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  • Pensando Negócios, Parte VI

    Pensando Negócios, Parte VI

    Não faria sentido que esta última parte da série ficasse limitada ao resumo do resumo (toda a série é uma síntese de um conjunto de ideias e obras que serão apresentadas no apêndice). Também havia prometido que este capítulo trataria de inovação e redesenho de negócios. Depois que ouvi a palavrinha “inovação” da boca de políticos de meia tigela conclui que passa da hora de abandoná-la. Portanto, esta parte: i) não é simplesmente um resumo (apesar de revisar os principais conceitos apresentados anteriormente); ii) não é uma proposta de redesenho, reengenharia ou afins (afinal, toda a série propõe uma nova maneira de PENSAR negócios); e iii) não apresenta um exemplo de utilização das sugestões apresentadas (não sei se sou ruim com exemplos porque não acredito neles ou se não acredito neles porque meus exemplos são ruins). Espero que esta ducha d’água fria não o faça abandonar a leitura por aqui.

    Modelos

    Não canso de repetir: “todos os modelos estão errados. Mas alguns são úteis…”¹. Um modelo é simplesmente a representação de algo real. Nenhum modelo consegue capturar todos os aspectos e detalhes daquilo que está representando. Por isso a quantidade de modelos, o número de pontos de vista capturados, é muito relevante quando falamos sobre arquitetura ou análise de negócios, projetos de sistemas de negócios etc.

    Desde o início da série tento capturar as principais ideias na forma de um único modelo. Minha intenção é que este modelo sirva como uma boa revisão do que foi visto anteriormente. Portanto, sua primeira intenção é didática. Mas eu também queria uma ferramenta, algo que ilustrasse o que os participantes de meus treinamentos conheceram como fotografia 2km (de extensão) X 2cm (de profundidade).

    De uns tempos para cá ficou bastante popular um modelo conhecido como canvas, proposto por Alexander Osterwalder em Business Model Generation (Inovação em Modelos de Negócios – Alta Books, 2011). É um modelo simples e bastante flexível – permite diversos tipos de uso. Mas, como todos os outros, está errado.

    Levando-se em conta apenas o que foi apresentado nesta série, o canvas é bastante incompleto e carente de uma visão sistêmica.

    Por isso comecei um novo desenho do zero. Não, não estou reinventando a roda. Como tentarei mostrar até o final deste artigo, o modelo que proponho aproveita ideias consagradas em outros modelos (isso quando não os copia descaradamente).

    Antes preciso alertar que se trata de uma versão pré-alfa do modelo. Ele precisa passar alguns dias pendurado no varal, sofrendo com sol, chuva e vento, para aprender alguma coisa com a vida².

    Tabuleiro

    Tenho uma queda por nomes feios e este modelo herdará o apelido que eu havia cedido ao canvas. Gosto do nome tabuleiro porque ele nos faz lembrar de jogos.

    Nosso jogo tem início quando um sistema-negócio é criado declarando sua função-missão. Neste momento fronteiras são delimitadas, criando um contexto (o ambiente transacional daquele negócio). Destaca-se de imediato o perfil dos clientes que o negócio pretende atender.

    O fundo branco representa o negócio e seu interior. Ali dentro percebemos o uso de três cores. Cada uma representa uma parte fundamental do sistema-negócio: função (azul); estrutura (amarelo) e processos (cinza). Para aproveitar bem o que vem a seguir, é importante que você tenha lido os capítulos dedicados a cada uma delas: Função, Estrutura e Processos. E não se esqueça dos aspectos culturais.
    Segue o jogo…

    Definimos quais são nossas ofertas (produtos e serviços) e os canais que serão disponibilizados aos clientes. Inicialmente listamos os canais de venda, promoção e entrega. O mesmo espaço pode ser utilizado para canais de relacionamento (quando estes são específicos).

    Vimos anteriormente que todas as ações que tocam direta ou indiretamente os clientes são chamadas de processos primários. É através deles que criamos, produzimos e comercializamos as ofertas. E o toque no ou do cliente se dá através dos canais estabelecidos. Daí a distribuição horizontal e consecutiva destes três elementos.

    Aos recursos que suportam exclusivamente os processos primários chamamos, por falta de um termo mais adequado, estrutura I. Sua separação (inclusive física) da estrutura II que dá sustentação aos processos de apoio foi justificada em capítulos anteriores. Em resumo: a estrutura II representa “só despesa, só despesa”. Ela deve ser concebida e administrada de uma forma totalmente diferente. Em um cenário ideal ela seria totalmente terceirizada. Sugestão esta que nos apresenta novos atores no palco transacional (contexto), os parceiros.

    Deve ter ficado fácil antecipar que as áreas cinza e amarela restantes estão reservadas para os processos de gestão e respectiva estrutura III. Menores em espaço e quantidade mas não menos relevantes, afinal é esta parte do sistema-negócio que trata do planejamento e controle de tudo o que foi visto até aqui. E mais…

    É a parte gerencial que configura o lado explícito da cultura corporativa, representada no diagrama pelo quadro valores. O que foi feito das outras dimensões (riqueza, poder, conhecimento e beleza)? Falaremos sobre isso mais tarde.

    Repare que agora o contexto foi completado com dois novos integrantes: governo, agências reguladoras, CVM etc. na parte superior e no lado esquerdo os concorrentes. Ali, para ficarem bem distantes dos clientes. A apresentação desses elementos agora sugere que a principal interface com eles está nos processos de gestão. Mas, claro, os processos de apoio e os primários também obedecem e respondem ao que vem da parte superior do tabuleiro (pagando impostos, por exemplo).

    Apesar de incompleto, o tabuleiro já permite algumas brincadeiras (extensões do jogo básico). Repare nos post-its amarelos. Pois é, a análise SWOT acha seu espaço no tabuleiro.

    Ameaças são externas e vêm dos concorrentes ou do governo (e suas malucas regulações). As fraquezas são internas e devem ser conhecidas pela gestão. Assim como as forças, que devem se concentrar na parte do tabuleiro onde um negócio faz diferença de fato. Por fim, as oportunidades, externas e relativamente próximas aos clientes.

    Uma proposta de valor sincera e eficaz é baseada no conjunto de informações desenvolvido até aqui. Ela enaltece os pontos fortes, sejam eles relativos aos produtos e serviços, atendimento, uso eficiente da estrutura etc.

    Resta apenas o preenchimento do grande quadro azul onde até agora temos apenas as ofertas e canais. Ele representa o que geralmente é chamado de visão. Começamos pelas receitas. Afinal, se no outro extremo do tabuleiro temos custos, é necessária uma contrapartida. Na sequência vemos os dois últimos compartimentos, mudanças e aprendizado & desenvolvimento. O leitor atento já deve ter antecipado a presença do modelo Balanced Scorecard (BSc) no tabuleiro. Sim, este modelo é um dos melhores já inventados para representar a visão de uma empresa.

    Neste grande quadro temos o sistema-negócio projetando seu futuro. Considerando as oportunidades, ele define o que deve aprender & desenvolver para implantar as mudanças necessárias. Mudanças que serão refletidas nas ofertas e/ou canais, provocando os clientes para que eles comprem mais. Gerem mais receitas.

    Múltiplas Dimensões, Múltiplos Usos

    Preciso dizer que o modelo sugerido acima está errado? Esta é minha única certeza. Mas, claro, acredito em sua utilidade. E não apenas para fins didáticos.

    O Guia #1 declarava: em um sistema, o todo é maior que a soma das partes. Tentei elaborar um modelo que permitisse a ilustração do todo no nível de detalhamento adequado. Uma grande diferença em relação ao canvas, por exemplo, é a preocupação com o contexto e com as interfaces internas e externas. Porque o Guia #6 diz que as fontes primárias de valor e complexidade de um sistema residem em suas interfaces. Na realidade, testei o modelo contra os 17 guias apresentados nesta série. É um teste que eu sugiro que você faça caso queira rever os conceitos apresentados e validar o uso do tabuleiro.

    Antes de encerrar, preciso pagar uma dívida que deixei acima: a representação das dimensões culturais. Valores, aqueles que são explicitamente colocados por um sistema-negócio, mereceram sua caixinha. Mas, e sua porção implícita? E a resolução de conflitos? Onde entram? E onde se encaixa a beleza ou o poder? Convido-o para outro teste.

    Cada dimensão merece um modelo próprio. Você pegaria um template do tabuleiro e registraria apenas aquilo que é relativo à geração e disseminação de uma dimensão específica. Conhecimento, por exemplo. Como os processos primários geram conhecimento? E como este conhecimento é disseminado?

    Devo confessar que neste teste só travei na dimensão beleza. Sua geração e disseminação, apesar de bastante perceptíveis, são difíceis (se não impossíveis) de implementação neste ou em qualquer outro modelo conhecido. Além de subjetiva (e estar nos olhos de quem vê), a beleza é produto do todo. Ela pode ser sintetizada em um produto, com certeza. Mas não é disso que estamos falando aqui.

    Se você fizer os testes ou quiser simplesmente conversar sobre as sugestões apresentadas nesta série não hesite em me contatar. Se não quiser utilizar a área de comentários, use seu meio preferido. Conto com nossos papos e desde já agradeço. Na próxima semana, como prometido, a bibliografia recomendada (e comentada). Inté!

     

    Notas

    1. Depois de Jurgen Appelo, em Management 3.0
    2. O papo de pendurar ideias, no caso um livro, no varal para que elas “aprendam com a vida” vem do tortuoso e fantástico 2666, de Roberto Bolaño.
    3. Esta bateria de avaliação pública me dará (ou não) a confiança para liberar duas versões melhor desenhadas dos modelos, em formatos A3 e A4. Com elas pretendo reativar a área de downloads do {finito}.
    4. Um teste para analistas de negócios: se o tabuleiro for bem utilizado, apenas uma caixinha representará os requisitos mais importantes de um projeto. Qual?

     

  • Pensando Negócios, Parte V

    Pensando Negócios, Parte V

    A parte IV encerrou a apresentação da face dura da arquitetura de negócios. Este capítulo trata da parte soft – é sobre cultura corporativa e as cinco dimensões que lhe dão forma.

    Antes de começar, preciso fazer um mea culpa. Meus artigos e trabalhos anteriores sobre o tema nunca deram a devida atenção aos aspectos culturais da arquitetura corporativa. Dada sua subjetividade, nunca vislumbrei a possibilidade de modelá-los e considerá-los como parte indissociável da arquitetura do negócio. Talvez amenize a minha pena o fato de pouquíssimos autores o terem feito. Ao enxergar negócios como sistemas socioculturais complexos e adaptáveis, se torna impossível não contemplar seu lado soft, invisível e, por que não dizer, humano.

    Há uma boa analogia para a ilustração desses dois lados da arquitetura de negócios. Estrutura e processos são o hardware – a parte dura e visível¹. Função e cultura são o software, o sistema operacional de uma empresa.
    É sobre ele a conversa de hoje.

    Cultura

    Segundo o Houaiss, cultura significa, entre outras coisas, um “conjunto de padrões de comportamento, crenças, costumes, atividades etc. de um grupo social”. Todo e qualquer negócio tem a sua cultura – uma imagem compartilhada por todos os seus membros. Essa imagem tem um lado cognitivo – aprendido na convivência e através de exemplos – e um lado normativo – declarado explicitamente através de valores, crenças e contratos sociais. São lados de uma mesma moeda e o tempo (ou a hipocrisia) trata de filtrar eventuais discrepâncias entre o que é dito e aquilo que é feito.

    Uma cultura se consolida com o tempo. O que não significa que a resistência à mudanças é produto dessa consolidação. Uma empresa pode ter uma cultura dinâmica (adaptável às realidades emergentes) devidamente consolidada. Mas é correto entender que a cultura pode ser e é, na grande maioria das empresas, um dos maiores entraves aos processos de mudanças. No entanto, ao contrário do que muitos acreditam, é possível mudar uma cultura. É difícil, muito difícil, mas é possível.

    Para tanto, antes de mais nada, é preciso entender o que é cultura e como ela é formada no contexto de um negócio. O primeiro capítulo adiantou que negócios, como sistemas socioculturais, possuem cinco dimensões: Riqueza, Conhecimento, Valores, Poder e Beleza. É este conjunto de dimensões interdependentes que forma o que chamamos de cultura corporativa.

    Riqueza

    Vimos na parte anterior que são chamados de processos primários todos aqueles que cuidam da geração e disseminação de riqueza. Ou seja, esta dimensão está diretamente relacionada com os processos e, consequentemente, com o comportamento do sistema-negócio. Onde está a cultura aqui? Na interpretação dada por uma organização aos verbos gerar e disseminar.

    Nos habituamos a interpretar esses verbos como se fossem mutuamente exclusivos. Quem é de direita enxergaria apenas a geração de riqueza como propósito fundamental de uma entidade com fins lucrativos. Já os de esquerda enfatizariam a disseminação, a distribuição de riqueza. Nos anos 1970, um ministro da economia tupiniquim teria dito que era preciso “aumentar o bolo antes de distribui-lo”. Postergação que parece vigorar até hoje. A dicotomia – gerar X disseminar – é falsa. Sem a geração não há o que distribuir. E a não disseminação esgotará a população com capacidade de consumir o que é gerado.

    Henry Ford, lá nos primórdios do capitalismo, sabia da necessidade de balanceamento entre geração e disseminação. E fez com que seus colaborares – então os mais bem remunerados na indústria automobilística – consumissem parcela considerável de sua própria produção. Mas a questão vai muito além dos bons salários ou da distribuição de lucros.

    Porque a riqueza gerada não precisa ser contabilizada apenas em termos financeiros. Você percebe valor quando utiliza os serviços da Google, por exemplo. E este valor não é monetário. Você valoriza aquela empresa que o atende bem. Você tende a atribuir maior valor para organizações éticas e socialmente responsáveis. Enfim, nem toda riqueza é quantificável. Mas toda riqueza é percebida. Quando a sociedade é favorecida, mesmo que indiretamente, riqueza foi disseminada². E só se dissemina aquilo que é gerado.

    Conhecimento

    Conhecimento sempre foi um tipo de riqueza. Um tipo muito especial, diferente daquela baseada em recursos finitos (grana e outros ativos físicos). Porque o conhecimento tem seu valor aumentado na medida em que é distribuído. Enquanto dimensão de um sistema sociocultural, conhecimento refere-se a forma como uma empresa aprende. Uma organização verdadeiramente preocupada com a geração e disseminação de conhecimento é, dentre várias outras coisas, mais resiliente. Ela sofre menos em tempos de instabilidade caduca e hipercompetitividade. Porque aprende mais, melhor e de maneira mais rápida. Aprende o quê?

    • Aprende a Aprender: desenvolve habilidades para aprender, desaprender e reaprender. Enriquece seus processos com feedback loops que visam à melhoria contínua, ou seja, ao constante aprendizado.
    • Aprende a Ser: desenvolvimento contínuo da identidade da organização (visão, valores) e de todos os indivíduos que a compõem.
    • Aprende a Fazer: ou seja, desenvolve competência – que é produto de duas variáveis: disciplina e habilidade.

    Ainda há quem acredite que todo conhecimento desenvolvido por uma organização é passível de explicitação (ser registrado em algum lugar). Oitenta porcento do conhecimento desenvolvido nas três dimensões acima é tácito – residirá só nas cabeças das pessoas. O que torna o conhecimento um ativo não apenas intangível, mas também volátil e instável, que tem dor de barriga e ressaca de vez em quando e que vai embora todo dia lá pelas cinco ou seis da tarde.

    Valores

    Dimensão-terreno fértil para uma plantação de abobrinhas. Se uma empresa lista, entre seus valores, a honestidade e o respeito ao próximo, alguém vai discordar? Claro que não. Mas uma organização é ingênua quando apresenta uma lista com meia dúzia de valores e acredita que ela, por si só, gerará unidade e senso de direção. Cada pessoa desenvolve durante a vida a sua própria lista de valores. A empresa tentará desenvolver um denominador comum, mas nunca conseguirá abranger todas as aspirações e guias de seus colaboradores. Por isso ela estará continuamente envolvida com a resolução de conflitos. Conflitos entre áreas ou indivíduos.

    Um conflito indica a não concordância tanto em relação aos meios quanto aos fins. Sua resolução plena, cujos diversos caminhos estão além do escopo desta série, leva os envolvidos para um trabalho cooperativo (acordo total sobre meios e fins). Mas existem situações – como a busca por criatividade e inovação, por exemplo – em que a não concordância em relação aos meios ou aos fins é desejada. Quando há compatibilidade em relação aos meios temos uma coalização. E uma concordância quanto aos fins gera uma competição. A organização gerencia e direciona essas resoluções.

    Em tempos em que se fala tanto sobre ética, dada sua aparente escassez, esta dimensão ganha relevância que vai além, muito além daqueles belos posteres com uma listinha de valores. Deveria ser tópico obrigatório, por exemplo, em qualquer processo de seleção ou de contratação de terceiros. A Apple que o diga.

    Poder

    Centralizar ou descentralizar? A auto-organização, característica indissociável dos sistemas complexos, significa perda de poder? O empoderamento (empowerment) significa transferência de poder?

    É curioso como a dimensão poder ainda é comumente percebida como um jogo de soma zero – eu ganho, você perde. O poder, assim como o conhecimento, aumenta quando é disseminado. Quando um gerente dá autonomia para determinado grupo tomar decisões, ele não perde nem autoridade, nem força e nem conhecimento para influenciar ou tomar aquelas decisões. Se abriu caminho para que outros o façam, é porque confia no próprio taco (selecionou, ensinou e orientou bem). O que se ensina (neste ponto específico) e serve como orientação são os critérios de decisão. É isto que se compartilha, não o poder. O poder é simplesmente disseminado.

    Beleza

    A tríade vitruviana que inspirou os primeiros desenvolvimentos da disciplina que conhecemos como arquitetura era: firmitas (robustez, estabilidade), utilitas (utilidade, funcionalidade) e venustas (beleza). Toda arquitetura, seja de uma casa, de um software ou de um negócio, deveria ser testada contra esta simples porém exigente lista. Mas o que significa beleza no contexto dos negócios? Como uma empresa pode gerar e disseminar beleza?

    O grande Lenine cantou que “o que é bonito | é o que persegue o infinito”. E nessa toada a gente invade o transcendental, passando dos limites das coisas físicas, dos recursos, processos, regras, funções… É impossível falar sobre cultura – mesmo que seja uma tal cultura corporativa – e não falar de emoções. Beleza, neste sentido, é a emoção e o orgulho de fazer parte de um grande time em uma grande empresa. Grande, insisto, não em termos físicos. Mas em suas aspirações e realizações. Quero crer que todo mundo um dia já sentiu muito orgulho de vestir uma camisa; de falar com a boca cheia e os olhos brilhando: “eu trabalho na <xpto>!”

    Se é difícil tratar de tema tão subjetivo ao falar sobre arquitetura de negócios, por outro lado é impossível não considerar a relevância desta dimensão na formação da cultura de uma organização. A beleza é simplesmente a variável mais importante na integração social.

    Dimensões Interdependentes

    Todas as cinco dimensões apresentadas acima são interdependentes e fortemente acopladas. É difícil, por exemplo, achar beleza em uma organização mesquinha (na disseminação de riqueza) é excessivamente centralizadora (na distribuição de poder).

    E a relação entre este grande sistema operacional e o hardware (a estrutura e os processos) também é íntima e forte. O desenho da estrutura, por exemplo, é consequência da forma como a empresa pensa a geração e disseminação de poder.

    Portanto, quando queremos entender ou mesmo conceber um negócio, é de suma importância que o todo seja visto e apreciado. Nesta série vimos que o todo é formado por: Contexto (ambiente transacional), Função (missão), Estrutura (distribuição de recursos), Processos e Cultura. O próximo capítulo, o último, tentará sintetizar tudo o que vimos até aqui. Tentará! Até lá!

     

    Notas

    1. Para evitar qualquer confusão: um processo não é visível, mas o resultado de sua execução sim. Também podemos ver componentes da estrutura trabalhando, sendo alterados, consumidos ou criados durante a execução de um processo. Por isso ele é citado, na analogia, como parte do hardware de um negócio.
    2. Alguns autores, como Kaplan e Norton por exemplo, classificam processos regulatórios e sociais como processos primários. A coleta seletiva de lixo, por exemplo, seria um processo primário. Porque a sociedade se beneficia dela.

     

  • Pensando Negócios, Parte IV

    Pensando Negócios, Parte IV

    O comportamento dos sistemas e os processos de negócio são os temas principais desta parte. Depois da função-missão e da estrutura, encerra-se aqui a definição da parte dura da arquitetura de negócios. O que não significa que a série termina aqui. Restam dois capítulos.

    Ao lidar com sistemas é importante saber diferenciar o que é complexo daquilo que é apenas complicado. A estrutura – todas as pessoas e demais recursos-componentes que formam um negócio – desafia nossa capacidade de compreendê-la. Sendo assim, uma estrutura pode ser simples ou complicada.

    Já o comportamento de um sistema desafia nossa capacidade de antevê-lo. Chamamos o mais previsível de ordenado. O de difícil previsão de complexo. E aquele que é totalmente imprevisível de caótico. Um belo relógio analógico, por exemplo, tem uma estrutura complicada. Mas seu comportamento é totalmente previsível, ou seja, é ordenado. Negócios, assim como cidades, têm uma estrutura em geral complicada e um comportamento que flutua entre o complexo e o caótico. Guia #14: A real complexidade de um sistema é produto de seu comportamento.

    O comportamento de um sistema-negócio resulta da execução dos processos de negócio. Processo de negócio é uma sequência de atividades ou tarefas que, quando (bem) encerrada, gera uma saída que tem valor para alguém. Todo processo tem um propósito principal, como vender, entregar, cobrar, demitir, contratar etc.

    Quando um negócio é criado, seus processos são concebidos para funcionar da maneira mais ordenada possível. Ninguém em sã consciência busca a complexidade pela complexidade. Mas os processos sofrem pressão por mudanças com frequência cada vez maior. Novas leis e alterações em tributos; novos concorrentes e modalidades de comercialização; maneiras mais eficientes de realizar o mesmo trabalho. São inúmeras as razões para mudanças.

    Os processos vão sendo adaptados – um puxadinho aqui e outro acolá. Em relativo pouco tempo, um processo que nasceu como uma linha reta vira um mapa repleto de desvios, loops, trevos, pedágios e postos de fiscalização. Como colocado no capítulo anterior, empresas não costumam ter programas para atualização (ordenação¹) sistemática de processos. Os processos envelhecem mal, se aproximando gradativamente do estado caótico.

    Tipos de Processos

    Foi antecipado na primeira parte que um negócio, como qualquer outro sistema sociocultural, possui cinco dimensões. Hora de explicar a primeira delas, a Riqueza. Todo sistema-negócio tem a responsabilidade (e necessidade) de gerar e disseminar riqueza (valor). Quando o faz, está cumprindo sua função-missão. Os processos que contribuem para a geração de riqueza são chamados de Processos Primários. Há outra forma de identificá-los: todo processo de negócio que toque direta ou indiretamente o cliente final é um processo primário. Venda, entrega, cobrança e atendimento são exemplos de processos primários.

    Processos que não contribuem para a geração e disseminação de riqueza mas são necessários para tocar o negócio são denominados Processos de Apoio. Eles não são notados pelos clientes finais e não são fator de diferenciação. Aos olhos dos donos do negócio são “só despesa, só despesa”; o que é a pura verdade. Não por acaso, foram estes os primeiros processos informatizados ou terceirizados. Exemplos: fechamento da folha de pagamentos, fechamento da contabilidade e livros fiscais, manutenção das instalações, limpeza, segurança etc. Curiosidade: grande parte dos processos de TI se encaixa aqui.

    Por fim, existem os Processos de Gestão ou Governança. São todos aqueles que cuidam do planejamento e controle dos outros dois tipos de processos. A elaboração de orçamentos e o controle contábil são exemplos clássicos de processos de gestão. Tem pegadinha aqui? Aguarde pelo próximo capítulo.

    Enxergando Processos

    Quando conversamos sobre processos de negócios é natural que visualizemos, mentalmente, um fluxograma. Porque esta é a representação gráfica mais antiga, natural e comum de uma sequência de atividades. A questão é: este modelo nos permite enxergar e entender toda a dinâmica de um processo e suas diversas interações?

    Ferramentas de caráter analítico (mecanicista, reducionista), como o fluxograma², nos levam a estudar um todo a partir de suas diversas partes. Reduzimos (ou quebramos) um problema na esperança de assim resolvê-lo. Problemas de fato complexos exigem outro enfoque.

    Ao interpretar processos de negócio como (ou a partir de) o comportamento de um sistema, nos lembramos que:

    • Em um sistema, o todo é maior que a soma das partes (Guia #1);
    • Um sistema perde suas propriedades essenciais quando desmontado (Guia #15);
    • A melhoria de partes isoladas nunca resultará na melhoria do todo (Guia #16);
    • Um sistema só é de fato compreendido quando enxergamos os relacionamentos entre estrutura e comportamento (Guia #17).

    Um processo, quando executado, utiliza, consome, transforma e cria recursos. O fluxograma não foi inventado para ilustrar estes tipos de relacionamentos. Quando observamos o comportamento de um sistema ou processo devemos nos preocupar, entre outras coisas, com as diversas mudanças de estado as quais os recursos estão sujeitos.

    Proponentes do Pensamento Sistêmico nos deram duas ferramentas³ que permitem enxergar um negócio, processo ou conjunto de processos como um todo. A primeira é o Diagrama de Ciclos (Enlaces) Causais (ou simplesmente Diagrama Causal). O simplório exemplo ao lado ilustra três variáveis referentes ao processo de vendas em um ciclo de balanceamento. Se o Volume de Vendas aumentar, o Prazo de Entrega também será maior. Fato que terá impacto negativo na Satisfação do Cliente e, consequentemente, no Volume de Vendas.

    O mesmo exemplo é utilizado para ilustrar a segunda ferramenta, o Diagrama de Estoque e Fluxo. Agora as ações (processos ou atividades) são destacadas como fluxos (Vendas e Entregas). O estoque (Capacidade de Entrega) pode representar qualquer tipo de recurso. O ciclo é de balanceamento (identificado pela letra B no centro do diagrama) e duas variáveis (Prazo de Entrega e Satisfação do Cliente) são avaliadas.

    É importante frisar que as ferramentas sistêmicas não substituem ferramentas analíticas como o fluxograma, as complementam. Cada uma tem sua utilidade em atividades de estudo, desenho ou melhoria de processos de negócios. Outra observação: os Diagramas de Estoque e Fluxo normalmente são acompanhados de um gráfico que mostra a evolução do(s) estoque(s) em determinada linha de tempo. Eles são particularmente úteis em simulações automatizadas.

    Feedback Loops

    Quase passa da hora de apresentar outro componente fundamental dos sistemas, os ciclos (ou enlaces) de retro-alimentação (termo que fica bem melhor em inglês: Feedback Loops). Se o sistema-você sente frio, uma informação chega ao subsistema que o fará tremer e assim aquecer o corpo. Se sente calor, outro subsistema receberá o feedback e você vai transpirar. Assim como em nosso corpo, tudo em um sistema-negócio é regido através de ciclos de feedback. Mas o Guia #2 nos lembra que, como em qualquer sistema sociocultural, os ciclos de feedback de um negócio baseiam-se (ou são formados) exclusivamente em informações.

    Voltemos ao exemplo acima. Tanto o estoque (Capacidade de Entrega) quanto as duas variáveis envolvidas (Prazo de Entrega e Satisfação do Cliente) são informações. Assim como as interações entre estes componentes. Se, por exemplo, a capacidade de entrega for aumentada – através da contratação de pessoal, aquisição de veículos ou terceirização – o prazo de entrega será reduzido, o que deve afetar positivamente a satisfação dos clientes. Clientes satisfeitos tendem a comprar mais e incentivar novos clientes, impactando novamente a capacidade de entrega e assim por diante. Por isso este ciclo é chamado de ciclo de balanceamento – ele leva à estabilização do sistema.

    Diversas operadoras de telefonia móvel fecharam ouvidos e olhos para o feedback loop que informava que sua capacidade de entrega e atendimento estava pra lá de subdimensionada dada a vazão. Foi necessário o fechamento forçado da torneirinha do fluxo de entrada (vendas) através da intervenção de um subsistema externo (a agência reguladora Anatel) para que o sistema maior  redescobrisse a necessidade de balanceamento.

     

    Há um segundo tipo de ciclo de feedback, chamado Ciclo de Reforço. Uma metáfora relativamente comum para explicá-lo é o efeito bola de neve. Ilustra o fato deste ciclo levar a um crescimento exponencial de determinado estoque. Quando o efeito deste crescimento é positivo, dizemos que se trata de um ciclo virtuoso. Pense numa gorda conta de investimentos que só faz aumentar (no país com as mais altas taxas de juros do mundo). O efeito negativo é denominado ciclo vicioso. Você deve encontrar diversos exemplos ao seu redor. Lembre-se do trânsito. Ou de seus cronogramas. Ou do aquecimento global… Você consegue destacar três ou quatro variáveis que, nestes exemplos, demonstram um ciclo vicioso?

    A Forma segue a Função

    Este foi o Guia #13 que encerrou o capítulo anterior. Ele sugere que a estrutura organizacional (forma) seria desenhada para atender a função a ser realizada. A frase – a forma segue a função – vem da arquitetura tradicional e lá encontra defensores e detratores. No universo dos sistemas existiria embate semelhante entre estruturalistas e funcionalistas. Ao olhar negócios através da lente dos sistemas complexos, percebemos que: i) Na grande maioria das empresas, as estruturas ainda são muito rígidas, pouco resilientes; mas ii) Mesmo assim, é possível perceber que os processos forçam algumas mudanças nas estruturas.

    Se a resiliência (em poucas palavras, a capacidade de se adaptar às mudanças) é uma característica fundamental dos sistemas complexos (e é, ao lado da hierarquia e da auto-organização), então por que não acreditar que a forma deve seguir e continuamente se adaptar à função?

    O problema é que esta questão aparentemente besta condena 99% das organizações atuais, que seguem funcionando como um conjunto de silos de especialistas (em finanças, marketing, produção, vendas etc) pseudo-autônomos e acoplados na marra.

    Haveria alguma alternativa? Se existisse uma resposta simples para esta questão (que muitos ainda não entendem como sendo um problema), ela seria mais ou menos assim:

    • Cada processo primário é executado por equipes multidisciplinares que têm ampla autonomia. Quando a demanda justifica, novas equipes são formadas (scaling out). O acoplamento entre os membros das equipes é forte. Já em relação ao restante da organização ele é o mais fraco possível (o que significa dizer que o número de conexões deve ser pequeno).
    • Processos de apoio são tocados por prestadores de serviços, internos ou externos. Existe uma economia de mercado e as equipes autônomas (dos processos primários) têm liberdade para contratar o serviço onde lhes for mais conveniente. Desta forma são eliminados os monopólios internos (TI, por exemplo) e é instituída uma política orçamentária baseada no mérito. Quem faz mais dinheiro tem mais dinheiro para gastar e investir. Simples assim.
    • Feedback loops muito bem arquitetados municiam os sistemas gerenciais e, consequentemente, todos os responsáveis pelos processos de governança. Este grupo, como será melhor detalhado na próxima parte, administra fronteiras, desenha a visão e gerencia as interconexões (e não as ações, os processos). Não descuida da produtividade e estabilidade, mas gerencia também para a resiliência do sistema-negócio.

    Ah, se as respostas simples para problemas complexos não fossem equivocadas. Ah, se todos os modelos não estivessem errados (apesar de alguns serem úteis). Chega de lamentações. A próxima parte falará de cultura corporativa, processos organizacionais e de gestão. Até lá!

     

    Notas

    1. Apesar de ser uma meta, a ordenação de processos nem sempre (ou quase nunca) é possível. Porque isso não depende apenas da organização que os executa. São inúmeras as regras e variáveis externas que podem tornar um processo complexo ou até mesmo caótico (totalmente imprevisível). Ainda mais em uma terra com marcos regulatórios draconianos, frágeis e movediços.
      Fatos que não isentam as empresas da necessidade de uma revisão periódica de seus processos. Todo processo é passível de melhoria. Sempre.
    2. Cada nova ferramenta de caráter analítico para estudo de processos parece apresentar um simples upgrade do velho e bom fluxograma. Veja a notação BPMN, por exemplo. Posso não ter procurado direito ou nos lugares corretos, mas nunca vi uma tentativa de combinação dos fluxogramas com ferramentas sistêmicas. Acho que seria muito bem vinda.
    3. Existem outras ferramentas, algumas adaptadas de outras searas (TOC – Teoria das Restrições, por exemplo). As duas citadas, o Diagrama Causal (Causal Loop Diagram) e o Diagrama de Estoque e Fluxo (Stock-and-Flow Diagram) são as mais comuns e relevantes. Não por acaso, são comumente tratadas como “linguagem” dos sistemas, e não simplesmente como ferramentas.

     

     

  • Pensando Negócios, Parte III

    Pensando Negócios, Parte III

    Terceira parte de um total de seis. Na anterior vimos a função-missão de um sistema-negócio. O tema de hoje é a estrutura do negócio, seus componentes e inter-relações.

    Das três partes que compõem qualquer negócio, a estrutura é a mais visível e inteligível. Afinal, ela é composta apenas por pessoas e coisas. É muito mais fácil ver os componentes de um sistema do que suas interdependências e processos. Talvez por isso as organizações e seus sistemas gerenciais se ocupem quase que exclusivamente da estrutura – do planejamento e controle dos recursos corporativos. Eles sabem tudo e mais um pouco sobre seu patrimônio e verbas. E quase nada sobre seus próprios verbos. Contam centavos de cada centro de custos. Mas ficam abobados ou horrorizados quando questionados sobre os custos de suas atividades (ABC)¹.

    Isso parece ser uma questão cultural com raízes profundas. As línguas ocidentais, por exemplo, privilegiam pessoas e coisas – sujeito e objeto – em detrimento do verbo. Valorizamos a posse mais que a ação. Vários exemplos ilustram nossa preferência:

    • Poder parece sinônimo de posse (de verbas, recursos, informações etc);
    • Organizações vivem em ondas consecutivas de reestruturação
      (eufemismo para redistribuição e cortes de pessoas e coisas);
    • Governos e prensa que se diz entendida vivem falando de reformas estruturais;
    • Empresas têm políticas de upgrade da sua estrutura (computadores, veículos, equipamentos e até pessoas!).
      Já reparou que raramente se ouve falar em atualização sistemática e programada de processos?;
    • Um dos mais poderosos e conhecidos paradigmas para o desenvolvimento de sistemas de informação atende pelo nome de OO – Orientação a Objetos. Um de seus conceitos básicos prega que métodos (verbos) sejam encapsulados nos objetos²;
    • Muitos sistemas – particularmente pessoas, departamentos e empresas – se autodefinem pelo que possuem e não por suas funções, pelo que de fato realizam.

    Um sistema-negócio possui apenas quatro tipos de componentes-recursos:

    • Pessoas: a verdadeira alma do negócio. Aliás, sem um pingo de demagogia, alma, corpo, cérebro, suor, sangue, lágrimas…
    • Recursos Físicos: entra aqui tudo o que é visível mas não é gente. São as instalações, veículos, máquinas, equipamentos etc.
    • Recursos de Informação: toda e qualquer informação gerada e/ou registrada pela organização, seja em que formato for (do papel de pão ao pacotão ERP).
    • Recursos Abstratos: conceitos e ideias que pertencem àquela organização ou ramo de atividades. Uma apólice, por exemplo, é um conceito chave da área de seguros.

    Os recursos são distribuídos e estruturados de maneira que permita que o sistema-negócio execute processos e realize sua função. Qual é a base dessa estruturação?

    Hierarquias

    Parece que é moda detonar hierarquia – a ideia – e sugerir a possibilidade de organizações 100% horizontais. Este tipo de organização nunca existiu e é pouco provável que um dia exista. Quem a propõe, quase sempre com a melhor das intenções, ignora o fato de que desde que o mundo é mundo – desde que um ser vivo se entediou com sua condição unicelular – nos organizamos em hierarquias. Nosso corpo, por exemplo, é um engenhoso conjunto de subsistemas organizados de maneira hierárquica. Células formam o subsistema estômago que por sua vez forma o subsistema aparelho digestivo e assim por diante. Não há nada de errado com a ideia de hierarquias, muito pelo contrário; Guia #10: Hierarquias são imprescindíveis porque i) dão estabilidade ao sistema; ii) garantem resiliência; e iii) reduzem a quantidade de informações que cada componente precisa trabalhar.

    Bilhões de anos depois de aquele entediado ser unicelular decidir evoluir, foram inventados clãs, tribos, cidades, nações, exércitos, igrejas e empresas. Todos são exemplos de sistemas socioculturais baseados na ideia da organização hierárquica. Se é da nossa natureza, por que a hierarquia é tão debatida e combatida? Alguns motivos:

    • A primeira mensagem que um organograma passa é a de que pouquíssimos alcançarão o topo.
      Para cada vencedor existirão centenas ou milhares de perdedores.
    • A segunda mensagem diz que os vizinhos no organograma são seus inimigos ou, no mínimo, concorrentes.
      Existem empresas que incentivam explicitamente este entendimento.
    • Da maneira como foi adotado pelas organizações, o modelo hierárquico cria uma divisão bem nítida entre cérebro (aqueles que pensam) e mãos (os que fazem). Parida no início do século passado no advento da administração científica, esta divisão sobrevive até hoje na grande maioria das empresas.
    • Negócios, assim como as universidades, caracterizam-se pelas fronteiras internas rígidas e quase intransponíveis. Áreas de negócios, assim como disciplinas em uma escola, são silos bem fechados. Quando se relacionam, o fazem na marra e com má vontade.
    • Este desenho funcional (sic) – que valoriza especializações – é outro produto da administração científica. Por ter feito (muito) sentido em linhas de montagem, foi replicado automaticamente por toda a organização. Marketing, Produção, Vendas e Contabilidade são exemplos clássicos de fronteiras muito bem definidas (e equivocadamente cimentadas).
    • Não raro este modelo traz de maneira intrínseca a desconfiança e o medo (que são diretamente proporcionais à quantidade de mecanismos para comando e controle). Preguiça, alienação  e  politicagem também se apresentam como efeitos colaterais relativamente comuns.

    Se hierarquias são naturais e imprescindíveis, como colocado anteriormente, qual é ou quais são as respostas para seus diversos efeitos negativos?

    Anarquias

    Se negócios são sistemas complexos – e nesta altura do campeonato eu espero que você já tenha concordado com isso – então outro imenso pecado de seus formuladores e arquitetos foi ignorar uma propriedade fundamental deste tipo de sistema: a auto-organização. Em poucas palavras, auto-organização é a habilidade de criar sua própria estrutura, de aprender e evoluir. Guia #11: A auto-organização é a norma, o comportamento default de um sistema complexo e dinâmico. A revolta daquele ser unicelular, 3.6 bilhões de anos atrás, foi a primeira manifestação desta propriedade (em solo terráqueo, obviamente).

    Guia #12: O único requisito para que a auto-organização aconteça é um contexto – uma fronteira que a restrinja e direcione. Vimos na primeira parte desta série que um negócio se autodefine e se posiciona em um contexto, delimitando fronteiras. O que é comumente ignorado é o fato da auto-organização ocorrer também dentro do próprio negócio, diariamente, em cada mínima área ou subsistema. Quanto menos uma empresa regula, através de suas políticas e normas, mais espaço ela abre para a auto-organização. Se não há um código de vestimenta, por exemplo, os colaboradores, na base da tentativa e erro (isso pode ser engraçado), concordarão com um padrão.

    Parece que estamos finalmente descobrindo que a melhor maneira de se controlar um sistema complexo é deixando que seus subsistemas sejam responsáveis pela grande maioria das decisões. Porque é natural que seja assim. Pense em seu corpo, por exemplo. Repare como o funcionamento do subsistema coração é autônomo. Ele não depende que o cérebro o comande: bate! acelera! agora para porque eu quero descer!!

    No entanto, ainda não são nada desprezíveis as barreiras para adoção desta linha de pensamento. Em um artigo anterior comentei algumas dessas restrições (culturais). Voltarei ao tema na parte 5 desta série. Até lá, insisto, leia Marco Regulatório da Silva.

    Novos Modelos de Estrutura

    A hierarquia é inevitável. A anarquia³ – produto desejado da auto-organização – é imprescindível. Que tipo de modelo nasce desta combinação? Propostas muito recentes falam sobre hierarquias dinâmicas, organizações fractais e que tais. Qualquer resposta simples ou desenho que se pretenda definitivo devem ser recebidos com desconfiança. Ao pensar negócios como sistemas complexos, devemos nos lembrar de alguns fatos e características. Por exemplo:

    • Sistemas gigantescos (pense naquele pacotão ERP ou em um elefante, tanto faz) são lentos e pouco resilientes.
    • Sistemas que escalam lateralmente (scaling out) são mais ágeis e adaptáveis que aqueles que escalam na vertical (scaling up). Na lata: um grande departamento com 200 colaboradores ou 10 times com 20? Ou 20 times com 10?
    • Hierarquias são necessárias para autorização. Mas a comunicação ocorre nas redes (formais e informais).
    • Quanto maior o número de conexões em um sistema, maior será o número de barreiras e restrições.
      Ops… esta colocação não contradiz o segundo item acima?
    • Por que uma organização acata as leis de mercado em seus relacionamentos externos e aceita conviver com inflexíveis monopólios internos?
    • Faz sentido que um verbo (ex: Vender) seja esquartejado e distribuído entre diversos sujeitos (ex: Vendas, Finanças, Logística…)?

    Arquitetos (de verdade) conhecem (e aceitam ou não) o Guia #13: A forma segue a função. Apele para sua memória e tente se lembrar de uma única empresa que atenda este guia. Repare como departamentos de contabilidade, finanças, marketing e afins fazem pouco ou nenhum sentido quando confrontados com a função-missão do sistema-negócio. Não causa espanto o fato de tantas organizações, sejam públicas ou privadas, parecerem tão disfuncionais. O tema é quente (e controverso) e seguirá na próxima parte. Inté!

     

    Notas

    1. O Custeio Baseado em Atividades (ABC) existirá, talvez com outro nome, no dia em que uma organização for desenhada e gerenciada a partir de seus processos.
    2. Um padrão arquitetônico relativamente recente propõe a declaração de independência dos verbos, questionando de maneira consistente (aos olhos deste que aqui rabisca) um dos fundamentos da programação orientada a objetos. O padrão é o DCI (Data-Context-Interaction) e seu inventor é Trygve Reenskaug, o cara que nos deu o MVC.
      Este é o melhor livro sobre o tema, caso te interesse.
    3. Anarquia não é (apenas) sinônimo de baderna. O termo também significa “um sistema de governança que evita a coerção, violência, força e autoridade e ainda assim promove uma sociedade produtiva e desejável” (trecho extraído da Wikipedia).
      Entendo que o termo nunca vingará no mundo dos negócios. Mas é aquele que melhor expressa a realização ideal da auto-organização.
    4. Este é o primeiro artigo que escrevo praticamente deitado (sigo em repouso absoluto por causa da coluna). Espero que ele não reflita meu estado físico atual.

     

  • Pensando Negócios, Parte II

    Pensando Negócios, Parte II

    A primeira parte apresentou negócios como sistemas complexos, alguns princípios e guias fundamentais e as abstratas fronteiras de um negócio. O tema de hoje é a função do sistema-negócio, aquilo que no linguajar clássico chamamos de Missão. Das três partes básicas de qualquer sistema – as outras duas são estrutura e processos – esta é classificada como menos visível e mais importante. Lembrando o Guia #3: Porque é ela, a função-missão, que dá forma e sentido para todos os demais componentes de um sistema-negócio.

    Razão Social = Missão

    Exemplo #1: “Organizar todas as informações do mundo e facilitar o acesso a elas” – Google
    Exemplo #2: “Refrescar o mundo” – Coca-Cola

    Ficaria feliz se um professor de história ou um pesquisador menos preguiçoso que eu contasse a origem do termo Razão Social. Desconfio que ele venha lá dos tempos do império, de quando a maioria dos empreendimentos eram projetos, ou seja, tinham data para fechar as portas. Se assim fosse, “Construir o Colégio Pedro II “ seria um belo exemplo de “razão social”. Porque nenhuma parte interessada faria muito esforço para entender o propósito daquela iniciativa.

    Nossos tempos são outros e um tanto insanos. Não é raro encontrar trabalhadores que não sabem a real motivação de seus projetos. Terrivelmente mais comum é a total alienação (ignorância) em relação aos objetivos da empresa. Isso parece ser resultado, na maioria dos casos, de uma infeliz combinação de conveniências. Para os donos, que acham que funcionário não tem que se meter nesse papo. E para os funcionários, que parecem ser motivados exclusivamente pelo dinheirinho que pinta até o quinto dia útil de cada mês. As partes (des)interessadas não parecem perceber que as razões de tantos problemas e de tanta insatisfação brotam dessa alineação consentida ou imposta. Pena.

    Mas é apenas um reflexo natural. Guia #7: Todos os sistemas vivos compartilham uma mesma função primordial: sobreviver. Quando não há conhecimento ou comprometimento com uma função mais específica, os subsistemas (as pessoas) e o próprio sistema (negócio) trabalham no sentido de realizar somente sua função default: sobreviver. Quando muito, crescer e multiplicar¹. Pena.

    Porque todo negócio tem uma missão maior e mais nobre a realizar. Quando alguém abre uma empresa, recebe uma licença da sociedade para realizar determinada função. Acho que ninguém ainda teve a coragem de registrar como razão social: Preciso garantir o leitinho das crianças e Cia. Ltda. ou Quero ficar rico e f0ð@-$€ S/A! Não é assim que funciona. Se a sociedade não perceber valor em um negócio, ele definhará.

    Há tempo o termo Razão Social perdeu seu sentido original. Hoje vemos uma combinação quase ilegível de palavras (muitas em outras línguas) que nunca expressam a motivação para aquela empresa existir em nossa sociedade. Daí aos consultores que ajudam a “definir missões” foi um pulinho. Dos “consultores” às declarações de missão genéricas, insípidas e/ou hilárias foi um salto ainda menor. Diz aí, você conhece alguém que saia da cama de manhã, neste frio, e vá trabalhar energizado porque a declaração de missão de seu empregador diz que²: “Faremos produtos diferenciados de classe mundial usando equipes motivadas num novo paradigma de Qualidade Total até nos tornamos os líderes da indústria”?

    Em um sistema social ideal, uma pessoa física empresta seu tempo, esforço e inteligência para uma pessoa jurídica porque acredita em sua missão. Este é o primeiro e mais importante fator de alinhamento entre um sistema-negócio e todos os seus subsistemas e componentes. Mas não é o único, como veremos na sequência desta série.

    Missão <> Visão

    É através de sua função-missão que um sistema-negócio tenta realizar seus objetivos. Um conjunto de objetivos, posicionados em um momento futuro, é o que chamamos de Visão. Esses objetivos, se e quando realizados, darão uma nova cara ao negócio – uma nova visão. Portanto, missão é o meio e a visão representa os fins.

    Outra diferença fundamental está no aspecto temporário da visão. Enquanto a missão é perene, existem algumas com mais de 300 anos de vida³, a visão precisa ser renovada de tempos em tempos. Algumas empresas, como a Petrobras, precisam trabalhar com horizontes de 10 ou 20 anos. Outras, em tempos de infinitas crises, parecem redesenhar sua visão a cada trimestre.

    Se nosso Guia #2 nos lembra que os componentes de um sistema-negócio são interligados por informações, está nos poucos elementos ilustrados acima o conjunto de informações mais crítico para uma empresa. Está colocado ali o que o negócio busca (objetivos e visão), como ele fará o trabalho (estratégia) e por quê (missão). Um pequeno exemplo:

    • Visão e Objetivos: ter participação relevante (>30%) nos mercados de dispositivos móveis e de navegadores (browsers) Web de uso geral em um prazo de X anos;
    • Estratégia: adquirindo, desenvolvendo e distribuindo gratuitamente um sistema operacional para dispositivos móveis e um navegador multiplataforma;
    • Missão: porque nossa missão, além de organizar todas as informações do mundo, é facilitar o acesso a elas. As opções atuais de acesso não atendem nossos propósitos porque, além de outros fatores, são lentas, inseguras e/ou fechadas.

    Imagine como a Google poderia ser uma empresa bastante diferente se sua missão fosse outra, como por exemplo: “Ser líder do mercado global de publicidade on-line”; ou ainda “Ser o maior e melhor mecanismo de buscas do mundo“. Visão e estratégia permaneceriam as mesmas do exemplo acima? É pouco provável.

    Proposta de Valor

    Um sistema-negócio apresenta sua função-missão embalada em uma proposta de valor. Essa proposta representa um posicionamento, um fator de diferenciação. É um grande como, a base de todas as estratégias e decisões. Existem apenas três modelos dos quais derivam todas as propostas de valor. Eles se baseiam em:

    • Inovação: em tecnologia, produtos e/ou serviços. Exemplos tupiniquins: Embraer e Natura. Estrangeiras: Apple, 3M, Virgin America (aviação), Whole Foods Market (varejista) e Starbucks.
    • Clientes: empresas que usam este modelo dependem da manutenção de relacionamentos estáveis e duradouros com clientes. Existem duas variações:
      • Soluções Completas: lembre-se de nossos bancos, com suas ofertas de investimentos, seguros, financiamentos etc. IBM e HP são outros bons exemplos.
      • Aprisionamento: de imediato pensamos nos draconianos contratos das empresas de telecomunicações. Mas é interessante notar que Microsoft, Google e Sony (Playstation) – cada uma a sua maneira – também são exemplos da proposta de aprisionamento (feito através de plataformas, não de contratos).
    • Preço: por último, a proposta que parece onipresente em solo tupiniquim. Empresas que utilizam este modelo caracterizam-se por oferecer baixo custo total e/ou facilidade nas transações. Casas Bahia e Extra são exemplos evidentes. Lá fora: Southwest Airlines, Wal Mart e McDonalds.

    É preciso ressaltar que os modelos acima não são e não precisam ser mutuamente exclusivos. O fato de uma organização orientar sua atuação por um modelo não a impede de utilizar outro. Um bom exemplo é a Apple, notória por inovar mas que usa com extrema eficácia o modelo do aprisionamento. Um sistema sociocultural verdadeiramente ativo, com autonomia sobre meios e fins, não se prende a modelos unidimensionais. A classificação acima representa outro conjunto artificial de fronteiras que deve ter feito sentido em algum momento do século passado. Os negócios dos novos tempos serão cobrados por sua capacidade de inovar, por apoiar seus clientes e por precificar produtos e serviços de maneira justa e coerente.

    A proposta de valor é intencional e muitas vezes escrachada (“mais barato, mais barato… Extra!”). A percepção de valor pelo mercado e, principalmente, pelos clientes, pode confirmá-la ou não. É o comportamento do sistema-negócio que atesta sua proposta de valor, não os slogans, jingles e blablablás retóricos. Guia #8: O propósito de um sistema é deduzido de seu comportamento, do que ele de fato faz e como o faz, não do que promete fazer.

    Sinceras ou não, missão, visão e proposta de valor influenciam ou definem todos os outros componentes de um sistema-negócio. Na próxima semana conversaremos sobre o mais visível deles, a estrutura. Até lá!

     

    Notas

    1. Crescimento e multiplicação não significam desenvolvimento e amadurecimento. Pense em nossas cidades ou no câncer, por exemplo. Quase escondo aqui o Guia #9: Todo sistema é finito e nem todo crescimento é saudável ou desejável. Quando pensamos assim, nos perguntamos porque governos e mídia especializada só sabem falar sobre crescimento do PIB.
    2. Adaptado de um dos vários exemplos detonados por Scott Adams, criador do Dilbert.
    3. O grupo francês Saint-Gobain, por exemplo, tem a mesma missão desde 1665.

     

  • Pensando Negócios, Parte I

    Pensando Negócios, Parte I

    Esta série retoma um tema e propõe uma releitura de diversos conceitos apresentados anteriormente neste {finito}. Digamos que seja uma série sobre Arquitetura de Negócios. Meu principal objetivo é apresentar uma maneira de ver, estudar, analisar e desenhar negócios. Enfim, de pensar sobre negócios. A série deve ter seis partes:

      1. Negócios vistos como sistemas complexos;
      2. A função-missão do sistema-negócio, objetivos e visão;
      3. A estrutura de um negócio, seus componentes e interdependências;
      4. O comportamento e os processos de negócios;
      5. Uma conversa sobre cultura e as cinco dimensões de um sistema sociocultural; e
      6. Inovação e redesenho de negócios.

    Contemplo ainda um apêndice com uma bibliografia comentada. Escrevi que a série deve ter seis partes porque o plano pode mudar. Sua participação pode sugerir rotas alternativas e maiores esclarecimentos. Conto com isso e desde já agradeço.

     

    Negócio = Sistema

    Todo negócio é um sistema. Um sistema classificado como complexo, assim como nosso corpo, um formigueiro e uma cidade. Um sistema é um conjunto de dois ou mais componentes interdependentes. Os componentes e suas inter-relações são a estrutura do sistema. Os componentes se relacionam de forma a realizar uma ou mais funções. A esta realização chamamos comportamento ou processo. Por fim, um sistema sempre tem, no mínimo, uma função (propósito ou missão).

    Em qualquer sistema, o todo é maior que a soma das partes. Nenhum componente de um negócio pode, por si só, realizar a missão (função). Pense em uma bicicleta, por exemplo. A roda ou o mecanismo com 300 marchas, se isolados, não podem levá-la(o) a lugar nenhum. Guia #1: Em um sistema, o todo é maior que a soma das partes.

    Entre o negócio e o formigueiro há um universo de diferenças. Por isso precisamos de uma classificação mais específica. Negócios são criações humanas. São sistemas socioculturais. Eles possuem cinco dimensões bastante específicas: Riqueza; Conhecimento; Valores; Poder e Beleza. Não se preocupe com elas agora.

    Outra diferença fundamental entre sistemas socioculturais e os demais sistemas está no que lhes dá liga. Guia #2: Os componentes de um negócio são interligados por informações.

    Como Nascem os Negócios

    Uma necessidade é percebida. Uma pessoa jurídica é criada com a intenção de sanar aquela carência. E, espera-se, com as competências necessárias para tal. A certidão de nascimento dessa pessoa exibe sua Razão Social, o motivo que levou aquela organização a ser fundada. É curioso como este termo, Razão Social, perdeu sentido¹. Está aqui a função do sistema que acaba de nascer, sua missão.

    Guia #3: É a função que dá forma e sentido para todos os outros componentes do sistema-negócio.
    Guia #4: Uma mudança na função resulta em mudanças drásticas de todo o sistema. Por isso é tão raro vermos empresas alterando seu propósito original.

    Quando um negócio nasce duas fronteiras são definidas. Aquela que delimita o próprio negócio e outra que restringe seu mercado (escopo, nicho ou ambiente transacional). O termo “fronteiras definidas” não é muito adequado. Porque essas fronteiras são abstratas, artificiais e dinâmicas. Um novo produto ou serviço, por exemplo, pode expandir consideravelmente um mercado. Assim como um novo concorrente ou uma nova tecnologia podem restringi-lo. De qualquer maneira, o sistema-negócio deve ser percebido como um componente (ou subsistema) de dois sistemas maiores, o mercado e a sociedade como um todo.

    Essa hierarquia existe em qualquer tipo de sistema. Ao tratar de negócios, ela nos permite observar um princípio básico: abertura. Negócios são sistemas abertos. E mantêm três tipos de relacionamentos. Dentro de seus próprios limites ele, o negócio, encontra as únicas variáveis passíveis de controle. É importante adiantar que vários componentes de um negócio (como departamentos e pessoas) também são sistemas e possuem propósitos. Muitos dos problemas que enfrentamos em empresas vêm das diferenças entre intenções. Por isso tanto se fala sobre alinhamento estratégico. Adianto isso para dizer que em um sistema-negócio o controle é sempre parcial. Mesmo em seu interior, existem variáveis que não podem ser controladas, apenas influenciadas. Na parte que tratará de estrutura, veremos com mais detalhes outra característica fundamental dos sistemas: a auto-organização.

    Aquilo que não pode ser controlado talvez possa ser influenciado. Um negócio exerce influência sobre componentes de sua própria estrutura e também de seu ambiente transacional (clientes, parceiros, concorrentes, agências reguladoras, governos etc). Essa influência pode ser exercida de diversas maneiras: plano de cargos e incentivos; ciclo de atualização de produtos; política de preços; ações de responsabilidade social; campanhas publicitárias etc. Se um negócio tem uma mínima relevância em determinado mercado, seu comportamento é percebido e reconfigura partes daquele ambiente – do sistema maior chamado mercado.

    Por fim, existe um terceiro nível de relação que limita o negócio à observação, à apreciação de eventos e tendências. Como o lançamento de uma nova tecnologia ou mudanças no marco regulatório, por exemplo. Eles partem de sistemas que estão além do círculo de influência de um negócio.

    As fronteiras delimitadas por um negócio são abstrações que devem ser frequentemente debatidas e revistas. Já cansou o chavão que diz “pense fora da caixa”. Mas o fato é que um negócio sinceramente preocupado com seu desenvolvimento constantemente questiona seus limites e a configuração de seu mercado. Se não fosse assim, a Apple nunca teria se tornado a maior vendedora de músicas do mundo. Guia #5: Tudo faz parte de um único sistema. Fronteiras são desenhadas apenas para atender o propósito de uma discussão.

    Personalidades dos Negócios

    Espera-se que todo sistema sociocultural, particularmente um negócio, mantenha um relacionamento ativo com seu ambiente transacional. Ou seja, que ele não apenas reaja ou responda às mudanças no contexto mas também crie e influencie. Um sistema ativo tem poder para escolher meios e fins. Por isso esperamos que ele seja inovador por natureza. Sabemos que não é bem assim e por isso temos uma escala de personalidades, uma classificação de sistemas-negócios derivada de seu comportamento² (de sua relação com o ambiente):

    • Passivo: não creio que exista um sistema-negócio realmente passivo. Não existe negócio 100% paradão, existe?
    • Reativo: limita-se à auto-manutenção (sobrevivência), reagindo e não aprendendo.
    • Responsivo: tem autonomia sobre os meios e acerca deles desenvolve conhecimento (aprende). Eficiência é uma palavra-chave aqui.
    • Ativo: tem autonomia sobre meios e fins. Por isso é criativo, inovador.

    O gerenciamento de fronteiras (parcialmente estudado em matérias como gestão da cadeia de valor, gestão de clientes, de parcerias etc) é crítico para qualquer negócio. Porque em qualquer sistema a complexidade reside nas interfaces, nas inter-relações entre componentes, e não nos componentes isolados. Guia #6: As fontes primárias de valor e de complexidade de um sistema residem em suas interfaces.

    Confirmando ou contradizendo sua personalidade como percebida pelo mercado, um negócio coloca sua Proposta de Valor. É sua função principal, destilada e apresentada de forma a exercer influência eficaz sobre o mercado. Este será o tema da próxima parte. Inté!

     

    Notas

    1. Mais curioso é o fato de algumas empresas contratarem consultores para ajudá-las a definir algo (missão) que deveria justificar sua própria existência. Coisa de louco ou de negócio com séria crise existencial. Na próxima parte veremos um pouco mais sobre missão, visão e as diferenças (enormes) entre elas.
    2. Como a classificação de personalidades pode ser aplicada a qualquer tipo de sistema, faça um exercício: como se encaixa ali sua equipe de projetos? E seu departamento? Eles são reativos, responsivos ou ativos? E você, em relação à equipe, ao departamento e ao negócio como um todo? Repare como fronteiras de sistemas maiores podem significar liberdade ou camisas de força. Se quiser, compartilhe seus achados (ou perdidos) aqui. Com certeza enriquecerá o papo.
    3. Por desacoplada que pareça, esta série é sim uma (con)sequência dos últimos artigos.

     

  • O País do Jeitinho não Inova

    O País do Jeitinho não Inova

    Lá nos primórdios do Twitter eu escrevi: Chega com esse papo de povo criativo. Somos uma nação de MacGyvers que inventa gambiarras para sobreviver. Criatividade é outra coisa. De lá pra cá, um ou outro exemplo tentou contradizer meu tuíte. Mas foram poucos, raros e ralos. Na última quarta a Folha quase escondeu a notícia que mostra como Pindorama perdeu 32 posições no ranking que mede eficiência em inovação. O Brasil agora é o 39º colocado. China e Índia lideram a lista. Na nossa frente: Paraguai (6º), Estônia (8º) e Sri Lanka (10º), só para citar alguns exemplos. No índice geral, entre 141 países, ocupamos agora o 58º lugar. Perdemos no jeitinho, perdemos no futebol¹. O que deve preocupar é que podemos estar perdendo o futuro.

    O estudo resumido pela Folha, o Global Innovation Index, é elaborado anualmente pelo Insead (instituto europeu de ensino) e pela WIPO (Organização Mundial de Propriedade Intelectual). O índice leva em conta sete critérios:

    • Instituição: Ambientes político, regulatório e de negócios;
    • Capital humano e pesquisa: Nível da educação, ensino superior e pesquisa e desenvolvimento;
    • Infraestrutura: Tecnologias da informação e de comunicações, infraestrutura geral e sustentabilidade ecológica;
    • Sofisticação de mercado: Crédito, investimento, transações e competição;
    • Sofisticação dos negócios: Trabalhadores do conhecimento, conexões inovadoras e absorção de conhecimento;
    • Conhecimento e tecnologia: Criação, impacto e difusão de conhecimento; e
    • Criatividade: Intangíveis (marcas e modelos de negócio), bens e serviços e criatividade on-line.

    Nossa mídia endireitada e viciada, se preocupada com o tema, apontaria o dedão para o governo. A Folha, por exemplo, ao exibir o critério Infraestrutura cita “custo de energia”. Não é isso que é medido no estudo e sim a geração e consumo de energia per capita. No mesmo critério ela ignora o subitem “sustentabilidade ecológica”. Por essas e outras ela nem se preocupou em divulgar o link para acesso (gratuito) ao estudo: globalinnovationindex.org

    É claro que o governo tem uma parcela de responsabilidade quando o assunto é inovação. Mas, a menos que estejamos em um lugar estranho como a Coréia do Norte, inovação é coisa da iniciativa privada. São as empresas as principais fontes de inovação. Simplesmente porque são ou deveriam ser as maiores interessadas. Não por acaso, os quatro últimos critérios da lista acima apontam exclusivamente para o mercado e os negócios.

    Inovação está no discurso de todo mundo, até de empreendimentos de fundo de quintal. É chique – está na moda falar sobre inovação. Mas olha que coisa curiosa eu descobri no Google Trends. Pensei em um bom contraponto para Inovação (linha azul no gráfico ao lado). Tentei estabilidade. Para minha surpresa, ela é tão ou mais relevante que inovação nas buscas e notícias indexadas pelo Google. Veja a pesquisa original e repare, por exemplo, nas diferenças entre minha conservadora Minas Gerais e o inovador Rio Grande do Sul. Ou compare Caxias do Sul com Manaus. Dá o que pensar.

    Berço

    É lugar comum apontar para nosso sistema de ensino e dizer, está ali a origem de nossos problemas (independente de quais sejam). Isso é fácil. Como é fácil sugerir soluções simplistas do tipo “queremos uma lei que obrigue os governos a investir 10% do PIB na educação”. Se o problema fosse (só) a falta de grana, ficaríamos bonitos no pedaço em curtíssimo prazo. O buraco, incomensurável, é mais embaixo.

    Vimos nos últimos dias alguns estudantes revoltados com a greve nas Universidades federais. Oito em cada dez entrevistados estavam preocupados com a liberação dos documentos necessários para efetivação em cargos que eles conseguiram em concursos públicos. Não é curioso que grande parcela da mesma classe que reclama do estado glutão planeje para si e seus filhos uma vida estável em trincheiras do governo? Não discuto vocações. Mas também não engulo contradições e hipocrisia.

    Uma frase pinçada do ótimo A Rede Social, de David Fincher, ilustra bem o outro extremo, uma possibilidade raramente ensinada e motivada em terras tupiniquins: “Estudantes de Harvard acreditam que inventar um trabalho é melhor que encontrar um trabalho“. Não vejo uma única instituição brasileira gerando esse tipo de efeito colateral. Se pouco e mal semeamos, não são as secas e chuvas as culpadas por colheitas tão ruins.

    Contatos recentes com Universidades daqui de minha terra me deram exemplos da cultura da estabilidade. Unidades de TI, inclusive uma encubadora de negócios, envolvidas com a obtenção de certificados MPS.br. Nada mais anti-inovação – nada pode ser mais quadrado. Inovação pede, entre outras coisas, instabilidade, diversidade e inconformismo. Infelizmente, não parece ser o que nossas escolas estão fomentando. Apesar de 48% dos estudantes, segundo pesquisa da Endeavor publicada no início deste ano, pensarem em ser empreendedores.

    Creche

    Quantas vezes ouvimos empresários ou seus representantes reclamando da falta de mão de obra qualificada no Brasil? Quantos desses chorões investem seriamente em capacitação? E quanto eles investem? Respectivamente: n vezes; 52%²; nem Google sabe.

    Empresas sinceramente preocupadas com seu futuro não devem aguardar por mudanças no sistema de ensino. Porque, se elas acontecerem, terão reflexo apenas em médio ou longo prazos. Existe o atalho da importação de mão de obra especializada. Mas é ingênuo quem acredita que possa importar 800k, 200k ou mesmo 100k³ trabalhadores do conhecimento. Vão esperar cair do céu?

    O Global Innovation Index mostra outro número que deveria nos (des)orientar. Entre todos os nossos empregos, apenas 19,3% correspondem a “vagas que exigem conhecimento intensivo” (menos da metade da média européia). Isso nos coloca na 72ª posição do ranking global. Temos tão pouco “trabalho do conhecimento” e ainda assim não somos capazes de formar o pessoal necessário? É Ultraje, continuamos inútil!

    Apenas 40% dos nossos esforços em Pesquisa & Desenvolvimento são tocados pela iniciativa privada. Ela financia quase 44% dessas iniciativas torrando uma esmola de aproximadamente R$ 22 bilhões. Sim, esmola. As 500 maiores empresas tupiniquins, segundo a Exame Melhores e Maiores de 2011, faturaram R$ 2,6 trilhões em 2010. Zero vírgula oitenta e cinco porcento de qualquer coisa é esmola.  E o que aconteceria se tirássemos da conta Petrobras e Embraer?

    Futuro

    A única conclusão possível é que o país do futuro não se preocupa com o próprio futuro. No berço – nas escolas – não é ensinado a inovar e empreender. Na creche – nas empresas – não é motivado a criar. Adulto imaturo, vive de trocar o finito patrimônio por serviços, royalties e bugigangas de qualidade questionável. Insustentável sob qualquer ponto de vista.

    Futuro – Final Alternativo

    Sistemas, nações, organizações, governos, mercados e empresas são abstrações que, entre outras coisas, não têm peso na consciência nem sabem o que é remorso, arrependimento. O quanto você, eu e a Dona Carochinha estamos inovando? Quanto estamos investindo em aprendizagem, pesquisa e desenvolvimento? Como recebemos e incentivamos novas ideias?

     

    Notas

    1. Claro que não me referi ao vitorioso Timão. Em outro ranking – o da FIFA, que mereceu mais destaque na mídia que o da inovação, a seleção canarinho aparece em 11º lugar! Há tempos não somos o país do futebol. E a mentira do jeitinho brasileiro cai pelas tabelas. Ainda bem que ainda somos os maiores vendedores de cerveja do mundo, né? De cerveja, chinelinhos e de um ou outro avião (em sentidos literal e figurado). Não por acaso figuramos no antepenúltimo lugar no critério “Exportação de Bens e Serviços”.
    2. Segundo o mesmo Global Innovation Index.
    3. Estes foram os números que, de pouco mais de um ano para cá, empresários gritaram e a mídia ecoou sem verificar (para variar). Tratariam exclusivamente do tamanho do rombo (vagas abertas e não preenchidas) no mercado TIC. Quando falaram em 800 mil vagas eu chorei: o país do samba passará a ser conhecido como a nação do telemarketing sem noção.
    4. Não me esqueci da provocação que deixei no artigo anterior. As respostas ainda aparecerão nesta pequena série mal acoplada.
    5. A foto do fantástico MacGyver Bar – que não fica em Pindorama nem vende cervejas da Ambev – foi tirada por Galdo Trouchky e disponibilizada via Flickr.

     

  • Tendências

    Tendências

    A mais nova moda é antever modas. É o que diz Gabriel Louback no artigo Nostradamus 2.0 (publicado na edição de junho da Revista da Cultura). Se fôssemos um pouco mais atentos, teríamos percebido a tendência bem antes. Em Reconhecimento de Padrões (Aleph, 2004), por exemplo, William Gibson apresenta uma protagonista que é coolhunter – uma caçadora de tendências. Aliás, Gibson e outros grandes da ficção científica¹ estão entre os melhores antecipadores de tendências que conheço. Será porque eles pavimentam e indicam caminhos? Somos orientados por profecias?

    Fábio Gandour, da IBM, afirma que sim: “Tendências não acontecem espontaneamente, são criadas! E, normalmente, você caminha, sem perceber, na direção que pretenderam. Quem não acredita nisso é ingênuo ou tolo“. É disso que trata, enfim, todo o blablablá sobre inovação. Antever uma rota e rogar para que os fregueses sigam, como os ratinhos da fábula, os novos flautistas de Hamelin. Há ciência nessa ficção? Ou é tudo chute?

    Acho que sempre teremos uma combinação das duas coisas, de ciência e intuição. Diferente agora é a ênfase no aspecto intencional (racional) da projeção de tendências. Em O Futuro como um Bom Negócio (Campus, 2011), Daniel Burrus e John Mann oferecem boas provocações². Os autores sugerem a classificação de tendências entre fortes e fracas e que o novo desenho – seja de um negócio, produto ou serviço – as tenha como base. Tratando só de tecnologia, por exemplo, temos três tendências fortíssimas que estão conosco desde o início dos tempos (nossos tempos). Todas relacionadas com o aumento exponencial de : i) Poder de processamento; ii) Capacidade de armazenamento; e iii) Largura de banda. Delas derivaram vertentes do avanço tecnológico, como a virtualização, mobilidade, interatividade e convergência, dentre outras.

    Mas será um grave erro a projeção de tendências que tome por base apenas os avanços tecnológicos. Peter Drucker, em Desafios Gerenciais para o Século XXI (Pioneira, 1999), fala sobre as “questões quentes de amanhã”. Seu escopo de análise é consideravelmente maior. Trata desde a globalização e o avanço de nações emergentes até a mudança no perfil de TI (do T para o I), passando pelo envelhecimento da população mundial e pela necessidade de um novo tipo de gestão e liderança. Drucker sempre foi um observador privilegiado. Por isso a precisão de suas previsões não surpreende.

    Acho que eu poderia listar mais uma dezena de obras seminais sobre o amanhã. Não destacar A Vida Digital (Cia. das Letras, 1995), de Nicholas Negroponte, por exemplo, é quase um pecado. Mas ele, de certa forma, é profecia já realizada. Deve interessar, assim como os livros do Drucker, para que possamos aprender a antever. E é este o ponto. Aliás, é esta a tendência.

    E o que nos ensina a antever? Há uma disciplina ou corpo de conhecimentos que ajude pessoas e organizações a antever e desenhar seu futuro?

     

    Notas

    1. A lista dos grandes escritores de ficção científica é imensa. Perdemos, no início deste mês, um dos maiores: Ray Bradbury. Poderia listar Julio Verne, Isaac Asimov e outros tantos. Me limitarei a destacar meu favorito, o maior porra-loca de todos: Philip K. Dick. Quem se limita a conhecê-lo através dos filmes inspirados por suas obras (Blade Runner, O Pagamento, O Vingador do Futuro etc) não faz ideia do que está perdendo.
    2. Por razões óbvias, há uma provocação que mais me chamou a atenção. Diz mais ou menos assim: Agilidade é coisa da década ou do século passado. Hoje ela não basta. E pode até ser nociva. Hoje precisamos antever e evitar o desperdício de tempo e dinheiro. Mais que isso, precisamos fazer a próxima curva na frente da concorrência.
    3. Não deixarei aquelas duas últimas questões sem respostas. Aguardarei seus palpites e um pouco mais de inspiração.
    4. Crystal Ball, a fotografia que ilustra este artigo, é de Steve Weaver.

     

  • Calculando a Dolorosa – Um Pequeno Guia para a Formação de Preços

    Calculando a Dolorosa – Um Pequeno Guia para a Formação de Preços

    Hoje em dia sabemos o preço de tudo e o valor de nada“. Esta frase famosa é atribuída a Oscar Wilde, escritor irlandês que viveu entre 1854 e 1900. Em outro mundo, outros tempos. Mas a frase, com milhares de aparições no Google, parece atual. Seja como álibi, desculpa ou provocação. Se você é um trabalhador do conhecimento – se faz do que carrega na cuca uma profissão – permita-se um minuto de reflexão sobre ela. Como você define seu preço – seja ele um salário ou honorário por serviços prestados? Ele define de fato o valor que você acredita representar/entregar? Ou apenas se acomoda em uma faixa definida pelo mercado?

    O tema parece cercado de um certo tabu. Fui puxado para ele depois de assistir a um vídeo de um famoso “guru” da tecnologia tupiniquim¹. Ele iniciou a conversa dizendo que esse negócio de cobrar por hora não faz mais sentido. Não na Economia do Conhecimento. Certo! O problema é que no resto do papo (um número de palavras que começa pela mesma letra) não tocou mais no assunto. E aí, se não por horas, vou cobrar como?

    Nunca gostei da unidade “homem/hora” ou “hora técnica” (sic) porque ela é furada como um queijo suíço. Serve para trabalhos braçais e repetitivos. Mas não tem nada a ver com o trabalho criativo ou do conhecimento. Por dois motivos principais:

    • Uma excelente ideia de solução pode aparecer em uma fração de segundos. Ela vale uma fração de seu valor-hora?
    • Todo esforço caminha no sentido daquilo que está sendo medido“. Esta frase de Tom DeMarco deveria ser chamada de lei. Se o cliente ou empregador mede (pede) horas, horas ele vai receber. Porque corpo presente não é evidência de mente presente.

    Mas o que fazer se, apesar de todos os argumentos, o mercado ainda compra (e vende) horas? Eu insisto – teimo mesmo – em cobrar por serviço. Foram raras as vezes em que um cliente topou. O que me obriga a sempre ter na manga um taxímetro. Conta fácil, que só exige uma estimativa um pouquinho mais pensada sobre uma das seis dimensões que me ajudam a formar o preço de determinado serviço. Mostrarei abaixo o esquema que muito me ajuda. Na expectativa que ele lhe seja útil também, seja na hora de negociar um salário ou o valor de seus serviços.

    Preço é Estratégia

    Com certeza não é sua única arma estratégica, mas o preço sintetiza toda a sua estratégia. Como já escreveu Gerald Weinberg², “a determinação de preços tem muitas funções e a permuta de dinheiro é apenas uma delas“.  Através do preço você:

    • Define seu mercado;
    • Se diferencia da concorrência;
    • Atrai (ou repele) determinados clientes (ou empregadores); e
    • Delimita seus custos.

    Pense nisso: de certa maneira, seu preço diz quem você é! Por isso é tão importante dedicar um tempinho toda vez que um preço precisa ser definido.

    O ponto de partida não tem mistério nenhum. Você precisa de uma estimativa de custos e de uma margem de lucro. Ou de um valor médio de mercado. Você escolhe se ele representará um preço mensal, o valor total de um serviço ou a fatídica “hora técnica”. Este será seu preço base, aquele que aparece no centro do diagrama ao lado.

    O diagrama exibe as dimensões ou fatores de ponderação que mais considero quando vou precificar um serviço. São seis dimensões de três tipos diferentes. Perfil do Freguês e Duração e Frequência podem funcionar como inflacionadores ou redutores do preço (+/-). A primeira indica apenas o quão atraente ou repugnante é aquele cliente. Ele é um mala ou um amor de pessoa? O histórico (vivido ou pesquisado) do cliente o fará aumentar ou reduzir o preço final.

    A dimensão Duração o ajudará a contrabalancear os efeitos do perfil do freguês. Por exemplo: o cliente é muito chato, mas é um trabalho de curtíssima duração. Ou seja, “dá para aguentar sem a necessidade de furar seus olhos“.

    Mas esta dimensão tem seu peso próprio. Até que ponto é desejável que aquele serviço ocupe sua agenda por um longo período? É a sua necessidade de uma certa estabilidade que o fará utilizar esta dimensão como um fator de inflação ou deflação de seu preço.

    As duas dimensões do lado direito do diagrama, Criticidade e Complexidade, funcionam apenas como itens inflacionários. A Criticidade indica o quão valioso (e provavelmente urgente) é aquele serviço para o cliente. Quase sempre há uma relação direta entre valor, urgência e… Risco! Por isso esta dimensão representa acréscimos ao preço base.

    Assim como a Complexidade, uma dimensão que lhe permite avaliar o quanto de seu cérebro será exigido na realização daquele trabalho. Não faz sentido, por exemplo, que você tenha um mesmo preço quando ministra um treinamento corriqueiro e quando faz uma consultoria daquelas bem cabeludas. Se lhe falta uma mínima noção sobre o tamanho da encrenca, aumente o fator complexidade. Se o cliente não consegue explicar a própria dor, idem. Normalmente isso é sintoma de um problema maior em estado de espera por uma luz – a sua luz!

    As duas últimas dimensões funcionam como lembretes de que alguns fatores podem justificar uma redução do preço. A Oportunidade de Aprendizado é contraponto da complexidade. Acontece mais ou menos assim: “ok, o trampo é deveras difícil. Por outro lado, tenho a oportunidade de aprender a lidar com a tecnologia X e com o método Y”. Pronto, já tens uma boa desculpa para, antes mesmo de o cliente pedir, ceder um generoso desconto. Faz bem para a relação que o cliente seja comunicado de suas intenções (de aprendizado). Weinberg² de novo: “o preço não é uma coisa; é um relacionamento negociado.

    Por fim temos o Posicionamento, a contribuição daquele cliente ou serviço para sua colocação no mercado. Se prestar serviços para determinada organização enriquecerá seu currículo ou portfólio, talvez você ache justo cobrar um pouco menos. Se a execução de um dado serviço o ajudará a se diferenciar, talvez ele valha o investimento – e é assim que você veria o desconto concedido, como um investimento.

    Matemática

    O modelo “matemático” acima tem muito pouco de matemática. Sua aplicação depende, como vimos, de alguma intuição e muito tato. Depende também de boas informações sobre o cliente (ou empregador) e sobre o serviço a ser executado. Como foi colocado, as dimensões devem ser vistas como lembretes. E é claro que eu espero que você tenha os seus.

    Ao ponderar o que tem valor para você, o preço aparece naturalmente. Se é verdade que hoje ninguém sabe o valor de nada, prove através do preço que o seu valor você conhece bem. E que sua dolorosa é justa.

     

    Notas

    1. Outra coisa que invejo em Gerald Weinberg, além da qualidade de seus escritos e de sua imensa produtividade, é sua não parcimônia ao detonar trabalhos alheios. Nada de jogo sujo ou briga de egos ou por espaço. Em seus livros ele cita artigos que não gostou, dá nome aos bois, mostra o que não gostou e apresenta seu lado. Sei lá o motivo, mas aqui em Pindorama a gente vive pisando em cascas de ovo. Apesar de alguns bois implorarem para ter seus nomes berrados.
    2. Trechos surrupiados de um livro que, caso dependesse do título, não mereceria a leitura. Estou falando de “Consultoria – O Segredo do Sucesso”, trabalho do Weinberg publicado pela McGraw-Hill em 1990. O título original era apenas The Secrets of Consulting. Mas as editoras tupiniquins morrem de inveja das distribuidoras que traduzem nomes de filmes.
    3. A imagem que ilustra este artigo é do sr. mzocoxito.

     

  • Nossos Bugs

    Nossos Bugs

    Foi Dan Roam, através de The Back of the Napkin (Portfolio, 2008), o primeiro a me empurrar para as ciências que estudam nossa mente. Parte do método que ele apresenta é baseado na forma como operam neurônios velhos de guerra – o cérebro primitivo. Hélio Schwartsman, que substituiu Clóvis Rossi na página A2 da Folha de São Paulo, vira e mexe apela para a neurociência na esperança de explicar histórias do nosso dia a dia. No caderno Ilustríssima do último domingo, Schwartsman comentou três novos livros da área no artigo “A Força do Hábito”. Vou aproveitar a deixa para apresentar outro livro e jogar conversa fora.

    Neurociência no {finito}?! Perdeste a cabeça? Ainda não, mas eu chego lá. Meus estudos para os novos módulos de treinamento me levaram para outros campos, psicologia e antropologia, por exemplo. Por enquanto é coisa de curioso que tenta filtrar o essencial e torná-lo prático, útil¹. Mas essas áreas que lidam com nossas cucas, ao contrário do que eu supunha, são bastante atraentes. E sabe-se lá para onde vão me levar.

    Das novas ciências, não são muitas as que, apesar dos avanços das últimas décadas, apresentam um horizonte imenso, praticamente infinito. É o caso da neurociência (ou neurociências?). Nosso cérebro ainda apresenta muitos mistérios. Os poucos que desvendamos causam espanto e abrem um novo mundo de possibilidades. Por exemplo, criamos uma economia comportamental; ou pretendemos fazer com que uma pessoa paraplégica possa dar o pontapé inicial na abertura da próxima Copa do Mundo². Aprendemos como nossa mente é maravilhosa em sua complexidade. Mas também estamos descobrindo a imensa quantidade de bugs que carregamos em nossas cacholas.

    O Cérebro Imperfeito

    Este é o título do livro recém lançado por Dean Buonomano (Campus, 2012), norte americano que se formou na Unicamp e concluiu seu pós-doutorado na Universidade da Califórnia. Buonomano consegue explicar para leigos as maiores descobertas sobre o hardware e o software do cérebro humano. Sim, ele usa e abusa de analogias com computadores e sistemas operacionais para apresentar o funcionamento e as limitações de nosso cérebro.

    Uma coisa fundamental a se entender, aquela que talvez seja a principal causa de todos os nossos bugs, é que nosso cérebro foi moldado para outra época. Ricardo Semler, em Managing Without Managers³ (Harvard Business Review, set-out/1989), já havia resumido bem a questão:

    “Na Semco, procuramos respeitar o caçador que dominou os primeiros 99% da história de nossas espécies. Se você tivesse de matar um mamute ou ficar sem jantar, não teria tempo para traçar um organograma, designar tarefas ou delegar autoridade…”

    Cabe aqui um mea culpa, uma confissão de ignorância mesmo. Eu vivia dizendo ou escrevendo que nosso imediatismo – a urgência exagerada – era um mal dos tempos modernos. Que nada. Passamos milhares e milhares de anos preocupados quase que exclusivamente com a próxima refeição. Como coloca Schwartsman no artigo citado anteriormente, “nossas mentes foram criadas para operar no paleolítico, não em sociedades tecnológicas e plurais”. Não somos naturalmente íntimos dos planos e do ato de planejar. E quase sempre optamos pelo pássaro na mão (recompensas imediatas) em detrimento de dois voando (ganhos futuros). Esse bug explica muita coisa. O velho ditado dos pássaros também.

    Ao observar a história da evolução do cérebro percebemos como é relativamente recente o nosso mecanismo racional. Bem mais antigo que ele é aquele que rege as emoções. Essa separação – razão X emoção – que também é física, já nos foi apresentada de outras maneiras. É recorrente, por exemplo, falar sobre cérebro esquerdo X direito. Parece que esse papo de esquerda versus direita também fica embaçado em temas neurobiológicos. O fato é que existe uma divisão e Buonomano reflete que:

    “Em última análise, nossas ações parecem representar um projeto em grupo; elas resultam de negociações entre as áreas cerebrais mais antigas, como a amígdala, e os módulos frontais mais novos. Juntas, essas áreas podem chegar a algum consenso em relação ao compromisso apropriado entre emoções e razão. No entanto, esse equilíbrio depende do contexto e, em alguns momentos, pode se inclinar bastante na direção das  emoções.”

    Derivam dessa herança pré-histórica os bugs que mais nos afetam, seja em nível pessoal ou na vida em organizações. Nosso cérebro detesta incertezas e a falta de controle, por exemplo. Esses sentimentos têm origem na parte primitiva de nossa mente, de um sentimento maior que, de certa forma, deve ser festejado por nos ter trazido até aqui: o medo. Mas, se por um lado ele nos garantiu a sobrevivência, por outro parece estar na raiz de todos os nossos problemas.

    Outro bug notável é a exagerada confiança que depositamos em nossa memória. Buonomano nos mostra que, ao contrário dos hard disks e pen drives, nossa memória não armazena partes exatas de informação e nem as mantém estáticas. Porque, ao contrário daqueles dispositivos de armazenamento, nossas operações de gravação e leitura de informações não são diferentes e se afetam mutuamente. Toda vez que nos lembramos de alguma coisa alteramos componentes daquela lembrança, adicionando ou removendo links, criando novas relações em nosso imenso banco de dados.

    Dia desses, em um boteco aqui de Varginha, rolou uma brincadeira que ilustra bem o tipo de armadilha que nossa memória costuma montar. Sandro, o dono do bar, virou para uma turma e perguntou: “Entrou um cego aqui no bar. Como ele pediu uma cerveja?” Não foram poucos os que tentaram fazer uma mímica, para gargalhada dos demais. Caramba, o cara era cego, não mudo! Buonomano faz brincadeira semelhante ao perguntar: o que uma vaca bebe? É grande a possibilidade de você ter pensado “leite”. Porque “vaca” e “leite” estão associados em nossa mente.

    Com histórias assim, de nosso cotidiano, o autor ilustra os diversos bugs que comprometem o funcionamento de nosso mais sofisticado órgão. E encerra, como não poderia deixar de ser, com um capítulo que mostra como podemos tentar corrigir alguns deles. Livro provocante e bem escrito, contraponto necessário e robusto aos papos motivacionais e livros de auto-ajuda.

    Testando a Cuca

    Saca só a  imagem abaixo, surrupiada de O Cérebro Imperfeito:

    O que você está vendo? Parece que a Torre de Pisa da direita está mais inclinada, né? Mas saiba que são reproduções da mesma imagem. Seu bugado cérebro não vai aceitar, mas são.

     

    Notas

    1. O que fazer quando uma disciplina ou corpo de conhecimentos não tem respostas para todas as suas perguntas? Você procura em outro lugar, certo? Vem daí minha principal motivação para dar uma olhada em outras caixas, outras prateleiras. Convenhamos, várias separações não fazem o menor sentido. Não mais.
    2. O projeto em questão é do mais famoso neurocientista brasileiro, Miguel Nicolelis, autor de Muito Além do Nosso Eu (Cia. das Letras, 2011).
    3. Este artigo pode ser encontrado em Management Não É o Que Você Pensa, coletânea de artigos e provocações organizada por Henry Mintzberg, Bruce Ahlstrand e Joseph Lampel (Bookman, 2011).
    4. Veja outros testes (demos) no site oficial do livro, brainbugs.org.
    5. A imagem que ilustra este artigo é de Robert Fludd , obtida via Wikimedia Commons.