Tag: Design

  • A Sprint Ideal tem Duas Trilhas?

    A Sprint Ideal tem Duas Trilhas?

    Já rabiscamos a estrutura de uma Sprint Ideal. Falamos sobre início e fim,  cerimônias, duração e a necessidade de folgas. O papo de hoje é sobre o que acontece dentro de uma sprint. Gente muito boa¹, como Marty Cagan e Jeff Patton, sugeriu o trabalho em duas trilhas (dual track). Há controvérsias, claro. Além de ideias que merecem dois ou três giros experimentais. 

    Não estamos em uma corrida de revezamento, como aquele quadro kanban/scrum parece sugerir de vez em quando. Esse jeito de ver o desenvolvimento de produtos e soluções deveria ter sido definitivamente escanteado lá em meados dos anos 1980, quando Takeuchi e Nonaka nos apresentaram o jeito scrum de pensar – ou, melhor dizendo, o jeito japonês de desenvolver produtos².Outro trabalho seminal da dupla, Gestão do Conhecimento (Bookman, 2008), inspirou a matriz ao lado. No eixo horizontal navegamos do entendimento de um problema (análise) até a criação da solução (síntese). Na vertical diferenciamos a natureza de nossas fontes, matérias-primas e artefatos. Eles podem ser concretos (gentes, fatos, problemas) ou abstratos (hipóteses, personas, planos).  É uma bela coincidência o encaixe sem gambiarras do ciclo OODA (Observe, Oriente, Decida, Aja) nesta matriz. Observação e Ação ocorrem aqui, no mundo real, concreto. Elas lidam com fatos e envolvem e afetam gente de carne e osso. Do outro lado, lá em cima, estão os trabalhos baseados em ideias e possibilidades. Na Orientação nós criamos opções para, logo depois, tomarmos Decisões. Os termos originais falavam com pilotos de combate. A partir deste ponto vamos chamar os trabalhos de Descoberta, Exploração, Desenvolvimento e Entrega

    Aos Trabalhos

    Os proponentes do modelo Dual Track falam em dois tipos de trabalho: descoberta (discovery) e desenvolvimento (development). Veja o desenho sugerido por Jeff Patton:Patton, no mesmo artigo, reconhece a existência de um terceiro tipo de trabalho, o design tático. Ele defende que os trabalhos são diferentes porque requerem um jeito de pensar diferente. Vamos retomar a matriz sugerida anteriormente? Não são dois ou três tipos de trabalho. São quatro! Em cada quadrante temos fontes e materiais distintos. Mais que isso, temos objetivos bastante diferentes:

    • Descobrir: revelar, jogar luz, tomar conhecimento, fazer conhecer.
      É neste momento que delineamos o problema ou parte dele. É aqui que conhecemos as pessoas envolvidas (holders) e temos o primeiro contato com seus interesses (stakes) e dores. É aqui, no mundo real, que descobrimos o que precisa ser feito.
    • Explorar: percorrer (região, território) para estudar, pesquisar, conhecer.
      O entendimento do problema continua e se enriquece quando começamos a cogitar alternativas de solução. Brincamos com hipóteses, rabiscamos arquiteturas e validamos protótipos. É no campo das ideias que exploramos o como fazer

    Aquilo que Patton e Cagan apresentam como a trilha discovery é a combinação de dois trabalhos. Pense no OODA original. Observação e Orientação são trabalhos distintos. Complementares, com certeza, mas muito diferentes. Fechando a matriz:

    • Desenvolver: elaborar, criar. No OODA original, é o momento das tomadas de decisão. Dentre as diversas opções sugeridas durante a Exploração, algumas começarão a ganhar vida neste quadrante. Para encontrar o mundo real logo depois. 
    • Entregar: para muita gente seria apenas uma questão de “colocar em produção”, “subir pra nuvem”, “mudar de assunto”… É claro que a entrega é muito mais que isso. Pode envolver a preparação das pessoas que receberão aquela mudança. Deveria incluir o monitoramento de indicadores que vão comprovar ou não a solução do problema dado. Enfim, é botando para rodar e quebrar que nós aprendemos e justificamos nossos ganhos e choros. É aqui, no mundo concreto, que encerramos e começamos tudo de novo.

    Patton e Cagan tratam os dois trabalhos acima na trilha de desenvolvimento. Nossa matriz, mais colorida abaixo, mostra como Desenvolvimento e Entrega são movimentos/momentos diferentes:

    Quatro Trabalhos / Duas Trilhas

    Durante muito tempo convivemos com o ciclo PDCA (Plan/Do/Check/Act) como se ele fosse o único ou o melhor molde para todos os nossos métodos. Apesar do berço esplêndido e de teimosos ilustres³, faz tempo que o PDCA deu o que tinha que dar. Os problemas que merecem a nossa atenção pedem por novos modelos mentais.

    O ciclo OODA nasceu da necessidade de fazer com que pilotos de caça voltassem para casa sãos e salvos. O ciclo, naquele contexto, poderia girar dezenas de vezes em uma única missão. Tente calçar aqueles coturnos. Pense em como deve ser um combate nas alturas controlando uma máquina a, sei lá, 3.000 km/h?  Pois é, o OODA parece ser uma ideia – um jeito de pensar – bastante adequado para nossos tempos velozes e furiosos. Se você topa este entendimento, então aceita o fato de que temos quatro e não dois trabalhos. 

    Quatro trabalhos em duas trilhas: Divergente e Convergente. Surrupio os termos sugeridos por Tim Brown em Design Thinking (Alta Books, 2017). Na primeira nós criamos opções. No outra, tomamos decisões. Você prefere usar Upstream e Downstream? Fique à vontade.

    Como?

    Reclamações acerca das dificuldades de trabalhar com “ágil” – feitas por designers, analistas de negócios e afins – foram sumariamente ignoradas por muito tempo. Foi necessária a intromissão de nomes mais conhecidos – Marty Cagan, James Coplien, Peter Morville e Jeff Patton, por exemplo – para que a sugestão do trabalho em duas trilhas fosse percebida. Aceita não, percebida. 

    Confesso que ainda não vi o dual-track rodando em sua plenitude. Muitos times preferem apostar em coisas como o refinamento ou workshops de requisitos. Repare: esses eventos parecem ser espaços abertos na agenda do time – concessões? – para a realização dos trabalhos de descoberta e exploração. Como se a realização deles fosse possível em dois ou três encontros por sprint. Sei não, mas isso tem jeito e cheiro de cascata.

    Descoberta e exploração deveriam acontecer todo santo dia. É por isso que a convivência diária do time com gente do negócio é um requisito para o bom uso do XisPê, Scrum etc. 

    A gente tentou encaixotar o trabalho criativo em timeboxes que fazem muito sentido para desenvolvimento e entrega, mas nenhum sentido para descoberta e exploração. São ritmos diferentes, paradas e roteiros variados. 

    “Em vez de considerar essa característica ad hoc como um dado de inferioridade do design, creio que isso atesta a independência epistemológica da área – o design não é necessariamente científico, mas pode estabelecer diálogos muito fecundos com a ciência”.
    – Caio Adorno Vassão em Metadesign (Blucher, 2010)

    Sigo confiando na proposta das duas trilhas. Aliás, dadas as críticas mais recentes?, estou disposto a dobrar a aposta. Porque elas partem de um engano: há dois times trabalhando, um em cada trilha, cada um com seu backlog!? Não foi isso que Cagan e Patton escreveram. Caramba, basta ler os artigos: há duas trilhas, não dois times. Tá todo mundo junto, o tempo todo! O tempo todo? Veja bem…

    Notas

    1. Marty Cagan escreveu Inspired: How to Create Tech Products Customers Love (Wiley, 2018) e Patton ficou famoso por causa de User Story Mapping (O’Reilly, 2014). Cagan escreveu o artigo Dual-Track Agile há oito anos. Patton voltou ao tema logo depois.
    2. No artigo The New New Product Development Game, publicado na edição de jan-fev/1986 da Harvard Business Review.
    3. O ciclo PDCA é cria de W. Edwards Deming e defendido, na comunidade Lean-Agile, por gente grande como Mary e Tom Poppendieck. Em Implementando o Desenvolvimento Lean de Software (Bookman, 2011), por exemplo. É risível a forçada de barra dada para justificar o P (plan).
    4.  We Need One Complete Product Team, de Todd Lankford (27/ago/20).
        Time to Say Goodbye to Dual Track Agile?, de Alex Ballarin (12/set/20).
    5. Foto de Henry & Co. surrupiado no Unsplash
  • Pelo Prazer de Aprender

    Pelo Prazer de Aprender

    Lembre-se de uma aula muito boa. O que a tornou inesquecível? Um professor atencioso e conhecedor, com certeza. A turma, interessada e entrosada, ajudou. Assim como a sala, arejada em todos os sentidos. Falta um último ingrediente. Qual?Oras, a aula propriamente dita. É possível que você nem tivesse interesse pelo tema. Mas a forma como ele foi exposto te pegou. É fácil dar todo o crédito da experiência ao talento do mestre, sua didática e paciência. Não vamos desmerecer isso. Mas tente se lembrar da organização do conteúdo. Nosso cérebro tem uma quedinha por estrutura, por hierarquia. Memorizamos melhor as ideias bem elaboradas¹. Posso apostar: a aula que te agradou era bem estruturada e fluiu de maneira lógica e natural. Você cresceu com ela. Mal viu o tempo passar. E ficou com um gostinho de “quero mais”. Como criar experiências assim?

    “Domine a música. Domine o instrumento.
    Agora, esqueça essa baboseira toda e apenas toque.”

    Charlie “Bird” Parker

    Bird ajudou a reinventar o jazz e ensinou muita gente. Não há registro de que tenha estudado aikidô ou qualquer outra arte marcial japonesa. Mas sua dica fundamental, citada acima, parece uma versão bebop do ShuHaRi. O ShuHaRi é um conceito, um modelo que descreve estágios de aprendizagem². Voltando à questão acima: para criar uma boa experiência, começamos pela adoção de um modelo de aprendizagem. O nosso é um jazz de kimono:Shu: abrace, cuide do aprendiz. Apresente os fundamentos – a teoria e os movimentos básicos. E cobre disciplina e respeito pelas fronteiras estabelecidas. Que o aluno “domine a música”.

    Ha: solte e incentive a prática. Entenda que o aprendiz vai errar e quebrar a cara inúmeras vezes. É parte indissociável da aprendizagem eficaz. Mas entenda e aponte os erros – o fidbeque é fundamental. O aluno precisa “dominar o instrumento” (ferramentas e métodos). A indisciplina, a quebra de regras, atesta a evolução. Ri: sorria, você acaba de perder um aluno. Deixe-o voar. Ele não é mais um aprendiz, é seu colega. Como você, “esqueceu essa baboseira toda e agora apenas toca”. Aliás, ele imagina, cria e inova. Veja só que curioso: os três últimos verbos do parágrafo anterior sugerem o caminho inverso da diagonal ShuHaRi. Em fluxo desenhado por Ken Robinson em Libertando o Poder Criativo (HSM, 2012). Se parece também com o Funil do Conhecimento, conceito apresentado por Roger Martin em Design de Negócios (Campus, 2010). Neste caso, os termos são: Palpites, Heurística e Algoritmo. O que isso significa?Pode até ser que alguém atinja um ponto notável de aprendizagem e não queira retribuir. Vai ficar imaginando solos a la Coltrane e tocando escondidinho, para o próprio deleite, num sótão qualquer. Desconfio que a grande maioria das pessoas queira outro destino para suas ideias. São elas que vão imaginar cenários, criar soluções e botar pra rodar ou quebrar. O prazer em jogo é dobrado: primeiro, ao aprender; depois, ao ver sua criação espalhada por aí.

    E assim, falando de prazer, reencontramos o ponto do artigo anterior: o FLUXO. A diagonal em mão dupla o representa. Chega a hora de um precioso alerta: a diagonal não é uma linha reta. Esse raciocínio linear, faseado, trava e detona os modelos de ensino tradicionais. A melhor imagem para o FLUXO é uma espiral. Cada giro representa valiosos ciclos de fidbeque. Hora de falar sobre o Scrum.

    Scrum

    Antes de ser um “framework para o gerenciamento de projetos ágeis”, o Scrum é um modelo de aprendizagem. Foi por azar, muito azar, que ele foi parar em nossas mãos, profissionais de projetos e de TI. Ficou bitolado. Quem conhece o trabalho de seus pais biológicos, Takeuchi e Nonaka, vai entender o que estou falando. Eles são especialistas em Gestão do Conhecimento. Quando registraram o Scrum³, no distante 1986, pretendiam mostrar como empresas japonesas aprendiam melhor que as ocidentais. Não aprendiam mais e nem mais rápido: aprendiam melhor! É uma questão de eficácia, muito mais do que de eficiência. É mais qualitativa do que quantitativa. Parafraseando Ackoff de novo: “é melhor fazer a coisa certa do jeito errado do que fazer a coisa errada do jeito certo”. Melhor ainda é fazer a coisa certa de maneira eficiente. O Scrum tem um laço de fidbeque para cada questão.

    São dois  compromissos. O primeiro é a Revisão – mira a coisa certa, a eficácia. Os envolvidos avaliam o resultado de determinado esforço. Em nosso caso, uma aula, por exemplo. O aluno compreendeu de fato o que foi ensinado? Aprendeu a fazer?

    O segundo compromisso é a Retrospectiva – uma avaliação do processo, da eficiência. Por exemplo: em que o professor pode melhorar? Quais atitudes da turma devemos incentivar e quais devem ser evitadas? E por aí vai.

    Os dois compromissos ocorrem de forma consecutiva, ao término de um ciclo (Sprint na terminologia original). No nosso caso, o ciclo pode significar um tópico, uma aula ou módulo. Quanto menor, melhor.

    Quem conhece o Scrum pode estar se perguntando: peraí, como os papéis são distribuídos numa sala de aula? Quem é o PO (Product Owner – Dono do Produto)? O instrutor é o mestre – ScrumMaster. O Time é formado pelos alunos. Quem é o Dono? Você arrisca uma resposta?Na próxima semana concluo a trilogia “Hey! o que você tá esperando para se inscrever na OPA!?” Além de responder a questão acima, vou apresentar o terceiro pilar do modelo de aprendizagem, a Unidade. Ela se baseia, principalmente, no Understanding by Design®. Um modelo bem legal que, em conceito, é semelhante ao TDD (Test-Driven Development).

    Notas

    1. Brain Rules, John Medina (Pear Press, 2014).
      A Mente Organizada, Daniel J. Levitin (Objetiva, 2015).
    2. O modelo de aprendizagem (maturidade?) com três estágios vive ressurgindo com outros nomes e quase sempre sem crédito. Douglas Thomas e John Seely Brown, em A New Culture of Learning (Publicação independente, 2011), sugerem três etapas: Hanging Out, Messing Around e Geeking Out. Partiram de um estudo etnográfico sobre a interação de jovens com mídias sociais.
      Harold Stolovitch e Erika Keeps, em Telling Ain’t Training (ASTD, 2011), falam em Teach (Ensine), Prompt (Incentive) e Release (Libere). Como eu disse, variações da mesma sugestão apresentada neste artigo.
    3. The New New Product Development Game é o nome do artigo, publicado na Harvard Business Review em jan-fev/1986, que apresentou o Scrum. Não desconsidero nem desmereço o fato de Jeff Sutherland e Ken Schwaber terem dado uma cara e roupa nova para ele. Mas não me conformo com o desrespeito ao sentido original do Scrum. Por isso tem gente por aí que diz, por exemplo, que Retrospectivas são perda de tempo.
    4. Art Out of the Box 2009: Indiana Quilts é o nome da imagem no topo. Foi compartilhada no flickr pela Biblioteca Pública de Allen County (IN). O rabisco da molecada lembra muito o diagrama do FLUXO. Sincronicidade?
  • Pelo Prazer de Aprender

    Pelo Prazer de Aprender

    Lembre-se de uma aula muito boa. O que a tornou inesquecível? Um professor atencioso e conhecedor, com certeza. A turma, interessada e entrosada, ajudou. Assim como a sala, arejada em todos os sentidos. Falta um último ingrediente. Qual?Oras, a aula propriamente dita. É possível que você nem tivesse interesse pelo tema. Mas a forma como ele foi exposto te pegou. É fácil dar todo o crédito da experiência ao talento do mestre, sua didática e paciência. Não vamos desmerecer isso. Mas tente se lembrar da organização do conteúdo. Nosso cérebro tem uma quedinha por estrutura, por hierarquia. Memorizamos melhor as ideias bem elaboradas¹. Posso apostar: a aula que te agradou era bem estruturada e fluiu de maneira lógica e natural. Você cresceu com ela. Mal viu o tempo passar. E ficou com um gostinho de “quero mais”. Como criar experiências assim?

    “Domine a música. Domine o instrumento.
    Agora, esqueça essa baboseira toda e apenas toque.”

    Charlie “Bird” Parker

    Bird ajudou a reinventar o jazz e ensinou muita gente. Não há registro de que tenha estudado aikidô ou qualquer outra arte marcial japonesa. Mas sua dica fundamental, citada acima, parece uma versão bebop do ShuHaRi. O ShuHaRi é um conceito, um modelo que descreve estágios de aprendizagem². Voltando à questão acima: para criar uma boa experiência, começamos pela adoção de um modelo de aprendizagem. O nosso é um jazz de kimono:Shu: abrace, cuide do aprendiz. Apresente os fundamentos – a teoria e os movimentos básicos. E cobre disciplina e respeito pelas fronteiras estabelecidas. Que o aluno “domine a música”.

    Ha: solte e incentive a prática. Entenda que o aprendiz vai errar e quebrar a cara inúmeras vezes. É parte indissociável da aprendizagem eficaz. Mas entenda e aponte os erros – o fidbeque é fundamental. O aluno precisa “dominar o instrumento” (ferramentas e métodos). A indisciplina, a quebra de regras, atesta a evolução. Ri: sorria, você acaba de perder um aluno. Deixe-o voar. Ele não é mais um aprendiz, é seu colega. Como você, “esqueceu essa baboseira toda e agora apenas toca”. Aliás, ele imagina, cria e inova. Veja só que curioso: os três últimos verbos do parágrafo anterior sugerem o caminho inverso da diagonal ShuHaRi. Em fluxo desenhado por Ken Robinson em Libertando o Poder Criativo (HSM, 2012). Se parece também com o Funil do Conhecimento, conceito apresentado por Roger Martin em Design de Negócios (Campus, 2010). Neste caso, os termos são: Palpites, Heurística e Algoritmo. O que isso significa?Pode até ser que alguém atinja um ponto notável de aprendizagem e não queira retribuir. Vai ficar imaginando solos a la Coltrane e tocando escondidinho, para o próprio deleite, num sótão qualquer. Desconfio que a grande maioria das pessoas queira outro destino para suas ideias. São elas que vão imaginar cenários, criar soluções e botar pra rodar ou quebrar. O prazer em jogo é dobrado: primeiro, ao aprender; depois, ao ver sua criação espalhada por aí.

    E assim, falando de prazer, reencontramos o ponto do artigo anterior: o FLUXO. A diagonal em mão dupla o representa. Chega a hora de um precioso alerta: a diagonal não é uma linha reta. Esse raciocínio linear, faseado, trava e detona os modelos de ensino tradicionais. A melhor imagem para o FLUXO é uma espiral. Cada giro representa valiosos ciclos de fidbeque. Hora de falar sobre o Scrum.

    Scrum

    Antes de ser um “framework para o gerenciamento de projetos ágeis”, o Scrum é um modelo de aprendizagem. Foi por azar, muito azar, que ele foi parar em nossas mãos, profissionais de projetos e de TI. Ficou bitolado. Quem conhece o trabalho de seus pais biológicos, Takeuchi e Nonaka, vai entender o que estou falando. Eles são especialistas em Gestão do Conhecimento. Quando registraram o Scrum³, no distante 1986, pretendiam mostrar como empresas japonesas aprendiam melhor que as ocidentais. Não aprendiam mais e nem mais rápido: aprendiam melhor! É uma questão de eficácia, muito mais do que de eficiência. É mais qualitativa do que quantitativa. Parafraseando Ackoff de novo: “é melhor fazer a coisa certa do jeito errado do que fazer a coisa errada do jeito certo”. Melhor ainda é fazer a coisa certa de maneira eficiente. O Scrum tem um laço de fidbeque para cada questão.

    São dois  compromissos. O primeiro é a Revisão – mira a coisa certa, a eficácia. Os envolvidos avaliam o resultado de determinado esforço. Em nosso caso, uma aula, por exemplo. O aluno compreendeu de fato o que foi ensinado? Aprendeu a fazer?

    O segundo compromisso é a Retrospectiva – uma avaliação do processo, da eficiência. Por exemplo: em que o professor pode melhorar? Quais atitudes da turma devemos incentivar e quais devem ser evitadas? E por aí vai.

    Os dois compromissos ocorrem de forma consecutiva, ao término de um ciclo (Sprint na terminologia original). No nosso caso, o ciclo pode significar um tópico, uma aula ou módulo. Quanto menor, melhor.

    Quem conhece o Scrum pode estar se perguntando: peraí, como os papéis são distribuídos numa sala de aula? Quem é o PO (Product Owner – Dono do Produto)? O instrutor é o mestre – ScrumMaster. O Time é formado pelos alunos. Quem é o Dono? Você arrisca uma resposta?Na próxima semana concluo a trilogia “Hey! o que você tá esperando para se inscrever na OPA!?” Além de responder a questão acima, vou apresentar o terceiro pilar do modelo de aprendizagem, a Unidade. Ela se baseia, principalmente, no Understanding by Design®. Um modelo bem legal que, em conceito, é semelhante ao TDD (Test-Driven Development).

    Notas

    1. Brain Rules, John Medina (Pear Press, 2014).
      A Mente Organizada, Daniel J. Levitin (Objetiva, 2015).
    2. O modelo de aprendizagem (maturidade?) com três estágios vive ressurgindo com outros nomes e quase sempre sem crédito. Douglas Thomas e John Seely Brown, em A New Culture of Learning (Publicação independente, 2011), sugerem três etapas: Hanging Out, Messing Around e Geeking Out. Partiram de um estudo etnográfico sobre a interação de jovens com mídias sociais.
      Harold Stolovitch e Erika Keeps, em Telling Ain’t Training (ASTD, 2011), falam em Teach (Ensine), Prompt (Incentive) e Release (Libere). Como eu disse, variações da mesma sugestão apresentada neste artigo.
    3. The New New Product Development Game é o nome do artigo, publicado na Harvard Business Review em jan-fev/1986, que apresentou o Scrum. Não desconsidero nem desmereço o fato de Jeff Sutherland e Ken Schwaber terem dado uma cara e roupa nova para ele. Mas não me conformo com o desrespeito ao sentido original do Scrum. Por isso tem gente por aí que diz, por exemplo, que Retrospectivas são perda de tempo.
    4. Art Out of the Box 2009: Indiana Quilts é o nome da imagem no topo. Foi compartilhada no flickr pela Biblioteca Pública de Allen County (IN). O rabisco da molecada lembra muito o diagrama do FLUXO. Sincronicidade?