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  • Sobre Como Chegamos até Aqui

    Sobre Como Chegamos até Aqui

    A gente vive encontrando gráficos semelhantes ao rabisco ao lado. Recentemente eles ilustravam a evolução da pandemia Covid-19. Podemos utilizar a mesma figura para contar diversas outras histórias. A evolução da capacidade de processamento em chips ou o crescimento do número de usuários da Internet desde o seu lançamento, por exemplo.

    Sejamos mais ambiciosos: é possível contar a história da vida na Terra em todos os seus gloriosos 3,8 bilhões de anos. Para não bagunçar a nossa agenda, façamos como proposto pelo biólogo John Maynard Smith¹: condensando tudo em um filme com duas horas de duração. Nós, homo sapiens, aparecemos no último minuto, tropeçando nos créditos finais. Seguindo com Smith, façamos outra experiência. Vamos pegar apenas a nossa história, de cerca de 200 mil anos, e jogá-la no gráfico-filme de duas horas. Só teríamos deixado a vida de caçadores-coletores nos 30 segundos finais. A revolução industrial apareceria praticamente no apagar das luzes, no último segundo.

    O que isso significa? Que estamos todos na beira do precipício, na ponta mais alta da seta? Afinal, o que o gráfico e respectivas histórias querem nos dizer? Atenção: o que segue é uma interpretação muito livre, meio romântica e pouco formal de uma bela história.

     

    Uma Bela História

    Desde o seu surgimento, há 13,8 bilhões de anos, o universo caminha para um destino certo: o tédio definitivo. Esse fado está cantado na Lei da Entropia², também conhecida como Segunda Lei da Termodinâmica. É uma das leis fundamentais da Natureza que aparecerão neste almanaque. De acordo com o físico Arthur Eddington³:

    “A lei segundo a qual a entropia sempre aumenta ocupa, a meu ver, a posição suprema entre as leis da Natureza. Se alguém lhe disser que a sua teoria favorita do universo está em desacordo com as equações de Maxwell, danem-se as equações de Maxwell. Se for descoberto que ela é refutada pela observação, ora, esses experimentalistas às vezes fazem cagadas mesmo. Mas, se for constatado que a sua teoria não condiz com a segunda lei da termodinâmica, não posso lhe dar nenhuma esperança; a ela só resta desmoronar na mais profunda humilhação.”

    Einstein não deixou por menos: a lei da entropia era a única teoria que, segundo ele, “nunca seria refutada”4.

    Por bilhões e bilhões de anos o universo seguiu assim, um monte de pedra e pó vagando por aí, trombando entre si ou despencando em buracos negros. Nos interessa a terceira pedra contada a partir de um sol que forma um sistema na franja de uma galáxia com milhões de outros sóis chamada Via Láctea. Sabe-se lá porque cargas d’água, elétricas e químicas, naquele planetinha nasceu uma coisa. Aliás, até o verbo nascer era inédito. A novidade que veio dar na praia do caldo primordial não era o máximo: era uma coisa insignificante. Uma célula apenas. Mas era diferente de tudo o que existia até então: porque era VIVA.

    Rebelde, não se conformava com aquela conversa de destino. Na base de incontáveis tentativas e erros, aquele ser unicelular aprendeu a adiar a entropia/morte. Fez mais, cresceu e se multiplicou. Aceitando que só a variedade absorve variedade, variou. Percebendo que o tédio e a caretice antecipavam a entropia, inventou o sexo. 380 milhões de anos depois chegou às drogas e ao rock’n’roll. Antes, porém, precisou dar um salto crucial.

    Salto é jeito de resumir os milhões de passos e anos que foram necessários até a chegada da gente, vulgo homo sapiens. Temos apenas duzentos mil anos de idade. Quase nada se comparada com a idade da terra (4,5 bilhões de anos) ou do universo (13,8 bilhões). Mas foi o suficiente para aprender que, dentre todos os sistemas conhecidos nessa quase infinidade de universos, nós somos o que há de mais complexo. Sofisticados e desastrados, inteligentes e desconfiados. Engenhosos e ingênuos. Aventureiros amedrontados. Convenhamos, não é pouca coisa.

    Chegamos nesse ponto porque continuamos inconformados com a tal entropia. Somos, apesar dos incontáveis pesares, a melhor resposta para ela. E tudo o que fazemos é criar respostas, é contra-atacar. Ferramentas de pedra, fogo, roda e panelas nos tornaram mais eficientes no consumo de energia. Essa eficiência liberou tempo, o mais caro dos nossos recursos. Porque, segundo a Lei da Entropia, o tempo não pára nem volta. Ou seja, tempo vale mais que dinheiro.

    O tempo livre permitiu a criação de filosofias, ciências, crenças e jogos – tudo o que, para o bem ou para o mal, alimentou cabeças. Nos colocamos novos desafios. E respondemos com plantações, cidades, livros, dinheiros, vacinas e piadas. Criamos novos problemas. E tivemos que inventar pesticidas, canhões, aviões, computadores, redes e músicas para elevadores. Esse é o nosso moto: criar problemas e encontrar alguém que pague pelas soluções. É assim há 3,8 bilhões de anos, desde o surgimento do primeiro rebelde.

    Porque até o menor e mais frágil ser vivo é equipado com a resposta para a entropia: a homeostase.

    “A homeostase diz respeito ao processo pelo qual a tendência da matéria a derivar para a desordem é combatida de modo a manter-se a ordem, porém em um novo nível: aquele permitido pelo estado estacionário mais eficiente”, ensina Antonio Damásio. Que continua: “a essência da homeostase é a formidável tarefa de administrar a energia — obtê-la e alocá-la para funções cruciais como reparação, defesa, crescimento e participação na geração e manutenção de descendentes. Esse é um empreendimento monumental para um organismo, e mais ainda para organismos humanos, considerando a complexidade de sua estrutura, organização e variedade ambiental.”5

    James Gleick, em A Informação6, nos dá este presente:

    “Às vezes é como se limitar a entropia fosse nosso propósito quixotesco neste universo.” 

    Em suma, se o roteiro da vida fosse contado de uma forma bem banal, teríamos uma simples história de mocinha-homeostase e bandida-entropia. De diferente aqui, só o detalhe de que lá no final a bandida vai vencer. Esse spoiler está dado desde o big bang.

    Enquanto o the end não chega, tornamos tudo mais complexo e complicado. São as nossas respostas que desenham aquela curva exponencial. São as nossas respostas, conscientes ou não, que nos dão um belíssimo problema.

     

    Um Belíssimo Problema

    Aquela progressão geométrica explica porque quase tudo o que a gente pensa que sabe está errado. Em uma velocidade incrível, ela tornou quase tudo obsoleto, particularmente a gente. Porque somos lentos. Nosso cérebro, por sofisticado que seja, ainda carrega traços e funções que faziam muito sentido na era em que tínhamos que decorar cavernas, catar caqui e cozinhar mamutes. Há nele um componente reptiliano que nos mantém assim, bem bichos. Vêm desse componente o tribalismo, o imediatismo e a total inconsequência – o agir ao invés de pensar, o sonhar ao invés de planejar; O pensamento mágico.7

    Era para ser vergonhoso: não conseguimos mais compreender nem as nossas próprias invenções. É vergonhoso: nem um vocabulário básico e muito menos uma teoria minimamente consolidada e aceita estão à nossa disposição para lidar com esse mundo novo, com aquela curva absurda.

    Talvez agora esteja um pouco mais clara a motivação para Stephen Hawking declarar que “este é o século da complexidade”. Se ela, a complexidade, tivesse uma logomarca, seria aquela curva.

    Este é o nosso belíssimo problema: aprender a lidar com um mundo totalmente novo na medida em que ele vai se desenhando. Aliás, na medida em que nós o desenhamos. Para tanto, vamos precisar de novas ideias, modelos, métodos e ferramentas. E podemos esperar por gente nova lá na frente. Porque será impossível sair dessa do mesmo jeito que nós entramos. Que a gente saia melhor, bem melhor.

     


     

    Notas

     

    1. The Theory of Evolution (Cambridge University Press, 1993).
    2. <https://pt.wikipedia.org/wiki/Entropia> em 25/03/2020.
    3. The Nature of the Physical World (Andesite Press, 1928/2015).
    4. Citado em Thermodynamics in Einstein’s Universe, de M.J. Klein para a Science (1967).
    5. A Estranha Ordem das Coisas: A Origem Biológica dos Sentimentos e da Cultura, Antonio Damásio (Cia das Letras, 2018).
    6. Cia das Letras, 2013.
    7. Trecho inspirado neste pequeno vídeo da School of Life, Por que a humanidade está se destruindo? <https://youtu.be/Yk3QsGzAjKI>. Em 20/03/2020.
    8. Foto de Willian Justen de Vasconcellos no Unsplash

     


     

     

  • Tempos Difíceis

    Tempos Difíceis

    “Nada é eterno. Tudo está desmoronando.”

    – Chuck Palahniuk, Clube da Luta (1996)

    “Se você tivesse que escolher um momento na história para nascer e não soubesse de antemão quem você seria — não soubesse se iria nascer em uma família rica ou em uma família pobre, em que país nasceria, se seria homem ou mulher —, se tivesse que escolher cegamente o momento em que gostaria de nascer, você escolheria agora.”

    – Barack Obama¹, 2016

    Durante muito tempo invejei meu pai que tinha 21 anos em 1968. Não há mais razão para isso. Porque estou testemunhando uma transformação bem maior do que aquela que marcou aquela década colorida que acabou cinza e triste. As crises que se entrelaçam hoje – sociais, econômicas, ambientais etc. – comprovam a ocorrência de uma grande mudança em todo o mundo. Não dá para dizer para onde vamos nem quanto tempo essa jornada vai durar. É impossível prever se a mudança será para melhor ou pior. O que não podemos negar, definitivamente, são a velocidade e o tamanho da transformação.

    O físico Stephen Hawking disse que este será o século da complexidade. O nosso grande desafio é aprender a decifrá-la. A alternativa, segundo muita gente boa², é a extinção. Ainda que você ache isso um exagero, consegue fingir que está tudo normal? 

    A natureza está cada vez mais raivosa. Vingativa? Desastres naturais estão ficando mais frequentes e destrutivos. Pragas e pestes desafiam nossos controles e nossas capacidades. Você pode insistir, jogando contra todas as evidências, que nós humanos não temos culpa nenhuma neste cartório. Mas consegue esconder os vírus, bactérias, furacões, incêndios,  enchentes etc? 

    A economia está desumana. Três bilionários têm mais riqueza que dezenas de países juntos. Uma pequena penca de famílias faz mais grana especulando do que milhões de pessoas trabalhando. Você não precisa virar um comunista para reconhecer que há algo podre no reino capitalista/financista/neoliberal: ele não sabe distribuir riqueza; ele não sabe criar sem deixar um rastro fedido de lixo e outras externalidades. Em que momento pareceu verdadeira a ideia de que só haveria um modelo econômico certo? Você acredita mesmo nesse papo de que não existem alternativas viáveis? E, se for o caso, o que nos impede de experimentar novas propostas? 

    A sociedade está dividida. “Não há sociedade”, disse a musa de um dos lados da divisão³. É simplista e equivocada a metáfora Fla X Flu. Porque o debate não é binário. O perde-e-ganha pode ser conveniente em época de eleição ou em um estádio. Mas os times não existem assim, tão nítidos, no dia a dia. Há mais pautas em jogo. Aliás, precisa ser um jogo? Ainda que a gente aceite que a competição é natural, não estamos exagerando? E se a gente desanuviar e descobrir que aquele bloco de concreto logo ali na frente não é o pódio e sim uma lápide? 

    Temos tempos difíceis pela frente. E vai ficar cada vez mais vergonhoso pretender que não temos nada a ver com isso e, pior, nada a fazer. Não há bolha que resista a tamanha ebulição. Muitos vão usar o medo como motivação e alicerce para suas velhas novas propostas. A gente já experimentou isso e os resultados não foram nada bons. O medo é mau conselheiro e um sentimento muito primário. Todo bicho tem. A gente pode fazer melhor. Porque, ao menos em teoria, estamos melhor equipados. Ainda não descobrimos, em parte alguma do universo, sistema mais complexo que o nosso cérebro. Se existem boas respostas e soluções para esses tempos difíceis, elas serão construídas aqui, em nossas cabeças. Está na hora de prepará-las para esse novo mundo que está nascendo.


    Notas

    1. Esse desafio do Obama foi proposto anteriormente por vários pensadores. É conhecido como o Véu da Ignorância. Destaca-se a versão de John Rawls, de 1971. <https://pt.wikipedia.org/wiki/V%C3%A9u_da_ignor%C3%A2ncia>
      Link recuperado em 17/03/2020.
    2. Vários serão citados neste trabalho. Por enquanto, para não deixar aquela afirmação em aberto, seguem duas referências: A Sexta Extinção: Uma História não Natural, de Elizabeth Kolbert (Intrínseca, 2015); A Terra Inabitável: Uma História do Futuro, de David Wallace-Wells (Cia. das Letras, 2019).
    3.  Margaret Thatcher, ex-primeira ministra do Reino Unido.
    4. Foto de Robert Metz via Unsplash