Daniel Levitin – finito https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br o que precisa ser feito? Fri, 16 Dec 2016 17:44:21 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/wp-content/uploads/2021/01/head_512x512-150x150.png Daniel Levitin – finito https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br 32 32 Pelo Prazer de Aprender https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2016/12/16/pelo-prazer-de-aprender/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2016/12/16/pelo-prazer-de-aprender/#respond Fri, 16 Dec 2016 17:44:21 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=6087 Lembre-se de uma aula muito boa. O que a tornou inesquecível? Um professor atencioso e conhecedor, com certeza. A turma, interessada e entrosada, ajudou. Assim como a sala, arejada em todos os sentidos. Falta um último ingrediente. Qual?Oras, a aula propriamente dita. É possível que você nem tivesse interesse pelo tema. Mas a forma como ele foi exposto te pegou. É fácil dar todo o crédito da experiência ao talento do mestre, sua didática e paciência. Não vamos desmerecer isso. Mas tente se lembrar da organização do conteúdo. Nosso cérebro tem uma quedinha por estrutura, por hierarquia. Memorizamos melhor as ideias bem elaboradas¹. Posso apostar: a aula que te agradou era bem estruturada e fluiu de maneira lógica e natural. Você cresceu com ela. Mal viu o tempo passar. E ficou com um gostinho de “quero mais”. Como criar experiências assim?

“Domine a música. Domine o instrumento.
Agora, esqueça essa baboseira toda e apenas toque.”

Charlie “Bird” Parker

Bird ajudou a reinventar o jazz e ensinou muita gente. Não há registro de que tenha estudado aikidô ou qualquer outra arte marcial japonesa. Mas sua dica fundamental, citada acima, parece uma versão bebop do ShuHaRi. O ShuHaRi é um conceito, um modelo que descreve estágios de aprendizagem². Voltando à questão acima: para criar uma boa experiência, começamos pela adoção de um modelo de aprendizagem. O nosso é um jazz de kimono:Shu: abrace, cuide do aprendiz. Apresente os fundamentos – a teoria e os movimentos básicos. E cobre disciplina e respeito pelas fronteiras estabelecidas. Que o aluno “domine a música”.

Ha: solte e incentive a prática. Entenda que o aprendiz vai errar e quebrar a cara inúmeras vezes. É parte indissociável da aprendizagem eficaz. Mas entenda e aponte os erros – o fidbeque é fundamental. O aluno precisa “dominar o instrumento” (ferramentas e métodos). A indisciplina, a quebra de regras, atesta a evolução. Ri: sorria, você acaba de perder um aluno. Deixe-o voar. Ele não é mais um aprendiz, é seu colega. Como você, “esqueceu essa baboseira toda e agora apenas toca”. Aliás, ele imagina, cria e inova. Veja só que curioso: os três últimos verbos do parágrafo anterior sugerem o caminho inverso da diagonal ShuHaRi. Em fluxo desenhado por Ken Robinson em Libertando o Poder Criativo (HSM, 2012). Se parece também com o Funil do Conhecimento, conceito apresentado por Roger Martin em Design de Negócios (Campus, 2010). Neste caso, os termos são: Palpites, Heurística e Algoritmo. O que isso significa?Pode até ser que alguém atinja um ponto notável de aprendizagem e não queira retribuir. Vai ficar imaginando solos a la Coltrane e tocando escondidinho, para o próprio deleite, num sótão qualquer. Desconfio que a grande maioria das pessoas queira outro destino para suas ideias. São elas que vão imaginar cenários, criar soluções e botar pra rodar ou quebrar. O prazer em jogo é dobrado: primeiro, ao aprender; depois, ao ver sua criação espalhada por aí.

E assim, falando de prazer, reencontramos o ponto do artigo anterior: o FLUXO. A diagonal em mão dupla o representa. Chega a hora de um precioso alerta: a diagonal não é uma linha reta. Esse raciocínio linear, faseado, trava e detona os modelos de ensino tradicionais. A melhor imagem para o FLUXO é uma espiral. Cada giro representa valiosos ciclos de fidbeque. Hora de falar sobre o Scrum.

Scrum

Antes de ser um “framework para o gerenciamento de projetos ágeis”, o Scrum é um modelo de aprendizagem. Foi por azar, muito azar, que ele foi parar em nossas mãos, profissionais de projetos e de TI. Ficou bitolado. Quem conhece o trabalho de seus pais biológicos, Takeuchi e Nonaka, vai entender o que estou falando. Eles são especialistas em Gestão do Conhecimento. Quando registraram o Scrum³, no distante 1986, pretendiam mostrar como empresas japonesas aprendiam melhor que as ocidentais. Não aprendiam mais e nem mais rápido: aprendiam melhor! É uma questão de eficácia, muito mais do que de eficiência. É mais qualitativa do que quantitativa. Parafraseando Ackoff de novo: “é melhor fazer a coisa certa do jeito errado do que fazer a coisa errada do jeito certo”. Melhor ainda é fazer a coisa certa de maneira eficiente. O Scrum tem um laço de fidbeque para cada questão.

São dois  compromissos. O primeiro é a Revisão – mira a coisa certa, a eficácia. Os envolvidos avaliam o resultado de determinado esforço. Em nosso caso, uma aula, por exemplo. O aluno compreendeu de fato o que foi ensinado? Aprendeu a fazer?

O segundo compromisso é a Retrospectiva – uma avaliação do processo, da eficiência. Por exemplo: em que o professor pode melhorar? Quais atitudes da turma devemos incentivar e quais devem ser evitadas? E por aí vai.

Os dois compromissos ocorrem de forma consecutiva, ao término de um ciclo (Sprint na terminologia original). No nosso caso, o ciclo pode significar um tópico, uma aula ou módulo. Quanto menor, melhor.

Quem conhece o Scrum pode estar se perguntando: peraí, como os papéis são distribuídos numa sala de aula? Quem é o PO (Product Owner – Dono do Produto)? O instrutor é o mestre – ScrumMaster. O Time é formado pelos alunos. Quem é o Dono? Você arrisca uma resposta?Na próxima semana concluo a trilogia “Hey! o que você tá esperando para se inscrever na OPA!?” Além de responder a questão acima, vou apresentar o terceiro pilar do modelo de aprendizagem, a Unidade. Ela se baseia, principalmente, no Understanding by Design®. Um modelo bem legal que, em conceito, é semelhante ao TDD (Test-Driven Development).

Notas

  1. Brain Rules, John Medina (Pear Press, 2014).
    A Mente Organizada, Daniel J. Levitin (Objetiva, 2015).
  2. O modelo de aprendizagem (maturidade?) com três estágios vive ressurgindo com outros nomes e quase sempre sem crédito. Douglas Thomas e John Seely Brown, em A New Culture of Learning (Publicação independente, 2011), sugerem três etapas: Hanging Out, Messing Around e Geeking Out. Partiram de um estudo etnográfico sobre a interação de jovens com mídias sociais.
    Harold Stolovitch e Erika Keeps, em Telling Ain’t Training (ASTD, 2011), falam em Teach (Ensine), Prompt (Incentive) e Release (Libere). Como eu disse, variações da mesma sugestão apresentada neste artigo.
  3. The New New Product Development Game é o nome do artigo, publicado na Harvard Business Review em jan-fev/1986, que apresentou o Scrum. Não desconsidero nem desmereço o fato de Jeff Sutherland e Ken Schwaber terem dado uma cara e roupa nova para ele. Mas não me conformo com o desrespeito ao sentido original do Scrum. Por isso tem gente por aí que diz, por exemplo, que Retrospectivas são perda de tempo.
  4. Art Out of the Box 2009: Indiana Quilts é o nome da imagem no topo. Foi compartilhada no flickr pela Biblioteca Pública de Allen County (IN). O rabisco da molecada lembra muito o diagrama do FLUXO. Sincronicidade?
]]>
https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2016/12/16/pelo-prazer-de-aprender/feed/ 0
Pelo Prazer de Aprender https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2016/12/16/pelo-prazer-de-aprender-2/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2016/12/16/pelo-prazer-de-aprender-2/#respond Fri, 16 Dec 2016 17:44:21 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=6087 Lembre-se de uma aula muito boa. O que a tornou inesquecível? Um professor atencioso e conhecedor, com certeza. A turma, interessada e entrosada, ajudou. Assim como a sala, arejada em todos os sentidos. Falta um último ingrediente. Qual?Oras, a aula propriamente dita. É possível que você nem tivesse interesse pelo tema. Mas a forma como ele foi exposto te pegou. É fácil dar todo o crédito da experiência ao talento do mestre, sua didática e paciência. Não vamos desmerecer isso. Mas tente se lembrar da organização do conteúdo. Nosso cérebro tem uma quedinha por estrutura, por hierarquia. Memorizamos melhor as ideias bem elaboradas¹. Posso apostar: a aula que te agradou era bem estruturada e fluiu de maneira lógica e natural. Você cresceu com ela. Mal viu o tempo passar. E ficou com um gostinho de “quero mais”. Como criar experiências assim?

“Domine a música. Domine o instrumento.
Agora, esqueça essa baboseira toda e apenas toque.”

Charlie “Bird” Parker

Bird ajudou a reinventar o jazz e ensinou muita gente. Não há registro de que tenha estudado aikidô ou qualquer outra arte marcial japonesa. Mas sua dica fundamental, citada acima, parece uma versão bebop do ShuHaRi. O ShuHaRi é um conceito, um modelo que descreve estágios de aprendizagem². Voltando à questão acima: para criar uma boa experiência, começamos pela adoção de um modelo de aprendizagem. O nosso é um jazz de kimono:Shu: abrace, cuide do aprendiz. Apresente os fundamentos – a teoria e os movimentos básicos. E cobre disciplina e respeito pelas fronteiras estabelecidas. Que o aluno “domine a música”.

Ha: solte e incentive a prática. Entenda que o aprendiz vai errar e quebrar a cara inúmeras vezes. É parte indissociável da aprendizagem eficaz. Mas entenda e aponte os erros – o fidbeque é fundamental. O aluno precisa “dominar o instrumento” (ferramentas e métodos). A indisciplina, a quebra de regras, atesta a evolução. Ri: sorria, você acaba de perder um aluno. Deixe-o voar. Ele não é mais um aprendiz, é seu colega. Como você, “esqueceu essa baboseira toda e agora apenas toca”. Aliás, ele imagina, cria e inova. Veja só que curioso: os três últimos verbos do parágrafo anterior sugerem o caminho inverso da diagonal ShuHaRi. Em fluxo desenhado por Ken Robinson em Libertando o Poder Criativo (HSM, 2012). Se parece também com o Funil do Conhecimento, conceito apresentado por Roger Martin em Design de Negócios (Campus, 2010). Neste caso, os termos são: Palpites, Heurística e Algoritmo. O que isso significa?Pode até ser que alguém atinja um ponto notável de aprendizagem e não queira retribuir. Vai ficar imaginando solos a la Coltrane e tocando escondidinho, para o próprio deleite, num sótão qualquer. Desconfio que a grande maioria das pessoas queira outro destino para suas ideias. São elas que vão imaginar cenários, criar soluções e botar pra rodar ou quebrar. O prazer em jogo é dobrado: primeiro, ao aprender; depois, ao ver sua criação espalhada por aí.

E assim, falando de prazer, reencontramos o ponto do artigo anterior: o FLUXO. A diagonal em mão dupla o representa. Chega a hora de um precioso alerta: a diagonal não é uma linha reta. Esse raciocínio linear, faseado, trava e detona os modelos de ensino tradicionais. A melhor imagem para o FLUXO é uma espiral. Cada giro representa valiosos ciclos de fidbeque. Hora de falar sobre o Scrum.

Scrum

Antes de ser um “framework para o gerenciamento de projetos ágeis”, o Scrum é um modelo de aprendizagem. Foi por azar, muito azar, que ele foi parar em nossas mãos, profissionais de projetos e de TI. Ficou bitolado. Quem conhece o trabalho de seus pais biológicos, Takeuchi e Nonaka, vai entender o que estou falando. Eles são especialistas em Gestão do Conhecimento. Quando registraram o Scrum³, no distante 1986, pretendiam mostrar como empresas japonesas aprendiam melhor que as ocidentais. Não aprendiam mais e nem mais rápido: aprendiam melhor! É uma questão de eficácia, muito mais do que de eficiência. É mais qualitativa do que quantitativa. Parafraseando Ackoff de novo: “é melhor fazer a coisa certa do jeito errado do que fazer a coisa errada do jeito certo”. Melhor ainda é fazer a coisa certa de maneira eficiente. O Scrum tem um laço de fidbeque para cada questão.

São dois  compromissos. O primeiro é a Revisão – mira a coisa certa, a eficácia. Os envolvidos avaliam o resultado de determinado esforço. Em nosso caso, uma aula, por exemplo. O aluno compreendeu de fato o que foi ensinado? Aprendeu a fazer?

O segundo compromisso é a Retrospectiva – uma avaliação do processo, da eficiência. Por exemplo: em que o professor pode melhorar? Quais atitudes da turma devemos incentivar e quais devem ser evitadas? E por aí vai.

Os dois compromissos ocorrem de forma consecutiva, ao término de um ciclo (Sprint na terminologia original). No nosso caso, o ciclo pode significar um tópico, uma aula ou módulo. Quanto menor, melhor.

Quem conhece o Scrum pode estar se perguntando: peraí, como os papéis são distribuídos numa sala de aula? Quem é o PO (Product Owner – Dono do Produto)? O instrutor é o mestre – ScrumMaster. O Time é formado pelos alunos. Quem é o Dono? Você arrisca uma resposta?Na próxima semana concluo a trilogia “Hey! o que você tá esperando para se inscrever na OPA!?” Além de responder a questão acima, vou apresentar o terceiro pilar do modelo de aprendizagem, a Unidade. Ela se baseia, principalmente, no Understanding by Design®. Um modelo bem legal que, em conceito, é semelhante ao TDD (Test-Driven Development).

Notas

  1. Brain Rules, John Medina (Pear Press, 2014).
    A Mente Organizada, Daniel J. Levitin (Objetiva, 2015).
  2. O modelo de aprendizagem (maturidade?) com três estágios vive ressurgindo com outros nomes e quase sempre sem crédito. Douglas Thomas e John Seely Brown, em A New Culture of Learning (Publicação independente, 2011), sugerem três etapas: Hanging Out, Messing Around e Geeking Out. Partiram de um estudo etnográfico sobre a interação de jovens com mídias sociais.
    Harold Stolovitch e Erika Keeps, em Telling Ain’t Training (ASTD, 2011), falam em Teach (Ensine), Prompt (Incentive) e Release (Libere). Como eu disse, variações da mesma sugestão apresentada neste artigo.
  3. The New New Product Development Game é o nome do artigo, publicado na Harvard Business Review em jan-fev/1986, que apresentou o Scrum. Não desconsidero nem desmereço o fato de Jeff Sutherland e Ken Schwaber terem dado uma cara e roupa nova para ele. Mas não me conformo com o desrespeito ao sentido original do Scrum. Por isso tem gente por aí que diz, por exemplo, que Retrospectivas são perda de tempo.
  4. Art Out of the Box 2009: Indiana Quilts é o nome da imagem no topo. Foi compartilhada no flickr pela Biblioteca Pública de Allen County (IN). O rabisco da molecada lembra muito o diagrama do FLUXO. Sincronicidade?
]]>
https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2016/12/16/pelo-prazer-de-aprender-2/feed/ 0
Pelo Prazer de Trabalhar https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2016/12/13/pelo-prazer-de-trabalhar/ https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2016/12/13/pelo-prazer-de-trabalhar/#comments Tue, 13 Dec 2016 15:41:28 +0000 http://www.pfvasconcellos.eti.br/blog/?p=6079 Quando foi a última vez que você fez ou aprendeu algo e nem viu o tempo passar? Esses momentos de total concentração e êxtase lhe são comuns? Você consegue repeti-los de forma sistemática no trabalho? A grande maioria responde não para as duas últimas questões. Triste, considera estranha ou até indevida essa mistura de prazer e gozo com aprendizagem e vida profissional. “Onde já se viu?”Vemos essa combinação com grande frequência. Mas ela aparece em campos que muitos nem consideram profissões. Lembre-se da explosão de um jogador de futebol; da concentração de um ator; do voo de um guitarrista durante um solo. Oras, o que nos impede de trocar esses personagens por um engenheiro, um médico e um advogado? Parafraseando Ackoff, malditos sejam aqueles que ergueram muros entre aprendizagem, diversão e trabalho¹. Não era para ser assim. E, se quisermos uma carreira viável, não pode mais ser assim.

Gary Hamel, em O Que Importa Agora? (Campus, 2012), sugere uma hierarquia das capacidades humanas. De baixo para cima: Obediência, Zelo, Expertise, Iniciativa, Criatividade e Paixão. Se tudo o que você tem a oferecer concentra-se nos três primeiros itens, preocupe-se. Atividades que pedem “só” por isso já foram padronizadas, terceirizadas e automatizadas. Agora, são externalizadas². Sem exagero: não há futuro aqui. Cruze isso com a proposta de reforma da previdência e descabele-se.

Não há atalhos para esse novo mundo do trabalho. Mas existe um caminho. Aliás, um FLUXO.Aqueles com pequena bagagem em termos de conhecimentos e habilidades estão: 1) apáticos – se pouco desafiados; 2) preocupados; ou 3) ansiosos – se o tamanho dos desafios é inversamente proporcional às suas capacidades.

Kevin Kelly, em The Inevitable (Viking, 2016), diz que nesse novo mundo somos todos iniciantes. Mas a população nesses três cenários já é imensa. E insatisfeita pra chuchu, como provam várias pesquisas. Quem está bem municiado mas é pouco desafiado vive no tédio ou, pior ainda, trata seus afazeres com arrogância e desdém. Perigosa “zona de conforto”, familiar aos que se sentem no controle. Pense naquele sujeito que diz ter dez ou vinte anos de experiência.  Meça até que ponto não seriam dez ou vinte anos da mesma experiência. Essa sensação de controle é ilusória. Uma troca de tecnologia e pimba – olha um estagiário novo aí gente!

O controle, assim como a excitação, pode ser salutar. Desde que a pessoa saiba para onde precisa e quer ir. Essa enxurrada de coaches, mentores e livros que prometem ajudar na definição do sentido da vida nos permite desconfiar que o número de profissionais sem mapa nem bússola é grande e só faz crescer. Sem julgamento de valor, por favor. Como colocou Tom Peters, “quem não está confuso não está prestando atenção”.

No mundo ideal somos todos FLUENTES. Nossos conhecimentos e habilidades mantém um equilíbrio dinâmico com os desafios apresentados. Insisto: dinâmico. Não há linha de chegada. Mas há conforto e prazer nessa zona. Ou, como lista o autor desta teoria – Mihaly Csikszentmihalyi³, quando no fluxo nós temos:

  • Concentração total;
  • Sensação de êxtase;
  • Muita clareza de propósito;
  • Confiança em nossa capacidade;
  • Serenidade; e
  • Motivação intrínseca: o que criamos é a nossa principal recompensa.

Por isso, nem vemos o tempo passar. É sensação equivalente aos prazeres mundanos e carnais. Porque, quando em fluxo, ativamos os mesmos mecanismos cerebrais. Porque, como coloca Daniel J. Levitin em A Mente Organizada (Objetiva, 2014), recebemos “agradáveis doses de dopamina”. Mais que isso: também desativamos a parte do córtex pré-frontal responsável pela autocrítica e a amígdala, a parte do cérebro que nos deixa com medo. Enfim, sem a intenção de cometer qualquer heresia: o Fluxo é quase um nirvana, quase um orgasmo.

Podemos levar isso para o trabalho? Podemos fazer disso uma rotina? Honestamente, eu acho que deveríamos. Se não pelas razões acima, então pelo simples fato de que quase todos os outros trabalhos serão delegados para quem não cria, não procria e nem se apaixona.

Merchandising

Já tem um tempinho que tento transferir o FLUXO para meus treinamentos. No próximo artigo vou mostrar como ele se transformou na espinha dorsal da OPA! Oficina de Projetos de Aprendizagem. E mais: como ele combina muito bem com o Scrum.

Notas

  1. Ackoff’s Best – Russell L. Ackoff (Wiley, 1999).
  2. Falo um pouco mais sobre isso em O Futuro das Profissões.
  3. Taí um nome – Mihaly Csikszentmihalyi – que nunca arriscaria dizer em sala ou em qualquer outro lugar. Mihaly é húngaro e apresentou sua teoria em Flow: The Psychology of Optimal Experience (Harper & Row, 1990). Há um belo resumo na forma de uma palestra para o TED (Fluidez – o segredo da felicidade).
  4. Entre a ideia para este artigo e a revisão final gastei pouco menos de duas horas. Não vi o tempo passar. E quase dei um soco no ar ao reler o penúltimo parágrafo. Antes de taxar isso como uma besteira, pense no que te deixa feliz. Tem criação ali, não tem?
  5. Flow – 02, a primeira imagem lá em cima, foi rabiscada por Eva-Lotta Lamm enquanto ouvia ou lia Mihaly. Ela compilou livros com resumos e rabiscos semelhantes. Criativa sacada!
]]>
https://paulofernandovasconc1781614199000.0291847.meusitehostgator.com.br/2016/12/13/pelo-prazer-de-trabalhar/feed/ 4