Educação – PAULO FERNANDO VASCONCELLOS NOGUEIRA https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br My WordPress Blog Tue, 07 Mar 2017 19:27:03 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 Educação Corporativa: O Mercado Brasileiro https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2017/03/07/educacao-corporativa-o-mercado-brasileiro/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2017/03/07/educacao-corporativa-o-mercado-brasileiro/#respond Tue, 07 Mar 2017 19:27:03 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=6223 De tempos em tempos, Pindorama cai numa pindaíba danada. O mercado de educação corporativa é o primeiro a perceber. Apesar de ser um dos últimos a aproveitar as ondas de crescimento. Mesmo assim, os números brasileiros não são nada desprezíveis. Muito menos o seu potencial. E a próxima onda já começa a se formar. Preparado para surfá-la?Uma pesquisa da ABTD¹ aponta que, em média, as empresas brasileiras investem 0,46% de seu faturamento bruto em treinamento. As pequenas empresas são mais generosas, alocando quase 1%. Já as grandes comprometem apenas 0,13%. Nos EUA, a média é de 1,49%, o triplo do número tupiniquim. Falemos em reais.As mil maiores empresas brasileiras, segundo a lista Melhores & Maiores da EXAME, faturaram em 2015 um total aproximado de R$ 2,5 trilhões². Considerando apenas aquele percentual mirradinho do investimento das grandes empresas – 0,13% – temos aqui um mercado de R$ 3,25 bi. Ainda segundo a ABTD, 47% dessa grana vai para os bolsos de terceiros. Repare: estou citando apenas as mil maiores empresas e um rateio bastante modesto. Acho que não exagero quando estimo que o mercado gire algo entre R$ 8 bilhões e R$ 12 bilhões por ano. Tivéssemos aqui o número dos EUA (1,5%), estaríamos falando de R$37,5 bilhões!

Para onde vai esse número se acrescentarmos as pessoas físicas e toda a variedade de treinamentos que elas contratam? Sinceramente, não tenho nem ideia. Só sei que tem um tamanho nada desprezível. E um potencial imenso.

Tirando o Atraso

Numa era em que a complexidade e as incertezas só fazem crescer, uma boa aposta é a aprendizagem. Vale para os negócios. Vale ainda mais para os profissionais. Muitas empresas tupiniquins têm uma postura mesquinha – contabilizam o desenvolvimento como despesa. Ainda se agarram a regulações e barreiras, brigam por preços mínimos e investem fortunas em lobistas e políticos. Deveriam perceber que estão enxugando gelo e apostando no time errado.

Muitos profissionais estão sentindo na pele a cara contrapartida de um período de sossego. Só treinavam quando a empresa pagava. Só se interessaram pelo o que a empresa demandava. O emprego se foi e a dificuldade para tirar o atraso é diretamente proporcional ao tempo de casa.

Potencial

Agora, o caminho feliz em potencial. Muitas empresas já perceberam que 22 horas de treinamento por ano é quase nada. Essa foi a nossa média em 2015. Novas modalidades de treinamentos e um pouco de bom senso (ou boa vontade) podem quadruplicar esse número. Nossa média de investimentos por colaborador é de apenas R$ 624/ano. Nos EUA, R$ 3.980/ano – em um mercado que ainda sente reflexos da pindaíba instaurada em 2008.

Os profissionais, mesmo que por medo, estão aprendendo que não podem entregar suas carreiras nas mãos de uma empresa. Por benévola que ela seja. São esses profissionais que participam de treinamentos em finais de semana, buscam por comunidades, projetos e ferramentas que os mantenham antenados.

Oportunidade

Houve um tempo em que tamanho era documento. Isso ainda vale para alguns ramos, mas são cada vez menos. No mercado de educação corporativa e de treinamentos, definitivamente, o tamanho não diz nada. E uso o meu próprio caso para ilustrar. Sou uma empresa de um homem só estabelecido em Varginha, Sul de Minas Gerais. Isso não me impediu de atender gigantes como Alelo, Bradesco, BrasilPrev, Embraer, Finep, Friboi, Net e Oi, dentre outras. Algum segredo? Nenhum. Você precisa de conteúdo, conversas,  alguns poucos e bons parceiros e preparação. Gostou desse artigo e quer receber mais informações? Deixe seu comentário, assine a newsletter ou curta a página da OPA! no Facebook.

Notas

  1. Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento. Os números foram apresentados n’O Panorama do Treinamento no Brasil (2016).
  2. Isso é quase metade de nosso PIB, que foi de R$ 5,9 trilhões em 2015. Mil empresas representam quase metade da riqueza que criamos? Queria ter um pouco mais de tempo para destrinchar isso. Ou um colega que aponte estudos que comprovem ou desmintam os números citados.
  3. Leandro Mendonça, goodfella, colaborou neste artigo.
  4. 46:365 – Spectrum é o título da imagem de hoje. Foi compartilhada por Phil Wood no flickr.
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Um Professor Acidental https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2016/12/05/um-professor-acidental/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2016/12/05/um-professor-acidental/#comments Mon, 05 Dec 2016 13:23:48 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=6066 “Se quiser que Deus dê umas boas gargalhadas, conte a Ele os seus planos.”
Woody Allen

1987, terceiro ano do curso técnico em Processamento de Dados. O professor de informática divide a sala em duas e me delega todas as aulas práticas. No ano seguinte, já formado, eu tinha uma sala só minha, em outra escola. Curso noturno, com muita gente boa tão cansada quanto eu. Eu acumulava exército (tiro de guerra: 6h ~ 8h30), um trampo como programador numa empresa japonesa (9h ~ 17h) e o curso noturno. Aos domingos, pra descansar, apresentava o Clube do Rock numa rádio local.

1993, o Brasil, como na década anterior, atravessava uma crise feia. Assumi a área de informática da Cooperativa Regional do Sul de Minas. Gerente? Que nada. O Atílio era digitador. Eu fazia todo o resto, de instalação de redes até análise e programação. E dava manutenção num legado Cobol mal escrito pra chuchu. DevOps de um homem só. De noite ia para a escola cuidar de outra turma de Processamento de Dados.

1998, o país estava quebrado de novo. E eu precisava ganhar mais. Embarquei para Sampa, onde o salário médio era de três a quatro vezes maior do que no Sul de Minas. Dei alguns cursos de VB (que vergonha) e de Lógica de Programação (que orgulho) até arrumar um trampo como Gerente de Projetos. Foi acidente, eu era programador. Mas aquilo mudou tudo.

2004, com um punhado de bons e maus projetos nas costas, lanço este finito. Ele nasceu para ancorar minha primeira pesquisa digna do nome: Aprendizado InterProjetos. Trabalho que foi selecionado para um evento do PMI. No ano anterior já havia palestrado no mesmo evento, falando sobre Engenharia de Requerimentos (sic¹).

2005, encerra-se o ciclo paulistano com três anos de atraso. Tem início a “carreira solo”. Utilizando o modelo Lucro-Troco-Truco, decidi que serviços de consultoria ocupariam 70% de meu tempo (lucro). Cursos e palestras seriam o troco (20%). Como disse um colega-consultor-argentino, “nosso negócio é inviável”. E é mesmo. Em consultorias, para cada pequena vitória há um sem número de dissabores.

2007, o FAN é lançado. Deveria ser troco – um chamariz para serviços mais polpudos. Mas aí vieram demandas da Oi, Net, Embraer, JBS Friboi, BrasilPrev, SoftPlan, Mercado Eletrônico, Linx, Gauge, Unisys e Bradesco, dentre outras. Caramba, de um porão em Varginha eu estava atendendo uma bela parcela do PIB tupiniquim! E em algumas turmas abertas cheguei a receber mais de 70 pessoas. O troco tinha virado lucro.

2009, o FAN é incorporado a um curso de extensão da Federal de São Carlos. Alguns alunos disseram que foi “a melhor aula que já tiveram”. Um deles era mineiro, de Guaxupé, e desconfiei de nosso tradicional bairrismo. Estimulei, algum tempo depois, a adoção do Scrum para guiar todo o curso. Assim foi feito. Eu já fazia experiências similares nos meus próprios cursos.

Aliás, foi nessa época que passei a me perguntar: Como ensinar? Aliás, como facilitar a  aprendizagem? Posso tornar o FAN e outras ofertas mais eficazes? Por que algumas turmas fluem muito bem e outras tropeçam? Não basta dominar o assunto. Nem ter uma didática aceitável. Passei a incorporar ensinamentos de Mel Silberman, Harold Stolovitch e outros². O Design Instrucional virou uma necessidade.

2013, a complexidade crescente e a bagunça nas ruas – prenúncio de uma nova crise –  me levaram ao desenho do flit. Processo sem pressa. Afinal, era o primeiro truco³ em quase dez anos. O flit pedia por uma estrutura diferente – por algo que chamo Unidade Básica de Aprendizagem. Foi assim que descobri o Learning Object e, principalmente, o Understanding by Design®  (Design Reverso). O flit também pedia por um processo. E eu ganhei uma boa desculpa para finalmente adotar as ideias do húngaro Mihaly Csikszentmihalyi, principalmente seu Fluxo. Ele combina bem com o Scrum e outras propostas legais.

2016, o flit não vingou (ainda). Pindorama, que surpresa, vive outra crise homérica. E uma ficha desaba: por que não vender a alma? Não a minha, mas a alma do flit. Ela é um sistema de aprendizagem completo. Por que não torná-la um produto por si só?

Assim nasce a OPA! Oficina de Projetos de Aprendizagem. Devo confessar, temi que o novo produto parecesse um estranho no ninho finito. Até relembrar essa história toda e finalmente aceitar que, acidentalmente, estou virando um professor.

Notas

  1. Pois é, eu ainda insistia no termo “Requerimentos”. Pouco depois, através do saudoso grupo CMM-br, aprendi que “Requisitos” era bem melhor.
  2. A bibliografia é imensa. Vou citar dois estopins: Active Training, de Mel Silberman (Wiley, 2015. Está na 4ª edição, comemorando aniversário de 25 anos!); e Telling Ain’t Training, de Harold Stolovitch e Erica Keeps (ASTD, 2011).
  3. Lucro-Troco-Truco é a versão tropicalizada do modelo 70-20-10 que, diz a lenda, guia o trabalho dos colaboradores da Google.
  4. Teaching é o título do rabisco acima. Executado e compartilhado por Daniel Friedman via flickr.
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Pensamentos da Moda https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2016/07/27/pensamentos-da-moda/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2016/07/27/pensamentos-da-moda/#respond Wed, 27 Jul 2016 19:49:35 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=5244 Está na moda pensar. Veja quantos papos sobre thinking pintaram nos últimos tempos. Listas de livros mais vendidos têm presença garantida de algum último achado das neurociências. Parece que estamos numa trilha de iluminação. Só que não. E não é preciso muita atenção para perceber como as coisas parecem ir de mal a pior. Culpa dos pensamentos? Ou da falta deles?

Enxurrada de Pensamentos

Agile, Complexity, Creative, Critical, Design, Game, Lean, Liminal, Magical, Product, Service, Smart, Systems, Strategic, Visual, Zen. Tudo isso e mais alguns termos que devo ter perdido no caminho já mereceu o sobrenome Thinking. Todos apelam para que utilizemos uma das únicas coisas que podem nos diferenciar das máquinas: a capacidade de pensar.

Sim, porque é um engano clássico imaginar máquinas pensantes. Um mal entendido conhecido como a Falácia da Inteligência Artificial. Máquinas não reproduzirão nosso jeito de raciocinar. O que não as impede de realizar um monte de coisas que são impossíveis para nossos cérebros. Retomando o papo do artigo anterior, sobre O Futuro das Profissões, é hora de uma dica não oferecida lá: devemos apostar no que nos torna únicos, especialmente na capacidade de pensar. Onde, quando e como aprendemos a pensar?

O Desserviço das Escolas

Seria impossível listar todos os trabalhos que berram por uma revolução total na forma como educamos crianças, adolescentes e adultos. Nada a ver com a ingênua proposta de uma “escola sem partidos” nem com questões quantitativas. Por desserviço entenda o seguinte: as escolas reprimem tudo o que é valioso hoje e será ainda mais no futuro.

Surrupiei textos de Drucker, Ackoff e Semler para destacar os principais problemas. Hoje eu também citaria Sir Ken Robinson e Salman Khan¹. Mas vou direto ao ponto, com minhas próprias palavras: escolas não sabem ensinar a pensar².

Impulsivo e Preguiçoso

Pense nos doze meses do ano. Agora, coloque-os em ordem alfabética. Esse teste bobinho mostra bem o funcionamento dos dois sistemas que operam em nossas cabeças, o Rápido (1) e o preguiçoso Devagar (2). Daniel Kahneman nos conta como, ao contrário do que gostaríamos de acreditar, o sistema 1 prevalece em decisões do dia a dia³. Somos bem mais impulsivos do que racionais. Quais são os nossos desafios?

O sistema 1 é resultado de milênios de evolução. Apesar dos erros causados pela sua “pressa”, ele nos trouxe até aqui. Como o mundo anda bem mais complexo, é natural que ele esteja um tanto atordoado. E mais desastrado.

O sistema 2 é mesmo preguiçoso. Se a gente deixar, ele não trabalha. O teste acima deve ter te mostrado isso. Você colocou os doze meses em ordem alfabética? Sério?

Nosso grande desafio está em motivar o sistema 2 e dar uma segurada na impulsividade do sistema 1. O cérebro é um só e é claro que em cada pessoa o setup é um tanto diferente. Por isso temos os mais centrados, os inconsequentes, os introspectivos, os sistemáticos e os tô-nem-aí, dentre outros.

Mas o desafio é para todos. Nosso cérebro é o sistema mais complexo conhecido. É, de fato, a primeira maravilha da natureza. Quem aprender a utilizá-lo de forma mais eficaz aumentará as chances de sucesso.

Usando a Cabeça

Todos os thinking listados acima têm seu valor e aplicação. Alguns são rasos. Outros, bastante específicos. Há também quem fale não sobre pensamentos, mas sobre o desenvolvimento de um Sétimo Sentido4. Que bom que temos tantas opções. Só os fundamentalistas não curtem muito isso. Mas há um preço alto por ter tantas alternativas: usar a cabeça e fazer escolhas. Minha opção pelo Pensamento Sistêmico não vem de hoje. Prepare-se para rir: foi receita de um médico veterinário, aviada há exatos 20 anos. Nem sei dizer como sou grato ao “doutor” Ricardo Marques5.

De Capra para Senge, Meadows, Weinberg, Russell, Checkland, Ulrich, Churchman, Ackoff, Beer, Espejo, Ashby, Mead, Boulding, Vickers, Lewin, Maturana, Jackson e, mais recentemente, Cabrera, foi um fluxo (não um pulinho). Como colocou Newton, como é legal a vista quando se está sentado em ombros de gigantes. O Pensamento Sistêmico ainda tem muitos sentidos para muita gente. Jurgen Appelo, em Management 3.0, e artigos recentes6 lhe descem o malho. Isso é bom – fidbeques negativos sempre serão necessários se o que se busca é evolução e viabilidade.

E o Pensamento Sistêmico, depois de um pequeno hiato, se renova nas propostas de Derek Cabrera e em ferramentas bem modernas. Busca viabilidade ao fixar um propósito bem nítido: alinhar nosso modo de pensar com a forma como o mundo realmente funciona. Não é pouca coisa. E parece ser uma boa aposta.

Notas

  1. De Ken Robinson, duas sugestões: Libertando o Poder Criativo (HSM, 2012) e esta palestra no TED.
    De Salman Khan, fundador da Khan Academy, Um Mundo, Uma Escola (Intrínseca, 2013)
  2. Toda generalização é estúpida, eu sei. Mas a afirmação só deve machucar de verdade um conjunto muito pequeno de exceções que confirmam a regra. A elas, minhas sinceras desculpas. E um pedido para conhecê-las de perto.
    Outra coisa: não é culpa de diretores, professores, ministros. A culpa é de todas as partes interessadas que parecem não se interessar muito pelo tema, particularmente pais e alunos.
  3. Rápido e Devagar: Duas formas de pensar (Objetiva, 2012).
  4. The Seventh Sense: Power, Fortune, and Survival in the Age of Networks
    Joshua Cooper Ramo (Little Brown and Company, 2016)
    Se quisesse, o autor poderia sugerir um Network Thinking ao invés de um sétimo sentido. Talvez ele tenha percebido certo cansaço do termo “thinking” 🙂
  5. Fomos colegas na Coopersum, a primeira empresa a rodar um PowerPC em Minas. Há tempos procuro por esse cara. Nem o Google me ajudou. Ele é do terceiro B do triângulo mineiro, a b… de Araguari, e viveu por muito tempo em Elói Mendes (Mutuca para os íntimos). Sei que parece impossível, mas se alguém tiver alguma pista… Devo muito a ele.
  6. Naquele artigo, o mal entendido aparece logo no subtítulo: “uma organização não é um sistema”. A autora Bonnitta mira na cibernética (ecoando críticas rebatidas há tempos) e desconsidera as contribuições de diversas linhas do Pensamento Sistêmico, como Soft Systems Methodology (SSM), Human Systems Dynamics (HSD), Adaptive Action e o novo DSRP, principalmente. Não importa. Falem mal, mas conversem sobre o Pensamento Sistêmico. É preciso.
  7. brains é a foto de hoje. Surrupiada de Oferico no flickr.
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O Clube da Esquina Globalizada https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2010/09/01/o-clube-da-esquina-globalizada/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2010/09/01/o-clube-da-esquina-globalizada/#respond Wed, 01 Sep 2010 16:50:01 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=1328 Esta é a primeira das três partes da palestra que apresentei no último sábado, “O Futuro não é mais como era Antigamente“. Publicarei todas aqui, antes que voltem para o segundo plano de minha gaveta. Hoje escrevo sobre pessoas e equipes. O artigo foi bem contaminado por um tema que ganha espaço até em agenda de candidato, o “apagão” de mão de obra qualificada.

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Nossa história se inicia com um grande apagão. Lá nos idos de 1950 e início da década de 1960, quando agências do governo dos EUA e algumas pouquíssimas empresas começaram a apostar no potencial do “cérebro eletrônico”, aconteceu a Crise do Software 1.0: milhões foram gastos naquelas engenhocas mastodônticas antes que sentissem falta de um componente essencial: gente. Particularmente daquele tipo que depois receberia a genérica alcunha “programador¹”. Qualquer projetinho de meia tigela demandava dezenas e até centenas de profissionais. Acontece que poucos projetos daquela época eram pouco ambiciosos. Só o SAGE (Semi Automatic Ground Environment), da Força Aérea, contou com 700 programadores e 1400 profissionais de suporte. Época legal, em que cada linha de código chegava a custar assombrosos US$ 50.

A grana, melhor dizendo, o potencial de faturamento chamou a atenção de muita gente. Começaram a brotar as “software houses” independentes. O desenvolvimento de sistemas deixava de ser uma exclusividade dos produtores de ferro (IBM, Burroughs, RCA etc). Mas como faltava gente. Os dois anúncios que você vê ao lado se preocupavam só com isso: atrair talentos. O simpático Dr. Bauer, da Informatics Inc., cravou a sua “segunda lei” no clássico reclame²: “o talento vai para onde está a ação“.

Mas os anúncios não eram suficientes. E as empresas lançaram mão das estratégias mais agressivas para encontrar “talentos”. Montavam escritórios e quiosques em grandes cidades só para achar pessoas que poderiam ser “convertidas” em programadores. Os recrutadores eram orientados a dedicar especial atenção para: professores de matemática e, olha que jóia, professores de música!

A estratégia funcionou. Em paralelo, universidades e escolas nasceram ou criaram cursos para formar gente que deveria atender toda aquela demanda pós-moderna.

Até que, num belo dia, o mundo ficou chato (no sentido de ter uma superfície plana). E dos lugares mais improváveis surgiam programadores que prometiam executar o mesmo trampo de seus similares ocidentais por 1/10 do preço ou menos. Quem já teve o prazer de ler “O Mundo é Plano“, de Thomas L. Friedman (Objetiva, 2005), aprendeu que a Globalização 3.0 não afetou apenas os desenvolvedores de sistemas. Ninguém está isento do achatamento do mundo. E todo mundo pode aproveitá-lo. Acontece que a pancada no mercado do software, além de ter sido a primeira, foi também a mais sentida. “The New Face of the Silicon Age”, artigo publicado na Wired em fevereiro de 2004, mostra bem o tamanho do estrago.

Os Pecados do Lado de Baixo do Equador

O alegre povo de Pindorama, com um certo atraso, sacou: “tem bagulho bom aí!” (e João de Santo Cristo ficou rico a acabou com todos desenvolvedores da Índia). Bem, não foi bem assim. Poderia ter sido, não fôssemos tão viciados no auto-engano. A edição da EXAME aí ao lado, de 25/jun/2003, cravava na capa: “Descobrimos um segredo: o Brasil produz tanto software quanto a Índia.” Pouco tempo depois, em 17/mar/2004, a mesma revista jogou uma ducha d’água fria: “A Índia dá aula ao Brasil” (negrito e vermelho da versão original). Segredinho sem vergonha esse, hem?

Jogamos tantas fichas em apostas bobinhas (CMMI, MPS.br e cartórios afin$) que agora assistimos bondes a nos ultrapassar. EXAME, em 30/jun/2010: “Rivais Além do Futebol – No setor de tecnologia, os empreendedores da Argentina estão melhor que os brasileiros na corrida da globalização.

Vou poupá-los do chororô sobre uma estratégia para o software tupiniquim. Quem se interessar pelos meus R$ 0,02 sobre o tema pode ler uma pequena série que publiquei em dezembro de 2007 no abandonado Graffiti. O ponto aqui é outro.

É a Educação, Estúpido!

O que Índia, China, Coréia do Sul e outros emergentes da indústria digital têm em comum é a preocupação com educação. O tema sempre aparece na pauta de nossos políticos. Mas aparece assim, como um tópico em um slide que apresenta suas “prioridades”. Até hoje não vi ninguém ir além do óbvio (mais escolas, professores melhor preparados e mais bem pagos etc etc). Como sou um dos menos indicados a tratar o tema com a profundidade e seriedade que ele merece, me limitarei a propor dois ou três novos “slides”, com questões mais específicas:

  • No último dia 12/ago a FGV assustou um tanto de gente com um número: “Até 2014, haverá um déficit de 800 mil vagas no setor“. Como não tem muito tempo que esse número era 200 mil, minha desconfiança é alta. Tanto que na palestra perguntei: “Será que estão confundindo a gente com atendentes de telemarketing de novo?” Não importa (muito). O fato é que há sim um “apagão”. E como suprir tamanha demanda de forma rápida? Com cursos técnicos! Em 2 anos é possível formar um batalhão de bons desenvolvedores. Repito o que disse o mineiro Adail Retamal em um seminário há 3 anos: “Programação se aprende em curso técnico, não na faculdade“.
  • Não tenho números oficiais, mas há tempos sabemos que cerca de metade da patota que inicia um curso (técnico ou superior) não o conclui. Alguém já se ocupou em descobrir as razões de tanta desilusão? Será que a distância entre nosso instigante cotidiano digital e os ângulos retos e empoeirados de nossas escolas não é uma boa explicação?
  • Se eu tivesse grana montaria uma escola com uma grade antenada. Uma base comum, formada por mínimas certezas e teorias fortes, seria obrigatória para todos. Depois, um cardápio multidisciplinar estaria à disposição de designers, engenheiros, líderes, analistas etc. Não me preocuparia em ter o crivo do MEC, PMI, IIBA nem nada do tipo. Uma escola de pensamento independente. Acho que seria uma revolução.
  • A formação de mão de obra qualificada é responsabilidade exclusiva de governos? É estranho o pensamento de alguns de nossos capitalistas de TI. Aqueles que têm real consciência da criticidade das pessoas para seu negócio devem se mexer. Quem quer talento hoje deve se preocupar em formá-lo. Duas dicas: i) Faça com que 4 ou 8 horas da jornada semanal seja utilizada exclusivamente em atividades de aprendizado; ii) Incorpore a segunda lei do Dr. Bauer: “O talento vai para onde a ação está“. Ação, pra quem não entendeu, é projeto que dá tesão.

Observações:

  1. É preciso dizer que naquela época a tarefa de programação era dividida entre diversas funções, do pensador de algoritmos ao perfurador de cartões.
  2. Sorte nossa que o anúncio, lá no rodapé (p.s.), mata a curiosidade. A “primeira lei” do Dr. Bauer é a seguinte: “se o programa tem um bug, o computador o encontrará”. Grande Dr. Bauer. Mal sabia que sua primeira lei viraria mantra-desculpa de tester preguiçoso…
  3. A parte pré-histórica aqui narrada foi surrupiada do grande livro “From Airline Reservations to Sonic the Hedgehog – A History of the Software Industry”, de Martin Campbell-Kelly (The MIT Press, 2003).
  4. O cartoon, Fitting into the system, foi surrupiado de HikingArtist.com. Os dois anúncios que ilustram este artigo foram publicados no livro citado acima. E as capas da EXAME e da Wired são propriedade de suas editoras.
  5. O “Clube da Esquina” é do Milton e de todos os Mineiros; “O Pecado ao Sul do Equador” é do Chico; e o “Bom Bagulho”, do Renato Russo.
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