Categoria: Biblioteca

Dicas de livros e outras referências.

  • Nossos Bugs

    Nossos Bugs

    Foi Dan Roam, através de The Back of the Napkin (Portfolio, 2008), o primeiro a me empurrar para as ciências que estudam nossa mente. Parte do método que ele apresenta é baseado na forma como operam neurônios velhos de guerra – o cérebro primitivo. Hélio Schwartsman, que substituiu Clóvis Rossi na página A2 da Folha de São Paulo, vira e mexe apela para a neurociência na esperança de explicar histórias do nosso dia a dia. No caderno Ilustríssima do último domingo, Schwartsman comentou três novos livros da área no artigo “A Força do Hábito”. Vou aproveitar a deixa para apresentar outro livro e jogar conversa fora.

    Neurociência no {finito}?! Perdeste a cabeça? Ainda não, mas eu chego lá. Meus estudos para os novos módulos de treinamento me levaram para outros campos, psicologia e antropologia, por exemplo. Por enquanto é coisa de curioso que tenta filtrar o essencial e torná-lo prático, útil¹. Mas essas áreas que lidam com nossas cucas, ao contrário do que eu supunha, são bastante atraentes. E sabe-se lá para onde vão me levar.

    Das novas ciências, não são muitas as que, apesar dos avanços das últimas décadas, apresentam um horizonte imenso, praticamente infinito. É o caso da neurociência (ou neurociências?). Nosso cérebro ainda apresenta muitos mistérios. Os poucos que desvendamos causam espanto e abrem um novo mundo de possibilidades. Por exemplo, criamos uma economia comportamental; ou pretendemos fazer com que uma pessoa paraplégica possa dar o pontapé inicial na abertura da próxima Copa do Mundo². Aprendemos como nossa mente é maravilhosa em sua complexidade. Mas também estamos descobrindo a imensa quantidade de bugs que carregamos em nossas cacholas.

    O Cérebro Imperfeito

    Este é o título do livro recém lançado por Dean Buonomano (Campus, 2012), norte americano que se formou na Unicamp e concluiu seu pós-doutorado na Universidade da Califórnia. Buonomano consegue explicar para leigos as maiores descobertas sobre o hardware e o software do cérebro humano. Sim, ele usa e abusa de analogias com computadores e sistemas operacionais para apresentar o funcionamento e as limitações de nosso cérebro.

    Uma coisa fundamental a se entender, aquela que talvez seja a principal causa de todos os nossos bugs, é que nosso cérebro foi moldado para outra época. Ricardo Semler, em Managing Without Managers³ (Harvard Business Review, set-out/1989), já havia resumido bem a questão:

    “Na Semco, procuramos respeitar o caçador que dominou os primeiros 99% da história de nossas espécies. Se você tivesse de matar um mamute ou ficar sem jantar, não teria tempo para traçar um organograma, designar tarefas ou delegar autoridade…”

    Cabe aqui um mea culpa, uma confissão de ignorância mesmo. Eu vivia dizendo ou escrevendo que nosso imediatismo – a urgência exagerada – era um mal dos tempos modernos. Que nada. Passamos milhares e milhares de anos preocupados quase que exclusivamente com a próxima refeição. Como coloca Schwartsman no artigo citado anteriormente, “nossas mentes foram criadas para operar no paleolítico, não em sociedades tecnológicas e plurais”. Não somos naturalmente íntimos dos planos e do ato de planejar. E quase sempre optamos pelo pássaro na mão (recompensas imediatas) em detrimento de dois voando (ganhos futuros). Esse bug explica muita coisa. O velho ditado dos pássaros também.

    Ao observar a história da evolução do cérebro percebemos como é relativamente recente o nosso mecanismo racional. Bem mais antigo que ele é aquele que rege as emoções. Essa separação – razão X emoção – que também é física, já nos foi apresentada de outras maneiras. É recorrente, por exemplo, falar sobre cérebro esquerdo X direito. Parece que esse papo de esquerda versus direita também fica embaçado em temas neurobiológicos. O fato é que existe uma divisão e Buonomano reflete que:

    “Em última análise, nossas ações parecem representar um projeto em grupo; elas resultam de negociações entre as áreas cerebrais mais antigas, como a amígdala, e os módulos frontais mais novos. Juntas, essas áreas podem chegar a algum consenso em relação ao compromisso apropriado entre emoções e razão. No entanto, esse equilíbrio depende do contexto e, em alguns momentos, pode se inclinar bastante na direção das  emoções.”

    Derivam dessa herança pré-histórica os bugs que mais nos afetam, seja em nível pessoal ou na vida em organizações. Nosso cérebro detesta incertezas e a falta de controle, por exemplo. Esses sentimentos têm origem na parte primitiva de nossa mente, de um sentimento maior que, de certa forma, deve ser festejado por nos ter trazido até aqui: o medo. Mas, se por um lado ele nos garantiu a sobrevivência, por outro parece estar na raiz de todos os nossos problemas.

    Outro bug notável é a exagerada confiança que depositamos em nossa memória. Buonomano nos mostra que, ao contrário dos hard disks e pen drives, nossa memória não armazena partes exatas de informação e nem as mantém estáticas. Porque, ao contrário daqueles dispositivos de armazenamento, nossas operações de gravação e leitura de informações não são diferentes e se afetam mutuamente. Toda vez que nos lembramos de alguma coisa alteramos componentes daquela lembrança, adicionando ou removendo links, criando novas relações em nosso imenso banco de dados.

    Dia desses, em um boteco aqui de Varginha, rolou uma brincadeira que ilustra bem o tipo de armadilha que nossa memória costuma montar. Sandro, o dono do bar, virou para uma turma e perguntou: “Entrou um cego aqui no bar. Como ele pediu uma cerveja?” Não foram poucos os que tentaram fazer uma mímica, para gargalhada dos demais. Caramba, o cara era cego, não mudo! Buonomano faz brincadeira semelhante ao perguntar: o que uma vaca bebe? É grande a possibilidade de você ter pensado “leite”. Porque “vaca” e “leite” estão associados em nossa mente.

    Com histórias assim, de nosso cotidiano, o autor ilustra os diversos bugs que comprometem o funcionamento de nosso mais sofisticado órgão. E encerra, como não poderia deixar de ser, com um capítulo que mostra como podemos tentar corrigir alguns deles. Livro provocante e bem escrito, contraponto necessário e robusto aos papos motivacionais e livros de auto-ajuda.

    Testando a Cuca

    Saca só a  imagem abaixo, surrupiada de O Cérebro Imperfeito:

    O que você está vendo? Parece que a Torre de Pisa da direita está mais inclinada, né? Mas saiba que são reproduções da mesma imagem. Seu bugado cérebro não vai aceitar, mas são.

     

    Notas

    1. O que fazer quando uma disciplina ou corpo de conhecimentos não tem respostas para todas as suas perguntas? Você procura em outro lugar, certo? Vem daí minha principal motivação para dar uma olhada em outras caixas, outras prateleiras. Convenhamos, várias separações não fazem o menor sentido. Não mais.
    2. O projeto em questão é do mais famoso neurocientista brasileiro, Miguel Nicolelis, autor de Muito Além do Nosso Eu (Cia. das Letras, 2011).
    3. Este artigo pode ser encontrado em Management Não É o Que Você Pensa, coletânea de artigos e provocações organizada por Henry Mintzberg, Bruce Ahlstrand e Joseph Lampel (Bookman, 2011).
    4. Veja outros testes (demos) no site oficial do livro, brainbugs.org.
    5. A imagem que ilustra este artigo é de Robert Fludd , obtida via Wikimedia Commons.
  • Peopleware

    Peopleware

    Outro Clássico com “C” maiúsculo que há tempos pede entrada em nossa biblioteca. Escrito por Tom DeMarco e Timothy Lister, mereceu duas edições, ambas publicadas pela Dorset House. A primeira em 1987. A segunda, com oito capítulos adicionais, em 1999. Salvo engano, apenas a primeira mereceu uma versão em português do Brasil, pela Makron Books em 1990. Nem preciso dizer que encontra-se esgotada (mas disponível nos bons sebos da vida, por enquanto. A versão original em inglês sempre está disponível). É impressão minha ou naqueles tempos éramos melhor servidos por nossas editoras? Deixa pra lá, o tema aqui é outro.

    Se nosso mundo, particularmente as organizações de TI, tivesse evoluído nos últimos vinte e poucos anos, este livro estaria defasado. O reli para elaborar esta entrada. E fiquei assustado com sua atualidade. Mesmo o conteúdo original de 1987, suas críticas e sugestões, permanece inteiramente válido. Até quando a dupla de autores se mete a falar sobre a ausência de janelas e o aspecto opressor e barulhento de muitas salas que acomodam desenvolvedores.

    O livro é estruturado em seis partes: Gerenciando o Recurso Humano¹; O Ambiente do Escritório; As Pessoas Certas; Fomentando Equipes Produtivas; Deveria ser Divertido o Trabalho aqui; e Filho de Peopleware (que contém os oito novos capítulos). A escrita é simples, sem rodeios. Contundente em diversos momentos porque a mensagem é séria e os autores são sinceros. Como eles colocam no prefácio, Peopleware é uma coleção de histórias. “Cada princípio apresentado tem a sua história”. Boas histórias, oriundas de mais de 50 anos de experiência (somadas as de Tom e Timothy na época da publicação).

    Os autores dialogam com o Gerente. Mas o livro não é direcionado apenas para eles. Todos que trabalham com TI, particularmente os desenvolvedores, têm muito a aprender e, por que não, se divertir com o texto. Compilei abaixo alguns dos diversos melhores momentos (traduzidos livremente da segunda edição) só para deixá-la(o) curiosa(o):

    Se você se achar concentrado nas questões tecnológicas ao invés das sociológicas, você estará agindo como aquele personagem de vaudeville, que perde a chave em uma rua escura mas opta por procurá-la na via adjacente porque, como ele explica, “a luz é melhor aqui”.

    A principal razão pela qual nos concentramos nas questões tecnológicas ao invés das humanas é porque elas são mais fáceis.

    Nosso negócio é muito mais sociológico do que tecnológico, é mais dependente de nossas habilidades para conversar com outras pessoas do que das habilidades para conversar com máquinas.

    Um ambiente que não tolera erros torna as pessoas mais defensivas.

    Muitos gerentes agem como se as pessoas fossem peças intercambiáveis. Agem como se existisse uma mágica Loja de Pessoas onde eles podem ordenar: “Me mandem um novo Mark Zuckerberg, menos arrogante desta vez, por favor!”
    N.T. Mark só tinha três aninhos quando essas linhas foram escritas. Claro que não é ele o citado na obra original. Mas não é que inventaram mesmo as mágicas Lojas de Pessoas? Teve gente que ficou milionária com isso, mesmo sem nunca contar com Zuckerbergs, Torvalds e Goslings em seus estoques. 

    Estatísticas sobre leitura² são particularmente desencorajadoras: desenvolvedores, por exemplo, não possuem um único livro da área e nunca leram um. Fato horripilante para qualquer pessoa preocupada com a qualidade do trabalho neste campo; para caras que, como nós, escrevem livros, é trágico.

    Produtividade deve ser definida como o Benefício dividido pelo Custo.³

    Um centavo poupado no ambiente de trabalho é centavo ganho, diz a lógica. Aqueles que cometem tal julgamento são culpados por fazerem uma análise custo/benefício sem se beneficiar de um estudo do Benefício.
    N.T. Mantive o jogo original com a palavra benefício. Não deixe de ler a nota 3 abaixo.

    Pessoas sob pressão não trabalham melhor; elas apenas trabalham mais rápido.

    A qualidade, muito além daquela requerida pelo usuário final, é um meio para a alta produtividade.
    N.T. Neste trecho os autores também mostram a relação direta entre qualidade e autoestima. Ninguém se motiva com software escrito nas cochas.

    Qualidade é grátis, mas apenas para aqueles dispostos a pagar muito por ela.

    Em um ambiente de trabalho saudável, as razões pelas quais as pessoas não performam são falta de competência, falta de confiança ou falta de afinidade com os outros membros do time e com os objetivos do projeto. Elas não precisam de mais pressão para trabalhar. Precisam de uma nova posição, possivelmente em outra empresa.

    A função do gerente não é fazer as pessoas trabalhar, mas sim tornar possível que elas trabalhem.

    Existem milhões de maneiras de perder um dia de trabalho. E nenhuma para trazê-lo de volta.

    Se sua empresa tem uma planilha para controle de horas trabalhadas, é possível que ela aponte o tempo de corpo presente, não de cérebro presente.
    N.T. Então a dupla se preocupava muito com poluição sonora e telefones. Mal sabiam que a situação se degradaria a níveis impressionantes depois dos IM’s, redes sociais, smartphones e afins. A multitarefa é um mito que custa caro aos índices de produtividade de um desenvolvedor. Mas, definitivamente, tão ou mais equivocadas estão aquelas organizações que proíbem o uso das facilidades da vida moderna. 

    Se sua empresa anda muito preocupada com um padrão formal de vestimenta, brocotó. Sinal de que ela está nos estágios finais da morte cerebral. Não há remédio. Procure outro emprego.

    A supervisão visual é uma piada para desenvolvedores. Supervisão visual é para prisioneiros.

    Pessoas que escrevem metodologias são espertas. Aquelas que as seguem podem ser idiotas. Elas não precisam ligar seus cérebros. Basta que comecem da página um e sigam pela Yellow Brick Road, como obedientes macaquinhos, até o final do projeto. A metodologia toma todas as decisões. As pessoas, nenhuma.

    Documentação volumosa é parte do problema, não da solução.
    N.T. Os autores citam, em outro trecho, pesquisa que mostra que 30% do trabalho de desenvolvimento é “papelório”, burocracia. Quanto os números mudaram nos últimos 20 anos?

    Acreditar que os trabalhadores irão aceitar os objetivos corporativos de forma automática é sinal de ingênuo otimismo dos gerentes.

    Você não pode se proteger da incompetência de seu pessoal. Se eles não estão a altura do trabalho a ser executado, você falhará.
    N.T. Na tradução rápida encerrei com “você falhou”. Afinal, você os contratou. Mas mantive o tempo do verbo original, menos pessimista.

    O cara gastou R$150 em um pôster bonitão onde se lê: “Qualidade é nosso trabalho número 1!”. Ah, tá falando sério? Caramba, juro que a gente pensava que era o trabalho número 21 ou 117 antes desse pôster ser pendurado ali na parede. Pensávamos que talvez estivesse entre “reduzir a cera dos ouvidos” e “fazer coleta seletiva do lixo” na escala de valores corporativos.

    Aqueles caras maravilhosos que nos brindaram com a Metodologia com “M” maiúsculo não ficaram parados. Sua última proposta, o Movimento para Melhoria de Processos, é nova, brilhante, melhor, esfuziante e muito mais ambiciosa… Desta vez, eles levaram o “tamanho único” ao extremo. Seu modelo não atenderá apenas sua empresa, mas o mundo todo.
    N.T. Pensou em CMMI, MPS.br e que tais? Não? Saca só:

    Se você é um CMM nível 2 ou superior, lembre-se: os projetos que mais valem a pena são aqueles que o moverão para baixo em sua escala de maturidade.

    Você nunca melhora se nunca muda.

    O aprendizado é limitado pela capacidade de uma organização em manter seu pessoal.

    Deve estar enterrada em algum lugar de nossa memória ancestral a noção de que o trabalho deve ser penoso. Se você sente prazer em algo, não deve ser trabalho. Deve ser pecado. E você não deveria estar recebendo por isso. Encontre outra coisa para fazer, algo que realmente se pareça com trabalho. Assim você poderá se sentir entediado, cansado e desiludido como todo mundo.

    Notas

    1.  Será que, se fosse escrito hoje, o livro ainda falaria de “Recursos Humanos”? Creio que sim, apesar da ditadura de uma escola neozenbudista que grita aos quatro ventos “não sou recurso” enquanto, no frio da teoria, segue sendo. Toda vez que é contratado para executar um trabalho.
    2. Dias atrás foi publicada uma pesquisa que diz que o brasileiro lê, em média, 4,1 livros por ano. Se tirarmos os livros escolares (obrigatórios?), o número cai para 1,1. Qual será a média de nossos desenvolvedores, analistas e gerentes?
    3. Já tem um tempinho que toco nesse assunto no {FAN}. Só não me lembrava que era inspirado pelo Peopleware. Costumo dizer que o termo “análise custo X benefício” (também apresentado assim: custo-benefício) carrega dois grandes equívocos. O primeiro é matemático. Faça as contas. Acho que faz mais sentido uma divisão, tendo o custo como denominador. Ah, não pretendiam que o termo funcionasse como uma operação? Então compute o terceiro erro. Porque o segundo é outro, de ordem psicológica. Colocando o benefício antes do custo sinalizamos que ele deve merecer mais atenção. A ordem usual (custo X benefício) soa mesquinha. E gera comportamentos mesquinhos. Como daquele cliente que pega sua bela proposta e vai direto para a última página conferir o preço e lamentar: “Isso tudo?”

     

  • Gerald M. Weinberg

    Gerald M. Weinberg

    Clássicos devem ser revisitados de tempos em tempos. Na literatura, música e cinema eles estão sempre à disposição, mesmo em um país desmemoriado e viciado em blockbusters e best-sellers como o nosso. É uma pena, mas o mesmo não pode ser dito sobre os trabalhos clássicos da área de TI.

    Um dos mais famosos, “O Mítico Homem-Mês“, de Fred Brooks (Campus, 2009), só foi publicado aqui 34 anos depois de seu lançamento original. Não sei se isso explica o fato dele ter vendido menos de mil unidades. A verdade é que, com números assim, não devemos esperar que outros clássicos ganhem novas edições. Sorte nossa que existem os sebos. Foi em alguns deles, que conheci via Estante Virtual, que pude encontrar vários trabalhos de Gerald M. Weinberg.

    Weinberg é autor de dezenas de livros, inclusive romances. O conhecia por causa de dois títulos, “Quality Software Management” (Dorset House, 1991) e “Exploring Requirements – Quality before Design” (Dorset House, 1989), escrito a quatro mãos com Donald C. Gause. Não são poucos os que consideram este o melhor livro sobre requisitos já escrito. Para minha surpresa, ele foi publicado no Brasil. “Explorando Requerimentos de Sistemas” saiu aqui pela Makron Books em 1991. Não dê bola ao título – é sobre requisitos, não necessariamente de sistemas (de informação). Tanto que nos dados de catalogação constam: Desenho Industrial e Produtos Novos. É coisa fina, Clássico com “C” maiúsculo. Leitura mais que obrigatória para todos que lidam, de uma maneira ou de outra, com Requisitos.

    Enquanto elaborava o novo Programa {FAN} paquerava minha surrada edição do “Exploring”. Me perguntando se teria tempo para algo “tão antigo”. Tentei apenas folhear aleatoriamente e pimba!, me vi obrigado a relê-lo de cabo a rabo. Foi então que surgiu a curiosidade por outras obras do cara.

    Seus Olhos Estão Abertos?” aparece na seção de “auto-ajuda” de alguns sebos. É hilário. Equívoco talvez provocado pelo sub-título: Como Definir, Analisar e Resolver Problemas… Seus… e dos Outros. É obra curta, com 140 páginas, e leve. Também foi escrito com Donald Gause e publicado por aqui pela Makron Books em 1992.

    Mais provocador e pesado é “Redefinindo a Análise e o Projeto de Sistemas” (McGraw-Hill, 1990). Se os analistas de sistemas tivessem prestado atenção ao que sugeria Weinberg, talvez hoje os analistas de negócios não fossem necessários. A quarta parte deste livro, por exemplo, ensina a entrevistar. A anterior, a observar. Pois é, habilidades raras e caras aos atuais analistas de negócios.

    Uma das melhores provocações aparece quase no final do livro, na parte VII chamada “A Mente do Projetista”. O autor mostra a reação de espanto de um cliente que estava recebendo seu sistema três meses antes do previsto e por 60% do custo orçado. Ilustra o espanto através de um diálogo tão didático, mas tão didático, que nos deixa por entender porque até hoje discutimos formas de contratação de projetos de software. Weinberg não tem segredo nem fórmula mágica nenhuma: “seria ridículo se as matérias importantes fossem deixadas por último”. Ou seja, ele cortou do escopo tudo o que não era importante para o negócio daquele cliente, só isso. Neste caso, cerca de 20% do backlog era formado por “bobeirinhas” (ah, naqueles tempos esses termos não eram utilizados).

    Por fim, mas não menos recomendado, um livro diferentão: “O Líder Técnico“. Lançado em 1994 pela Makron Books, prometia no subtítulo ser “Um Guia Personalizado para Desenvolvimento de Líderes Solucionadores de Problemas”. Entendeu porque o livro pulou em minhas mãos? Pois é, o tema tem tudo a ver com aquele profissional que (ainda) chamamos de Analista de Negócios. E um livro que diz que as escolas estão erradas porque não nos ensinam a errar, roubar e copular merece toda a atenção do mundo! Explicando (mais ou menos): “Não é por acaso que o erro, o roubo e a cópula são as três principais estratégias para se desenvolver ideias”. Liderança, Inovação e Solução de Problemas. Três temas quentíssimos (hoje) tratados com maestria em um título com 26 anos de idade (o original é de 1986). Torna perdoáveis até as quedinhas para a “auto-ajuda” e a citação de “Como Fazer Amigos…”

    Weinberg navega com tranquilidade por várias disciplinas, não poupando exemplos de outras áreas quando eles facilitam o entendimento de algum conceito. Mas sua escrita – ô inveja! – é de uma clareza e um bom humor raríssimos. Alguns trechos surrupiados aleatoriamente dos títulos citados:

    “Sem liderança para administrar o fluxo de ideias, dois técnicos especializados em uma sala formam uma discussão, três uma passeata e quatro um motim.”

    “Se você não puder achar pelo menos três coisas que possam estar erradas com sua compreensão do problema é porque não entendeu o problema.”

    “A parte mais complicada de certos problemas consiste justamente em reconhecer sua existência.”

    “Em qualquer trabalho com requisitos, todo tipo de envolvimento dos usuários deve ser empregado.”

    “Um projeto que esteja em estado de emergência durante o trabalho de requisitos estará em estado moribundo na etapa de entrega.”

    “Poderíamos evitar a maioria de nossos transtornos segurando nossas línguas na saída, quando estamos inclinados a fazer promessas que iremos lamentar. Se deixarmos a especificação suficientemente vaga, teremos uma maior folga para manobrar quando descobrirmos o que queremos ou não fazer. Se fizermos isto corretamente, poderemos até convencer o cliente de que as falhas são características.”

    “São necessárias incontroláveis necessidades e exagerada auto-imagem para ser um analista/projetista de sistemas – para estudar o que as pessoas fazem e dizer-lhes como reprojetar suas atividades. Em outros contextos, em outros tempos, teríamos sido chamados moralistas ou inquisidores. E todos nós sabemos quanto bem fizeram os inquisidores.”

    “Tenho certeza de que o mundo seria um lugar melhor se os escritores e o pessoal dos sistemas fizessem uma pausa agora e recordassem para si mesmos quão pouco eles conhecem realmente. Se fizessem isso, seguramente admitiriam um maior equilíbrio em suas palavras e em seus trabalhos.”

  • Scaling Lean & Agile Development

    Scaling Lean & Agile Development

    Craig Larman e Bas Vodde

    A quem pode interessar: Todos que estejam levando métodos ágeis e o pensamento Lean para além de um produto, um projeto ou um time. Deve interessar a todos que já rodaram mais de dois experimentos com métodos ágeis, particularmente com o Scrum.

    Porque ler: Larman tem um histórico de livros que fizeram a cabeça de muita gente, aqui e lá fora. São dele “Utilizando UML e Padrões” (Bookman, 2007) e “Agile & Iterative Development: A Manager’s Guide” (Addison-Wesley, 2004). Seus escritos seguem consistentes e didáticos. Mas agora ele parece um pouco mais divertido e direto. Porque sabe que o sucesso de suas sugestões depende de opiniões claras – de conclusões que podem não agradar todo mundo. Este é um dos poucos títulos (sérios) sobre a utilização do Scrum em projetos de médio e grande portes.

    Estrutura & Conteúdo: O livro tem apenas duas grandes partes, Ferramentas de Pensamento e Ferramentas Organizacionais. Cada uma mereceu cinco capítulos. Os autores começam pegando pesado, citando Woody Allen (!) e falando sobre o Pensamento Sistêmico. Quem sempre se sentiu intimidado ou constrangido pelo “A Quinta Disciplina” de Peter Senge (Best Seller, 2009) sentirá imenso alívio ao ler o primeiro capítulo de “Scaling Lean & Agile Development”. Combinado ao pensamento Lean, o Pensamento Sistêmico é apresentado de forma extremamente prática e didática.

    Também merece destaque o segundo capítulo, sobre o Pensamento Lean. Não se trata de um derivado de outros escritos, mas de um trabalho de pesquisa que envolveu interações diretas dentro da própria Toyota no Japão. Não é por nada não, mas a dupla conseguiu explicar em um capítulo o que muita gente não fez em um livro inteiro! Fechando a primeira parte temos os seguinte capítulos: Teoria das Filas, Falsas Dicotomias e Seja Ágil.

    A segunda parte, sobre Ferramentas Organizacionais, apresenta sugestões um pouco mais controversas. Eu gostei demais de boa parte delas, mas sei que algumas pessoas virarão piruetas ao ler, por exemplo, que “organizações ágeis não precisam de Escritórios de Projetos (PMO’s)” (p. 249). Os autores dizem, no mesmo trecho, que pior que um PMO é a sugestão de um Agile PMO. Claro, não deixam de citar o pai da (indesejada) criança: Jochen Krebs, em “Agile Portfolio Management” (Microsoft Press, 2008). Acho que nem preciso dizer que também gostei muito da alternativa sugerida pela dupla para troca de conhecimentos e experiências: as Comunidades de Prática (p. 252).

    Aliás, o livro todo apresenta dois grandes conjuntos de sugestões (experimentos) etiquetados como “Try…” (Tente) e “Avoid…” (Evite). Uma lista com todas as sugestões aparece logo de cara, na terceira página. Todas são apresentadas e justificadas no decorrer do texto.

    Trechos (livremente traduzidos):

    “Evite… pensar que o gerenciamento de filas, kanban e outras ferramentas são pilares do Lean.”

    “Tente… refletir sobre os dois pilares do Lean: Respeito pelas Pessoas e Melhoria Contínua.”
    (N.T.: Reparou que “eliminar desperdício” também não pintou aqui? Acontece que certos “desperdícios temporários” são necessários. Um buffer com itens do backlog do produto, por exemplo).

    “Uma das mais ignoradas e valiosas sugestões do Scrum diz que algo entre cinco e dez porcento de cada Sprint deve ser dedicado pelo time ao refinamento do backlog do Produto.”

    O último projeto simples foi feito em 1962. Não acredite que exista algum projeto que não envolva aprendizado ou complexidade ou alguma variabilidade e, consequentemente, não se beneficie do desenvolvimento ágil.”

    “Encoraje os especialistas a ensinar, não a fazer.”

    “Se não há conflito aparente então o time está com problemas.”

    “Evite… ferramentas tradicionais de gerenciamento de requisitos.”

    “Evite… organizações matriciais e escritórios de projetos.”

    “Evite… a IBM.”

    Serviço:

    Scaling Lean & Agile Development
    Craig Larman e Bas Vodde
    Addison-Wesley, 2009
    US$ 39,41 na Amazon (em 24/jan/12)
    US$ 15,92 pela versão eletrônica.

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  • GESTÃO* na Berlinda

    GESTÃO* na Berlinda

    Antes que eu perca a última oportunidade de escrever alguma coisa em julho. Antes que reclamem que há tempo não coloco nada de novo em  nossa Biblioteca. E antes que a leitura dos livros abaixo me faça abandonar tudo e iniciar nova carreira, provavelmente cultivando milho orgânico e produzindo pamonhas, pamonhas, pamonhas…

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    Um bom título alternativo para este artigo seria “Crise nas Infinitas Terras“. Porque o que vemos hoje, entre terras Exatas e Humanas, são crises que parecem não ter fim. “Infinitas Crises em nosso Mundinho” soaria melhor. Não importa. O que incomoda, ou deveria incomodar, é perceber que Economia, Administração, TI e vários outros “campos ou corpos de conhecimentos” passam por maus bocados. Arrisco dizer, com mínimo domínio de causa, que se trata de uma crise de meia idade. Não pretendo me aventurar pelo estranha situação da economia mundial. E, pelo menos nesta entrada, TI não interessa. Quero falar – na realidade, apresentar trabalhos que falam sobre a (triste porém estimulante) situação atual daquilo que conhecemos como GESTÃO (ou MANAGEMENT*).

    Um Livro Bom, Pequeno e Acessível sobre Estudos Organizacionais (2ª Edição) – Chris Grey (com ótima tradução de Raul Rubenich). Bookman (2010).

    Chris é professor de Comportamento Organizacional na Warwick Business School e resolveu, no início deste século (com a 1ª edição deste livro), jogar m… nos ventiladores do campo dos Estudos Organizacionais e da área que conhecemos como Administração. Jogou m…. com estilo, diga-se de passagem, com uma prosa limpa e livre de academicismos. Apesar de (ou justamente por) seu livro mirar, principalmente, os estudantes. Acho que consigo resumir sua “tese” através de um trecho surrupiado da página 65:

    “… a ideia de uma organização burocrática – ou de qualquer outro tipo de organização – voltada simplesmente ao estabelecimento de meios apropriados para atingir determinados fins é fundamental, irremediável e irrevogavelmente defeituosa.”

    Não espere explicações simples. Muito menos sugestões “aplicáveis”. Chris e poucos outros (dois deles apresentados abaixo) anunciam o início do fim reconhecendo humildemente sua incapacidade de desenhar o que viria depois. Conte, isso sim, com um livro bom, pequeno e acessível que: i) mostra zelo pela história da Administração, passando por Weber e Taylor até chegar em Tom Peters, autor (segundo Chris e para meu deleite) de um livro horrível (In Search of Excellence) “para jovenzinhos” (Drucker); ii) tem a imensa coragem de desafiar não um ou outro aspecto do ensino da administração, mas todo ele! (“O ensino da administração é movido para a produção do conformismo. Os imperativos da eficiência, da competição, das relações de mercado, etc. levam à conclusão de que as organizações têm, por necessidade, de manter-se da forma como se apresentam atualmente.”); e iii) dará um certo alívio para todos aqueles que, apesar dos estudos, diplomas e dedicação, seguem aturdidos (quando não perdidos) em seus esforços de GESTÃO e Administração. Alívio? Sim, porque apesar da infinidade de m… atirada ao vento, Chris é otimista: “Parece-me perfeitamente possível que o gerente ou candidato a gerente possa se preocupar com algo mais do que a racionalidade instrumental.”

    Management NÃO É o que Você Pensa – Henry Mintzberg, Bruce Ahlstrand e Joseph Lampel. Bookman (2011).

    Tema e preocupação idênticos – forma totalmente diferente do livro acima. O trio fez uma compilação de artigos, provocações e “máximas” que tenta (e consegue) mostrar que GESTÃO não é o que costumamos pensar. Livro conciso (150 págs.) e eficaz na mira do ventilador. Tanto que, apesar dos destaques que saltam em praticamente todas as páginas, pérolas brotam dos curtos textos. Como, por exemplo, a colocação de que as superstições são diretamente proporcionais as incertezas. E de que elas, as superstições,  “são o veículo pelo qual líderes carismáticos infundem sentimentos de certeza em tempos de incerteza.”

    Os autores (compiladores?) foram felizes na organização dos recortes em sete capítulos, além do “Mosaico” introdutório. Foi particularmente curioso ler um artigo que pareceu muito atual (“O que a Gestão Diz e o que os Gestores Fazem”, de Albert Shapero) e descobrir depois que se tratava de um texto publicado originalmente em 1976 na revista Fortune. Saca só:

    “Mais cedo ou mais tarde, a estranha cultura da GESTÃO baterá em retirada. A cada dia, centenas de milhares de gestores dedicam sua imensa boa vontade e aptidões naturais a compreender o enorme fosso existente entre a GESTÃO e a caótica realidade da vida cotidiana.”

    Mintzberg é conhecido, além de seus tratados sobre estratégia e outros temas, pelas suas críticas ao ensino de Administração e GESTÃO. O livro inclui seu famoso artigo “MBA?, Não, Obrigado!”. É preciso dizer que o livro acaba funcionando como uma bela propaganda  de seu “programa para desenvolvimento de gestores” conhecido como “Coaching Ourselves”. A propaganda (literalmente embutida na forma de um prospecto) não compromete.

    Management 3.0 – Jurgen Appelo. Addison-Wesley (2011).

    Ok, peço desculpas. Trata-se de uma entrada duplicada em nossa Biblioteca. Em fevereiro dediquei generosa resenha ao trabalho do Jurgen. Acontece que tenho duas boas justificativas para a redundância. A primeira, claro, é o fato deste livro ter tudo a ver com os outros dois apresentados acima. Mas, dos três, é o mais Construtivo (acho que deveria dizer “propositivo”). Jurgen apresenta sugestões organizadas em seis visões, todas amparadas em avaliações que reforçam as críticas descritas nos dois livros acima.

    Ok, o subtítulo desta obra promete a “Liderança de Desenvolvedores Ágeis” e o “Desenvolvimento de Líderes Ágeis”. Talvez eu não tenha sido tão claro naquela resenha, mas engana-se quem acha que se trata de um livro dedicado exclusivamente ao Gerenciamento de Organizações que desenvolvem sistemas. Sim, enganou-se o editor e aquele que bolou a chamada da capa. Paciência. Leia com a mente um pouquinho aberta e você perceberá um livro que fala de GESTÃO para organizações do século XXI. Propondo um modelo “errado”, como reconhece Jurgen. Porque, afinal, TODOS estão errados. “Mas alguns são úteis!”.

    Segunda justificativa para o repeteco: Jurgen Appelo estará no Brasil agora em agosto. Vai ministrar um treinamento na AdaptWorks e, graças aos esforços do grupo Rio Agile, apresentará uma palestra na Cidade Maravilhosa no dia 22/agosto. Trata-se de uma oportunidade única de conhecer as ideias deste cara que já é um dos mais requisitados palestrantes e instrutores do Mundo Ágil. Lembrando: não faça deste rótulo (“Ágil”) uma caixinha. E tente fazer o possível para assistir este evento único.

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    Observações:

    • Grafei GESTÃO assim colando Mintzberg. Parece contraditório, mas apela para uma GESTÃO de fato maiúscula. E mantive o termo ciente de que alguns colegas preferem que “Management” seja traduzido como “Gerenciamento” ou “Administração”.
    • Crisis!“, a imagem utilizada neste artigo, é de autoria de Richard “dipfan”.
    • Milho orgânico? Pamonhas?!? Perdão, apelação idiota. O que estas obras conseguiram de verdade foi me dar novos ânimo e horizontes. Torço para que façam o mesmo por ti. Inté!
  • Lean Architecture

    Lean Architecture

    Autores: James O. Coplien e Gertrud Bjørnvig. Gertrud tem mais de 20 anos de experiência em desenvolvimento de sistemas e é especialista em requisitos Ágeis. James é pioneiro em projetos OO, padrões de arquitetura e desenvolvimento Ágil de software. É autor, dentre outros títulos, de “Organizational Patterns of Agile Software Development” (Prentice-Hall, 2004).

    Editora: Wiley (2010).

    Site: LeanSoftwareArchitecture.com

    Do que se trata: Arquitetura de Software, pensada e construída segundo princípios Lean e Agile.

    Indicado para: Arquitetos, Desenvolvedores e afins. Sim, eu entrei de gaiato no navio (porque há tempos não arquiteto nem programo). Mas gostei do que vi, como testemunho abaixo.

    Contra-indicações: Quem não conhecer o mínimo de OO, arquitetura de software e que tais sentirá uma certa dificuldade. Quem acha que arquitetura é burocracia, BDUF ou conversa pra boi dormir terá dois tipos de reação: espanto (positivo) ou um notável desconforto. Indiferente, acho que ninguém fica.

    Breve resenha: Eu não pego um livro (técnico) que não fale sobre o que precisa ser feito e/ou gerenciamento desde os idos de 2005 e 2006, quando cismei de estudar e falar sobre SOA, Reuso e afins. Acontece que o choque do livro anterior, “Management 3.0“, foi forte demais. Vai demorar para outro livro sobre o tema me abalar tanto. Resolvi mudar de assunto. E decidi que era hora de ver o que o “outro lado” anda fazendo. Não pesquisei muito até decidir pelo livro do Coplien e da Gertrud. Mesmo sabendo que encontraria linhas de código (em Java, C++, Ruby e outras) e conceitos que talvez fossem grandes demais para minha cabecinha.

    O que me chamou a atenção foi exatamente a presença da Gertrud como co-autora, dada sua especialização em requisitos. Desconfiei que não seria um livro tradicional sobre arquitetura de software. E estava certo. Vou arriscar um resumo em um parágrafo:

    Se você é verdadeiramente Ágil, a arquitetura projetada por ti deve saber acomodar mudanças. Não só em tempo de projeto, mas durante todo o ciclo de vida de um sistema. Para tal, desde o início você deve saber distinguir coisas que mudam com menos frequência daquelas que mudam ‘quase todo dia’. Os autores sugerem uma divisão bem simples: O-que-o-Sistema-É é uma parte mais estável, é a forma – o pensamento do usuário; O-que-o-Sistema-Faz é a porção mais dinâmica, mais suscetível a mudanças, é o comportamento – a ação do usuário. O respeito pelo ‘modelo mental do usuário’ e a preocupação em fazer com que todos os elementos da arquitetura sejam representações fiéis deste modelo guiam todo o livro. Os letrados a antenados já devem ter desconfiado que esse papo todo desemboca no uso dos padrões MVC-U (Model-View-Controller-User. Não se incomode, é o mesmo velho MVC demonstrando simpatia pela parte mais importante do problema) e seu novo complemento chamado DCI (Data, Context and Interaction), duas crias de Trygve Reenskaug.

    Resumo dado, tempo para outras considerações. Sim, esse papo de “representação fiel do modelo mental do usuário” rola, sem muito sucesso, desde a segunda metade da década de 1960 (quando surgiu OO). E sim, letrados e antenados não devem ver muito valor no livro. Como eles não são tantos assim, como atestam as aplicações que vemos por aí, o livro deve atrair um bom público. O público nerd, tratado exatamente desta maneira no texto, deve se satisfazer com as dezenas de páginas (de um total de 357) com puro código. Além de três capítulos nomeados “Coding it Up …”, o livro dispõe de seis apêndices tratando um mesmo exemplo em Scala, Python, C#, Ruby, Qi4j (segundo os autores, a melhor forma de implementar DCI em Java) e Squeak. E, como já coloquei, C++ e Java não são ignoradas. Se eu curti esse tanto de código? Olha, deu pra lembrar porque não programo mais. Mas, o código é bonito, elegante.

    Aliás, a proposta como um todo é bonita (e ver Beleza em coisas assim é atestado inconteste de que um pouco de sangue nerd ainda corre nestas veias). Sempre avalio uma sugestão de arquitetura através da tríade vitruviana: firmitas (robustez), venustas (beleza) e utilitas (utilidade / funcionalidade). Os autores, pelo menos na teoria, passam no teste do Vitruvius. E insistem em nos lembrar, pelo menos uma dúzia de vezes, a Lei de Conway.

    Para a turma d’o que precisa ser feito: Além do primeiro capítulo, uma Introdução, outros quatro ‘falam’ com a turma do negócio, analistas, donos de produtos e afins. São eles: “3 – Stakeholder Engagement“, “4 – Problem Definition“, “5 – What the System Is, Part I: Lean Architecture” e “7 – What the System Does: System Functionality“. Vou destacar os pontos que mais me chamaram a atenção.

    Gostei muito da separação incondicional de o-que-o-sistema-É de o-que-o-sistema-FAZ. Quando estudamos um negócio, também devemos ter esse tipo de preocupação. Separamos a Visão da Estrutura da Visão dos Processos, cientes da maior complexidade e volatilidade da segunda. Costumo dizer em meus treinamentos que a Visão dos Processos ocupará, no mínimo, 70% do tempo de um analista de negócios. Acontece que a aplicação tradicional ou indisciplinada de conceitos OO, em determinado momento, mistura tudo. Através do padrão DCI essa separação é sempre respeitada. Entre a estrutura (Data, o D de DCI) e o-que-o-sistema-FAZ (Interaction), sempre há um Contexto. E um Contexto é uma representação fiel de… um Caso de Uso!

    Qual não foi minha surpresa quando vi os autores ‘ressuscitando’ as Especificações de Casos de Uso. Segundo eles, de forma bem direta, o mundo Ágil reinventou a roda com as Histórias de Usuários e todos os seus ‘complementos’ (Mapas de Histórias, Dependências, Restrições, Test Cases etc). Casos de Uso oferecem, segundo os autores, consolidação de todas as informações necessárias para a construção d’o-que-o-sistema-FAZ. Há muito em comum entre a sugestão do livro e o modelo de casos de uso que aplico. Por exemplo: “O Fluxo Principal não deve ter mais que 7 passos!”; “Questões sobre interface do usuário e projeto do sistema são melhor representadas em outras ferramentas, não em casos de uso“. E por aí vai. E vai tão longe que merecerá um artigo específico.

    Por ora, fica minha curiosidade em saber como os desenvolvedores tupiniquins estão vendo a proposta. Fiz uma breve pesquisa no Google e em alguns grupos de discussão e não vi uma única menção ao termo DCI. Como a comunidade Ruby só faz crescer por aqui, pensei que acharia algo. Mas talvez eu não tenha procurado direito. Lá fora as reações são variadas e algumas bem iradas, como mostra esta thread. Aliás, estou para ver o dia em que novas ideias de nossa área não virarão um Fla X Flu.

    Enfim, duas coisinhas que me incomodaram: i) Não há um único diagrama UML no livro. Mesmo que os autores defendam fervorosamente a ‘modelagem com código’, deveriam entender que um ou outro diagraminha poderia facilitar a compreensão de alguns conceitos; ii) SOA morreu? Sinceramente, não esperava ler um livro sobre arquitetura de software escrito em 2010 que praticamente passa em branco pelo assunto. Os autores até justificaram no início do livro a ausência, mas não foram muito convincentes. Ou, de fato, SOA morreu?

  • Management 3.0

    Management 3.0

    Autor: Jurgen Appelo, holandês que se apresenta como escritor, palestrante, instrutor, desenvolvedor, empreendedor, gerente, blogueiro, leitor, sonhador, líder e pensador livre. Figura relativamente nova na Comunidade Ágil. Este é seu primeiro livro.

    Editora: Addison-Wesley (2011).

    Promessa do Subtítulo: Liderando Desenvolvedores Ágeis, Desenvolvendo Líderes Ágeis

    Do que se trata: GERENCIAMENTO. O autor dirige o livro para gerentes “de linha” (de áreas de Desenvolvimento ou Departamentos de TI) reforçando que não se trata de (mais) um livro sobre Gerenciamento de Projetos. Também “filtra” um pouco mais a seleção colocando que o livro é sobre Gerenciamento Ágil. Mas parece que todo mundo que já teve o prazer de conhecer esta obra descobriu que se trata de um trabalho sobre Gerenciamento no século XXI, o século da Complexidade. GERENCIAMENTO em seu sentido mais amplo.

    Três ponto zero?: O gerenciamento 1.0 foi aquele chamado de científico, caracterizado por hierarquias e originado no início do século passado. O gerenciamento 2.0 brota em meados dos anos 1980 e é caracterizado pelas manias e modismos, por patches e add-ons (TQM, BPR, TOC, BsC, Six Sigma etc) que tentavam “corrigir” a versão anterior.

    Então veio a teoria da complexidade e sua aplicação na matemática, biologia, economia e sociologia. Aí chega o Jurgen, mergulha na teoria e em sua aplicação nos mais diversos domínios, e a destila em um modelo que ele chamou de Management 3.0.

    Indicado para: Gerentes, líderes, desenvolvedores, empreendedores, sonhadores, pensadores livres e todos que queiram entender a razão de tudo neste mundo parecer um tanto complicado e/ou complexo e porque todo sucesso não passa de um adiamento do fracasso.

    Contra-indicações: Puristas, extremistas, conservadores, preconceituosos, adoradores de ângulos retos e eleitores do Jair Bosonaro podem sentir um certo desconforto em diversos trechos do livro.

    Breve Resenha: Quem lê livros técnicos sobre um mesmo tema com uma certa frequência vive com a sensação de déjà-vu. Nos últimos tempos engoli, total ou parcialmente, mais de uma dúzia de livros sobre o Desenvolvimento Ágil de Sistemas. Poucos realmente colocaram assunto novo na mesa. Dois deles mereceram entrada nesta biblioteca. O resto girou em torno dos mesmos temas, problemas e sugestões. Às vezes mudando nomes, outras tantas reciclando histórias.

    Jurgen Appelo acaba de colocar o assunto “Agile” em outro patamar.

    Não se trata de um reset, pelo contrário. Jurgen conhece e respeita toda a história que no próximo dia 13 de fevereiro completará dez anos (data da publicação do Manifesto Ágil). Mas ele se apresenta como um pensador livre. E é. Por isso busca coisas com milhares ou milhões de anos de idade ou situações bobas do cotidiano para ilustrar suas colocações e tornar mais palatáveis as ideias e teorias que sustentam seu modelo. Estratégia mais que necessária, porque Jurgen parte de um Corpo de Conhecimentos de Sistemas formado por coisinhas espinhosas como: Teoria Geral dos Sistemas, Cibernética, Teoria dos Sistemas Dinâmicos, Teoria dos Jogos, Teoria do Caos e Teoria da Evolução. Não se assuste ainda. Esta é apenas parte da história que ele conta para justificar o uso do Pensamento da Complexidade (ou Teoria da Complexidade ou ‘simplesmente’ Complexidade, hehe) como base para o seu modelo.

    Perdão, não há motivos para sustos. Jurgen apresenta essas teorias e conceitos para “humanos normais” como você e eu. Primeiro em um único capítulo, o terceiro, pavimentando o caminho que seguiremos. Depois em capítulos que concentram toda a parte teórica de cada Visão proposta no modelo Management 3.0. Cada uma das seis visões da Martie (o monstrinho que Jurgen desenhou para representar o modelo) é apresentada em dois capítulos, um teórico e outro prático. Essa sacada, além de facilitar a compreensão de suas sugestões, permite o planejamento de nossos estudos. Este é um livro para ser estudado, não simplesmente lido. Optei por estudar um visão por dia: o capítulo teórico na parte da manhã, o prático bem depois do almoço.

    Hora de apresentar, afinal, os seis “olhos” da simpática Martie:

    • Energizar Pessoas: “Penso que as pessoas são as partes mais importantes de uma organização e que os gerentes devem fazer de tudo para mantê-las ativas, criativas e motivadas.”
    • Fortalecer¹ Times: “Acredito que os times podem se auto-organizar, e isto requer delegação de poderes, autorização e confiança por parte dos gerentes.”
    • Alinhar Restrições: “Expliquei que a auto-organização pode resultar em qualquer coisa, portanto é necessário proteger as pessoas e os recursos compartilhados e dar para as pessoas propósitos claros e objetivos definidos.”
    • Desenvolver Competência: “Também acredito que os times não podem atingir esses objetivos se seus integrantes não forem capazes, e que os gerentes devem contribuir para o desenvolvimento da competência de cada um deles.”
    • Desenvolver² Estrutura: “Muitos times trabalham no contexto de uma organização complexa, por isso estou convencido de que é importante considerar as estruturas para melhorar a comunicação.”
    • Melhorar Tudo: “Também penso que as pessoas, times e organizações devem continuamente melhorar tudo de forma a adiar o fracasso o máximo possível.”
    • “Finalmente, acho que a apresentação acima está bem fácil de entender, o que significa que ela provavelmente está errada.”

    O resumo acima é apresentado lá no finalzinho do livro, quando o autor confessa: “Sim, meu modelo está ‘errado’”. “Todos Estão Errados, mas alguns são úteis” é o título do capítulo 16. O humor e a honestidade de Jurgen, além, claro, do tanto que ele conhece e estudou, fazem deste livro um marco. Suecos (e seus 1.217 mosquitos), belgas, cubanos e eleitores do Bosonaro terão alguns motivos para reclamar do livro. Acho que nenhum relacionado ao que ele ensina sobre GERENCIAMENTO.

    Alguns Trechos Selecionados, Surrupiados e Livremente Traduzidos:

    “Acho que o Movimento Ágil negligenciou a importância dos gerentes (de linha). Se os gerentes não sabem o que fazer nem o que esperar de uma organização Ágil, como esperar que eles se envolvam na transição para o desenvolvimento Ágil de software? Qual é a mensagem do Movimento Ágil aqui? Se for apenas ‘não precisamos de gerentes’, então não causa espanto saber que transições para o Ágil estão sendo obstruídas ao redor do globo.”

    “Lembre-se que valores Ágeis não são listas fixas com cinco, sete ou doze itens. Este livro é sobre complexidade, não sobre respostas simples.”

    “Nenhum sistema³ que se auto-organiza existe fora de um contexto. E é o contexto que restringe e direciona a organização de um sistema.”

    “Gerentes inteligentes sabem que devem tomar o menor número de decisões possível.”

    “Acredito que um ‘ponto fraco’ do Manifesto Ágil é o fato dele não reconhecer (explicitamente) que todos os projetos de software precisam de pessoas inteligentes, disciplinadas e atentas. O paradigma ‘pessoas mais que processos’ é jóia, até você descobrir que seu time se limita a dois duendes, um papagaio, uma cabeleireira e um gerente de projetos aparentemente brilhante mas que é cego, surdo e mudo. Não há coaching no mundo que faça este time se auto-organizar e entregar um produto bem sucedido.”

    “Disciplina * Habilidade = Competência”

    “A melhor maneira de implementar processos Ágeis é fazê-lo do seu jeito.”

    “Modelos de maturidade são pouco úteis, talvez até um pouco ofensivos.”

    “Se eles podem escovar seus dentes todos os dias para se livrar de cáries, por que não podem escovar o código diariamente para se livrar dos bugs?”

    “Gerentes de projetos estão ali para servir os times, não para controlá-los. Gerentes de projetos estão ali para gerenciar projetos, não pessoas.”

    “Se você introduzir um novo produto de software em um ambiente, o ambiente vai mudar, consequentemente os requisitos para o produto também mudarão.”

    “O valor percebido de uma mudança é proporcional à dor que se sente por não mudar.”

    Compañero, no hay camino. Se hace camino al andar.

    Observações:

    1. O termo original é “empower”. Optei por “fortalecer” (times) como tradução porque empowerment normalmente é entendido apenas como “delegação de poderes”. O autor tem objetivos mais amplos e ambiciosos para a palavra.
    2. Outro termo comum que ainda me atrapalha é “grow”. Simples: é crescer… ou aumentar, germinar, florescer, produzir. Optei por “desenvolver” por achá-lo mais coerente com a intenção do autor: “grow structure”.
    3. A palavra “sistema” é utilizada no livro em seu sentido mais amplo. Empresas, times, pessoas e bactérias são sistemas.
    4. Esta entrada ficou longa, muito longa! O livro, em cada uma de suas 413 páginas, fez por merecer. De tempos em tempos me deparo com um título que realmente me “melhora”. Muito. Não vejo a hora de estudá-lo de novo.
  • Capital Intelectual

    Quando publiquei minha lista com “11 Livros ‘Obrigatórios’” confessei uma dúvida: deveria colocar “A Economia da Informação“, de Carl Shapiro e Hal Varian, ou “Capital Intelectual“, de Tom Stewart. Um não serve como alternativa ao outro – eles são totalmente complementares. O primeiro, que acabou ganhando a posição na lista, fala de Economia. O livro de Stewart trata de ativos intelectuais e gestão do conhecimento. Já nem me lembro mais o critério que usei para decidir pelo livro de Shapiro e Varian. Mas desde então, folheando e relendo os dois trabalhos de Stewart, fiquei incomodado com a injustiça que cometi. Daí esta nova entrada em nossa biblioteca.

    .:.

    Original: Intellectual Capital (Doubleday, 1997).

    Autor: Thomas A. Stewart é CMKO (Chief Marketing and Knowledge Officer) da Booz & Company. Quando publicou o livro era membro da equipe de editores da revista Fortune. Depois, entre 2002 e 2008, foi editor e diretor da Harvard Business Review (HBR). É um dos papas em Gestão do Conhecimento e um dos principais nomes da administração moderna.

    Editora: Campus, 1998. Tradução (acima da média) de Ana Beatriz Rodrigues e Priscilla Martins Celeste.

    Assunto (direto da orelha): O conhecimento se tornou o fator mais importante da vida econômica. É o principal ingrediente do que compramos e vendemos, a matéria-prima com a qual trabalhamos. O capital intelectual – não os recursos naturais, equipamentos ou até o capital financeiro – tornou-se um ativo indispensável para as empresas.

    Relevante para:

    • Todos que lidam de alguma maneira com a tal “Gestão do Conhecimento”;
    • Empresários e empreendedores envolvidos com produtos ou serviços que i) são conhecimento; e/ou ii) são enriquecidos com conhecimento;
    • Trabalhadores do conhecimento;
    • Em suma, o livro deve servir para todo mundo.

    Tenta ensinar:

    • O que é Capital Humano, Capital do Cliente e Capital Estrutural;
    • Como mapeá-los e gerenciá-los como Ativos de Conhecimento da organização;
    • Como utilizar esses ativos para se diferenciar;
    • Como lidar com aquele tipo de capital que vai embora todo dia, ao fim do expediente;
    • Como o detentor daquele tipo de capital tem sua vida pessoal e profissional afetada neste ‘novo’ mundo dos negócios.

    Prós:

    • Texto muito bem fundamentado e amparado. Stewart não abre mão nem de citar Peter Pan ou Alice no País das Maravilhas. Ou seja, sua cultura ampla e diversificada torna o texto agradável e rico – isento de jargões e armadilhas efêmeras (lembre-se, o texto é de 1997);
    • As pesquisas e estudos de caso também ajudam a apoiar o texto e a tese de Stewart;
    • Não reinventa a roda: o trabalho de Takeuchi e Nonaka na área são fundamentais? Então apresente-os como tal!
    • E, sempre que possível ou necessário, estenda outros trabalhos provando que você não está simplesmente copiando e colando boas ideias.

    Contras:

    • A Campus raramente é tão infeliz na escolha das fontes e na diagramação. Não chega a comprometer a leitura, mas fica feio pra chuchu.
    • Não sei se é correto dizer que Stewart negligenciou o tema “arquitetura do negócio” (como o valor é criado – em alto nível) neste trabalho. O fato é que ele ‘corrigiu’ a falha no livro seguinte, “A Riqueza do Conhecimento” (mais sobre ele abaixo).

    Gotas (de conhecimento):

    “Os mercados são implacáveis. Recompensam o que cria valor e ignoram ou castigam o que não cria. Nada pessoal.”

    “O Capital Intelectual é o conhecimento útil em nova embalagem.”

    “As ideias são livres. são também um recurso abundante, provavelmente infinito. Qualquer pai ou mãe que já tenha deixado um filho de dois anos sozinho por um minuto sabe que ter ideias é uma característica humana inata que não requer treinamento nem educação especiais; o desafio gerencial está no desenvolvimento organizado de ideias construtivas.”

    “Estamos acostumados a pensar em funcionários em termos de seu salário – seu custo. Mas qual é o seu valor? Quanto vale realmente um emprego?”

    “Há um paradoxo no âmago da organização da Era da Informação: enquanto os empregadores enfraqueceram os laços da segurança no emprego e da lealdade, mais eles dependiam do capital humano.”

    “Quando o conhecimento é o principal recurso e resultado – a entrada e a saída, a matéria-prima e o produto acabado – a propriedade desse conhecimento torna-se indistinta, compartilhada: o trabalhador é parcialmente proprietário, assim como o capitalista e o cliente.”

    “As empresas precisam muito mais dos trabalhadores do conhecimento do que eles precisam delas.”
    (Stewart citando Peter Drucker)

    “Há um paradoxo na economia da informação e tanto o comprador quanto o vendedor estão sujeitos a ele: o comprador não pode julgar se vale a pena pagar por um pedaço de informação antes de possuí-la; mas, depois que a possui, ele não precisa mais comprá-la.”
    (Ah, como eu gostaria que alguns prospects entendessem isso…)

    “Quando se trata do trabalho criativo, não existe correlação econômica significativa entre o insumo do conhecimento e o produto do conhecimento: o valor do capital intelectual não está necessariamente relacionado ao custo de sua aquisição, o que impossibilita o uso de uma medida do que você faz como um meio de revelar como você está se saindo.”

    Agora, de bons e necessários que são, vou citar dois trechos do outro livro do Stewart, “A Riqueza do Conhecimento“:

    “As empresas são organismos vivos; os documentos são como defuntos.”

    “Conexões primeiro, coleções depois: esta é a essência da gestão do conhecimento.”

    A Riqueza do Conhecimento

    Como sempre acontece, um bom trabalho puxa outro. Thomas Stewart publicou, em 2001, uma sequência obrigatória para “Capital Intelectual”. “A Riqueza do Conhecimento” (Campus, 2002) completa o primeiro trabalho, com mais casos e exemplos e, principalmente, com um fator que era mais nebuloso em 1997 (data do primeiro): a Internet (e respectivas intranets, groupwares, páginas amarelas etc). Como chamei atenção acima, Stewart também aproveitou o novo trabalho para explorar um pouco mais os modelos para criação de valor. Seu primeiro livro trabalha com profundidade as Redes de Valor. Aqui ele compara este ‘meta-modelo’ com as Cadeias e Oficinas de Valor. Este será o tema de um dos meus próximos artigos.

    Aperitivo: fábricas de software (e várias outras organizações) estruturam-se como cadeias de valor. Segundo Stewart, esta é “uma metáfora tão poderosa que, por vezes, até nos esquecemos que ela aplica-se sobretudo aos contexto de fabricação e que não se adapta muito bem a muitos setores. Estendê-la a serviços, principalmente àqueles intensivos em conhecimento, pode envolver distensões, amputações e entorses tão procustianas que acabam confundindo em vez de esclarecer a situação real”. A gente vai conversar mais sobre isso. Inté!

  • 11 Livros “Obrigatórios”

    Desconfio que listas só são elaboradas para criar polêmicas. Falta de assunto? Talvez. Listas de melhores filmes, músicas ou discos, por exemplo, sempre conseguem mais discordâncias do que aprovação. Natural que seja assim, afinal cada um tem seus gostos e desgostos. Mas é muito difícil justificar ou explicar uma lista que se apresenta como “10 Livros Obrigatórios para Executivos“. O problema começa com o termo ‘obrigatório’. E termina com uma lista sem lógica e com alguns títulos no mínimo questionáveis. Não estou julgando o valor ou a qualidade dos textos sugeridos, mas sua ‘obrigatoriedade’. Qual era a intenção, afinal? Recomendar leituras básicas para executivos? Se sim, então peço licença para apresentar minhas sugestões.

    Os Bruxos da Administração
    John Micklethwait e Adrian Wooldridge (Campus, 1998).

    O subtítulo diz tudo: “Como entender a Babel dos gurus empresariais”. Funciona como um guia para a leitura de livros de negócios, particularmente daqueles já apresentados como ‘clássicos’. Aqui você entende porque deve desconfiar das dicas e conselhos de recordistas de vendas como Tom Peters (de “Vencendo a Crise” e “Re-imagine”, dentre vários outros) e Stephen Covey (aquele dos “7 Hábitos das Pessoas Muito Eficazes” e derivados). Os autores fazem parte do time de editores da revista The Economist, famosa por sua independência (de verdade, não a falsa imparcialidade de algumas famosas publicações tupiniquins).

    Desafios Gerenciais para o Século XXI
    Peter Drucker (Pioneira, 1999).

    Como justificar uma lista de livros de negócios que não tenha um título do Mestre? Complicado. E não estou falando dos trabalhos clássicos (aka antigos) do Drucker. Ele nos deixou em 2005. Antes, publicou ensinamentos importantes para os novos tempos, particularmente neste “Desafios…” Gerência, estratégia, mudanças, produtividade do trabalhador do conhecimento e “gerenciar a si mesmo” são alguns dos temas. O subcapítulo chamado “Do ‘T’ para o ‘I’ em ‘TI’” é de particular interesse para todos que por aqui passeiam.

    Reengenharia – Revolucionando a Empresa
    Michael Hammer e James Champy (Campus, 1994).

    Como assim, “Reengenharia”? Livro, autores e proposta não foram considerados o grande desastre do mundo da administração no final do século XX? Sim. Cometeram uma carnificina escondidos na teoria da reengenharia. Mas a culpa dos autores foi exagerada. Não importa. Acontece que esta é a primeira obra a colocar processos de negócios em seu devido lugar (no topo da agenda de preocupações). Hoje, quando vemos tantos BP* por aí, vale a pena ler ou reler os conceitos originais de Hammer e Champy. E aplicá-los? Com moderação sim, por que não?

    A Execução Premium
    Robert Kaplan e David Norton (Campus, 2009).

    Poderia citar três ou quatro trabalhos de Kaplan, do ABC (Custeio Baseado em Atividades) aos Mapas Estratégicos passando pelo BSc (Balanced Scorecard). Costumo dizer que ele ajudou a criar algumas das principais ferramentas administrativas dos últimos 20 ou 30 anos. Neste título temos a oportunidade de rever seus trabalhos. Não numa espécie de coletânea, mas mostrando como as operações podem ser guiadas por estratégias bem formuladas e muito bem comunicadas.

    A Economia da Informação
    Carl Shapiro e Hal R. Varian (Campus, 1999).

    Título que já apareceu por aqui, em nossa biblioteca. Leitura essencial para a compreensão da (velha) economia dos novos tempos. Lê-se no subtítulo: “Como os princípios econômicos se aplicam à era da Internet”. Não serviu para evitar a bolha do ano 2000. Mas servirá para você não atuar como um bolha na hora de administrar e precificar seus ativos de conhecimento. Este livro ganhou por pouco de “Capital Intelectual“, de Thomas Stewart (Campus, 1999). Mas isso aqui não é corrida. Leia ambos!

    O Novo Jogo dos Negócios
    Shoshana Zuboff e James Maxmin (Campus, 2003).

    O título original é “The Support Economy”. A Campus não deveria ter cometido esta infeliz ‘tropicalização’. A Sra. Zuboff, professora na Harvard Business School, e seu marido, ex-CEO da Volvo, escreveram um verdadeiro manifesto para um novo Capitalismo. Todos que queiram entender o mundo que se desenha deveriam folhear estas páginas. Com calma – são quase 500. E três grandes temas: i) Desafio: Novas Pessoas, Novos Mercados; ii) Crise: Velhas Organizações se encontram com novas pessoas; e iii) Surgimento: A nova lógica empresarial. Texto surpreendente e contundente.

    O Futuro da Administração
    Gary Hamel com Bill Breen (Campus, 2008).

    Parece que Hamel quer se tornar o Peter Drucker do século XXI. Está no caminho certo. Neste livro ele fala especificamente sobre os processos de gestão e conta porque eles são a última fronteira da administração. Antenado, fugiu bem da perigosa palavrinha “governança”. Sabe que o buraco é mais embaixo. E se preocupa, por exemplo, com a criação de “comunidades de objetivos” e “democracia de inovação”. Não, a exemplo do título anterior, não se trata de uma obra neo-hippie. É administração moderna mesmo. A última do Hamel, não disponível ainda na forma de livro texto, é dizer que “colaboradores são mais importantes que os clientes”. Vem chumbo grosso por aí.

    Virando a Própria Mesa
    Ricardo Semler (Rocco, 2002).

    E por falar em chumbo grosso… Pelo menos um autor tupiniquim merece um lugar na lista. E não poderia ser outro se não o Semler. Mês passado este título foi colocado em nossa biblioteca. Mais que merecido. Afinal, são pouquíssimos os autores realmente práticos e inovadores. Aqueles que fazem da própria empresa a base para estudos são mais raros ainda. É uma pena que Pindorama aproveite tão pouco o potencial desse cara. Lá fora eles sabem aproveitar. Por exemplo…

    REWORK
    Jason Fried e David Hansson (Crown Business, 2010)

    Os autores citam e agradecem Semler neste livro. Não é por menos: suas ideias ‘radicais’ são muito inspiradas nas experiências e proposições do Ricardo. O que me deixa curioso em saber se um dia eles já se encontraram. O livro, o único desta lista ainda não disponível em PT-br, fala da vida, do universo e tudo mais. Falando sério: marketing, estratégia, produtividade, concorrência, pessoas e cultura, dentre outros assuntos. É uma REvisão do mundo da administração sob um ponto de vista ímpar e inovador. Trocando em miúdos, um sutil e necessário tapa na cara.

    O Futuro não é mais o mesmo
    Seth Godin (Campus,  2007).

    Revendo a lista pensei – pô, falta um livro de marketing. Apesar do tema aparecer em alguns trabalhos relacionados, queria ter um título só de marketing. Vou fazer mais que isso e citar O Cara de marketing que mais admiro e cito, Seth Godin. Seu livro é sobre o futuro e “182 outros paradoxos do mundo dos negócios”. Não espere uma leitura natural e linear. O livro compila o resultado de seis anos de publicação em um blog. E Seth cometeu o disparate de colocar os “paradoxos” em ordem alfabética. Por isso ele alerta: “Não leia este livro de uma vez só”. Não faria muito sentido. Deve ser saboreado como uma boa cachaça mineira, com moderação e aos pequenos goles.

    O Princípio Dilbert
    Scott Adams (Ediouro, 1997)

    E nenhuma lista é completa sem um item que a (con)teste ou renegue de alguma maneira. Feijoada sem a laranja não é completa. Se você vai listar discos, por exemplo, precisa contrapor Led Zep ao Clash. Cidadão Kane também não é o mesmo sem a oposição de Cães de Aluguel (ou Titanic, blergh!). Por isso nosso querido Dilbert encerra esta lista, com seu primeiro e principal título. Administração e negócios podem ser engraçados. Aliás, eles são engraçados! Mas não é todo mundo que sabe contar piadas. Scott Adams sabe e por isso o seu trabalho é tão duradouro (e necessário).

    .:.

    Desde que vi a lista da EXAME fiquei ansioso para publicar a minha (juro, não por falta de assunto). E repito: não estou dizendo que os livros lá recomendados são ruins ou algo do tipo. Aliás, tem uns 2 ou 3 livros lá, como “Estratégia do Oceano Azul”, que quase ganharam a 2ª divisão aqui. Acontece que alguns trabalhos ficam mais que seis meses na lista de recomendações – não são voláteis como álcool ou etanol. Acredito que seja este o caso de todos que citei aqui (inclusive REWORK, que é deste ano).

    O sumido Braga de Brotas vivia me dizendo que não via muito sentido nos livros sobre negócios e administração. Provavelmente ele baseava seu julgamento nos 99,75% de puro lixo e modismo que vemos na prateleira assim denominada. Aliás, êta prateleira bagunçada. Na Folha de São Paulo, por exemplo, é apresentada a lista dos mais vendidos em “Negócios e Auto-ajuda”. Pobre e infeliz aquele que não consegue separar as duas coisas. Inté!

  • Virando a Própria Mesa

    Autor: Ricardo Semler. Paulistano nascido em 1959, formado em Direito pela USP e Administração em Harvard. Em 1980 assumiu a presidência da empresa do pai, atualmente conhecida como Semco. Em 1988 publicou este livro que se tornou um best-seller no Brasil.

    Editora: Rocco, 2002.
    Utilizei a capa clássica do livro para ilustrar esta entrada, da editora Best Seller (1988).

    Do que se trata: Visão alternativa do mundo da administração e de tudo o que acontece em uma empresa.

    Impressões: Passados 22 anos desde a publicação deste clássico, a impressão que se tem é que a Semco segue única em solo tupiniquim. Única em seus princípios, processos e (ausentes?) estruturas e regras. Semler virou uma referência lá fora, particularmente nos EUA. Suas palestras são concorridas e seus livros vendem bem, obrigado. Recentemente foi citado no livro “REWORK“, de Jason Fried e David H. Hansson. Enquanto isso, por aqui…

    Nesta semana aconteceu um fato curioso, que acabou motivando esta entrada. Aparentemente a Info Corporate, da Editora Abril, retirou do ar sem mais nem porque uma entrevista com o Ricardo Semler. O título da matéria era “Cio pra quê?“. Fiquei sabendo do caso pelo bafafá gerado no Twitter. E como tudo que pinta na Internet fica registrado de uma maneira ou de outra, consegui ler o bate papo com o Semler. Ele não fala nada muito diferente do que já falava em 1988, neste “Virando a Própria Mesa“.

    Semler 2010: “Há 15 anos eu gostava de dizer que um computador não passava de uma televisão em cima de uma máquina de escrever, e, hoje, 40 gigas depois, continuo achando algo parecido. Precisamos dele? Sem dúvida, para arquivar dados, compartilhá-los etc. Mas isso nós fazemos e é simples. O pessoal de TI é que complica. Duvido que existam empresas que se dão bem por causa da TI. As empresas se dão bem por causa dos seus produtos, de seus momentos. A TI vai de roldão.”

    Semler 1988: “Se você ainda vive na aflição de saber se o PC-XT é melhor que o AT, se o Lotus 1-2-3 versão 2.0 está obsoletado pelo 2.1, e se o míni vai ser comido pelo supermicro, abra a janela e espante os fantasmas. Cuide de vender, fabricar e atender bem o cliente. Lembre-se que a informática é uma televizãosinha em cima de uma máquina de escrever e desencante de vez. Desapareça com os salários superdimensionados do pessoal de sistemas, e dê um emprego honesto para eles em vendas ou na produção. Ser uma empresa ‘informatizada’ é o mesmo que querer ser uma empresa ‘máquina-de-escreverzada’. Use o avanço tecnológico. Use tudo que há de novo (e há muito todos os meses), mas deixe a informática em seu devido lugar, que é afundada e esquecida dentro das operações do dia-a-dia da empresa. Feche os olhos e cante a receita do antídoto da Maga Patalógica:

    Coruja peripática
    Moscas no dedal
    Faça a informática
    Cair na real!”

    Maga Patalógica?!? Hehe… É claro que o livro do Semler não é muito ‘normal’.

    Indicações: Burocratice crônica, estressite aguda, hipertensão administral e hipertrofia organizacional.

    Contra-indicações e reações adversas: Durante a leitura podem surgir crises de urticária, subidas abruptas de calor menopáusico, inchaço de olhos esbugalhados, insônia diurna, distúrbios gastrintestinais, taquicardia, palpitações sem palpites e, principalmente, dor de cabeça.

    Indicações e contra-indicações redigidas pelo próprio autor na abertura do livro, onde ele alerta que “cada 0,1mg de sarcasmo contém meia verdade”.

    Outras provocações:

    “Copiar cultura de empresa bem-sucedida é grau 8,5 de miopia.”

    “O crescimento não é finalidade – é meio.”

    “Quem planeja é quem vai executar!”

    “Nada é mais medieval na empresa de hoje do que as exigências da empresa em relação a roupa e conduta.”

    “Se não há erros constantes, não há aprendizado e, provavelmente, não há muita decisão.”

    “Para que um cliente tenha sempre razão é essencial que todo ser humano também tenha, sempre. Ou será que quando o ser humano se veste de cliente ele se transfigura num sábio defensor da justiça?”

    “Dizer para um operário que a tarefa dele é produzir, e dizer para outra pessoa que a sua tarefa é verificar se o que foi feito tem qualidade é um contra-senso. Não existe sensatez em produzir por produzir. Só existe produzir com qualidade como meta. E quem é a pessoa melhor aparelhada para garantir a qualidade da produção? A pessoa que faz.”

    “Não existe nada tão temporário quanto um programa permamente de redução de despesas.”

    “Um sim é sempre um sim. Um não é um talvez.”