Categoria: A Gente

A gente – precisa dizer mais?

  • Uma Carreira Viável

    Uma Carreira Viável

    Dentre as várias coisas tristes que nos rodeiam, uma é frequente e bastante incômoda. São aqueles pedidos de socorro que surgem nas redes sociais, particularmente no LinkedIn. Saltam aos olhos por atrapalhar o tráfego de conquistas e anúncios, pelo número de compartilhamentos e, principalmente, pelo desespero confessado sem rodeios. Em sua maioria, são mensagens de mães e pais de família. Gente que há meses garimpa oportunidades. Elas causam um choque diferente daquele que sentimos nas ruas. Paradoxalmente, ele parece mais próximo. Porque, de certa maneira, nossos contatos nos espelham.No curto prazo, não há muito o que fazer. Compartilhar o apelo; indicar para amigos; ajudar a revisar o currículo; oferecer vagas em treinamentos. Além, claro, da palavra amiga, um incentivo e algum conforto. A situação pede urgência e não há tempo e muito menos ânimo para conversas chatas do tipo “sua carreira é viável”? Remediado o caso, ainda que com um frila-band-aid, podemos puxar o assunto. E é inevitável o começo pelas más notícias.

    A médio e longo prazos, várias profissões deixarão de existir ou serão totalmente redesenhadas. Em que pé anda a sua? Fazendo a análise proposta neste artigo, quantas tarefas sobrevivem aos movimentos de padronização, automação e externalização?

    Além disso, considere o seguinte: as empresas estão aprendendo a se virar sem aquele pessoal que foi demitido. Nossa economia vai se recuperar uma hora¹. Quando acontecer, é pouco provável que todas aquelas vagas sejam reabertas. Apenas um salto absurdo e quase instantâneo do PIB justificaria contratações em massa. Isso não vai acontecer, seja qual for o salvador da pátria escolhido no ano que vem. A recuperação será lenta. E é preciso aceitar que alguns postos de trabalho se foram para sempre. Quem está escrevendo isso é tido como um otimista incurável. Que a sequência do artigo comprove isso.

    Redesenhando a Carreira

    Nossa evolução, até aqui, significou um emaranhado de silos e caixinhas. Se você quer se especializar em alguma coisa, tem à sua disposição um cardápio com mais de oitenta mil disciplinas. As organizações – sejam elas públicas, privadas ou do terceiro setor – oferecem milhares de funções diferentes. A princípio, não há nada de mal nem de errado nisso. Se você precisar de uma cirurgia no cérebro, é lógico que não vai se contentar com um clínico geral. Especialistas, em qualquer área, continuarão necessários.

    Mas a especialização não basta. Ela não é suficiente para garantir uma carreira viável. Você já viu esse papo antes, sobre a tal carreira em T. O traço vertical indica uma especialização. Na horizontal, seus “conhecimentos gerais ou genéricos”. É fácil chegar até essa sugestão. Mas precisamos ir além da página três. Afinal, o que significa a horizontal? Que você é culto, eclético e está em dia com as notícias? A visão holística² de um negócio? Que garantia isso dá para um profissional? Onde se aprende isso? Basta ser curioso, atento e antenado?

    O Complexo do Eco³

    “Quanto mais coisas uma pessoa sabe, menos coisas deram certo para ela.”

    Umberto Eco nos deixou essa provocação em seu último livro publicado em vida, Número Zero (Record, 2015). Conclusão curiosa de um bem sucedido sabedor de muitas coisas. Nos serve como alerta: amplitude de conhecimentos e experiências não se constrói com uma metralhadora giratória. Não é uma questão de agregar hobbies e interesses diversos ao currículo. Não basta prestar serviços comunitários ou conseguir uma cadeira em um conselho de administração. Mas eu não estou sugerindo que você seja um porco-espinho³.

    Quanto tempo você tem de estrada?

    Se já rodou bastante, saiba, você pode ter algumas vantagens. Aliás, várias. Qual é o seu portfólio de habilidades? Quais e quantas você conseguiria transferir para outro contexto – para uma área que não seja a sua? Quantas vezes você experimentou isso? Entenda: é explorando que você desenha e amplia o traço horizontal do T. Tem uma vida dedicada à iniciativa privada? Quais conhecimentos e habilidades seriam úteis na administração pública ou em uma ONG? Passou uma vida inteira no varejo? O que você pode agregar para a indústria ou para uma empresa de serviços? Está enferrujado na contabilidade? Que tal uma transferência para TI? O que você pode levar para lá?

    Você não é o sênior que de repente virou estagiário porque mudou de área ou função. Se os seus conhecimentos, habilidades e ferramentas não fizerem nenhum sentido naquele novo contexto, então você não está desenhando um T. Está colocando uma trema no Ï. Pode ser divertido. Se é isso o que você procura, tudo bem. Mas não se esqueça que a ligação de pontos muito esparsos pode não ser trivial nem factível.

    Então é isso, uma questão de levar uma mochila repleta de habilidades para outras áreas? Claro que não. Esse é o ponto de partida, não o de chegada. Quem faz esse movimento deve estar preparado para aprender muito. E rápido. Fazer com que essa aprendizagem signifique a ampliação dos dois traços do T é o desafio.

    E a turma nova? O que significa uma carreira em T para quem está começando agora? A possibilidade de expandir as duas linhas de forma quase simultânea. Entretanto, há duas grandes barreiras no caminho: a escola e a empresa. A escola força uma escolha muito cedo e te joga num silo quase sempre hermético. As empresas contratam e continuarão contratando especialistas. Ou seja, se você deseja ter formação e carreira mais amplas – um T ao invés do I –  não conte com muito apoio. A iniciativa deve ser sua. E o plano também.

    Conversaremos sobre isso no próximo artigo. Inté!

    Notas

    1. Infelizmente, pelo andar da carruagem, não é sensato apostar em ganhos significativos até 2020. Quem comemora a criação de trinta ou quarenta mil vagas em um mês parece se esquecer do universo com 14 milhões de desempregados. Alguém aí comemorou o nosso gol no fatídico 7×1?
    2. O termo “holístico” dá margem (!) para muitas interpretações. Ao falar de uma visão “do todo”, o universo é o limite para muita gente. Saber delimitar ou identificar fronteiras é uma característica chave do Pensamento Sistêmico. E um antídoto contra papos viajandões.
    3. Interpretação minha, ok? Eco não batizou nem qualificou aquela conclusão. Utilizo “complexo” no sentido psicológico – “sou complexado”. Este artigo de Victor Lisboa, no Papo de Homem, sobre o porco-espinho e a raposa, estica bem o assunto.
    4. T, de crodriguesc, ilustra este artigo.
  • Pelo Prazer de Trabalhar

    Pelo Prazer de Trabalhar

    Quando foi a última vez que você fez ou aprendeu algo e nem viu o tempo passar? Esses momentos de total concentração e êxtase lhe são comuns? Você consegue repeti-los de forma sistemática no trabalho? A grande maioria responde não para as duas últimas questões. Triste, considera estranha ou até indevida essa mistura de prazer e gozo com aprendizagem e vida profissional. “Onde já se viu?”Vemos essa combinação com grande frequência. Mas ela aparece em campos que muitos nem consideram profissões. Lembre-se da explosão de um jogador de futebol; da concentração de um ator; do voo de um guitarrista durante um solo. Oras, o que nos impede de trocar esses personagens por um engenheiro, um médico e um advogado? Parafraseando Ackoff, malditos sejam aqueles que ergueram muros entre aprendizagem, diversão e trabalho¹. Não era para ser assim. E, se quisermos uma carreira viável, não pode mais ser assim.

    Gary Hamel, em O Que Importa Agora? (Campus, 2012), sugere uma hierarquia das capacidades humanas. De baixo para cima: Obediência, Zelo, Expertise, Iniciativa, Criatividade e Paixão. Se tudo o que você tem a oferecer concentra-se nos três primeiros itens, preocupe-se. Atividades que pedem “só” por isso já foram padronizadas, terceirizadas e automatizadas. Agora, são externalizadas². Sem exagero: não há futuro aqui. Cruze isso com a proposta de reforma da previdência e descabele-se.

    Não há atalhos para esse novo mundo do trabalho. Mas existe um caminho. Aliás, um FLUXO.Aqueles com pequena bagagem em termos de conhecimentos e habilidades estão: 1) apáticos – se pouco desafiados; 2) preocupados; ou 3) ansiosos – se o tamanho dos desafios é inversamente proporcional às suas capacidades.

    Kevin Kelly, em The Inevitable (Viking, 2016), diz que nesse novo mundo somos todos iniciantes. Mas a população nesses três cenários já é imensa. E insatisfeita pra chuchu, como provam várias pesquisas. Quem está bem municiado mas é pouco desafiado vive no tédio ou, pior ainda, trata seus afazeres com arrogância e desdém. Perigosa “zona de conforto”, familiar aos que se sentem no controle. Pense naquele sujeito que diz ter dez ou vinte anos de experiência.  Meça até que ponto não seriam dez ou vinte anos da mesma experiência. Essa sensação de controle é ilusória. Uma troca de tecnologia e pimba – olha um estagiário novo aí gente!

    O controle, assim como a excitação, pode ser salutar. Desde que a pessoa saiba para onde precisa e quer ir. Essa enxurrada de coaches, mentores e livros que prometem ajudar na definição do sentido da vida nos permite desconfiar que o número de profissionais sem mapa nem bússola é grande e só faz crescer. Sem julgamento de valor, por favor. Como colocou Tom Peters, “quem não está confuso não está prestando atenção”.

    No mundo ideal somos todos FLUENTES. Nossos conhecimentos e habilidades mantém um equilíbrio dinâmico com os desafios apresentados. Insisto: dinâmico. Não há linha de chegada. Mas há conforto e prazer nessa zona. Ou, como lista o autor desta teoria – Mihaly Csikszentmihalyi³, quando no fluxo nós temos:

    • Concentração total;
    • Sensação de êxtase;
    • Muita clareza de propósito;
    • Confiança em nossa capacidade;
    • Serenidade; e
    • Motivação intrínseca: o que criamos é a nossa principal recompensa.

    Por isso, nem vemos o tempo passar. É sensação equivalente aos prazeres mundanos e carnais. Porque, quando em fluxo, ativamos os mesmos mecanismos cerebrais. Porque, como coloca Daniel J. Levitin em A Mente Organizada (Objetiva, 2014), recebemos “agradáveis doses de dopamina”. Mais que isso: também desativamos a parte do córtex pré-frontal responsável pela autocrítica e a amígdala, a parte do cérebro que nos deixa com medo. Enfim, sem a intenção de cometer qualquer heresia: o Fluxo é quase um nirvana, quase um orgasmo.

    Podemos levar isso para o trabalho? Podemos fazer disso uma rotina? Honestamente, eu acho que deveríamos. Se não pelas razões acima, então pelo simples fato de que quase todos os outros trabalhos serão delegados para quem não cria, não procria e nem se apaixona.

    Merchandising

    Já tem um tempinho que tento transferir o FLUXO para meus treinamentos. No próximo artigo vou mostrar como ele se transformou na espinha dorsal da OPA! Oficina de Projetos de Aprendizagem. E mais: como ele combina muito bem com o Scrum.

    Notas

    1. Ackoff’s Best – Russell L. Ackoff (Wiley, 1999).
    2. Falo um pouco mais sobre isso em O Futuro das Profissões.
    3. Taí um nome – Mihaly Csikszentmihalyi – que nunca arriscaria dizer em sala ou em qualquer outro lugar. Mihaly é húngaro e apresentou sua teoria em Flow: The Psychology of Optimal Experience (Harper & Row, 1990). Há um belo resumo na forma de uma palestra para o TED (Fluidez – o segredo da felicidade).
    4. Entre a ideia para este artigo e a revisão final gastei pouco menos de duas horas. Não vi o tempo passar. E quase dei um soco no ar ao reler o penúltimo parágrafo. Antes de taxar isso como uma besteira, pense no que te deixa feliz. Tem criação ali, não tem?
    5. Flow – 02, a primeira imagem lá em cima, foi rabiscada por Eva-Lotta Lamm enquanto ouvia ou lia Mihaly. Ela compilou livros com resumos e rabiscos semelhantes. Criativa sacada!
  • 2017

    2017

    Mente curiosa a nossa. Uma simples mudança no calendário afeta ânimos, gera otimismo. Muita gente não vê a hora de comemorar a chegada de 2017. Na verdade, torcem mesmo é pelo fim do acelerado e acidentado 2016: já vai tarde!

    Mas a nossa mente tupiniquim tem uns hábitos meio inexplicáveis. Parece haver um limbo entre o réveillon e a quarta-feira de cinzas. Dias e dias em que quase tudo é adiado porque um acordo tácito definiu que, por aqui, o ano só começa depois do carnaval. Sabe-se lá quantos décimos de PIB isso nos custa.

    Calendários e relógios são sistemas que inventamos para colocar alguma ordem em nossas vidas. Mas eles não deveriam ditar o nosso humor. Além disso, você assinou o Tratado do Limbo Pré-Carnaval? Nem eu. Causa perdida?

    Pode ser. Por isso inventei um novo calendário para o finito: já estamos em 2017 e o carnaval já passou. As datas na agenda ao lado refletem o calendário tradicional, para evitar confusão. Mas, saca só como o ambiente está diferente, mais arejado e colorido. Dá uma passeada pela casa e veja o que há de novo.

    Aliás, feliz ano novo!

    Mais tarde, num boteco

    Pô, mas é fácil assim? Então porque não fazer de conta que já estamos em 2018?

    Vish, de jeito nenhum! É ano de eleição, esqueceu?

    E de copa…

    Pois é, melhor tirar o máximo de 2017 mesmo. Tim-tim!

    Demorô! Tim-tim!!

  • O Futuro das Profissões

    O Futuro das Profissões

    Muito se fala sobre um mundo sem emprego. Indicadores atuais, do Brasil e do mundo, mostram um cenário preocupante. Se eles sinalizam uma  tendência, o horizonte aparece bem feio. O futuro, nosso e das próximas gerações, será mesmo de desemprego em massa? Existem profissões imunes? O que pode e precisa ser feito hoje?

    Copo Bem Vazio

    Ninguém corre o risco de soar ridículo ao sugerir que em 5 ou 10 anos não precisaremos mais de caminhoneiros e taxistas. Quem dirigir veículos o fará por esporte ou vício. Operadores de telemarketing? Entre 60% e 80% dos postos devem ser eliminados em poucos anos. Cinco mil robôs cuidam do estoque, logística e remessa em centros de distribuição da Amazon. Drones já fazem entregas?!?

    Engana-se quem acha que apenas os trabalhos rotineiros e que exigem pouco do cérebro são passíveis de automação. Advogados, médicos, jornalistas e arquitetos, por exemplo, testemunham um redesenho radical de seus trabalhos. Sistemas já são capazes de orientar peças de acusação ou defesa, debruçando-se sobre infinita jurisprudência (Big Data). Vestíveis e ingeríveis (Internet das Coisas) geram montanhas de dados que desconcertam médicos. Máquinas (Inteligência Artificial) serão mais eficientes e eficazes nos diagnósticos e prescrições. Aliás, elas realizarão a promessa da medicina preventiva. Algoritmos já escrevem matérias jornalísticas. Desenhar prédios e imprimir boa parte deles? Já está acontecendo.

    Big Data, Internet das Coisas e Inteligência Artificial são os monstros tecnológicos mais citados quando falamos sobre o futuro do trabalho. Parece não haver nenhuma profissão imune. Nem mesmo aquela que tem fama de ter sido a primeira.

    Decomposição Funcional

    Não deveríamos tratar as profissões como um todo se a intenção é desenhar seu futuro, seja no curto, médio ou longo prazos. Como sugerem alguns trabalhos recentes¹, faz muito mais sentido olhar para o conjunto de tarefas executado em determinada ocupação. Uma tarefa é uma unidade de trabalho bem definida². Decomposição funcional? Sim, porque só assim conseguimos fazer a seguinte avaliação.Uma tarefa artesanal (ainda) pede pelo toque humano. Não se encaixam aqui apenas os trabalhos que exigem destreza manual, mas todos que requerem empatia e criatividade. Como as saídas são diferentes e de certa forma únicas, concluímos que esses trabalhos não são rotineiros.

    Aquilo que é rotineiro é passível de padronização. Guias, checklists, modelos (templates), receitas e procedimentos são formas de padronizar a execução de uma tarefa. Uma vez padronizada, a tarefa pode ser facilmente ensinada e distribuída.

    É natural que aquilo que passou pelo estágio anterior seja sistematizado. Trata-se da aplicação de tecnologia mais sofisticada para uso pelo próprio profissional ou pela organização.

    Nos três primeiros passos, o trabalho ainda é do profissional ou da organização que o emprega. Claro, inserimos aqui os terceirizados (estejam onde estiverem). No último passo a tarefa vai para as mãos de clientes, curiosos, leigos etc. É o que chamamos externalização. Lembre-se, por exemplo, de quanto trampo os bancos passaram para a nossa alçada. Check-ins automáticos em hotéis e aeroportos e tudo o que se apresenta como autosserviço online são casos de tarefas externalizadas.

    Não há um início fixado e a progressão não precisa ser linear. Ou seja, uma tarefa já pode nascer externalizada. Pense no chamado de um carro do Uber, por exemplo.

    Se não todas, a grande maioria das profissões pode ser estudada assim, como conjuntos de tarefas ou trabalhos (jobs). E são raros os casos onde uma profissão completa se encaixa em apenas um dos estágios de comoditização. Se for o caso, quanto mais à direita no gráfico, menor o salário e maior o risco de extinção.

    Profissões são Meios

    As profissões são a forma que inventamos para disponibilizar conhecimento especializado. Ou seja, conhecimentos e habilidades não são apenas requisitos para o desempenho de uma profissão. São seu objetivo principal. A sociedade nos autoriza, assim como faz com empresas, a resolver problemas. Portanto, profissões são meios, nunca o fim.

    E o que está acontecendo? Uma perfeita tempestade deflacionária³. A sociedade está encontrando meios mais eficazes e baratos de resolver problemas. Meios que driblam ou confrontam o monopólio das profissões. Serviços que desmistificam papéis e aumentam consideravelmente o número de pessoas que podem ter acesso às soluções. Sejam elas médicas, jurídicas, educacionais, arquitetônicas etc. Por isso estaríamos caminhando para uma sociedade pós-profissional.

    Copo Meio Cheio

    Essa revolução não acontecerá do dia para a noite. Mas, ao que tudo indica, ela já começou. E caminha a passos largos. A resistência através de leis e cercadinhos não terá efeitos duradouros. Discursos empolados e repletos de neologismos e jargões surtirão efeito contrário – aumentarão o ímpeto pela desmistificação daquele trabalho. Como bem escreveu Joshua Cooper Ramo, “forças estão eliminando um sistema. Mas também estão produzindo outro.”³

    Nós, de negócios e TI, participamos ativamente dessa transição. O que se questiona, com muita razão, é o  quão conscientes e consequentes estamos sendo. Vislumbrar apenas o próprio umbigo não seria uma atitude muito inteligente. E pensar que nossas próprias profissões estariam salvas é ilusão bastante perigosa.

    O que pode ser pensado e o que precisa ser feito?

    Há as questões morais amplas, que deveriam ser feitas por todo mundo. A principal delas talvez seja: “qual futuro queremos para nós, nossos filhos e netos?” Está longe do escopo deste artigo propor respostas.

    Restam as questões mais pragmáticas. Quantas de nossas tarefas seguem o inevitável caminho da comoditização total? Quais seguirão artesanais em médio e longo prazos? Elas serão suficientes para garantir determinado nível de renda? Quanta oferta delas existirá? Quais outros trabalhos eu posso vislumbrar? E quais habilidades e conhecimentos são necessários para desempenhá-los? Serei nessas tarefas melhor que uma máquina?

    Encerro com uma desconfiança bem mineira: quem tenta trabalhar como uma máquina já perdeu o jogo.

    Notas

    1. The “Task Approach” to Labor Markets: An Overview (pdf)
      David H. Autor, 2013
      The Future of the Professions
      Richard e Daniel Susskind (Oxford University Press, 2015)
      Este artigo é quase um resumo do livro acima. Fiquei ainda mais assustado do que estava, mas concordo com a tese dos autores.
    2. Quando falo sobre Processos de Negócios, ensino que uma tarefa é indivisível. Na decomposição proposta acima uma tarefa pode ser quebrada. No flit eu uso o termo trabalho (job) ao invés de tarefa. Exatamente para evitar esse tipo de confusão. Veja, por exemplo, que um Analista de Negócios pode assumir 8 trabalhos essenciais. Quais deles podem ser externalizados? Bom exercício.
    3. Mais assustador que o livro dos Susskind é The Seventh Sense, de Joshua Cooper Ramo (Little, Brown & Co., 2016). Não por acaso é o livro mais citado neste artigo da McKinsey (What CEOs are Reading). Não trata apenas de trabalho, mas dessa traumática passagem do mundo para a Era das Redes. É para estômagos fortes e mentes abertas.
    4. Uma olhada no futuro igualmente dramática mas menos pessimista é oferecida por Kevin Kelly em The Inevitable: Understanding the 12 Technological Forces That Will Shape Our Future (Viking, 2016). Como já havia colocado numa rede social, parece até uma nova versão de A Vida Digital, de Nicholas Negroponte (Companhia das Letras, 1995). É tão provocativo e esclarecedor quanto.
    5. glass half full é o título da imagem de hoje. Compartilhada via flickr por David Shores.
  • Mal Educados

    Mal Educados

    Hoje comemoramos o Dia Mundial da Educação. Comemoramos? Como ninguém ganha dinheiro com isso – com a data – você não deve ver muita coisa por aí. Aqui, uma pequena anticomemoração. Provocações surrupiadas de três caras mal educados.

    Peter Drucker

    A primeira coisa a ser dita – e que vale a pena repetir – é que o sistema educacional não está em crise por ter piorado subitamente. O sistema educacional está em crise porque seu papel para o indivíduo e para a sociedade mudou radicalmente, porque ele passou a ser muito mais importante do que jamais foi.

    O “aprendizado” é um processo que ocorre ao longo de toda a vida e não no limbo especial para aqueles velhos demais para “brincar” e os novos demais para “trabalhar”.

    A “escola”, como a instituição na qual se “aprende” – enquanto em todos os outros lugares se “faz”, independentemente de se “brincar” ou “trabalhar” -, está se tornando indefensável.

    O aprendizado de amanhã, da pré-escola até a educação continuada mais avançada para adultos, utilizará e aplicará o ritmo do próprio indivíduo, sua própria velocidade de aprendizado, seu próprio padrão.

    Em seus métodos, a escola de amanhã não será “comportamental” nem “cognitiva”, não será “centrada na criança” nem “centrada na disciplina”. Ela será eclética. Para aprender tudo, precisamos da tríade comportamental de prática, reforço e feedback. De outra forma, tudo o que tentarmos aprender nunca será alojado na memória de longo prazo e nunca será aprendido.

    Russel Ackoff

    Muitas escolas colocam uma tampa na cabeça das crianças. Curiosidade e criatividade são suprimidas. Aprendizado é confundido com memorização, convertido em trabalho e distanciado da diversão. São poucos os que conseguem reunir trabalho, divertimento e aprendizado em fases futuras da vida.

    A escola de hoje é modelada como uma fábrica. O estudante que chega é tratado como matéria prima que deve entrar em uma linha de produção e ser convertido em um produto final. A matéria prima é muito variada mas o processo é uniforme. O sistema tenta minimizar a variedade para manter os custos de produção bem baixos. O processo educacional é considerado um sucesso se o produto final for vendido bem caro. O sistema até estampa marcas e números em seus produtos.

    Escolas são organizadas em torno de disciplinas. É uma maneira conveniente de rotular e “entregar” conhecimento. Mas o mundo não é organizado da mesma maneira que as escolas. Não existem problemas de física, química, biologia, psicologia, sociologia etc. Nomes de disciplinas depois da palavra “problema” não revelam absolutamente nada sobre o problema; revelam apenas o ponto de vista que quem o observa.

    A educação da Era dos Sistemas não deve ser organizada em torno de disciplinas rigidamente definidas e distribuídas em um calendário. Ela deve ser orientada a desenvolver o desejo de aprender e as habilidades necessárias para tal.

    A educação da Era dos Sistemas é um sistema que aprende e se adapta.

    Ricardo Semler

    Se eu fosse estudante hoje faria milhares de bótons com a hashtag #chegadetortura para ostentar na sala de aula. Hoje, terça-feira (28), é o Dia Mundial da Educação, e cá estamos nós tentando melhorar a gestão – reciclagem e firulas – de um sistema medieval.

    Paremos de culpar professores, acusando-os de corporativistas e letárgicos. Cessemos o giro da engrenagem da tortura que mói os alunos, vítimas da ditadura das aulas maçantes. O conceito da escola atual caducou. Fim.

    A escola que temos é resultado da ideia iluminista de que tudo precisa ficar guardado na cabeça. Na era do Google, é um crime insistir no método da decoreba. Argumenta-se que a meninada está aprendendo a aprender. Que balela: quem tem filho sabe que eles aprendem a andar e até a falar sem ajuda – já chegam de fábrica com a capacidade de aprender a aprender.

    O tal de mercado de trabalho, então, é um algoz de pijama. Ou alguém acredita que passar por uma escola rigorosa, usar uniforme e decorar a tabuada prepara alguém para trabalhar nos Instagrams da vida? Queremos preparar nossos filhos para trabalhar na General Motors de 1952?

    Notas

    1. As palavras de Drucker são de uma palestra de 1971. Estão disponíveis em Drucker em 33 Lições (Saraiva, 2011).
    2. O artigo original de Ackoff é de 1974 e pode ser encontrado em Ackoff’s Best (Wiley, 1999).
    3. A “colaboração” do Semler foi surrupiada de um artigo publicado na Folha de São Paulo de hoje, 28/abr/2015.
    4. Na Escola Rural” é o nome da foto, compartilhada no Flickr por Eduardo Amorim.
    5. Mais uma longa greve de professores. Luan Santana cantando “Another Brick in the Wall pt. 2”. O bilionário mais besuntado de Pindorama tentando comprar outra escola. Papais conferindo o cardápio “orgânico” (nada daquele ketchup!!) e o CV da professorinha de dança. São algumas paisagens com a hashtag #EducaçãonoBrasil.
  • 260 Dias de Solidão

    260 Dias de Solidão

    Muito tempo se passou desde o último post. Em eventos, botecos e contatos virtuais tentei responder a variações da mesma pergunta: “você parou de escrever?” Não, não parei. Mas em cada ocasião dei respostas diferentes. Porque não tinha uma razão clara para a interrupção dos escritos. Acho que agora tenho. E não é apenas uma.

    O finito completará dez anos de “vida” no próximo dia 17 de maio. É muita idade para um blog? Parece que sim. Uma pesquisa rápida me mostrou que 70% dos blogs que acompanho não são atualizados há mais de dois anos. Também deixei pelo caminho quatro blogs. Não é questão de “fogo de palha”. Não apenas. Acontece que algumas missões e propostas perdem o sentido depois de certo tempo. Seria o caso do finito?

    Definitivamente, não. Mas a data (a comemoração dos dez anos) e a consciência da exceção (poucos blogs chegam até aqui) forçaram algumas reflexões. Faz sentido seguir entregando mais do mesmo? Artigos longos e séries intermináveis são bons provocadores de conversas? Quais temas alcançariam mais pessoas? Quais questões motivariam mais e melhores interações?

    Antes de arriscar qualquer resposta, uma conclusão: preciso escrever melhor. Não posso me contentar com uma nota cinco. Passei boa parte dos últimos duzentos e sessenta dias estudando a Arte da Escrita. Estou viajando da gramática básica até trabalhos sobre estrutura, substância e estilo. Foi desconcertante descobrir como escrevo mal. Estou ciente de que tenho um longo e infinito caminho pela frente. Se já aprendi alguma coisa é que preciso praticar. Muito.

    Porque todos os outros planos, pequenos ou grandiosos, dependem do aperfeiçoamento dessa habilidade que subestimo há tempo. O finito segue sua sina de ser “caixa de areia”. E eu seguirei contando com suas críticas e sugestões. Além da paciência, é claro.

    A imagem acima é uma das ilustrações que o artista argentino Carybé fez para Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Minha humilde homenagem ao cara que colocou a América Latina no mapa da literatura mundial.

  • O País do Jeitinho não Inova

    O País do Jeitinho não Inova

    Lá nos primórdios do Twitter eu escrevi: Chega com esse papo de povo criativo. Somos uma nação de MacGyvers que inventa gambiarras para sobreviver. Criatividade é outra coisa. De lá pra cá, um ou outro exemplo tentou contradizer meu tuíte. Mas foram poucos, raros e ralos. Na última quarta a Folha quase escondeu a notícia que mostra como Pindorama perdeu 32 posições no ranking que mede eficiência em inovação. O Brasil agora é o 39º colocado. China e Índia lideram a lista. Na nossa frente: Paraguai (6º), Estônia (8º) e Sri Lanka (10º), só para citar alguns exemplos. No índice geral, entre 141 países, ocupamos agora o 58º lugar. Perdemos no jeitinho, perdemos no futebol¹. O que deve preocupar é que podemos estar perdendo o futuro.

    O estudo resumido pela Folha, o Global Innovation Index, é elaborado anualmente pelo Insead (instituto europeu de ensino) e pela WIPO (Organização Mundial de Propriedade Intelectual). O índice leva em conta sete critérios:

    • Instituição: Ambientes político, regulatório e de negócios;
    • Capital humano e pesquisa: Nível da educação, ensino superior e pesquisa e desenvolvimento;
    • Infraestrutura: Tecnologias da informação e de comunicações, infraestrutura geral e sustentabilidade ecológica;
    • Sofisticação de mercado: Crédito, investimento, transações e competição;
    • Sofisticação dos negócios: Trabalhadores do conhecimento, conexões inovadoras e absorção de conhecimento;
    • Conhecimento e tecnologia: Criação, impacto e difusão de conhecimento; e
    • Criatividade: Intangíveis (marcas e modelos de negócio), bens e serviços e criatividade on-line.

    Nossa mídia endireitada e viciada, se preocupada com o tema, apontaria o dedão para o governo. A Folha, por exemplo, ao exibir o critério Infraestrutura cita “custo de energia”. Não é isso que é medido no estudo e sim a geração e consumo de energia per capita. No mesmo critério ela ignora o subitem “sustentabilidade ecológica”. Por essas e outras ela nem se preocupou em divulgar o link para acesso (gratuito) ao estudo: globalinnovationindex.org

    É claro que o governo tem uma parcela de responsabilidade quando o assunto é inovação. Mas, a menos que estejamos em um lugar estranho como a Coréia do Norte, inovação é coisa da iniciativa privada. São as empresas as principais fontes de inovação. Simplesmente porque são ou deveriam ser as maiores interessadas. Não por acaso, os quatro últimos critérios da lista acima apontam exclusivamente para o mercado e os negócios.

    Inovação está no discurso de todo mundo, até de empreendimentos de fundo de quintal. É chique – está na moda falar sobre inovação. Mas olha que coisa curiosa eu descobri no Google Trends. Pensei em um bom contraponto para Inovação (linha azul no gráfico ao lado). Tentei estabilidade. Para minha surpresa, ela é tão ou mais relevante que inovação nas buscas e notícias indexadas pelo Google. Veja a pesquisa original e repare, por exemplo, nas diferenças entre minha conservadora Minas Gerais e o inovador Rio Grande do Sul. Ou compare Caxias do Sul com Manaus. Dá o que pensar.

    Berço

    É lugar comum apontar para nosso sistema de ensino e dizer, está ali a origem de nossos problemas (independente de quais sejam). Isso é fácil. Como é fácil sugerir soluções simplistas do tipo “queremos uma lei que obrigue os governos a investir 10% do PIB na educação”. Se o problema fosse (só) a falta de grana, ficaríamos bonitos no pedaço em curtíssimo prazo. O buraco, incomensurável, é mais embaixo.

    Vimos nos últimos dias alguns estudantes revoltados com a greve nas Universidades federais. Oito em cada dez entrevistados estavam preocupados com a liberação dos documentos necessários para efetivação em cargos que eles conseguiram em concursos públicos. Não é curioso que grande parcela da mesma classe que reclama do estado glutão planeje para si e seus filhos uma vida estável em trincheiras do governo? Não discuto vocações. Mas também não engulo contradições e hipocrisia.

    Uma frase pinçada do ótimo A Rede Social, de David Fincher, ilustra bem o outro extremo, uma possibilidade raramente ensinada e motivada em terras tupiniquins: “Estudantes de Harvard acreditam que inventar um trabalho é melhor que encontrar um trabalho“. Não vejo uma única instituição brasileira gerando esse tipo de efeito colateral. Se pouco e mal semeamos, não são as secas e chuvas as culpadas por colheitas tão ruins.

    Contatos recentes com Universidades daqui de minha terra me deram exemplos da cultura da estabilidade. Unidades de TI, inclusive uma encubadora de negócios, envolvidas com a obtenção de certificados MPS.br. Nada mais anti-inovação – nada pode ser mais quadrado. Inovação pede, entre outras coisas, instabilidade, diversidade e inconformismo. Infelizmente, não parece ser o que nossas escolas estão fomentando. Apesar de 48% dos estudantes, segundo pesquisa da Endeavor publicada no início deste ano, pensarem em ser empreendedores.

    Creche

    Quantas vezes ouvimos empresários ou seus representantes reclamando da falta de mão de obra qualificada no Brasil? Quantos desses chorões investem seriamente em capacitação? E quanto eles investem? Respectivamente: n vezes; 52%²; nem Google sabe.

    Empresas sinceramente preocupadas com seu futuro não devem aguardar por mudanças no sistema de ensino. Porque, se elas acontecerem, terão reflexo apenas em médio ou longo prazos. Existe o atalho da importação de mão de obra especializada. Mas é ingênuo quem acredita que possa importar 800k, 200k ou mesmo 100k³ trabalhadores do conhecimento. Vão esperar cair do céu?

    O Global Innovation Index mostra outro número que deveria nos (des)orientar. Entre todos os nossos empregos, apenas 19,3% correspondem a “vagas que exigem conhecimento intensivo” (menos da metade da média européia). Isso nos coloca na 72ª posição do ranking global. Temos tão pouco “trabalho do conhecimento” e ainda assim não somos capazes de formar o pessoal necessário? É Ultraje, continuamos inútil!

    Apenas 40% dos nossos esforços em Pesquisa & Desenvolvimento são tocados pela iniciativa privada. Ela financia quase 44% dessas iniciativas torrando uma esmola de aproximadamente R$ 22 bilhões. Sim, esmola. As 500 maiores empresas tupiniquins, segundo a Exame Melhores e Maiores de 2011, faturaram R$ 2,6 trilhões em 2010. Zero vírgula oitenta e cinco porcento de qualquer coisa é esmola.  E o que aconteceria se tirássemos da conta Petrobras e Embraer?

    Futuro

    A única conclusão possível é que o país do futuro não se preocupa com o próprio futuro. No berço – nas escolas – não é ensinado a inovar e empreender. Na creche – nas empresas – não é motivado a criar. Adulto imaturo, vive de trocar o finito patrimônio por serviços, royalties e bugigangas de qualidade questionável. Insustentável sob qualquer ponto de vista.

    Futuro – Final Alternativo

    Sistemas, nações, organizações, governos, mercados e empresas são abstrações que, entre outras coisas, não têm peso na consciência nem sabem o que é remorso, arrependimento. O quanto você, eu e a Dona Carochinha estamos inovando? Quanto estamos investindo em aprendizagem, pesquisa e desenvolvimento? Como recebemos e incentivamos novas ideias?

     

    Notas

    1. Claro que não me referi ao vitorioso Timão. Em outro ranking – o da FIFA, que mereceu mais destaque na mídia que o da inovação, a seleção canarinho aparece em 11º lugar! Há tempos não somos o país do futebol. E a mentira do jeitinho brasileiro cai pelas tabelas. Ainda bem que ainda somos os maiores vendedores de cerveja do mundo, né? De cerveja, chinelinhos e de um ou outro avião (em sentidos literal e figurado). Não por acaso figuramos no antepenúltimo lugar no critério “Exportação de Bens e Serviços”.
    2. Segundo o mesmo Global Innovation Index.
    3. Estes foram os números que, de pouco mais de um ano para cá, empresários gritaram e a mídia ecoou sem verificar (para variar). Tratariam exclusivamente do tamanho do rombo (vagas abertas e não preenchidas) no mercado TIC. Quando falaram em 800 mil vagas eu chorei: o país do samba passará a ser conhecido como a nação do telemarketing sem noção.
    4. Não me esqueci da provocação que deixei no artigo anterior. As respostas ainda aparecerão nesta pequena série mal acoplada.
    5. A foto do fantástico MacGyver Bar – que não fica em Pindorama nem vende cervejas da Ambev – foi tirada por Galdo Trouchky e disponibilizada via Flickr.

     

  • Tendências

    Tendências

    A mais nova moda é antever modas. É o que diz Gabriel Louback no artigo Nostradamus 2.0 (publicado na edição de junho da Revista da Cultura). Se fôssemos um pouco mais atentos, teríamos percebido a tendência bem antes. Em Reconhecimento de Padrões (Aleph, 2004), por exemplo, William Gibson apresenta uma protagonista que é coolhunter – uma caçadora de tendências. Aliás, Gibson e outros grandes da ficção científica¹ estão entre os melhores antecipadores de tendências que conheço. Será porque eles pavimentam e indicam caminhos? Somos orientados por profecias?

    Fábio Gandour, da IBM, afirma que sim: “Tendências não acontecem espontaneamente, são criadas! E, normalmente, você caminha, sem perceber, na direção que pretenderam. Quem não acredita nisso é ingênuo ou tolo“. É disso que trata, enfim, todo o blablablá sobre inovação. Antever uma rota e rogar para que os fregueses sigam, como os ratinhos da fábula, os novos flautistas de Hamelin. Há ciência nessa ficção? Ou é tudo chute?

    Acho que sempre teremos uma combinação das duas coisas, de ciência e intuição. Diferente agora é a ênfase no aspecto intencional (racional) da projeção de tendências. Em O Futuro como um Bom Negócio (Campus, 2011), Daniel Burrus e John Mann oferecem boas provocações². Os autores sugerem a classificação de tendências entre fortes e fracas e que o novo desenho – seja de um negócio, produto ou serviço – as tenha como base. Tratando só de tecnologia, por exemplo, temos três tendências fortíssimas que estão conosco desde o início dos tempos (nossos tempos). Todas relacionadas com o aumento exponencial de : i) Poder de processamento; ii) Capacidade de armazenamento; e iii) Largura de banda. Delas derivaram vertentes do avanço tecnológico, como a virtualização, mobilidade, interatividade e convergência, dentre outras.

    Mas será um grave erro a projeção de tendências que tome por base apenas os avanços tecnológicos. Peter Drucker, em Desafios Gerenciais para o Século XXI (Pioneira, 1999), fala sobre as “questões quentes de amanhã”. Seu escopo de análise é consideravelmente maior. Trata desde a globalização e o avanço de nações emergentes até a mudança no perfil de TI (do T para o I), passando pelo envelhecimento da população mundial e pela necessidade de um novo tipo de gestão e liderança. Drucker sempre foi um observador privilegiado. Por isso a precisão de suas previsões não surpreende.

    Acho que eu poderia listar mais uma dezena de obras seminais sobre o amanhã. Não destacar A Vida Digital (Cia. das Letras, 1995), de Nicholas Negroponte, por exemplo, é quase um pecado. Mas ele, de certa forma, é profecia já realizada. Deve interessar, assim como os livros do Drucker, para que possamos aprender a antever. E é este o ponto. Aliás, é esta a tendência.

    E o que nos ensina a antever? Há uma disciplina ou corpo de conhecimentos que ajude pessoas e organizações a antever e desenhar seu futuro?

     

    Notas

    1. A lista dos grandes escritores de ficção científica é imensa. Perdemos, no início deste mês, um dos maiores: Ray Bradbury. Poderia listar Julio Verne, Isaac Asimov e outros tantos. Me limitarei a destacar meu favorito, o maior porra-loca de todos: Philip K. Dick. Quem se limita a conhecê-lo através dos filmes inspirados por suas obras (Blade Runner, O Pagamento, O Vingador do Futuro etc) não faz ideia do que está perdendo.
    2. Por razões óbvias, há uma provocação que mais me chamou a atenção. Diz mais ou menos assim: Agilidade é coisa da década ou do século passado. Hoje ela não basta. E pode até ser nociva. Hoje precisamos antever e evitar o desperdício de tempo e dinheiro. Mais que isso, precisamos fazer a próxima curva na frente da concorrência.
    3. Não deixarei aquelas duas últimas questões sem respostas. Aguardarei seus palpites e um pouco mais de inspiração.
    4. Crystal Ball, a fotografia que ilustra este artigo, é de Steve Weaver.

     

  • Calculando a Dolorosa – Um Pequeno Guia para a Formação de Preços

    Calculando a Dolorosa – Um Pequeno Guia para a Formação de Preços

    Hoje em dia sabemos o preço de tudo e o valor de nada“. Esta frase famosa é atribuída a Oscar Wilde, escritor irlandês que viveu entre 1854 e 1900. Em outro mundo, outros tempos. Mas a frase, com milhares de aparições no Google, parece atual. Seja como álibi, desculpa ou provocação. Se você é um trabalhador do conhecimento – se faz do que carrega na cuca uma profissão – permita-se um minuto de reflexão sobre ela. Como você define seu preço – seja ele um salário ou honorário por serviços prestados? Ele define de fato o valor que você acredita representar/entregar? Ou apenas se acomoda em uma faixa definida pelo mercado?

    O tema parece cercado de um certo tabu. Fui puxado para ele depois de assistir a um vídeo de um famoso “guru” da tecnologia tupiniquim¹. Ele iniciou a conversa dizendo que esse negócio de cobrar por hora não faz mais sentido. Não na Economia do Conhecimento. Certo! O problema é que no resto do papo (um número de palavras que começa pela mesma letra) não tocou mais no assunto. E aí, se não por horas, vou cobrar como?

    Nunca gostei da unidade “homem/hora” ou “hora técnica” (sic) porque ela é furada como um queijo suíço. Serve para trabalhos braçais e repetitivos. Mas não tem nada a ver com o trabalho criativo ou do conhecimento. Por dois motivos principais:

    • Uma excelente ideia de solução pode aparecer em uma fração de segundos. Ela vale uma fração de seu valor-hora?
    • Todo esforço caminha no sentido daquilo que está sendo medido“. Esta frase de Tom DeMarco deveria ser chamada de lei. Se o cliente ou empregador mede (pede) horas, horas ele vai receber. Porque corpo presente não é evidência de mente presente.

    Mas o que fazer se, apesar de todos os argumentos, o mercado ainda compra (e vende) horas? Eu insisto – teimo mesmo – em cobrar por serviço. Foram raras as vezes em que um cliente topou. O que me obriga a sempre ter na manga um taxímetro. Conta fácil, que só exige uma estimativa um pouquinho mais pensada sobre uma das seis dimensões que me ajudam a formar o preço de determinado serviço. Mostrarei abaixo o esquema que muito me ajuda. Na expectativa que ele lhe seja útil também, seja na hora de negociar um salário ou o valor de seus serviços.

    Preço é Estratégia

    Com certeza não é sua única arma estratégica, mas o preço sintetiza toda a sua estratégia. Como já escreveu Gerald Weinberg², “a determinação de preços tem muitas funções e a permuta de dinheiro é apenas uma delas“.  Através do preço você:

    • Define seu mercado;
    • Se diferencia da concorrência;
    • Atrai (ou repele) determinados clientes (ou empregadores); e
    • Delimita seus custos.

    Pense nisso: de certa maneira, seu preço diz quem você é! Por isso é tão importante dedicar um tempinho toda vez que um preço precisa ser definido.

    O ponto de partida não tem mistério nenhum. Você precisa de uma estimativa de custos e de uma margem de lucro. Ou de um valor médio de mercado. Você escolhe se ele representará um preço mensal, o valor total de um serviço ou a fatídica “hora técnica”. Este será seu preço base, aquele que aparece no centro do diagrama ao lado.

    O diagrama exibe as dimensões ou fatores de ponderação que mais considero quando vou precificar um serviço. São seis dimensões de três tipos diferentes. Perfil do Freguês e Duração e Frequência podem funcionar como inflacionadores ou redutores do preço (+/-). A primeira indica apenas o quão atraente ou repugnante é aquele cliente. Ele é um mala ou um amor de pessoa? O histórico (vivido ou pesquisado) do cliente o fará aumentar ou reduzir o preço final.

    A dimensão Duração o ajudará a contrabalancear os efeitos do perfil do freguês. Por exemplo: o cliente é muito chato, mas é um trabalho de curtíssima duração. Ou seja, “dá para aguentar sem a necessidade de furar seus olhos“.

    Mas esta dimensão tem seu peso próprio. Até que ponto é desejável que aquele serviço ocupe sua agenda por um longo período? É a sua necessidade de uma certa estabilidade que o fará utilizar esta dimensão como um fator de inflação ou deflação de seu preço.

    As duas dimensões do lado direito do diagrama, Criticidade e Complexidade, funcionam apenas como itens inflacionários. A Criticidade indica o quão valioso (e provavelmente urgente) é aquele serviço para o cliente. Quase sempre há uma relação direta entre valor, urgência e… Risco! Por isso esta dimensão representa acréscimos ao preço base.

    Assim como a Complexidade, uma dimensão que lhe permite avaliar o quanto de seu cérebro será exigido na realização daquele trabalho. Não faz sentido, por exemplo, que você tenha um mesmo preço quando ministra um treinamento corriqueiro e quando faz uma consultoria daquelas bem cabeludas. Se lhe falta uma mínima noção sobre o tamanho da encrenca, aumente o fator complexidade. Se o cliente não consegue explicar a própria dor, idem. Normalmente isso é sintoma de um problema maior em estado de espera por uma luz – a sua luz!

    As duas últimas dimensões funcionam como lembretes de que alguns fatores podem justificar uma redução do preço. A Oportunidade de Aprendizado é contraponto da complexidade. Acontece mais ou menos assim: “ok, o trampo é deveras difícil. Por outro lado, tenho a oportunidade de aprender a lidar com a tecnologia X e com o método Y”. Pronto, já tens uma boa desculpa para, antes mesmo de o cliente pedir, ceder um generoso desconto. Faz bem para a relação que o cliente seja comunicado de suas intenções (de aprendizado). Weinberg² de novo: “o preço não é uma coisa; é um relacionamento negociado.

    Por fim temos o Posicionamento, a contribuição daquele cliente ou serviço para sua colocação no mercado. Se prestar serviços para determinada organização enriquecerá seu currículo ou portfólio, talvez você ache justo cobrar um pouco menos. Se a execução de um dado serviço o ajudará a se diferenciar, talvez ele valha o investimento – e é assim que você veria o desconto concedido, como um investimento.

    Matemática

    O modelo “matemático” acima tem muito pouco de matemática. Sua aplicação depende, como vimos, de alguma intuição e muito tato. Depende também de boas informações sobre o cliente (ou empregador) e sobre o serviço a ser executado. Como foi colocado, as dimensões devem ser vistas como lembretes. E é claro que eu espero que você tenha os seus.

    Ao ponderar o que tem valor para você, o preço aparece naturalmente. Se é verdade que hoje ninguém sabe o valor de nada, prove através do preço que o seu valor você conhece bem. E que sua dolorosa é justa.

     

    Notas

    1. Outra coisa que invejo em Gerald Weinberg, além da qualidade de seus escritos e de sua imensa produtividade, é sua não parcimônia ao detonar trabalhos alheios. Nada de jogo sujo ou briga de egos ou por espaço. Em seus livros ele cita artigos que não gostou, dá nome aos bois, mostra o que não gostou e apresenta seu lado. Sei lá o motivo, mas aqui em Pindorama a gente vive pisando em cascas de ovo. Apesar de alguns bois implorarem para ter seus nomes berrados.
    2. Trechos surrupiados de um livro que, caso dependesse do título, não mereceria a leitura. Estou falando de “Consultoria – O Segredo do Sucesso”, trabalho do Weinberg publicado pela McGraw-Hill em 1990. O título original era apenas The Secrets of Consulting. Mas as editoras tupiniquins morrem de inveja das distribuidoras que traduzem nomes de filmes.
    3. A imagem que ilustra este artigo é do sr. mzocoxito.

     

  • Nossos Bugs

    Nossos Bugs

    Foi Dan Roam, através de The Back of the Napkin (Portfolio, 2008), o primeiro a me empurrar para as ciências que estudam nossa mente. Parte do método que ele apresenta é baseado na forma como operam neurônios velhos de guerra – o cérebro primitivo. Hélio Schwartsman, que substituiu Clóvis Rossi na página A2 da Folha de São Paulo, vira e mexe apela para a neurociência na esperança de explicar histórias do nosso dia a dia. No caderno Ilustríssima do último domingo, Schwartsman comentou três novos livros da área no artigo “A Força do Hábito”. Vou aproveitar a deixa para apresentar outro livro e jogar conversa fora.

    Neurociência no {finito}?! Perdeste a cabeça? Ainda não, mas eu chego lá. Meus estudos para os novos módulos de treinamento me levaram para outros campos, psicologia e antropologia, por exemplo. Por enquanto é coisa de curioso que tenta filtrar o essencial e torná-lo prático, útil¹. Mas essas áreas que lidam com nossas cucas, ao contrário do que eu supunha, são bastante atraentes. E sabe-se lá para onde vão me levar.

    Das novas ciências, não são muitas as que, apesar dos avanços das últimas décadas, apresentam um horizonte imenso, praticamente infinito. É o caso da neurociência (ou neurociências?). Nosso cérebro ainda apresenta muitos mistérios. Os poucos que desvendamos causam espanto e abrem um novo mundo de possibilidades. Por exemplo, criamos uma economia comportamental; ou pretendemos fazer com que uma pessoa paraplégica possa dar o pontapé inicial na abertura da próxima Copa do Mundo². Aprendemos como nossa mente é maravilhosa em sua complexidade. Mas também estamos descobrindo a imensa quantidade de bugs que carregamos em nossas cacholas.

    O Cérebro Imperfeito

    Este é o título do livro recém lançado por Dean Buonomano (Campus, 2012), norte americano que se formou na Unicamp e concluiu seu pós-doutorado na Universidade da Califórnia. Buonomano consegue explicar para leigos as maiores descobertas sobre o hardware e o software do cérebro humano. Sim, ele usa e abusa de analogias com computadores e sistemas operacionais para apresentar o funcionamento e as limitações de nosso cérebro.

    Uma coisa fundamental a se entender, aquela que talvez seja a principal causa de todos os nossos bugs, é que nosso cérebro foi moldado para outra época. Ricardo Semler, em Managing Without Managers³ (Harvard Business Review, set-out/1989), já havia resumido bem a questão:

    “Na Semco, procuramos respeitar o caçador que dominou os primeiros 99% da história de nossas espécies. Se você tivesse de matar um mamute ou ficar sem jantar, não teria tempo para traçar um organograma, designar tarefas ou delegar autoridade…”

    Cabe aqui um mea culpa, uma confissão de ignorância mesmo. Eu vivia dizendo ou escrevendo que nosso imediatismo – a urgência exagerada – era um mal dos tempos modernos. Que nada. Passamos milhares e milhares de anos preocupados quase que exclusivamente com a próxima refeição. Como coloca Schwartsman no artigo citado anteriormente, “nossas mentes foram criadas para operar no paleolítico, não em sociedades tecnológicas e plurais”. Não somos naturalmente íntimos dos planos e do ato de planejar. E quase sempre optamos pelo pássaro na mão (recompensas imediatas) em detrimento de dois voando (ganhos futuros). Esse bug explica muita coisa. O velho ditado dos pássaros também.

    Ao observar a história da evolução do cérebro percebemos como é relativamente recente o nosso mecanismo racional. Bem mais antigo que ele é aquele que rege as emoções. Essa separação – razão X emoção – que também é física, já nos foi apresentada de outras maneiras. É recorrente, por exemplo, falar sobre cérebro esquerdo X direito. Parece que esse papo de esquerda versus direita também fica embaçado em temas neurobiológicos. O fato é que existe uma divisão e Buonomano reflete que:

    “Em última análise, nossas ações parecem representar um projeto em grupo; elas resultam de negociações entre as áreas cerebrais mais antigas, como a amígdala, e os módulos frontais mais novos. Juntas, essas áreas podem chegar a algum consenso em relação ao compromisso apropriado entre emoções e razão. No entanto, esse equilíbrio depende do contexto e, em alguns momentos, pode se inclinar bastante na direção das  emoções.”

    Derivam dessa herança pré-histórica os bugs que mais nos afetam, seja em nível pessoal ou na vida em organizações. Nosso cérebro detesta incertezas e a falta de controle, por exemplo. Esses sentimentos têm origem na parte primitiva de nossa mente, de um sentimento maior que, de certa forma, deve ser festejado por nos ter trazido até aqui: o medo. Mas, se por um lado ele nos garantiu a sobrevivência, por outro parece estar na raiz de todos os nossos problemas.

    Outro bug notável é a exagerada confiança que depositamos em nossa memória. Buonomano nos mostra que, ao contrário dos hard disks e pen drives, nossa memória não armazena partes exatas de informação e nem as mantém estáticas. Porque, ao contrário daqueles dispositivos de armazenamento, nossas operações de gravação e leitura de informações não são diferentes e se afetam mutuamente. Toda vez que nos lembramos de alguma coisa alteramos componentes daquela lembrança, adicionando ou removendo links, criando novas relações em nosso imenso banco de dados.

    Dia desses, em um boteco aqui de Varginha, rolou uma brincadeira que ilustra bem o tipo de armadilha que nossa memória costuma montar. Sandro, o dono do bar, virou para uma turma e perguntou: “Entrou um cego aqui no bar. Como ele pediu uma cerveja?” Não foram poucos os que tentaram fazer uma mímica, para gargalhada dos demais. Caramba, o cara era cego, não mudo! Buonomano faz brincadeira semelhante ao perguntar: o que uma vaca bebe? É grande a possibilidade de você ter pensado “leite”. Porque “vaca” e “leite” estão associados em nossa mente.

    Com histórias assim, de nosso cotidiano, o autor ilustra os diversos bugs que comprometem o funcionamento de nosso mais sofisticado órgão. E encerra, como não poderia deixar de ser, com um capítulo que mostra como podemos tentar corrigir alguns deles. Livro provocante e bem escrito, contraponto necessário e robusto aos papos motivacionais e livros de auto-ajuda.

    Testando a Cuca

    Saca só a  imagem abaixo, surrupiada de O Cérebro Imperfeito:

    O que você está vendo? Parece que a Torre de Pisa da direita está mais inclinada, né? Mas saiba que são reproduções da mesma imagem. Seu bugado cérebro não vai aceitar, mas são.

     

    Notas

    1. O que fazer quando uma disciplina ou corpo de conhecimentos não tem respostas para todas as suas perguntas? Você procura em outro lugar, certo? Vem daí minha principal motivação para dar uma olhada em outras caixas, outras prateleiras. Convenhamos, várias separações não fazem o menor sentido. Não mais.
    2. O projeto em questão é do mais famoso neurocientista brasileiro, Miguel Nicolelis, autor de Muito Além do Nosso Eu (Cia. das Letras, 2011).
    3. Este artigo pode ser encontrado em Management Não É o Que Você Pensa, coletânea de artigos e provocações organizada por Henry Mintzberg, Bruce Ahlstrand e Joseph Lampel (Bookman, 2011).
    4. Veja outros testes (demos) no site oficial do livro, brainbugs.org.
    5. A imagem que ilustra este artigo é de Robert Fludd , obtida via Wikimedia Commons.