema definido.

    Começamos aqui a expandir aquilo que Scott Berkun chama de “Espaço do Problema” :

    O Espaço do Problema

    O início dos debates é marcado por um volume relativamente grande e heterogêneo de idéias. O “espaço do problema” aumenta, como ilustra a figura acima (surrupiada do Berkun). Em determinado momento (que variará bastante dependendo do tipo e complexidade do projeto), o time pára de gerar idéias e começa a agrupá-las. É sugerido que se chegue em 3 alternativas de solução: a mais cara, a mais barata e a coluna do meio, por exemplo. Sugestão: as idéias também são agrupadas em casos de uso.

    Os debates, que a partir deste momento podem incluir o próprio cliente (formalmente, via proposta que contemple as 3 alternativas, ou informalmente, na mesa de discussões) visam a redução do número de opções. Gradativamente, por exclusão, ou com o cliente fazendo a escolha de uma das três alternativas apresentadas.

    O problema com este enfoque é que, se por um lado está bem claro o que é fundamental ou importante para o negócio, por outro temos pouca visibilidade da complexidade e custo daquelas alternativas de solução. O “parlamento” foi reunido exatamente para suprir tal necessidade. Mas como isso é feito? O próximo artigo apresentará uma sugestão. Inté!

    Notas:

    1. Mais do que os objetivos ou os atores (e seus objetivos), acredito que o melhor “guia” para o desenvolvimento de requisitos são os próprios processos de negócio. Um dia, num clássico trabalho (The Object Advantage – Addison Wesley (1995)), Ivar Jacobson disse que o “caso de uso é o nosso constructo para um processo de negócio”. Entendo que a análise e modelagem do negócio é indissociável da engenharia de requisitos. Para minha sorte, não estou só.
    2. A Arte do Gerenciamento de Projetos“, de Scott Berkun – Artmed Editora (2008). Pois é, finalmente o grande livro do Berkun é lançado em pt-br. Para nosso azar o livro foi reeditado lá fora, com novo título (“Making Things Happen“) e conteúdo revisto. Quem mandou demorar?