Tag: James Gleick

  • Sobre Como Chegamos até Aqui

    Sobre Como Chegamos até Aqui

    A gente vive encontrando gráficos semelhantes ao rabisco ao lado. Recentemente eles ilustravam a evolução da pandemia Covid-19. Podemos utilizar a mesma figura para contar diversas outras histórias. A evolução da capacidade de processamento em chips ou o crescimento do número de usuários da Internet desde o seu lançamento, por exemplo.

    Sejamos mais ambiciosos: é possível contar a história da vida na Terra em todos os seus gloriosos 3,8 bilhões de anos. Para não bagunçar a nossa agenda, façamos como proposto pelo biólogo John Maynard Smith¹: condensando tudo em um filme com duas horas de duração. Nós, homo sapiens, aparecemos no último minuto, tropeçando nos créditos finais. Seguindo com Smith, façamos outra experiência. Vamos pegar apenas a nossa história, de cerca de 200 mil anos, e jogá-la no gráfico-filme de duas horas. Só teríamos deixado a vida de caçadores-coletores nos 30 segundos finais. A revolução industrial apareceria praticamente no apagar das luzes, no último segundo.

    O que isso significa? Que estamos todos na beira do precipício, na ponta mais alta da seta? Afinal, o que o gráfico e respectivas histórias querem nos dizer? Atenção: o que segue é uma interpretação muito livre, meio romântica e pouco formal de uma bela história.

     

    Uma Bela História

    Desde o seu surgimento, há 13,8 bilhões de anos, o universo caminha para um destino certo: o tédio definitivo. Esse fado está cantado na Lei da Entropia², também conhecida como Segunda Lei da Termodinâmica. É uma das leis fundamentais da Natureza que aparecerão neste almanaque. De acordo com o físico Arthur Eddington³:

    “A lei segundo a qual a entropia sempre aumenta ocupa, a meu ver, a posição suprema entre as leis da Natureza. Se alguém lhe disser que a sua teoria favorita do universo está em desacordo com as equações de Maxwell, danem-se as equações de Maxwell. Se for descoberto que ela é refutada pela observação, ora, esses experimentalistas às vezes fazem cagadas mesmo. Mas, se for constatado que a sua teoria não condiz com a segunda lei da termodinâmica, não posso lhe dar nenhuma esperança; a ela só resta desmoronar na mais profunda humilhação.”

    Einstein não deixou por menos: a lei da entropia era a única teoria que, segundo ele, “nunca seria refutada”4.

    Por bilhões e bilhões de anos o universo seguiu assim, um monte de pedra e pó vagando por aí, trombando entre si ou despencando em buracos negros. Nos interessa a terceira pedra contada a partir de um sol que forma um sistema na franja de uma galáxia com milhões de outros sóis chamada Via Láctea. Sabe-se lá porque cargas d’água, elétricas e químicas, naquele planetinha nasceu uma coisa. Aliás, até o verbo nascer era inédito. A novidade que veio dar na praia do caldo primordial não era o máximo: era uma coisa insignificante. Uma célula apenas. Mas era diferente de tudo o que existia até então: porque era VIVA.

    Rebelde, não se conformava com aquela conversa de destino. Na base de incontáveis tentativas e erros, aquele ser unicelular aprendeu a adiar a entropia/morte. Fez mais, cresceu e se multiplicou. Aceitando que só a variedade absorve variedade, variou. Percebendo que o tédio e a caretice antecipavam a entropia, inventou o sexo. 380 milhões de anos depois chegou às drogas e ao rock’n’roll. Antes, porém, precisou dar um salto crucial.

    Salto é jeito de resumir os milhões de passos e anos que foram necessários até a chegada da gente, vulgo homo sapiens. Temos apenas duzentos mil anos de idade. Quase nada se comparada com a idade da terra (4,5 bilhões de anos) ou do universo (13,8 bilhões). Mas foi o suficiente para aprender que, dentre todos os sistemas conhecidos nessa quase infinidade de universos, nós somos o que há de mais complexo. Sofisticados e desastrados, inteligentes e desconfiados. Engenhosos e ingênuos. Aventureiros amedrontados. Convenhamos, não é pouca coisa.

    Chegamos nesse ponto porque continuamos inconformados com a tal entropia. Somos, apesar dos incontáveis pesares, a melhor resposta para ela. E tudo o que fazemos é criar respostas, é contra-atacar. Ferramentas de pedra, fogo, roda e panelas nos tornaram mais eficientes no consumo de energia. Essa eficiência liberou tempo, o mais caro dos nossos recursos. Porque, segundo a Lei da Entropia, o tempo não pára nem volta. Ou seja, tempo vale mais que dinheiro.

    O tempo livre permitiu a criação de filosofias, ciências, crenças e jogos – tudo o que, para o bem ou para o mal, alimentou cabeças. Nos colocamos novos desafios. E respondemos com plantações, cidades, livros, dinheiros, vacinas e piadas. Criamos novos problemas. E tivemos que inventar pesticidas, canhões, aviões, computadores, redes e músicas para elevadores. Esse é o nosso moto: criar problemas e encontrar alguém que pague pelas soluções. É assim há 3,8 bilhões de anos, desde o surgimento do primeiro rebelde.

    Porque até o menor e mais frágil ser vivo é equipado com a resposta para a entropia: a homeostase.

    “A homeostase diz respeito ao processo pelo qual a tendência da matéria a derivar para a desordem é combatida de modo a manter-se a ordem, porém em um novo nível: aquele permitido pelo estado estacionário mais eficiente”, ensina Antonio Damásio. Que continua: “a essência da homeostase é a formidável tarefa de administrar a energia — obtê-la e alocá-la para funções cruciais como reparação, defesa, crescimento e participação na geração e manutenção de descendentes. Esse é um empreendimento monumental para um organismo, e mais ainda para organismos humanos, considerando a complexidade de sua estrutura, organização e variedade ambiental.”5

    James Gleick, em A Informação6, nos dá este presente:

    “Às vezes é como se limitar a entropia fosse nosso propósito quixotesco neste universo.” 

    Em suma, se o roteiro da vida fosse contado de uma forma bem banal, teríamos uma simples história de mocinha-homeostase e bandida-entropia. De diferente aqui, só o detalhe de que lá no final a bandida vai vencer. Esse spoiler está dado desde o big bang.

    Enquanto o the end não chega, tornamos tudo mais complexo e complicado. São as nossas respostas que desenham aquela curva exponencial. São as nossas respostas, conscientes ou não, que nos dão um belíssimo problema.

     

    Um Belíssimo Problema

    Aquela progressão geométrica explica porque quase tudo o que a gente pensa que sabe está errado. Em uma velocidade incrível, ela tornou quase tudo obsoleto, particularmente a gente. Porque somos lentos. Nosso cérebro, por sofisticado que seja, ainda carrega traços e funções que faziam muito sentido na era em que tínhamos que decorar cavernas, catar caqui e cozinhar mamutes. Há nele um componente reptiliano que nos mantém assim, bem bichos. Vêm desse componente o tribalismo, o imediatismo e a total inconsequência – o agir ao invés de pensar, o sonhar ao invés de planejar; O pensamento mágico.7

    Era para ser vergonhoso: não conseguimos mais compreender nem as nossas próprias invenções. É vergonhoso: nem um vocabulário básico e muito menos uma teoria minimamente consolidada e aceita estão à nossa disposição para lidar com esse mundo novo, com aquela curva absurda.

    Talvez agora esteja um pouco mais clara a motivação para Stephen Hawking declarar que “este é o século da complexidade”. Se ela, a complexidade, tivesse uma logomarca, seria aquela curva.

    Este é o nosso belíssimo problema: aprender a lidar com um mundo totalmente novo na medida em que ele vai se desenhando. Aliás, na medida em que nós o desenhamos. Para tanto, vamos precisar de novas ideias, modelos, métodos e ferramentas. E podemos esperar por gente nova lá na frente. Porque será impossível sair dessa do mesmo jeito que nós entramos. Que a gente saia melhor, bem melhor.

     


     

    Notas

     

    1. The Theory of Evolution (Cambridge University Press, 1993).
    2. <https://pt.wikipedia.org/wiki/Entropia> em 25/03/2020.
    3. The Nature of the Physical World (Andesite Press, 1928/2015).
    4. Citado em Thermodynamics in Einstein’s Universe, de M.J. Klein para a Science (1967).
    5. A Estranha Ordem das Coisas: A Origem Biológica dos Sentimentos e da Cultura, Antonio Damásio (Cia das Letras, 2018).
    6. Cia das Letras, 2013.
    7. Trecho inspirado neste pequeno vídeo da School of Life, Por que a humanidade está se destruindo? <https://youtu.be/Yk3QsGzAjKI>. Em 20/03/2020.
    8. Foto de Willian Justen de Vasconcellos no Unsplash

     


     

     

  • A Melhor Era para estar Vivo

    A Melhor Era para estar Vivo

    Esta é a melhor era para estar vivo, quando quase tudo o que você pensa que sabe está errado.

    – Tom Stoppard, Arcadia (1993)

    Talvez seja só uma questão de vaidade. Todo mundo que já pisou aqui na Terra pode ter classificado a sua era como única, especial. No entanto, cá estamos, meio assustados e muito ansiosos, assistindo a uma combinação de crises que se desenvolve numa velocidade a cada dia mais estonteante. Isso nos permite afirmar que, sim, estamos testemunhando um momento especial da história da Terra. Para alguns, o apocalipse. Para outros tantos, uma grande mudança. Daquelas que ficarão na primeira prateleira dos livros de História. Sabe-se lá para onde estamos mudando. Segundo o dramaturgo Tom Stoppard¹, para “a melhor era para estar vivo.” Como assim? Por quê?

    Porque quase tudo o que a gente pensa que sabe está errado

    Não é porque um clã de filósofos pós-modernos niilistas² – contra um mundo melhor – concluiu que está tudo errado e, claro, vai dar merda. Também não é porque o tio do pavê, via whatsapp, vive insistindo que no seu tempo tudo era melhor. O buraco é mais embaixo:

    “A mentalidade que nos trouxe até aqui não será suficiente para nos livrar dessa bagunça³.”

    – Albert Einstein

    A mentalidade – o tipo de raciocínio – que nos trouxe até aqui ganhou corpo e força no século XVIII, com o Iluminismo. Movimento que mereceu de Immanuel Kant um manifesto e um slogan: “Ouse entender!” Foi um pulinho depois do famoso e desastrado “penso, logo existo” de René Descartes. Kant:

    “O Iluminismo é a humanidade deixando para trás a imaturidade autoinfligida. Imaturidade é a incapacidade de se valer do próprio entendimento sem a orientação de um outro. Esta incapacidade é autoinfligida quando sua causa não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de resolução e coragem de usá-lo sem a orientação de outra pessoa. Ouse entender! Tenha a coragem de usar o seu próprio entendimento! é, portanto, o lema do Iluminismo.”4

    O Iluminismo foi um grito de liberdade sustentado nas ideias das ciências, da razão e do humanismo. O mundo nunca mais seria o mesmo. Mas…

    … ao que tudo indica, parece que chegou a hora de um novo salto. Porque as ideias que nos trouxeram até aqui não são mais suficientes. Que fique claro: não se trata de jogar fora o pouco que sabemos. O desafio é preencher as imensas lacunas. E ousar questionar alguns dogmas e ideologias. Por que não? Por quê?

    Porque esta é a Melhor Era para estar Vivo

    Porque temos a chance de testemunhar e até de participar da criação de um novo mundo. Convenhamos, não é pouca coisa. Não esperamos por novos Adam Smith, Kant, Marx, Darwin, Diderot etc. Aliás, não esperamos por gênios solitários. Vamos entender que não dá para continuar recortando e embalando problemas de forma arbitrária e artificial: isso é economia, aquilo é saúde etc. O mundo não funciona assim. Uma visão mais inteira vai requerer múltiplos talentos e especialidades. Os novos problemas não pedem por gênios e sim por times. Por belos times indisciplinados e geniais. 

    Antes, porém, é preciso entender as deficiências da mentalidade, do tipo de raciocínio que nos trouxe até aqui e que não é mais suficiente.


    Notas

    1. É interessante contar a história daquela frase. Arcadia é uma peça de teatro e a provocação é dita por um professor. Stoppard foi influenciado pelo livro Chaos, de James Gleick. Este fecha o laço de feedback em edição especial do livro, dizendo que Arcadia é “a mais poderosa encarnação das ideias apresentadas .”
    2. Título de um livro de um dos principais representantes tupiniquins desse clã, Luiz Felipe Pondé (Contexto, 2018).
    3. É uma versão diferente porém respeitosa com o sentido original. O termo bagunça mess em inglês – é muito caro neste almanaque. Russell Ackoff define bagunça como um sistema de problemas. (Ackoff’s Best – Wiley, 1999).
    4. Na edição de 30/09/1784 do jornal Berlinische Monatsschrift. Tradução encontrada em O Artífice, de Richard Sennett (Record, 2009).
    5. Foto de Patrick Tomasso no Unsplash

  • Livros de História

    Livros de História

    Três sugestões de livros que ajudam a entender como a indústria de TI chegou até aqui.

    A Informação – Uma História, Uma Teoria, Uma Enxurrada

    Curiosa e rica biografia da Informação. O autor, James Gleick, parte de tambores africanos e nos traz até os dias de hoje. Pesquisa séria e muito ampla feita por quem entende e é apaixonado pelo riscado. Desde os primeiros capítulos ganhei um pensamento recorrente: como gostaria de ter conhecido essa história quando iniciava minha carreira. Porque nossa área enfatiza o T em detrimento do I. Até parece que a embalagem vale mais que o conteúdo. A obra de Gleick, fundamental desde já, coloca o pingo no I.

    O destaque dos tambores que levavam mensagens a distâncias superiores a 150 km não é mera curiosidade. O componente que garantia a integridade da mensagem – a redundância – segue presente em nossas sofisticadas redes digitais. O trajeto entre as batucadas e o Bit, passando pelo código Morse e derivados, é particularmente saboroso.

    Assim como as histórias entrelaçadas de Charles Babbage e Ada Lovelace. Descobrir um Babbage consultor (analista?) de negócios foi particularmente gratificante. Antes de projetar computadores de madeira o cara ajudou a definir o modelo de negócios dos correios (utilizado até hoje) e das linhas ferroviárias. Claro, são pequenas histórias paralelas. Porque o que interessa ao autor é a forma como Babbage e Ada entendiam a informação e como suas contribuições, tidas como fracassos por seus contemporâneos, seriam cruciais para a indústria que só nasceria cerca de um século depois.

    É quando a teoria da informação – em polinização cruzada com a cibernética, teoria dos sistemas e afins – brota em uma era de ouro. Momento de encontro com Claude Shannon, Alan Turing, John von Neumann e todos os outros “pais” da Tecnologia da Informação. Também nos deparamos com James Watson e Francis Crick, que há exatos 60 anos descobriram o DNA, e Richard Dawkins, que nos legou o “gene egoísta” e o meme e segue plantando provocações. Gleick se preocupou em apresentar as pessoas em breves biografias. Contextualização que nos ajuda a compreender melhor por que e como o Iluminismo 2.0 (o autor não comete tal abuso – o exagero é meu) foi possível.

    O livro é longo (528 páginas), mas acessível e agradável. A tradução de Augusto Pacheco Calil é muito boa.

    Companhia das Letras, 2013. R$ 59,50 (impresso) e R$ 34,50 (digital), na Cultura.

    From Airline Reservations to Sonic the Hedgehog

    Se este livro fosse lançado hoje, a segunda parte do título seria Angry Birds. Nos últimos anos testemunhamos outra revolução no mercado de software. O que não invalida este estudo publicado em 2003 por Martin Campbell-Kelly. Como nasceu e evoluiu essa indústria que hoje produz bilionários como Mark Zuckerberg e Jeff Bezos?

    Campbell-Kelly responde com muitos números, tabelas e gráficos. Responde, principalmente, com histórias bem narradas. São mais que curiosas as idas e vindas do mercado de software. Por exemplo, no início software era serviço. Nos anos 1970 brotaram os primeiros produtos (caixinhas, pacotes). Hoje testemunhamos uma volta?

    Retorno por retorno, tem outro mais chocante. Na primeira metade dos anos 1950, quando a IBM vendia seu primeiro best-seller – o 701, ela entregava só o ferro. Cada cliente deveria desenvolver todo o software necessário. Inclusive rotinas elementares como a leitura de cartões perfurados. Não demorou para que clientes reclamassem dos altíssimos custos de desenvolvimento e manutenção. Nascia então, liderada por um gerente de vendas da própria IBM, a primeira comunidade open source da história: SHARE.

    Naqueles tempos a programação era muito cara porque os programadores eram muito raros. A forma como eles eram recrutados, em escolas e estações de metrô, chega a ser hilária: Você gosta de matemática? Joga xadrez? É músico? Então é fortíssimo candidato para uma profissão do futuro! 

    É desta época a segunda lei do Dr. Bauer: “O talento vai aonde a ação está”. A lei segue atual. Do Dr. Bauer não se tem notícia. Pena, porque o cara era bom. Em seus anúncios para atrair talentos ele explicava, em um P.S., qual era a sua primeira lei: “Se o programa tem um bug, o computador o encontrará”. As reproduções dos anúncios antigos dão um toque de humor ao livro.

    O autor acabou de relançar Computer: A History of the Information Machine. Resta torcer para que ele também atualize este título. Boas histórias e anedotas não faltam.

    The MIT Press, 2003. R$ 80,50 (impresso) e R$ 32,69 (digital) na Cultura.

    What the Dormouse Said

    Como levar a sério um livro sobre TI que cite Ken Kesey, descreva viagens de LSD e fale sobre a cultura hippie? A pergunta é outra: dá para levar a sério uma área que nasceu da contracultura dos anos 1960? Se os dois títulos anteriores mostram nossa história limpa e bonitinha, este livro de John Markoff mostra o lado B, piradão, viajandão e divertido.

    Ou não parece divertida a ideia de buscar inovação através de viagens com LSD?

    Três personagens puxam a história. Douglas Engelbart, pesquisador de Stanford que antecipou tantas invenções e tendências ao ponto de merecer, no mínimo, um lugar ao lado de Steve Jobs em nossa história. Myron Stolaroff foi o doidão que buscou inovações através do LSD. Resumo besta que desmerece suas contribuições. O terceiro herói é Fred Moore, filho de militar que se tornou o primeiro ativista da era do Flower Power. São histórias que dariam um filme e tanto. Personagens que ganham o devido reconhecimento neste trabalho brilhante de Markoff.

    Penguin Books, 2005. R$ 51,30 (impresso) e R$ 23,59 (digital), na Cultura.

     

    Notas

    1. Cada era tem os heróis que merece. Estou me tornando um saudosista incurável. Porque não vejo graça nenhuma nos bilionários-coxinhas de hoje em dia.
    2. Não ganho jabá da Cultura. Só coloquei os links para facilitar a sua vida.
    3. A imagem utilizada foi liberada pelo Chris no Flickr.

     

  • Livros de História

    Livros de História

    Três sugestões de livros que ajudam a entender como a indústria de TI chegou até aqui.

    A Informação – Uma História, Uma Teoria, Uma Enxurrada

    Curiosa e rica biografia da Informação. O autor, James Gleick, parte de tambores africanos e nos traz até os dias de hoje. Pesquisa séria e muito ampla feita por quem entende e é apaixonado pelo riscado. Desde os primeiros capítulos ganhei um pensamento recorrente: como gostaria de ter conhecido essa história quando iniciava minha carreira. Porque nossa área enfatiza o T em detrimento do I. Até parece que a embalagem vale mais que o conteúdo. A obra de Gleick, fundamental desde já, coloca o pingo no I.

    O destaque dos tambores que levavam mensagens a distâncias superiores a 150 km não é mera curiosidade. O componente que garantia a integridade da mensagem – a redundância – segue presente em nossas sofisticadas redes digitais. O trajeto entre as batucadas e o Bit, passando pelo código Morse e derivados, é particularmente saboroso.

    Assim como as histórias entrelaçadas de Charles Babbage e Ada Lovelace. Descobrir um Babbage consultor (analista?) de negócios foi particularmente gratificante. Antes de projetar computadores de madeira o cara ajudou a definir o modelo de negócios dos correios (utilizado até hoje) e das linhas ferroviárias. Claro, são pequenas histórias paralelas. Porque o que interessa ao autor é a forma como Babbage e Ada entendiam a informação e como suas contribuições, tidas como fracassos por seus contemporâneos, seriam cruciais para a indústria que só nasceria cerca de um século depois.

    É quando a teoria da informação – em polinização cruzada com a cibernética, teoria dos sistemas e afins – brota em uma era de ouro. Momento de encontro com Claude Shannon, Alan Turing, John von Neumann e todos os outros “pais” da Tecnologia da Informação. Também nos deparamos com James Watson e Francis Crick, que há exatos 60 anos descobriram o DNA, e Richard Dawkins, que nos legou o “gene egoísta” e o meme e segue plantando provocações. Gleick se preocupou em apresentar as pessoas em breves biografias. Contextualização que nos ajuda a compreender melhor por que e como o Iluminismo 2.0 (o autor não comete tal abuso – o exagero é meu) foi possível.

    O livro é longo (528 páginas), mas acessível e agradável. A tradução de Augusto Pacheco Calil é muito boa.

    Companhia das Letras, 2013. R$ 59,50 (impresso) e R$ 34,50 (digital), na Cultura.

    From Airline Reservations to Sonic the Hedgehog

    Se este livro fosse lançado hoje, a segunda parte do título seria Angry Birds. Nos últimos anos testemunhamos outra revolução no mercado de software. O que não invalida este estudo publicado em 2003 por Martin Campbell-Kelly. Como nasceu e evoluiu essa indústria que hoje produz bilionários como Mark Zuckerberg e Jeff Bezos?

    Campbell-Kelly responde com muitos números, tabelas e gráficos. Responde, principalmente, com histórias bem narradas. São mais que curiosas as idas e vindas do mercado de software. Por exemplo, no início software era serviço. Nos anos 1970 brotaram os primeiros produtos (caixinhas, pacotes). Hoje testemunhamos uma volta?

    Retorno por retorno, tem outro mais chocante. Na primeira metade dos anos 1950, quando a IBM vendia seu primeiro best-seller – o 701, ela entregava só o ferro. Cada cliente deveria desenvolver todo o software necessário. Inclusive rotinas elementares como a leitura de cartões perfurados. Não demorou para que clientes reclamassem dos altíssimos custos de desenvolvimento e manutenção. Nascia então, liderada por um gerente de vendas da própria IBM, a primeira comunidade open source da história: SHARE.

    Naqueles tempos a programação era muito cara porque os programadores eram muito raros. A forma como eles eram recrutados, em escolas e estações de metrô, chega a ser hilária: Você gosta de matemática? Joga xadrez? É músico? Então é fortíssimo candidato para uma profissão do futuro! 

    É desta época a segunda lei do Dr. Bauer: “O talento vai aonde a ação está”. A lei segue atual. Do Dr. Bauer não se tem notícia. Pena, porque o cara era bom. Em seus anúncios para atrair talentos ele explicava, em um P.S., qual era a sua primeira lei: “Se o programa tem um bug, o computador o encontrará”. As reproduções dos anúncios antigos dão um toque de humor ao livro.

    O autor acabou de relançar Computer: A History of the Information Machine. Resta torcer para que ele também atualize este título. Boas histórias e anedotas não faltam.

    The MIT Press, 2003. R$ 80,50 (impresso) e R$ 32,69 (digital) na Cultura.

    What the Dormouse Said

    Como levar a sério um livro sobre TI que cite Ken Kesey, descreva viagens de LSD e fale sobre a cultura hippie? A pergunta é outra: dá para levar a sério uma área que nasceu da contracultura dos anos 1960? Se os dois títulos anteriores mostram nossa história limpa e bonitinha, este livro de John Markoff mostra o lado B, piradão, viajandão e divertido.

    Ou não parece divertida a ideia de buscar inovação através de viagens com LSD?

    Três personagens puxam a história. Douglas Engelbart, pesquisador de Stanford que antecipou tantas invenções e tendências ao ponto de merecer, no mínimo, um lugar ao lado de Steve Jobs em nossa história. Myron Stolaroff foi o doidão que buscou inovações através do LSD. Resumo besta que desmerece suas contribuições. O terceiro herói é Fred Moore, filho de militar que se tornou o primeiro ativista da era do Flower Power. São histórias que dariam um filme e tanto. Personagens que ganham o devido reconhecimento neste trabalho brilhante de Markoff.

    Penguin Books, 2005. R$ 51,30 (impresso) e R$ 23,59 (digital), na Cultura.

     

    Notas

    1. Cada era tem os heróis que merece. Estou me tornando um saudosista incurável. Porque não vejo graça nenhuma nos bilionários-coxinhas de hoje em dia.
    2. Não ganho jabá da Cultura. Só coloquei os links para facilitar a sua vida.
    3. A imagem utilizada foi liberada pelo Chris no Flickr.