Tag: Auto-Organização

  • Grandes Times de Verdade

    Grandes Times de Verdade

    Há boa ciência por trás dos grandes times. Existem princípios que guiam o desenho e a evolução de times de verdade. É um trabalho sem atalhos. Passa longe da simples imitação de um modelo – seja o modelo Spotify ou qualquer outro. É um desafio que vale a pena porque times de verdade não enganam nem enrolam, eles entregam valor de verdade

    De Verdade

    “De verdade” se tornou um sobrenome necessário porque vulgarizamos a palavra “time”. Qualquer grupo de pessoas é tratado como time. Não é bem assim. 

    O primeiro requisito crucial para a formação e identificação de um time é um objetivo. Apesar de seus diversos interesses – e é importante que um time seja formado por pessoas com interesses diversos¹ – os integrantes do time compram a mesma briga. Isso não se dá de imediato. Em um mundo cada vez mais complexo, objetivos quase nunca são cristalinos nem unânimes. A definição do problema – do objetivo – é parte do problema. E é o primeiro passo para a formação de um time. 

    Buscamos a cooperação – o pleno acordo em relação aos fins e aos meios para alcançá-los. Mas sabemos que a competição, agora e em outros momentos da iniciativa, é mais que necessária. Porque só assim podemos explorar a melhor maneira de realizar aquele objetivo. Da matriz ao lado, o único quadrante que deve incomodar, ainda mais quando recorrente, é o conflito. Os demais fazem parte do dia a dia de um time saudável².

    Um time de verdade não se caracteriza apenas por buscar e alcançar os objetivos – por realizar resultados. Isso um bando (pseudo-time) consegue fazer, mesmo que de vez em quando. Em times de verdade há relacionamentos saudáveis e motivadores. Ou seja, nesta matriz, apenas um quadrante nos interessa. Não queremos estar em alianças temporárias – onde todos os comparsas se dão muito bem e entregam muito mal – e muito menos em celas.

    Por entregar resultados enquanto nutre bons relacionamentos, um time de verdade tende a desenvolver uma identidade única. Às vezes ele ganha até nome, marca e mascote. No entanto, a identidade que interessa – a que fica – geralmente é a sua principal característica: entregador, cascudo, corajoso, atencioso, maduro e por aí vai. 

    Este é o primeiro CDP (Core Design Principle) ou Princípio Fundamental para o desenho de times: Forte identidade e senso de propósito

    Princípios Fundamentais

    Elinor Ostrom³, Nobel de Economia em 2009, encontrou em um conjunto com oito princípios uma resposta para a Tragédia dos Comuns4. Estamos começando a descobrir que esses princípios podem explicar a diferença entre times bem e mal sucedidos5. Um time aumenta suas chances de sucesso se:

    1. Desenvolver uma forte identidade e senso de propósito
    2. For justo no rateio de benefícios e custos
    3. Tomar decisões de forma justa e inclusiva
    4. Monitorar o comportamento que foi acordado de antemão
    5. Aplicar sanções progressivas 
    6. Sanar conflitos de maneira rápida e justa
    7. Contar com autonomia local
    8. Tiver a garantia de que todos os demais times e níveis da organização utilizam os mesmos princípios de governança listados acima

    Cada princípio será detalhado oportunamente6. Neste momento é interessante destacar o seguinte: Os princípios 1~6 tratam das questões internas de um time; os princípios 7 e 8 tratam da relação do time com a organização e demais equipes. 

    Releia a lista de princípios fundamentais com calma, por favor. É importante.
    Obrigado.

    Repare como o CDP#7 – contar com autonomia local – é chave. Porque é o grau de autonomia conquistado pelo time que vai guiar a configuração de todos os CDPs anteriores. Autonomia não é carta branca. A auto-organização não acontece quando fronteiras não são definidas. Ou seja, a organização propõe ou impõe limites. A partir deles, cada time desenvolve sua própria cultura – seu jeito de fazer as coisas. 

    Existem três fatores principais delimitando o grau de autonomia que será oferecido aos times. O primeiro é subjetivo: confiança. Cabe aqui um pitaco direto de Hemingway: “Só há uma maneira de saber se você pode confiar em uma pessoa: confiando nela.” Se vale pra gente, vale para times.

    Os outros dois fatores são objetivos: as necessidades de integração e padronização da organização. O grau de autonomia possível é inversamente proporcional à essas necessidades. Considere, por exemplo, quanta autonomia há em uma agência bancária. Ou até onde vai a liberdade de um squad do Spotify ou de um time do Google para escolher ou criar as suas próprias ferramentas. 

    Um time de verdade sabe de cor e salteado o que busca. Ou seja, seu alinhamento é total. Ele estará no quadrante A ou B da matriz ao lado, dependendo da cultura e das necessidades da organização. Que fique claro: um time de verdade sempre persegue o espaço A. Porque é sinceramente comprometido com a melhoria contínua. Mas ele compreende e aceita eventuais restrições. 

    Um time de verdade exala maturidade. Tema do próximo post. Até lá!

    Notas

    1. Porque, como já vimos, “só a variedade absorve variedade”.
    2. O modelo de (Bruce) Tuckman, de 1965, se equivoca ao fixar o estágio Storming (confrontação) como o segundo de um total de cinco que caracterizariam o ciclo de vida de um time. As tempestades são relativamente frequentes e isso não é necessariamente ruim nem indesejável em um time saudável. Sobre o modelo: https://pt.wikipedia.org/wiki/Modelo_de_Tuckman
    3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Elinor_Ostrom
      Ela também nos presenteou com a Lei de Ostrom: “um arranjo de recursos que funciona na prática pode funcionar na teoria”.
    4. https://pt.wikipedia.org/wiki/Trag%C3%A9dia_dos_comuns
    5. David Sloan Wilson em This View of Life: Completing the Darwinian Revolution (Patheon, 2019) e Herb Bowie no artigo Agile Software Development and the Core Design Principles for Teams.
    6. Converso sobre todos eles na aula Grandes TIMES Pequenos.
    7. Foto de Shane Rounce no Unsplash
  • Sistemas Complexos

    Sistemas Complexos

    Qualquer sistema composto por várias partes interligadas que constantemente se adaptam e auto-organizam em resposta ao ambiente é um sistema complexo. Taí uma das definições de sistema complexo mais enxutas que você vai encontrar¹. Vale a pena gastar um tempinho em cada termo chave.

    Sistema

    Um sistema é um todo definido pela função que ele exerce em determinado ambiente². Sistema é uma ferramenta de compreensão³. É uma invenção nossa, bem humana. Delimitamos algo a fim de escarafunchar, analisar, redesenhar, melhorar. Temos sistemas de governo e educacionais, sistemas econômicos e feudais. Existem formigueiros e cidades, sistemas nervosos, digestivos e digitais. Tudo pode ser visto como um sistema. Por querer.

    Partes

    Todo sistema é formado por pelo menos duas partes essenciais – partes cuja ausência impediria a realização de sua função². Você já se viu sem cabeça?

    Adaptação

    Capacidade que um sistema tem de se ajustar, de responder às restrições e demandas do ambiente em que está inserido. A adaptação ocorre através da evolução e do aprendizado.

    Auto-organização

    Desde o Big Bang, há 13,7 bilhões de anos, o universo se auto-organiza. O comando e controle, o oposto da auto-organização, é uma invenção recente. Tudo o que não é restringido pelo ambiente (ou pelo gerente, patroa ou sogra) vai se auto-organizar. Ou seja, as partes encontrarão novos arranjos e padrões. Nem que seja só pra fugir da rotina…

    Ambiente

    É o sistema maior que contém o sistema em estudo. Um sistema-empresa está inserido em um sistema-mercado que por sua vez faz parte de um sistema-sociedade.  Seu sistema nervoso está inserido no sistema-você. Todos somos sistemas compartilhando o sistema mãe terra que faz parte do sistema solar…

    Isso não é um Apêndice (nem esôfago)

    Fidbeque! A grafia é estranha por querer4. Fidbeque não é só uma resposta (ou um like, please!) Retroalimentação é a tradução literal. Algo é feito com essa saída. Fidbeque é informação que circula e, ao fazer isso, dá vida e movimento ao sistema5. Sem laços de fidbeque não há operação, aprendizado ou adaptação. Sem eles não há sistema.

    O todo é maior que a soma das partes. A isso chamamos emergência. O sistema exibe determinadas propriedades que não podem ser atribuídas a nenhuma das partes individualmente. Essas propriedades emergem como resultado das interações entre as partes. Você não é o que é por causa de seu esôfago. Um time não ganha por causa de um técnico ou um craque. A azeitona da empada não causaria tamanho mal estar (ressaca). Aquele congresso lá em Brasília é obra de milhões de votos e de um sistema apodrecido (baita ressaca).

    Um sistema só pode ser apreciado, analisado, escarafunchado, debatido e melhorado quando percebido assim – como um todo. É por isso que precisamos Pensar Sistemicamente. Tema do próximo papo. Inté!

    Notas

    1. Systems Thinkers
      Magnus Ramage & Karen Shipp (Springer, 2009).
    2. Differences that make a Difference
      Russell L. Ackoff (Triarchy Press, 2010).
    3. Geoffrey Vickers, citado em Systems Thinkers (acima).
    4. Stafford Beer mereceu apenas uma tradução em pt-br. Brain of the Firm (Herder and Herder, 1972) virou Cibernética na Administração (Ibrasa, 1979). É um tesouro só encontrado em bons sebos. A tradução de José Reis é o tipo de trabalho que não vemos mais. É dele o fidbeque. Agora é nosso.
      Beer, assim como Margaret Mead e vários outros, já criticavam há tempo o abuso do termo “feedback”. Se o ouvissem hoje em dia…
    5. Matéria e energia também dão vida e movimento aos sistemas. Mas é tão legal tratar fidbeque como informação pura.
    6. Passion Drops
      Outra foto surrupiada da tanakawho.