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  • Checkup Ágil – Parte III

    Checkup Ágil – Parte III

    Terceira e última parte da série. Já conversamos sobre eficácia e eficiência, particularmente sobre a necessidade de rever nossos processos de forma a dar um pouquinho mais de atenção para o domínio do problema. Nada disso fará sentido se não considerarmos a parte mais frágil, complexa e fundamental da coisa toda. Estou falando da gente.O quinto princípio do Manifesto Ágil diz que nós devemos “construir projetos ao redor de indivíduos motivados”. Nesses tempos estranhos, as conversas sobre motivação também suscitam posições extremas. De um lado, um zelo exagerado que beira a infantilização. Do outro, um pragmatismo falso que reduz tudo ao dinheiro.

    Incoerente, vou cometer um pecado que vivo recriminando nos outros. Vou propor uma sigla pretensiosa / pegajosa:

    • Projeto/Produto: pessoas criativas gostam de trabalhar em projetos ou produtos. Uma organização, por si só, é atraente até a página três.
    • Instigante: ou inspirador. O produto ou  projeto deve representar um belo desafio.
    • Necessário: o valor prometido pelo produto / projeto, tanto para o negócio quanto para o cliente, deve ser claro. Criativos gostam do processo – do jogo jogado – mas querem se comprometer com resultados: gol!
    • Didático: o que é didático facilita a aprendizagem; é destinado a instruir. O criativo precisa perceber que vai crescer com aquele trabalho.
    • Atual: afinal, que motivação sobrevive quando descobrimos que estamos presos em uma tecnologia ou negócio ultrapassados?

    PINDA! Pindá, em tupi, significa anzol¹. Pescou?

    “Construir projetos ao redor de indivíduos motivados”. Se o projeto é bom, a motivação emerge naturalmente. Acho que seria mais correto dizer: “Construir produtos e projetos que valham a pena – que motivem”.

    Qualquer doping (metas, prêmios, badges etc) é desperdício. O doping – a motivação extrínseca e não natural – é necessário quando o trabalho não é PINDA. Ou quando outro fator – ambiente tóxico, time ruim, processo capenga, salário muito baixo – joga contra. Talvez eu tenha simplificado demais um tema complexo. Mas, para início de conversa, é só isso mesmo. Parafraseando uma propaganda de nossa pré-história², bons projetos ou produtos motivam e atraem um monte de gente boa³.

    Abaetetuba³

    Avaliar pessoas e times é sempre algo tão arriscado e com potencial para injustiças que, se a gente pudesse, evitaria. Ferramentas como a ADKAR e afins geralmente demandam muito esforço e não evitam ambiguidades nem suscetibilidades feridas. O Mapa de Talentos (Matriz Will X Skill, na versão original) abre a possibilidade de um autoexame coletivo. No eixo X capturamos as habilidades e conhecimentos de cada integrante do time. Na outra dimensão registramos sua disposição – a motivação para o trabalho. Se usado de forma aberta e sincera, este mapa permite a elaboração de um diagnóstico rápido e eficaz. Deste diagnóstico podemos derivar um plano de ação.

    Será preocupante um número grande de pessoas no quadrante C. É sinal de que o trabalho não é PINDA ou de um problema não relacionado diretamente com o projeto ou produto. Qualquer doping é paliativo e perigoso. No médio prazo, o que pode ser feito?

    Pessoas no quadrante B só querem um pouquinho de atenção e investimento. Aquelas ao seu lado direito (A) só vão virar problema se forem minoria ou panelinha do mal. Por fim, os integrantes do quadro D devem estar esperando por duas coisas: investimento ou uma carta de demissão.

    Como coloquei, o potencial de injustiças e estragos desse tipo de avaliação é imenso. Use com moderação e carinho sincero.

    Essencialismo

    Nenhum sistema, particularmente a gente, trabalha acima de 75% de sua capacidade o tempo todo. A gente cansa e quebra. A sobrecarga de informações e opções nos deixa desnorteados. O excesso de decisões e reviravoltas desmotiva. O Manifesto Ágil, em seu décimo princípio, dá a receita: “Simplicidade: a arte de maximizar o trabalho que não precisou ser feito”. O que é simples é objetivo. E o que é objetivo, concreto, nos motiva. O gráfico acima foi sugerido por Greg McKeown em Essencialismo (Sextante, 2015). Quando conhecemos e nos comprometemos com o Objetivo Essencial, simplificamos o trabalho e eliminamos milhares de decisões. É a tal bússola que citei anteriormente nesta série. Isso é ser verdadeiramente Enxuto e Ágil. Aliás, sistemicamente falando, é Ágil porque é Enxuto. Para encerrar, quem precisa de palestras motivacionais, berreiros e joguinhos quando o trabalho é inspirador por si só?

    Autoexame

    • Como fica o Mapa de Talentos da sua equipe? Algum quadrante predomina? Ele é do tipo preocupante?
    • No Mapa de Talentos, troque a palavra Disposição por Desafio. Indique naquele eixo o quão instigante o seu projeto atual é para cada integrante do time. Há mudanças em relação ao desenho anterior? Se sim, o que essa mudança significa? Você já ouviu falar no FLUXO do Csikszentmihalyi? E no ShuHaRi?
    • Você sabe dizer qual é o Objetivo Essencial de sua organização, produto ou projeto? O seu time também?
    • Agora ficou claro o que chamo de VALOR PARA O TIME? Percebe como ele é indissociável do VALOR PARA O CLIENTE e do VALOR PARA O NEGÓCIO?

    Autocrítica

    Reduzir uma transformação Ágil ou coisa do tipo em três pequenos exames é quase um desrespeito. Existem diversos outros fatores em jogo. Nesta série eu tentei destacar três pontos chave: Valor, Processo e Gente. Porque acredito que todas as outras variáveis derivam destes três pontos. No próximo artigo pretendo apresentar uma síntese na forma de um modelo.

    Notas

    1. Pedindo licença aos etimólogos, preciso dizer que PINDA e pindaíba tem origens bem diferentes. Pindaíba vem do quimbundo, uma língua africana, e significa uma situação bem difícil. Pindá é um radical tupi. Ex: Pindamonhangaba é um lugar onde se faz anzol. Tudo indica que os rios daquela região do interior de São Paulo, bastante sinuosos, inspiraram o nome da cidade. Suas curvas parecem anzóis.
    2. Dr. Bauer devia ser uma espécie de Zuckerberg dos anos 1960. Num anúncio da Informatics Inc. ele apresentou a sua segunda lei: “O talento vai onde a ação está”. Os tempos são outros. A lei segue valendo.
    3. Mais tupi: Abaetetuba significa um monte de gente boa.
    4. Bleep, Blip, Bloop – a imagem de hoje – foi compartilhada por Anita Hart no flickr.
  • Uma Aula

    Uma Aula

    Quanta informação cabe em sessenta minutos? De quantas peças é feito o mosaico de uma aula? Quantas pessoas garantem a diversidade necessária? E quantos ciclos de maturação demanda um bom produto? Este artigo compila um punhado de achados e perdidos de um experimento. [videoembed url=”https://youtu.be/bie_FQV-5BM”]Na última quarta-feira (15/mar) apresentei a aula aberta “Design Instrucional e Scrum para Projetos de Aprendizagem”. Foram 205 inscrições e uma audiência média de setenta e poucas pessoas. Sou novato e muito desastrado em transmissões via web. Defasado, sinto uma falta danada de olhar o público. Esse fidbeque que chega aos olhos é imbatível em termos de riqueza – de volume de informações. Se pelo menos eu pudesse prestar atenção no bate papo que ocorre em paralelo. Mas é impossível. Até para o mais mentiroso multitarefa da face da terra. Quando em público, elegemos pontos de referência. Às cegas, nos resta imaginá-los.

    A aula foi projetada para dar uma visão geral da OPA! Oficina de Projetos de Aprendizagem. Ou seja, todas as peças principais de minha proposta deveriam aparecer. A restrição de tempo – sessenta minutos – me obrigou a eliminar uma: as contribuições das neurociências. Menos mal, elas já haviam aparecido em um pequeno artigo. Restaram quatro. E pouco mais de dez minutos para cada uma.

    Fluxo

    A teoria do genial e impronunciável Mihaly Csikszentmihalyi dá cola e sentido para todos os componentes sugeridos. Devemos fazer com que cada aula, independente do formato ou extensão¹, seja uma Experiência Ótima – que ela “siga o Fluxo”.

    Trazendo isso para o contexto da aprendizagem, sugiro um metamodelo citando Charlie “Bird” Parker (“Domine a música; Domine o seu instrumento; Agora, esqueça essa baboseira toda e apenas toque!”) e uma ideia do outro lado do mundo, o ShuHaRi (Abrace, Solte, Deixe Voar).Creio não ter sido muito leviano ao sugerir uma relação destes três níveis com aqueles apontados por Alexandre Magno em “How Creative Workers Learn | Learning 3.0. Nem ao afirmar, gaguejando, que a aprendizagem 1.0 é puro push enquanto a 3.0 é puro pull.
    (Explorarei melhor essa deixa em futuros artigos).

    Patrícia Segatto: ?Os educandos de minha sala parecem estar no 3.0, pois indicam o que querem descobrir e saber mais… eu procuro seguir esses interesses e altero as aulas pensando na motivação deles. Têm 5 anos de idade.

    Raul Roigsim: @Patricia Segatto, nessa idade não existem bloqueios para atingir o fluxo.

    Saca só o nível da conversa que eu perdi…

    Trabalhos a Executar

    Ou JTBD (Jobs to be Done), teoria que chega aos 25 anos de idade muito bem, obrigado². Eu sei, ela foi concebida para guiar inovações. Mas cai como uma luva em projetos de aprendizagem. Um trabalho (ou tarefa) é bem delimitado: fazer pães de queijo; mapear stakeholders; chutar de trivela. Você entendeu. Cada trabalho pode ser capturado na forma de uma estória: Quem, o Quê, Por Quê. Eu não cito isso na aula, mas o Rodrigo Vasconcelos, do Rio, pegou na hora.

    Design Reverso

    Ou Understanding by Design®. Este modelo nasceu fora do mundo do Design Instrucional. Nos EUA, é mais conhecido por quem trabalha com ensino médio ou fundamental. Tem esse nome – Backwards Design, no original – porque propõe que as avaliações e testes sejam elaborados antes do plano de aula. Pois é, TDD (Test-Driven Development) em outro contexto. O modelo é rico e flexível. Ou seja, serve para projetos de qualquer porte ou natureza. Em minha sugestão, para cada trabalho (JTBD) deveríamos desenvolver três aulas (ShuHaRi). Claro, se a intenção for atender iniciantes, iniciados e experts.

    Scrum

    A entrada é um trabalho; A saída, uma aula. Em Design Instrucional, os processos mais populares são variações do ADDIE (Análise, Design, Desenvolvimento, Implementação e Avaliação). No artigo anterior apresentei minhas justificativas para a adoção do Scrum. Agora tento mostrar que o Scrum não serve apenas para o desenvolvimento, mas também para a condução de uma aula. E que seu cerimonial de encerramento de iterações, as reuniões de Revisão e Retrospectiva, casam bem com o mais conhecido modelo para avaliações de treinamentos, o modelo em quatro níveis de Donald Kirkpatrick. A retrospectiva atende o nível 1 (Reação). A revisão mira os níveis 2 e 3 (Aprendizagem e Aplicação, respectivamente). Sobra o nível 4 (Resultados – ROI). Quem mede isso?

    A pergunta é retórica. A resposta: quase ninguém! Quem vive de vender projetos de aprendizagem, como eu, adoraria conhecer esses números. Mas eles são nebulosos até em projetos de larga escala e alto risco. O que dizer dos projetos de aprendizagem, geralmente mal tratados porque mal aparecem nos balancetes? Nosso desafio: facilitar a medição.

    E por que gastaríamos tempo com isso? Por causa de uma certeza: se o treinamento é bom e aquele conhecimento é de fato aplicado, o retorno tende a ser altíssimo. E não estou falando apenas em cursos para empresas. Se contribuímos para que uma pessoa aumente sua renda, apareça melhor na fita ou “simplesmente” ache seu Fluxo – caramba, qual o valor disso? Aliás, é para isso que estamos aqui, não?

    Notas

    1. Há quem ache que o Design Instrucional só atende demandas de EaD. Confusão gerada por uma coincidência: o DI se tornou um pouco mais conhecido por causa da EaD. Na OPA! não há restrições de formatos ou temas, é DI puro. Atacando o essencial: o desenvolvimento e condução de experiências ótimas.
    2. O JTBD se tornou mais conhecido por causa do trabalho de Clayton Christensen. Seu último livro, Competing Against Luck (HarperBusiness, 2016), é só sobre isso. Anthony W. Ulwick é o pai da criança. E recicla suas sugestões em Jobs To Be Done: Theory to Practice (Idea Bite Press, 2016). Repito: em todos os trabalhos sobre o tema, o foco é inovação. A aplicação da ferramenta para o desenho de aulas, até provem o contrário, é mea culpa.
    3. spiralling é o nome da imagem de hoje. Por dugg simpson, no flickr.
  • Pelo Prazer de Trabalhar

    Pelo Prazer de Trabalhar

    Quando foi a última vez que você fez ou aprendeu algo e nem viu o tempo passar? Esses momentos de total concentração e êxtase lhe são comuns? Você consegue repeti-los de forma sistemática no trabalho? A grande maioria responde não para as duas últimas questões. Triste, considera estranha ou até indevida essa mistura de prazer e gozo com aprendizagem e vida profissional. “Onde já se viu?”Vemos essa combinação com grande frequência. Mas ela aparece em campos que muitos nem consideram profissões. Lembre-se da explosão de um jogador de futebol; da concentração de um ator; do voo de um guitarrista durante um solo. Oras, o que nos impede de trocar esses personagens por um engenheiro, um médico e um advogado? Parafraseando Ackoff, malditos sejam aqueles que ergueram muros entre aprendizagem, diversão e trabalho¹. Não era para ser assim. E, se quisermos uma carreira viável, não pode mais ser assim.

    Gary Hamel, em O Que Importa Agora? (Campus, 2012), sugere uma hierarquia das capacidades humanas. De baixo para cima: Obediência, Zelo, Expertise, Iniciativa, Criatividade e Paixão. Se tudo o que você tem a oferecer concentra-se nos três primeiros itens, preocupe-se. Atividades que pedem “só” por isso já foram padronizadas, terceirizadas e automatizadas. Agora, são externalizadas². Sem exagero: não há futuro aqui. Cruze isso com a proposta de reforma da previdência e descabele-se.

    Não há atalhos para esse novo mundo do trabalho. Mas existe um caminho. Aliás, um FLUXO.Aqueles com pequena bagagem em termos de conhecimentos e habilidades estão: 1) apáticos – se pouco desafiados; 2) preocupados; ou 3) ansiosos – se o tamanho dos desafios é inversamente proporcional às suas capacidades.

    Kevin Kelly, em The Inevitable (Viking, 2016), diz que nesse novo mundo somos todos iniciantes. Mas a população nesses três cenários já é imensa. E insatisfeita pra chuchu, como provam várias pesquisas. Quem está bem municiado mas é pouco desafiado vive no tédio ou, pior ainda, trata seus afazeres com arrogância e desdém. Perigosa “zona de conforto”, familiar aos que se sentem no controle. Pense naquele sujeito que diz ter dez ou vinte anos de experiência.  Meça até que ponto não seriam dez ou vinte anos da mesma experiência. Essa sensação de controle é ilusória. Uma troca de tecnologia e pimba – olha um estagiário novo aí gente!

    O controle, assim como a excitação, pode ser salutar. Desde que a pessoa saiba para onde precisa e quer ir. Essa enxurrada de coaches, mentores e livros que prometem ajudar na definição do sentido da vida nos permite desconfiar que o número de profissionais sem mapa nem bússola é grande e só faz crescer. Sem julgamento de valor, por favor. Como colocou Tom Peters, “quem não está confuso não está prestando atenção”.

    No mundo ideal somos todos FLUENTES. Nossos conhecimentos e habilidades mantém um equilíbrio dinâmico com os desafios apresentados. Insisto: dinâmico. Não há linha de chegada. Mas há conforto e prazer nessa zona. Ou, como lista o autor desta teoria – Mihaly Csikszentmihalyi³, quando no fluxo nós temos:

    • Concentração total;
    • Sensação de êxtase;
    • Muita clareza de propósito;
    • Confiança em nossa capacidade;
    • Serenidade; e
    • Motivação intrínseca: o que criamos é a nossa principal recompensa.

    Por isso, nem vemos o tempo passar. É sensação equivalente aos prazeres mundanos e carnais. Porque, quando em fluxo, ativamos os mesmos mecanismos cerebrais. Porque, como coloca Daniel J. Levitin em A Mente Organizada (Objetiva, 2014), recebemos “agradáveis doses de dopamina”. Mais que isso: também desativamos a parte do córtex pré-frontal responsável pela autocrítica e a amígdala, a parte do cérebro que nos deixa com medo. Enfim, sem a intenção de cometer qualquer heresia: o Fluxo é quase um nirvana, quase um orgasmo.

    Podemos levar isso para o trabalho? Podemos fazer disso uma rotina? Honestamente, eu acho que deveríamos. Se não pelas razões acima, então pelo simples fato de que quase todos os outros trabalhos serão delegados para quem não cria, não procria e nem se apaixona.

    Merchandising

    Já tem um tempinho que tento transferir o FLUXO para meus treinamentos. No próximo artigo vou mostrar como ele se transformou na espinha dorsal da OPA! Oficina de Projetos de Aprendizagem. E mais: como ele combina muito bem com o Scrum.

    Notas

    1. Ackoff’s Best – Russell L. Ackoff (Wiley, 1999).
    2. Falo um pouco mais sobre isso em O Futuro das Profissões.
    3. Taí um nome – Mihaly Csikszentmihalyi – que nunca arriscaria dizer em sala ou em qualquer outro lugar. Mihaly é húngaro e apresentou sua teoria em Flow: The Psychology of Optimal Experience (Harper & Row, 1990). Há um belo resumo na forma de uma palestra para o TED (Fluidez – o segredo da felicidade).
    4. Entre a ideia para este artigo e a revisão final gastei pouco menos de duas horas. Não vi o tempo passar. E quase dei um soco no ar ao reler o penúltimo parágrafo. Antes de taxar isso como uma besteira, pense no que te deixa feliz. Tem criação ali, não tem?
    5. Flow – 02, a primeira imagem lá em cima, foi rabiscada por Eva-Lotta Lamm enquanto ouvia ou lia Mihaly. Ela compilou livros com resumos e rabiscos semelhantes. Criativa sacada!
  • Um Professor Acidental

    Um Professor Acidental

    “Se quiser que Deus dê umas boas gargalhadas, conte a Ele os seus planos.”
    Woody Allen

    1987, terceiro ano do curso técnico em Processamento de Dados. O professor de informática divide a sala em duas e me delega todas as aulas práticas. No ano seguinte, já formado, eu tinha uma sala só minha, em outra escola. Curso noturno, com muita gente boa tão cansada quanto eu. Eu acumulava exército (tiro de guerra: 6h ~ 8h30), um trampo como programador numa empresa japonesa (9h ~ 17h) e o curso noturno. Aos domingos, pra descansar, apresentava o Clube do Rock numa rádio local.

    1993, o Brasil, como na década anterior, atravessava uma crise feia. Assumi a área de informática da Cooperativa Regional do Sul de Minas. Gerente? Que nada. O Atílio era digitador. Eu fazia todo o resto, de instalação de redes até análise e programação. E dava manutenção num legado Cobol mal escrito pra chuchu. DevOps de um homem só. De noite ia para a escola cuidar de outra turma de Processamento de Dados.

    1998, o país estava quebrado de novo. E eu precisava ganhar mais. Embarquei para Sampa, onde o salário médio era de três a quatro vezes maior do que no Sul de Minas. Dei alguns cursos de VB (que vergonha) e de Lógica de Programação (que orgulho) até arrumar um trampo como Gerente de Projetos. Foi acidente, eu era programador. Mas aquilo mudou tudo.

    2004, com um punhado de bons e maus projetos nas costas, lanço este finito. Ele nasceu para ancorar minha primeira pesquisa digna do nome: Aprendizado InterProjetos. Trabalho que foi selecionado para um evento do PMI. No ano anterior já havia palestrado no mesmo evento, falando sobre Engenharia de Requerimentos (sic¹).

    2005, encerra-se o ciclo paulistano com três anos de atraso. Tem início a “carreira solo”. Utilizando o modelo Lucro-Troco-Truco, decidi que serviços de consultoria ocupariam 70% de meu tempo (lucro). Cursos e palestras seriam o troco (20%). Como disse um colega-consultor-argentino, “nosso negócio é inviável”. E é mesmo. Em consultorias, para cada pequena vitória há um sem número de dissabores.

    2007, o FAN é lançado. Deveria ser troco – um chamariz para serviços mais polpudos. Mas aí vieram demandas da Oi, Net, Embraer, JBS Friboi, BrasilPrev, SoftPlan, Mercado Eletrônico, Linx, Gauge, Unisys e Bradesco, dentre outras. Caramba, de um porão em Varginha eu estava atendendo uma bela parcela do PIB tupiniquim! E em algumas turmas abertas cheguei a receber mais de 70 pessoas. O troco tinha virado lucro.

    2009, o FAN é incorporado a um curso de extensão da Federal de São Carlos. Alguns alunos disseram que foi “a melhor aula que já tiveram”. Um deles era mineiro, de Guaxupé, e desconfiei de nosso tradicional bairrismo. Estimulei, algum tempo depois, a adoção do Scrum para guiar todo o curso. Assim foi feito. Eu já fazia experiências similares nos meus próprios cursos.

    Aliás, foi nessa época que passei a me perguntar: Como ensinar? Aliás, como facilitar a  aprendizagem? Posso tornar o FAN e outras ofertas mais eficazes? Por que algumas turmas fluem muito bem e outras tropeçam? Não basta dominar o assunto. Nem ter uma didática aceitável. Passei a incorporar ensinamentos de Mel Silberman, Harold Stolovitch e outros². O Design Instrucional virou uma necessidade.

    2013, a complexidade crescente e a bagunça nas ruas – prenúncio de uma nova crise –  me levaram ao desenho do flit. Processo sem pressa. Afinal, era o primeiro truco³ em quase dez anos. O flit pedia por uma estrutura diferente – por algo que chamo Unidade Básica de Aprendizagem. Foi assim que descobri o Learning Object e, principalmente, o Understanding by Design®  (Design Reverso). O flit também pedia por um processo. E eu ganhei uma boa desculpa para finalmente adotar as ideias do húngaro Mihaly Csikszentmihalyi, principalmente seu Fluxo. Ele combina bem com o Scrum e outras propostas legais.

    2016, o flit não vingou (ainda). Pindorama, que surpresa, vive outra crise homérica. E uma ficha desaba: por que não vender a alma? Não a minha, mas a alma do flit. Ela é um sistema de aprendizagem completo. Por que não torná-la um produto por si só?

    Assim nasce a OPA! Oficina de Projetos de Aprendizagem. Devo confessar, temi que o novo produto parecesse um estranho no ninho finito. Até relembrar essa história toda e finalmente aceitar que, acidentalmente, estou virando um professor.

    Notas

    1. Pois é, eu ainda insistia no termo “Requerimentos”. Pouco depois, através do saudoso grupo CMM-br, aprendi que “Requisitos” era bem melhor.
    2. A bibliografia é imensa. Vou citar dois estopins: Active Training, de Mel Silberman (Wiley, 2015. Está na 4ª edição, comemorando aniversário de 25 anos!); e Telling Ain’t Training, de Harold Stolovitch e Erica Keeps (ASTD, 2011).
    3. Lucro-Troco-Truco é a versão tropicalizada do modelo 70-20-10 que, diz a lenda, guia o trabalho dos colaboradores da Google.
    4. Teaching é o título do rabisco acima. Executado e compartilhado por Daniel Friedman via flickr.