Tag: Inovação

  • O Problema do Cliente

    O Problema do Cliente

    Hoje o problema não é nosso. Mas a gente quer que seja. Pretendemos desenhar um produto ou serviço que melhore a vida de um cliente. Por onde devemos começar? Quais ferramentas podem nos ajudar? Quais hábitos e mal entendidos colocam em risco a nossa empreitada?Ideias não faltam. Estamos cheios de hipóteses. Mas elas não são um bom ponto de partida para o desenho de um novo produto ou serviço. Por estranho que pareça, é preciso dizer: antes da solução deve haver um problema. A formulação de boas hipóteses requer o entendimento e a definição do problema. Necessidades, tendências e ofertas concorrentes são estopins tradicionais. O mundo está cheio de exemplos de como essas fontes de inspiração podem ser frágeis e traiçoeiras. Microsoft Zune, os óculos do Google, Segway e a Antarctica Sub Zero não me deixam mentir sozinho. Lá se vão vinte e cinco anos desde que a Teoria JTBD (Jobs to be Done – Trabalhos a Executar) foi apresentada¹. Parece que agora ela pegou. Em que ela é diferente dos estopins tradicionais? No olhar de fora para dentro. Na preocupação com o entendimento de um contexto, causas e motivações. Entender o porquê, num primeiro momento, é mais importante do que elucidar quem e o quê. JTBD não são inventados. Nós os descobrimos. Nesta sequência de artigos mal acoplados eu tenho insistido na palavra descoberta. Na conversa anterior eu mostrei como a ferramenta enxuta 5 Porquês, devidamente amparada em modelos sistêmicos, nos ajuda a descobrir a verdadeira raiz de um problema. JTBD é uma teoria e ferramenta mais específica. Mas parte do mesmo princípio: precisamos descobrir – esclarecer, revelar uma situação.

    Lavar roupa em casa.
    Tornar menos desagradável a espera no consultório médico.
    Ir do endereço A para o endereço B com conforto, rapidez e sem gastar muito.
    Comunicar o estado de um projeto respeitando o tempo e a inteligência de todos os envolvidos.
    Afastar a filha do smartphone por duas horas consecutivas.

    Ao apreciar um JTBD devemos considerar três dimensões:

    • Funcional: qual é, de fato, o trabalho a ser feito. Aqui sempre temos um verbo – uma ação devidamente contextualizada.
    • Emocional: como a pessoa espera se sentir ao executar aquele trabalho. Ou ao se ver livre dele.
    • Social: como a pessoa quer aparecer. Não leve em conta apenas as questões narcisísticas. Mas não as ignore.

    Completamos o quadro ao listar as principais coisas que o cliente quer e aquilo que ele não quer (receber, sentir, arcar) ao executar aquele trabalho. Essas informações podem ser capturadas na forma de um Mapa de Expectativas. Uma ferramenta que permite que o negócio também descubra o que ele quer e não quer quando fornece determinada solução.Essas fotografias nos ajudam a entender por que um cliente contrata determinada solução e demite outra(s). Repare nesse jeito de pensar: o cliente não compra produtos ou serviços, ele contrata soluções para se livrar de problemas. Nem sempre essas decisões estão relacionadas com aspectos funcionais. Aliás, dependendo do JTBD, a dimensão funcional pode ser a menos importante.

    Isso basta? JTBD é uma varinha mágica que nos leva para o mundo da solução perfeita? Longe disso. Agora é que o trabalho de análise começa a ficar divertido.

    O Mapa de Transformações

    JTBD bem capturados nos mostram o que precisa ser feito. No mapa ao lado eles aparecem no eixo vertical. A dimensão horizontal nos permite brincar com o como: COMO o trabalho será realizado, contratado, precificado, distribuído e suportado. Enfim, neste eixo nós começamos a cogitar alternativas de solução. Vamos conhecer melhor o mapa. Sua origem é um diagrama apresentado no livro Dual Transformation, de Scott Anthony, Clark Gilbert e Mark Johnson (HBR, 2017). Na falta de um nome, o batizei Mapa de Transformações. Ele é composto por quatro áreas.

    A primeira, no canto inferior esquerdo, representa o Core Business – no caso de uma empresa já existente, está aqui o JTBD que ela atende. A segunda área é representada pela seta ADJACÊNCIAS. Ela acomoda outros JTBD. Repare: todos eles compartilham o modus operandi, ou seja, o COMO. Pense na Amazon vendendo livros, brinquedos ou roupas. O JTBD muda. O COMO é praticamente o mesmo.

    A terceira área do mapa é chamada de Transformação A (seta horizontal). Aqui brincamos de reinventar o hoje. Formulamos hipóteses sobre como criar, entregar, precificar, cobrar e suportar determinada solução para um JTBD. A Netflix mudou dos átomos (DVDs) para os bits (streaming). O JTBD é o mesmo: curtir filmes e séries no conforto de nossas casas. A forma de realizá-lo ficou radicalmente diferente.

    Na quarta e última área do mapa somos convidados a criar o amanhã. É a seta diagonal, a Transformação B. Nela contemplamos novos JTBD e novos modelos de operação, comercialização e suporte. Sua intenção é nítida: resolver o que Clayton Christensen chamou de O Dilema da Inovação (MBooks, 2011). Quem fica bitolado, se iludindo com melhorias incrementais numa zona confortável (Transformação A), pode ser surpreendido por um sanguinário e impiedoso cisne negro. A Transformação B, combinada ao jeito Ágil de pensar, come cisnes negros no café da manhã². A Amazon Web Services é um bom exemplo desse tipo de transformação.

    Conclusão

    Essa combinação de três ferramentas (JTBD, Mapa de Expectativas e Mapa de Transformações) nos ajuda a dar os primeiros passos no sentido de descobrir um problema. O Mapa de Transformações facilita a descoberta e classificação de hipóteses. E nos joga na cara a importância de tratar simultaneamente o hoje e o amanhã. Pense em como essa classificação pode ser útil na elaboração de um portfólio e de roadmaps de produtos, por exemplo.

    Quando comecei esta série falei que deveríamos compreender e diferenciar o VALOR PARA O CLIENTE, o VALOR PARA O TIME e o VALOR PARA O NEGÓCIO. Scott Anthony, em outro trabalho (The First Mile – HBR, 2014), fala da tríade da primeira milha. São três perguntas que precisamos responder:

    1. Há um Trabalho a Executar? A quem ele interessa?
    2. A gente dá conta de criar uma solução viável? Esse trabalho nos motiva?
    3. Essa solução cria valor para o nosso negócio? Quanto?

    O próximo artigo, a terceira parte de nosso Checkup Ágil, vai tratar do segundo ponto acima e explicar o que chamo de VALOR PARA O TIME. Na sequência, eu acho que devo sintetizar as ideias apresentadas nesses nove artigos em um modelo.

    Notas

    1. Anthony  Ulwick é o pai e explorador da criança. Clayton Christensen a popularizou através de seus artigos e livros. Do primeiro há este livro gratuito e um Canvas JTBD. Pois é, mais um canvas…
      Do Christensen eu sugiro a leitura de Muito Além da Sorte (Bookman, 2017), que trata só da Teoria JTBD e suas aplicações.
    2. É muito legal ver como o Movimento Ágil é percebido em situações muito distantes do desenvolvimento de software. Em The Social Labs Revolution (Berrett-Koehler, 2014) Zaid Hassan escreve que “O Ágil come cisnes negros no café da manhã”. Ele mostra como o Scrum ajuda ONGs e similares a resolver problemas realmente complexos, como desnutrição, doenças e analfabetismo em regiões paupérrimas ao redor do mundo. São exemplos que ajudam a rebater alguns mal entendidos que pipocam aqui e ali no mundo Ágil. Mais que isso: mostram como o Movimento ficou grande e maduro por causa e apesar da gente de TI.
    3. Apple of StickyNotes é o título da imagem acima. Compartilhada por StephenMitchell no flickr
  • O País do Jeitinho não Inova

    O País do Jeitinho não Inova

    Lá nos primórdios do Twitter eu escrevi: Chega com esse papo de povo criativo. Somos uma nação de MacGyvers que inventa gambiarras para sobreviver. Criatividade é outra coisa. De lá pra cá, um ou outro exemplo tentou contradizer meu tuíte. Mas foram poucos, raros e ralos. Na última quarta a Folha quase escondeu a notícia que mostra como Pindorama perdeu 32 posições no ranking que mede eficiência em inovação. O Brasil agora é o 39º colocado. China e Índia lideram a lista. Na nossa frente: Paraguai (6º), Estônia (8º) e Sri Lanka (10º), só para citar alguns exemplos. No índice geral, entre 141 países, ocupamos agora o 58º lugar. Perdemos no jeitinho, perdemos no futebol¹. O que deve preocupar é que podemos estar perdendo o futuro.

    O estudo resumido pela Folha, o Global Innovation Index, é elaborado anualmente pelo Insead (instituto europeu de ensino) e pela WIPO (Organização Mundial de Propriedade Intelectual). O índice leva em conta sete critérios:

    • Instituição: Ambientes político, regulatório e de negócios;
    • Capital humano e pesquisa: Nível da educação, ensino superior e pesquisa e desenvolvimento;
    • Infraestrutura: Tecnologias da informação e de comunicações, infraestrutura geral e sustentabilidade ecológica;
    • Sofisticação de mercado: Crédito, investimento, transações e competição;
    • Sofisticação dos negócios: Trabalhadores do conhecimento, conexões inovadoras e absorção de conhecimento;
    • Conhecimento e tecnologia: Criação, impacto e difusão de conhecimento; e
    • Criatividade: Intangíveis (marcas e modelos de negócio), bens e serviços e criatividade on-line.

    Nossa mídia endireitada e viciada, se preocupada com o tema, apontaria o dedão para o governo. A Folha, por exemplo, ao exibir o critério Infraestrutura cita “custo de energia”. Não é isso que é medido no estudo e sim a geração e consumo de energia per capita. No mesmo critério ela ignora o subitem “sustentabilidade ecológica”. Por essas e outras ela nem se preocupou em divulgar o link para acesso (gratuito) ao estudo: globalinnovationindex.org

    É claro que o governo tem uma parcela de responsabilidade quando o assunto é inovação. Mas, a menos que estejamos em um lugar estranho como a Coréia do Norte, inovação é coisa da iniciativa privada. São as empresas as principais fontes de inovação. Simplesmente porque são ou deveriam ser as maiores interessadas. Não por acaso, os quatro últimos critérios da lista acima apontam exclusivamente para o mercado e os negócios.

    Inovação está no discurso de todo mundo, até de empreendimentos de fundo de quintal. É chique – está na moda falar sobre inovação. Mas olha que coisa curiosa eu descobri no Google Trends. Pensei em um bom contraponto para Inovação (linha azul no gráfico ao lado). Tentei estabilidade. Para minha surpresa, ela é tão ou mais relevante que inovação nas buscas e notícias indexadas pelo Google. Veja a pesquisa original e repare, por exemplo, nas diferenças entre minha conservadora Minas Gerais e o inovador Rio Grande do Sul. Ou compare Caxias do Sul com Manaus. Dá o que pensar.

    Berço

    É lugar comum apontar para nosso sistema de ensino e dizer, está ali a origem de nossos problemas (independente de quais sejam). Isso é fácil. Como é fácil sugerir soluções simplistas do tipo “queremos uma lei que obrigue os governos a investir 10% do PIB na educação”. Se o problema fosse (só) a falta de grana, ficaríamos bonitos no pedaço em curtíssimo prazo. O buraco, incomensurável, é mais embaixo.

    Vimos nos últimos dias alguns estudantes revoltados com a greve nas Universidades federais. Oito em cada dez entrevistados estavam preocupados com a liberação dos documentos necessários para efetivação em cargos que eles conseguiram em concursos públicos. Não é curioso que grande parcela da mesma classe que reclama do estado glutão planeje para si e seus filhos uma vida estável em trincheiras do governo? Não discuto vocações. Mas também não engulo contradições e hipocrisia.

    Uma frase pinçada do ótimo A Rede Social, de David Fincher, ilustra bem o outro extremo, uma possibilidade raramente ensinada e motivada em terras tupiniquins: “Estudantes de Harvard acreditam que inventar um trabalho é melhor que encontrar um trabalho“. Não vejo uma única instituição brasileira gerando esse tipo de efeito colateral. Se pouco e mal semeamos, não são as secas e chuvas as culpadas por colheitas tão ruins.

    Contatos recentes com Universidades daqui de minha terra me deram exemplos da cultura da estabilidade. Unidades de TI, inclusive uma encubadora de negócios, envolvidas com a obtenção de certificados MPS.br. Nada mais anti-inovação – nada pode ser mais quadrado. Inovação pede, entre outras coisas, instabilidade, diversidade e inconformismo. Infelizmente, não parece ser o que nossas escolas estão fomentando. Apesar de 48% dos estudantes, segundo pesquisa da Endeavor publicada no início deste ano, pensarem em ser empreendedores.

    Creche

    Quantas vezes ouvimos empresários ou seus representantes reclamando da falta de mão de obra qualificada no Brasil? Quantos desses chorões investem seriamente em capacitação? E quanto eles investem? Respectivamente: n vezes; 52%²; nem Google sabe.

    Empresas sinceramente preocupadas com seu futuro não devem aguardar por mudanças no sistema de ensino. Porque, se elas acontecerem, terão reflexo apenas em médio ou longo prazos. Existe o atalho da importação de mão de obra especializada. Mas é ingênuo quem acredita que possa importar 800k, 200k ou mesmo 100k³ trabalhadores do conhecimento. Vão esperar cair do céu?

    O Global Innovation Index mostra outro número que deveria nos (des)orientar. Entre todos os nossos empregos, apenas 19,3% correspondem a “vagas que exigem conhecimento intensivo” (menos da metade da média européia). Isso nos coloca na 72ª posição do ranking global. Temos tão pouco “trabalho do conhecimento” e ainda assim não somos capazes de formar o pessoal necessário? É Ultraje, continuamos inútil!

    Apenas 40% dos nossos esforços em Pesquisa & Desenvolvimento são tocados pela iniciativa privada. Ela financia quase 44% dessas iniciativas torrando uma esmola de aproximadamente R$ 22 bilhões. Sim, esmola. As 500 maiores empresas tupiniquins, segundo a Exame Melhores e Maiores de 2011, faturaram R$ 2,6 trilhões em 2010. Zero vírgula oitenta e cinco porcento de qualquer coisa é esmola.  E o que aconteceria se tirássemos da conta Petrobras e Embraer?

    Futuro

    A única conclusão possível é que o país do futuro não se preocupa com o próprio futuro. No berço – nas escolas – não é ensinado a inovar e empreender. Na creche – nas empresas – não é motivado a criar. Adulto imaturo, vive de trocar o finito patrimônio por serviços, royalties e bugigangas de qualidade questionável. Insustentável sob qualquer ponto de vista.

    Futuro – Final Alternativo

    Sistemas, nações, organizações, governos, mercados e empresas são abstrações que, entre outras coisas, não têm peso na consciência nem sabem o que é remorso, arrependimento. O quanto você, eu e a Dona Carochinha estamos inovando? Quanto estamos investindo em aprendizagem, pesquisa e desenvolvimento? Como recebemos e incentivamos novas ideias?

     

    Notas

    1. Claro que não me referi ao vitorioso Timão. Em outro ranking – o da FIFA, que mereceu mais destaque na mídia que o da inovação, a seleção canarinho aparece em 11º lugar! Há tempos não somos o país do futebol. E a mentira do jeitinho brasileiro cai pelas tabelas. Ainda bem que ainda somos os maiores vendedores de cerveja do mundo, né? De cerveja, chinelinhos e de um ou outro avião (em sentidos literal e figurado). Não por acaso figuramos no antepenúltimo lugar no critério “Exportação de Bens e Serviços”.
    2. Segundo o mesmo Global Innovation Index.
    3. Estes foram os números que, de pouco mais de um ano para cá, empresários gritaram e a mídia ecoou sem verificar (para variar). Tratariam exclusivamente do tamanho do rombo (vagas abertas e não preenchidas) no mercado TIC. Quando falaram em 800 mil vagas eu chorei: o país do samba passará a ser conhecido como a nação do telemarketing sem noção.
    4. Não me esqueci da provocação que deixei no artigo anterior. As respostas ainda aparecerão nesta pequena série mal acoplada.
    5. A foto do fantástico MacGyver Bar – que não fica em Pindorama nem vende cervejas da Ambev – foi tirada por Galdo Trouchky e disponibilizada via Flickr.

     

  • O Cubículo Global

    Parte 1.1 da palestra “O Futuro não é mais como era Antigamente“. Tanto no evento quanto no artigo anterior, “O Clube da Esquina Globalizada“, não explorei como queria este ponto, que trato genericamente como o “cubículo global”. Espero preencher a lacuna com este artigo. Lembrando que a palestra é sobre Engenharia de Software e minha (retórica) questão é: nossas teorias, métodos e práticas resistem ao confronto com as pessoas e tecnologias de hoje?

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    Surrupiei o título de um artigo da ZapThink. O “Cubículo Global” seria uma das cinco “supertendências” da TI corporativa. O texto da ZapThink reconhece que se trata de uma tendência “com mais de 100 anos de idade”. Afinal, desde a invenção dos telégrafos e telefones o trabalho remoto e a colaboração à distância se tornaram possíveis e viáveis. Os avanços tecnológicos possibilitaram que colaboradores espalhados ao redor do globo trabalhem como se estivessem em uma mesma sala. Mas a tecnologia, neste ponto, serviu apenas para pavimentar o caminho para uma mudança maior e mais significativa. Uma grande mudança cultural está acontecendo, à revelia das organizações, e seu impacto na área de conhecemos como Engenharia de Software não pode ser desprezado.

    De todas as grandes e muito bem vindas provocações colocadas por Don Tapscott e Anthony Williams em “Wikinomics – Como a Colaboração em Massa pode Mudar o seu Negócio” (Nova Fronteira, 2007), existe uma que deveria ser lembrada diariamente pelas empresas: por mais talento que você contrate e retenha, sempre haverá mais inteligência lá fora do que aí dentro.

    Muito se fala sobre uma guerra de talentos, sobre a necessidade de uma empresa formar e tentar segurar pessoas que fazem a diferença em um mundo de hipercompetição. É claro que este tema merece a posição que ocupa na agenda das organizações. O problema, particularmente quando falamos sobre desenvolvedores, é que a cada dia eles têm mais motivos para estar fora. Não estou dizendo que todos os desenvolvedores se tornarão freelancers ou microempresários. Mas parece inevitável que um contingente de alguns dos melhores talentos da área decrete sua independência. De maneira aparentemente irreversível.

    Em primeiro lugar, de todos os trabalhadores do conhecimento, ninguém parece se incomodar mais com o “gap cultural” diagnosticado por Domenico De Masi¹ do que os desenvolvedores. Para entender: este gap é um fenômeno que “constrangeu os atuais knowledge workers, os trabalhadores do conhecimento, a se organizarem segundo os velhos princípios industriais”. O desenvolvimento de sistemas requer criatividade. É interessante notar que em doses cada vez maiores. O que torna legítima a insatisfação de seus praticantes com muitos processos e “metodologias” que lhes são impostos. Comando e controle não combina com criatividade. Mas esta é apenas uma parte do gap.

    Vários desenvolvedores têm em suas casas, bolsos e mochilas mais tecnologia, ou tecnologias mais modernas e atraentes do que aquelas utilizadas pelas empresas. E é indissociável do programador a vontade de trabalhar com o que é novo e desafiador. Me mostre um programador “conservador” e eu te mostrarei um cara que não hesitará em mudar de profissão na primeira oportunidade.

    Empresas que têm software n’alma (e no núcleo de seu negócio) sabem que os “velhos princípios industriais” seriam seríssimos impedimentos para seu sucesso. É por isso que na Google, Microsoft e em outras empresas notáveis há um zelo extremo com o ambiente de trabalho. Videogames e quadras de jogos, salas de “descompressão”, restaurantes e lanchonetes, salas de reunião e mobiliário. Tudo é pensado e desenhado para atrair e reter as melhores pessoas. Nem vou falar sobre remuneração. Mas sua vagas são limitadas. O que farão as centenas de milhares ou milhões de desenvolvedores que elas não contratam?

    Alguns já viram na App Store da Apple e no Marketplace da Google a resposta. Alguns? Só a loja da Apple já contabiliza mais de duzentas mil aplicações e cinco bilhões de downloads. O lançamento do iPad e a dinâmica da Apple fazem crer que essas curvas estão longe da estabilização. Tendo em vista que cada aplicação tem um mercado potencial de milhões de usuários ao redor da Terra, não é exagero supor que uma aplicação bem sucedida pode significar a aposentadoria para um desenvolvedor. Claro, para a maioria isso não passará de um sonho. Mas muitos tentarão a sorte. Aliás, já estão tentando.

    O Melhor dos Mundos

    No artigo anterior citei pesquisa da FGV que fala em um déficit de 800 mil profissionais só no Brasil. Acima cogito a possibilidade de uma debandada de outros tantos talentos. Como ficarão as empresas, tenham elas o software como atividade fim ou não?

    Não vejo mudanças muito significativas no curto prazo. O brasileiro, apesar da fama dizer o contrário, é muito conservador. Particularmente quando se trata de TI. Mas é possível projetar (ou seria torcer por?) um panorama bem diferente em um horizonte de três ou quatro anos. Organizações vão querer contar com aqueles reconhecidos talentos em projetos pontuais. Aquelas que têm o software como seu negócio central criarão redes de colaboradores virtuais. A localização física deles não terá importância nenhuma. Relevantes serão seus conhecimentos especializados e, em diversos casos, os ativos de software que cada um possuir. Uma equipe pode ser formada por um desenvolvedor de Blumenau, outro de San Francisco e um designer de Pádua, na Itália. Localmente ela só precisará de alguém que faça a ponte com o(s) cliente(s) e usuários. Isso soará bobo e romântico para alguns (Pádua?!?) e como notícia velha para outros que já trabalham assim não é de hoje². O que projeto é o crescimento considerável deste tipo de arranjo produtivo. Grandes fábricas desantenadas terão que concorrer com redes de oficinas (ou boutiques) especializadas. Vários componentes das redes serão empresas de uma pessoa só.

    Empresas que não têm o software como atividade fim terão mais opções de compra. A era dos projetos mastodônticos e milionários vai tarde mas vai. Já foi! Assim como a era das arquiteturas fechadinhas e repletas de ângulos retos. Tudo isso abre espaço para a participação de pequenos mas talentosos agentes criativos que nas horas vagas tentam a sorte nas roletas da App Store, Google Marketplace e afins. Para o comprador é um tipo de paraíso porque ele conta com um talento comprovado e sem o tradicional “overhead” daquelas empresas de RH que se disfarçam de solucionadoras de pepinos de TI. Para o pequeno agente criativo é também um paraíso porque ele não precisa fingir que acredita nem se submeter aos processos e juras daquelas tradicionais empresas de RH que fingem saber tudo de TI. Ele vende direto, pode colocar preço em seus produtos e serviços e seguir seus processos e práticas sem depender de nenhum amém. Amém? Inté!

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    Observações:

    1. Criatividade e Grupos Criativos“, Sextante, 2002. Há tempos não citava este trabalho por aqui. É um tijolão de quase 800 páginas que deveria ser lido por tudo mundo que quer falar sobre inovação e criatividade. Pena que De Masi só seja lembrado pelo “ócio”… Beócios!
    2. Tem uns 4 anos que uma grande empresa multinacional me contratou para avaliar a adequação de uma aplicação aos seus processos. Me escolheu exatamente porque fazia pouco tempo que eu a havia estudado (analisado seu negócio). A empresa que queria vender a solução teve que me dar acesso a uma versão completa da solução e também ao código fonte. Eu tinha aqui os mapas dos processos que eu mesmo havia desenvolvido. Em pouco mais de 3 dias elaborei todo o trabalho. Sem ver a cara de ninguém. Só precisei sair de casa, daqui de Varginha, pra colocar a NF no Correio. Hoje, com as notas eletrônicas, nem isso seria necessário. Só desfilei o lero-lero para ilustrar um pouco mais a afirmação: a localização do trabalhador do conhecimento é irrelevante em um número cada vez maior de situações.
    3. Another day at the office” é o nome do Cartoon utilizado hoje, do HikingArtist.
  • O Mundo Mudou

    Terceira parte da nossa conversa sobre “O Novo Gerente de Projetos”.

    O mundo mudou. E não me lembro qual foi a última vez que utilizei um título tão “fraquinho”. Como o antecipei nas duas partes anteriores, seguirei com ele.

    O mundo muda todo dia. Em negócios e TI a impressão que temos e deixamos é de uma dinâmica quase caótica. Uma volatilidade que, segundo experts, gera uma população repleta de pessoas inseguras, ansiosas e desconfiadas. Não raro, exageramos os possíveis impactos de determinado acontecimento. Outras tantas vezes subestimamos tendências. Como a imensa maioria das pessoas é desprovida de dons proféticos e bolas de cristal, é natural que seja assim. Como é normal que indivíduos apresentem reações muito diferentes quando defrontados com uma mesma mudança. Mas o papo aqui é ou deveria ser sobre projetos e seus gerentes.

    Projeto é mudança. Talvez esta seja a verdade absoluta mais ignorada ou desprezada. Quando uma organização dispara um projeto ela está implementando uma mudança. Aqueles que foram selecionados para o trabalho devem estar preparados para lidar com todos os reflexos gerados por ela. Esses reflexos, com maior ou menor intensidade, fazem com que os projetos sejam naturalmente instáveis. Ainda bem que eles têm data para acabar, não é mesmo?

    Porque é natural do ser humano o gosto ou necessidade de estabilidade. Mesmo aqueles viciados em adrenalina, como os praticantes de esportes radicais, valorizam muito os períodos de calmaria. O fato é que estabilidade perene apenas é possível em processos – em ações que repetimos ad infinitum. Projetos são únicos em seus objetivos e restrições. Eles sempre são inéditos de alguma maneira. Por isso é estranha uma certa obsessão por projetos estáveis. Surrupiando um dito de Michael Hammer¹, “projeto instável” é um oxímoro em vias de se tornar um pleonasmo. Por isso é equivocada a crença em planos. Ou, melhor dizendo, a crença na certeza dos planos. Mas, antes de “atacar” os planos (se é que vou fazê-lo), vamos falar sobre a crença. De onde ela vem? O que a alimenta?

    Durante muito tempo jogamos praticamente todas as nossas fichas em padrões e metodologias que, de uma forma ou de outra, prometem estabilidade e previsibilidade. Apesar das promessas raramente cumpridas, particularmente em projetos de TI, essas propostas se espalharam como notícia ruim. As falhas, quando reconhecidas, raramente eram atribuídas aos padrões e metodologias adotados. Quase sempre a culpa é de quem os implementou. Mercados foram criados em torno dessas propostas. E elas se solidificaram. No mau sentido.

    Temos hoje um imenso “sistema legado” de processos de gerenciamento e desenvolvimento. Usei o termo “sistema legado” exatamente porque ele nos remete aos nossos legados mais famosos – igualmente caros e não muito “simpáticos” a mudanças. O “sistema” que aqui trato é composto por treinamentos, certificações, ferramentas, corpos de conhecimento e, principalmente, cultura. Ou, para voltar ao termo utilizado anteriormente, crença.

    Em determinado momento da história alguns componentes do “sistema” se iludiram com sua pretensa estabilidade. Algumas palavrinhas que guiam os tempos modernos, como inovação e criatividade, são simplesmente ignoradas pelo “sistema”. O próprio sentido de mudança e o entendimento de que não se trata de algo indesejável, mas necessário e inevitável, não encontra respaldo real em algumas das peças mais relevantes do “sistema legado” de processos de gerenciamento e desenvolvimento.

    Seria então o caso de jogar todo o “sistema” no lixo? Claro que não. Sugestões assim são ingênuas (mas pouco inocentes). Ingênuas por não perceberem que o “legado” criado, assim como seus pares, é complexo e caro, mas não deixa de ter seu valor. Acredito que, de todos os seus componentes, o primeiro a ser questionado deveria ser a crença ou cultura. Questão de coerência: como um gerente de projetos – um profissional especializado na implementação de mudanças – pode resistir tanto em mudar?

    Ao questionar a crença, ao adotar um perfil mais cético, o profissional tomará os outros componentes do sistema com outros olhos. Ele tenderá a ser mais cuidadoso e desconfiado. Mas será também mais curioso.

    Não se iluda. Mudar cultura ou questionar a crença não é nada fácil. Também não é algo que possa ser implementado como um projeto. Mas é fácil apontar a trilha. Aliás, é até meio besta: 1) Aceitar que mudanças são inevitáveis; 2) Questionar certezas absolutas; e 3) Não ter medo do novo e muito menos de aprendê-lo.

    O Argumento Derradeiro

    Há poucos dias, Scott Berkun, autor de “A Arte do Gerenciamento de Projetos” (Bookman, 2008), retomou um tema que vou traduzir da seguinte maneira: Gerenciamento de projetos é chato? Berkun responde que “o gerenciamento de projetos é tão chato quanto a coisa que está sendo gerenciada”. Por favor, me desculpe a chatice, mas releia a frase negritada.

    Em um artigo anterior Berkun já havia comentado sua impressão de que o Gerenciamento de Projetos não é muito respeitado. E, em outras palavras, não é uma função ou profissão sexy, atraente. Você não vê nenhuma criança ou adolescente dizendo: “Quando eu crescer quero ser gerente de projetos”. Mas Berkun argumenta que diretores de cinema, técnicos de futebol, produtores de discos e várias outras profissões são variações de gerentes de projetos. A diferença é que eles usam outros termos. Nomes que tornam explícita a coisa que gerenciam. E fazem daquela função algo mais atraente, com certeza.

    Me lembro quando chegou a hora de definir minha profissão. Meu velho, como de costume, deu um conselho rápido e nada rasteiro: “Escolhe qualquer coisa, menos contabilidade”. Ele era contador. Dos bons, diga-se de passagem. Trabalhava 30 horas por semana e fazia de tudo para tornar sua rotina menos chata. Mas ele sabia que estava aprisionado em uma função que é, por natureza, 90% do tempo enfadonha.

    Gerenciamento de projetos pode ser tudo, menos chato. Mas, por incrível que pareça, conseguimos torná-la uma profissão dura e carrancuda. Quadrada mesmo. E me parece claro que os ângulos retos de todos os componentes do nosso “sistema legado” são os maiores responsáveis por isso.

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    Nome aos Bois e Pingos nos ‘is’

    Ao bom entendedor que por aqui navega ficou claro que dentre os componentes do “sistema legado” tratado acima figuram: PMBoK, CMMI, Prince2, MPS.br, ITIL, afins e derivados. Manada devidamente nomeada, resta agora esclarecer alguns pontos:

    • PMBoK e BABoK não tratam de nenhum tipo específico de projeto. Então, pode parecer equivocada uma crítica que considere apenas projetos de TI. Não na minha opinião. Ainda avalio se vale a pena um artigo sobre “O Problema com os BoK’s”. Vale a pena ou a espada?
    • Não estarei aqui para ver a aposentadoria do “sistema legado”. Ele resistirá e sobreviverá por um bom tempo. A torcida, de certa forma otimista, é para que ele encontre e beba de um tipo de fonte da juventude. O tipo de ‘service pack’ que o BABoK receberá, por exemplo², é uma de várias possibilidades de rejuvenescimento. Os únicos pré-requisitos são humildade e olhos e ouvidos abertos.
    • Por ser longevo, o “sistema legado” não pode ser ignorado por nenhum profissional razoavelmente sério. Há muito conhecimento ali.
      Mas é um pecado iniciar a profissão pelo lado quadrado da força. Quem quer iniciar uma carreira em gerenciamento de projetos deveria, antes de qualquer coisa, estudar alguns documentos que ainda são meio “apócrifos”. Eu iniciaria por “A Arte do Gerenciamento de Projetos” (Scott Berkun. Bookman, 2008) e “Agile Project Management – Second Edition” (Jim Highsmith. Addison-Wesley, 2010). Necessariamente nesta ordem. Eu não tive essa sorte. Mas também não virei contador³.

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    Observações

    1. Michael Hammer utilizou aquela frase para falar sobre mudanças corporativas. A original é: “Mudança corporativa é um oxímoro em vias de se tornar um pleonasmo“.
    2. Em dezembro fiquei sabendo que o IIBA está preparando uma “Extensão Ágil” para o BABoK. Quem viu a “Leitura Crítica” que fiz já sabia que era uma correção mais que necessária. Apesar da tentativa da versão 2.0 em atender os mundos “Plan-Driven” e “Change-Driven”. Mais do que qualquer coisa, devemos elogiar a humildade e iniciativa do IIBA.
    3. Por favor, prezados contadores, não me levem a mal. Além do meu velho, tenho vários outros parentes que assumiram e gostam desta honrosa profissão. Só não dá para discutir o fato dela ser  90% do tempo chatinha. Sabem o que meu velho fazia quando queria um pouco de diversão? Pegava a contabilidade de uma empresa pra lá de enrolada com fisco e afins. Ou então contratava o filho para desenvolver o sistema de contabilidade daquela empresa encrencada. Pois é, eu não estaria aqui se não fosse a contabilidade.
    4. O desenho utilizado neste artigo, flikr0675, é do flikr.